“Civilização contra a barbárie”: a versão 13.0 do Golpe

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso
Publicado 25/set/2018 – 22:30
Atualizado 26/set/2018 – 12:50

Índice:
(I). “Civilização contra a barbárie”: a versão 13.0 do Golpe
(II). Desfechos possíveis para o “Golpe 13.0”
(III). Como a “Mensagem ao Partido”/ “PT Jurídico” tomou a sigla de Lula; e o que isso prenuncia de um governo Haddad
(IV). Como evitar o golpe militar já depois do Carnaval
(V). Resumo audiovisual

*

(I). “CIVILIZAÇÃO CONTRA A BARBÁRIE”: A VERSÃO 13.0 DO GOLPE

Aos poucos vai ficando claro por que Fernando Haddad negou 3 vezes na semana passada, diante de Renata Lo Prete na bancada do Jornal da Globo, que seus votos fossem, exclusivamente, de Lula. Fez o que pôde para não ser reduzido ao que é: um mero poste do ex-Presidente, ilegalmente encarcerado. Disse que “era mais complexo que isso”. Segundo Haddad, as intenções de voto não viriam de Lula, mas sim principalmente da campanha, do projeto (impessoal) e “da força do PT”. PT esse cujo controle, convenientemente, a sua tendência (de criação) – a “Mensagem ao Partido”/ “PT jurídico” – finalmente conseguiu tirar do criador, Lula. Obstinados, tentam o golpe desde (ao menos) 2005, quando surfavam (a farsa de) “o Mensalão”.

(mais sobre isso no item (III) do artigo, abaixo)

A imprensa registra uma suposta contrariedade de Lula e de Gleisi Hoffman, por exemplo, com a guinada à direita de Fernando Haddad já no seu discurso de campanha, ainda no primeiro turno. Haddad quereria passar ao segundo turno já com o selo de candidato “de centro” (sic), em vez de ser taxado como “o candidato/ poste de Lula”.

Diante de tamanha deslealdade, tão precoce, Gleisi deu o troco:

(…)

 

Paralelamente, eis que “surge” de maneira ubíqua na ‘GloBosfera’ – e também nas bocas de lideranças no PT alinhadas a Haddad –, o que grita concertação, um discurso de “antecipação” de uma alegada “contraposição”, desde já, ainda no primeiro turno, “civilização” (sic) vs. “barbárie”. Antecipam, assim, um certo confronto semiótico com Bolsonaro. Confronto esse por que – assumidamente – anseiam. Seria o “segundo turno ideal”, dizem.

Aparentemente, o primeiro também, não é mesmo?

Mais do que sedimentar a percepção de que o “terceiro homem”, Ciro Gomes, está fora do jogo, esse reenquadramento visa a desamarrar Fernando Haddad do legado do Lulismo. E também do combate ao “Golpe” – expressão “forte demais” segundo o próprio – em todas as suas dimensões. A candidatura de Lula representava o rechaço, cabal, frontal, sem condicionantes, da população ao Golpe. E à sua política antinacional e antipovo. Lula, uma estrela de primeira grandeza, extremamente densa, não se definia de maneira nenhuma pela oposição a uma de quinta, vazia: Bolsonaro. Seu conteúdo era positivo: a lembrança – e, obviamente, o resgate – dos projetos, siameses, de emancipação do povo e da nação. Lula jamais se definiu por uma negação. Ainda mais uma tão pobre diante de si: nada mais que o “anti-Bolsonaro”…

“Civilizado”, liderando uma concertação ecumênica de (todos os) “civilizados”, Haddad quer diluir a promessa de anulação total do Golpe encarnada por Lula. Nesse discurso, não se trata mais de desfazer tudo o que o Regime Temer fez nos últimos anos, com Referendo Revogatório – e além. Mas sim de – apenas – “derrotar” uma tal “barbárie”. Ou seja, Bolsonaro. Com esse jogo, Haddad busca não mais ser contrastado às promessas de Lula – de esquerda e nacionalistas. Mas sim, tão somente, ao tal “coiso”. Haddad quer os votos de Lula, é claro. Mas, de jeito nenhum, a expectativa que com eles vem. Quer ser visto não como o candidato do resgate dos anos Lula, mas sim como o “anti-coiso”. E apenas.

O enquadramento da disputa política no Brasil a, apenas, “civilização contra a barbárie”, a sua redução a #EleNão, é o tal do indulto

(que Haddad nega a Lula)

– … mas o indulto ao Golpe!

De novo, em tudo mimetizando Emmanuel Macron, trata-se do vazio absoluto:
– “A civilização contra a barbárie”, “o progresso contra o regresso”, o que quer que isso queira dizer. Convenientemente, fica ao gosto do freguês.

Lá e cá, como comenta – corretamente, vejam só – Marine Le Pen (a original):

– “Punch line” de Le Pen sobre Macron: “é o vazio absoluto… capaz de falar por 6 minutos sem que se retenha qualquer coisa da sua fala”.

“Civilização”…

“Progresso”…

Num manifesto contra “o coiso” pela “democracia” (sic), em que cabe – vejam só – não outro que o infame Miguel Reale Jr. – sim, ele mesmo: o sr. “impeachment” (sem crime) – e também Neca Setúbal – sim, ela mesma: a Sra. Itaú/ Marina, vemos que nessa tal “civilização” que pretensamente “enfrentará” uma tal “barbárie” bem haverá de caber, também, certos “jabutis”. Para dentro da tal “civilização” (sic) será fatalmente contrabandeada a entrega de Pré-sal, Amazônia, Aquífero Guarani, nióbio, terras raras, hidroelétricas, terras, Base de Alcântara, satélites, Banco Central, Fazenda, orçamento, previdência

Para fornecer o álibi a Haddad, eis que surge uma providencial contradição em termos: o “ato jurídico perfeito” fruto de um… Golpe (!)

 

 

 

Sobre isso, lembrem do que disse recentemente à Folha Marcos Lisboa, o candidato a Primeiro-Ministro de Haddad:

“Na avaliação de Lisboa, a equipe econômica da Fazenda está pronta. “A melhor equipe para a Fazenda é essa que está aí [D.E.: ou seja, a do Regime Temer], manteria todas as pessoas (…)”.

 

É ou não é a versão 13.0 do Golpe, minha gente?

Que, aliás, não será mais “golpe” (oh, “palavra forte demais!”), posto que sufragado pelas urnas!

E, ademais, tocado agora pelo próprio (ex-) “golpeado”!

Percebem como, mais do que nunca, a eleição sem Lula é – e permanecerá sendo – fraude?

“Lula” – a obra – está ela também sendo retirada da eleição – já livre do indivíduo, encarcerado em Curitiba, é claro. Ao votar em Haddad não estaremos dizendo “não” ao Golpe – e um “sim” à emancipação do povo e da nação. Querem eles que estejamos, tão somente, dizendo não a um tal de “coiso”…

Reza a sabedoria de esquerda que sempre que alguém tenta em seu discurso pretensamente “superar” (sic) a dicotomia esquerda vs. direita, despolitizando o debate, tal pessoa visa, em realidade, a mascarar o jogo que faz: o da direita. O mesmo pode ser extrapolado para outra dicotomia: nacionalismo vs. entreguismo.

De maneira pioneira, ainda em 2016, este Duplo Expresso alertou para aquilo a que se prestava Marine Le Pen na França. E, acertadamente, apostou que ao mesmo prestar-se-ia Jair Bolsonaro no Brasil, ainda que fosse muuuito mais tosco. Faltava apenas saber quem seria o “Emmanuel Macron” tupiniquim. Depois, ficamos a saber que esse também está a léguas de distância do original.

Nesse tocante cumpre registrar que, como de outras vezes, “a verdade chegou primeiro” aqui no Duplo Expresso. No caso, 7 meses atrás:

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Diziam que “delirávamos”…

Que éramos “maldosos”…

E que o candidato seria, fatalmente, Lula!

Lembram?

Ah, a sina de Cassandra…

 

Diziam ainda que Haddad gozaria da “plena confiança” de Lula, posto que fora nomeado coordenador do seu programa de governo. Só mesmo quem tem conhecimento primário de política, limitado ademais por uma visão binária, poderia chegar a tal conclusão a partir meramente dessa indicação, trivial. Em “‘Bem me quer, mal me quer’: como Lula – e o Golpe – usam Fernando Haddad” (1/jul/2018) explicamos – i.e., para quem já saiu da infância mental – a complexidade dessa dinâmica.

Diziam também que o “fiel” Haddad lutava, mais do que qualquer outro, para Lula ser candidato a Presidente.

Lembram disso também?

Pois eis que ontem José Dirceu – que possivelmente, como aludido também por este Duplo Expresso ainda em 27/jul/2018, foi libertado do cárcere pelo STF com a expectativa, plenamente realizada, de que trabalhasse pelo Plano B dentro do PT – interrompe a tournée de lançamento da sua biografia para desdizê-lo de forma cabal:

 

“A maior vantagem do Haddad é que ele quer ser candidato, lutou pra ser e vai ser presidente”.

 

#EuJáSabia, Dirceu!

Sim, vai ser Presidente:

 

 

Ao menos a depender da Economist (e portanto da família Rothschild), da Globo (acima), do Miguel Reale Jr., da Neca Setúbal, do Fernando Henrique Cardoso e de todos aqueles que se opõem à “barbárie”, aderindo ao #EleNão.

Indispensável: todos de forma “ecumênica”, necessariamente despolitizada, “acima das clivagens políticas”. Afinal, “isso” a gente vê depois das eleições, na formação do gabinete ministerial…

Se for esperto, nisso Haddad imitaria Macron mais uma vez. Para não ser acusado, já na largada, de ser em realidade um conservador, “quebraria os códigos” vigente até ali. Tudo muito mu-deeer-nu… Depois de entregar a chave do cofre, Fazenda e orçamento (Planejamento), para os mais radicais elementos do ultraliberalismo, diversionista, agitaria um red herring, ou “arenque vermelho”, identitário pós-moderno:

(i) inauguraria o primeiro gabinete paritário quanto a gênero – independentemente do conteúdo das respectivas cabeças;

(ii) colocaria token black girls/ “jovens negras decorativas” (Djamilla e mais quem?) espalhadas pelo Palácio e pela Esplanada;

(iii) convidaria Sebastião Salgado para o Ministério do Meio Ambiente;

(iv) midiatizaria a primeira-dama – caracterizada como sua “sócia intelectual” e “coach pessoal” – e restante da primeira família ao máximo, em parceria com a mídia (capas de revista). Reencenaria a Camelot dos Kennedy, agora abaixo da linha do Equador;

(v) inundaria as redes sociais com pequenos vídeos da sua rotina ao longo do dia – todos eles encenados e selecionados a dedo;

(vi) adotaria e levaria para o palácio um carismático cãozinho, resgatado – é claro – de um abrigo para animais abandonados. Ele renderá diversos dos vídeos do item anterior;

(vii) …

O céu é o limite para alimentar uma bolha midiática, deliberadamente vazia de conteúdo, quando esse não convém.

Aliás, anotem: tal qual na França de 2017, ficará ainda mais intenso no segundo turno o patrulhamento contra quem não quiser assinar um cheque em branco “contra a barbárie” – e tão somente “contra a barbárie”… – para a coligação “PT jurídico”/ FHC/ Rothschild. Surgirá um discurso, de galicismo aparente, de que “não basta derrotar o coiso”. “É necessário que seja pelo maior score possível”. Dirão que é para que a sociedade brasileira deixe claro o seu rechaço “à barbárie”. Em realidade, almejam votação que possa ser pintada como “extra-Lula”, para facilitar o esforço narrativo de distanciamento de Haddad do compromisso – solene – de desfazimento completo do Golpe que o ex-Presidente encarna.

A confirmar-se esse tal embate “civilização” (politicamente descompromissada!) contra a “barbárie” no segundo turno é possível que este Duplo Expresso repita Jean-Luc Mélenchon, o líder da (nova!) esquerda francesa, nascida da ruína do mais que centenário Partido Socialista, depois que esse traiu, de forma definitiva, as suas bases. Quando se exigiu de Mélenchon que esse endossasse, sem qualquer condicionante, o ultra-liberalismo de Emmanuel Macron diante do fascismo de Marine Le Pen, disse ele, tão somente, que não se votasse em Le Pen. Numa França em que o voto não é obrigatório, o corajoso Mélenchon não exigiu de seus eleitores que saíssem de casa para aumentar o score da vitória do ultra-liberalismo.

Sabia, perfeitamente, como esse seria depois apresentado. E para que seria usado. Certamente considerou mais conveniente que os globalistas ultraliberais passassem algum calor em 2017. E que, com isso, fossem contidos, ainda que minimamente, pelo medo de um ajuste de contas 2022.

Bem… 2022…

Lá e cá, não é mesmo?

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(II). DESFECHOS POSSÍVEIS PARA O “GOLPE 13.0”

A seguir, traçamos 4 modelos hipotéticos, alternativos, para o futuro. Trazemos ainda duas condicionantes que podem influir para que haja maior ou menor probabilidade de cada um deles vir a se concretizar.

1) O “PLANO PERFEITO”: o Golpe mostra que aprendeu com o erro de 2016 – apud Tasso Jereissati – e deixa Fernando Haddad como um pato manco durante todos os 4 anos de mandato. Permite, assim, que esse traia, seguidamente, a base popular do Lulismo, entregando todas as concessões impostas pela Finança transnacional.

Isso inclui, obviamente, a não anulação do legado do Regime Temer, conforme prometera – e encarnara – Lula. O resultado disso será a total aniquilação do PT. E já para 2020 e 2022.

(exatamente como Hollande/ Macron fizeram com o PS na França)

A situação do PT aproximar-se-á daquela com Dilma em 2015. Mas, diferença fundamental, sem o impeachment para redimir a ambos. Sim, redimir os dois, ora: Dilma e o PT. Lembremos que Michel Temer demorou 1 ano (!) para descer aos – abissais – níveis de reprovação da Sra. “Senadora Honesta” na Presidência da República.

Aliás, ela agradece, até hoje, pelo “erro” dos senhores, Senador Jereissati. E, é claro, também pelo sacrifício de Lula – que, diferentemente dela, mostrou ter, de fato, vocação para mártir. Afinal, no Brasil da Juristocracia, Sra. “Senadora Honesta”, sim… mas com foro no STF, não é mesmo?

Até lá (2022) já podem aprovar, inclusive, a emenda do Parlamentarismo. E “com Supremo com tudo”, é claro! Que é para acabar, de vez, com o debate político-programático – e a respectiva escolha – no Brasil. Afinal, esses só se dão – e mesmo assim de forma muito rudimentar, sabemos todos – na eleição majoritária nacional, para a Presidência da República.

O garoto propaganda do Parlamentarismo no STF está de olho em 2019 já:

 

Podem complementar ainda a obra (de desconstrução política) com a adoção do voto distrital. Assim, tornarão a Câmara dos Deputados definitivamente a reunião dos 513 “vereadores federais”. A garantir aquela emenda para passar uma demão de tinta na escolinha municipal Profa. Nazaré, botar gasolina na Kombi 1979 da prefeitura, colocar aquela rampa de acessibilidade no posto de saúde há tanto pedida pela Dona Júlia e, é claro, sem esquecer de dragar o velho Córrego Teimoso, antes das chuvas de verão. A fisiologia, colocando nas assessorias nos Estados e em Brasília pessoas chave da comunidade, ajudará a fidelizar ainda mais a clientela.

Discutir “política econômica”?

“Conflito distributivo e o seu reflexo no orçamento/ tributação”?

“Soberania”?

“Projeto nacional”?

– Pffff…

Eis aí a tal “República Refundada”, do Ministro Luis Roberto Barroso…

Refundada diretamente lá do ano de… 1889!

E agora com uma “Política dos Governadores” 2.0, que incluirá, também, além da classe política: (i) a Juristocracia (e as Forças Armadas); (ii) a Finança; e (iii) a Globo/ Facebook/ Google. Trata-se do triunvirato não eleito que passa a tutelar a “democracia” (entre aspas mesmo), como apontamos em “‘Operação Condor II’ – judiciário-midiática! – e o alvo-mor: Lula” (17/jul/2017).

Nesse modelo, TODA a conta do acirramento do conflito distributivo se faz cair sobre o “Terceiro Estado”. O Brasil, afinal, não seria dado a revoluções, têm eles certeza…

 

2) “O PLANO IMPERFEITO”: a Finança percebe que o PLANO PERFEITO não tende à estabilidade. Assim, resolve ser generosa e diminuir um pouco os seus ganhos, para que a conta paga pelo “Terceiro Estado” não seja tão pesada. Aqui, a Finança não arriscaria matar a galinha dos ovos de ouro. Teria de ser extremamente generosa, i.e., para os seus padrões, já que não é mais possível reprisar a conciliação de classes do Lulismo clássico (2003 em diante), em que ganharam todos – ainda que em escalas bastante desproporcionais. Com o acirramento do conflito distributivo, para um ganhar – ou melhor, para que possa perder menos – o outro tem que perder – mais ainda.

Nesse modelo, a Finança daria alguma margem de manobra a Haddad, permitindo que ele recompusesse algumas das migalhas perdidas pela plebe com o Golpe.

A Finança seria, aí, previdente e cautelosa. Perceberia que a ela interessa, no longo prazo, não a destruição mas sim a sobrevivência do PT. Especialmente se esse for o “PT” (aspas) de… Haddad. O partido, “renovado” (sic) tal qual a socialdemocracia europeia (conforme antevê o Manifesto de lançamento da candidatura Haddad, ainda em fevereiro, na Folha de S. Paulo), poderia assim continuar a ocupar o pasto político que fica à esquerda. Impediria, dessa forma, que outros touros, talvez menos dóceis, de olhos da cor vermelho-rubra, sangue, quem sabe, viessem se criar ali.

Pergunta:

– Você acredita na generosidade da Finança?

– E/ ou na sua previdência, que a conduziria a deixar de ganhar mais hoje, para que pudesse ganhar menos, mas por mais tempo?

“No longo prazo estaremos todos mortos”, responderia Lord Keynes.

Parece mais razoável supor que os traders na City e em Wall St. quereriam aumentar a lucratividade dos respectivos fundos no trimestre, de forma a garantir os seus bônus no fim do ano, não é mesmo?

Bem… lembemos da fábula do sapo e do escorpião: ferroar é da natureza do segundo.

Previdentes e cautelosos temos de ser nós!

 

3) “A RUPTURA”: haveria, certamente, tensão social e descontentamento. Tanto no “PLANO PERFEITO” quanto no “IMPERFEITO”, embora em graus diferentes. No Plano Perfeito, em que a Finança passa a conta integralmente para o povão, por razões óbvias. “Pré-revolucionárias”, diriam os marxistas. Mas mesmo no Plano Imperfeito, em que é dado a Haddad restituir – parte! – das “migalhas”, haveria também tensões. Isso porque, por mais “generosidade” (sic) que a Finança estivesse disposta a demonstrar, estaríamos ainda a léguas de distância de ver “O Brasil feliz de novo”, como promete o (novo) estelionato eleitoral do PT.

Descartada a hipótese de revolução, restaria a de Golpe Militar. Como os Comandos das Forças Armadas entrariam necessariamente, junto com a Juristocracia, na “Política dos Governadores” 2.0, esse movimento teria de vir de baixo para cima. Algo como um novo tenentismo. Sobre isso, vejam texto do antropólogo Piero Leirner, reproduzido no final deste artigo, no item (IV).

 

4) SURGE UM NOVO VARGAS: Para não dizerem que só aventamos hipóteses em que Haddad é vilão, vamos supor uma em que ele seja o herói. Para que ele seja o herói, disfarçado de vilão por enquanto, ele teria que fazer como Vargas. Getúlio Vargas, o maior estadista que o Brasil já teve em seus mais de 500 anos, não parecia sê-lo quando foi Ministro da Fazenda de Washington Luis, de 1926 a 1927. Biografia escrita por Lira Neto narra que naquela breve passagem pelo Executivo Vargas escondeu seu jogo. Fez-se servil diante do Presidente oligarca, entreguista, estereotípico da República Velha. Até mesmo bajulador. Tocou o entreguismo sugerido de cima pelo chefe, alegando “desconhecer por completo Economia”. “Tarefeiro”, fez-se notar como um mero cumpridor de ordens, sem brilho maior.

Como sabemos todos, tudo isso veio a se revelar uma grande trapaça por parte do caudilho gaúcho a partir de 1930. Revelou-se não apenas o grande nacionalista como também o gênio estrategista que, com habilidade, paciência e senso de oportunidade e histórico, definiria as cores da política brasileira até a Nova República, para muito além da sua morte (física). Foi superado apenas com o surgimento, vejam só, de um certo metalúrgico no ABC…. que veio a ocupar, no lugar do legítimo herdeiro do varguismo, Leonel Brizola, aquele pasto político que fica mais à esquerda.

Bem, nessa hipótese, Fernando Haddad seria um novo Vargas. Não com relação ao nacionalismo ou à genialidade política… mas sim à tática de esconder o jogo. Para que pudesse ficar livre, passando despercebido, menosprezado. E, assim, ter plenas condições dar o bote, na hora certa.

Assim, o desastre que foi a Prefeitura de Fernando Haddad em São Paulo teria sido não mais que um ardil, ora!

Se for o caso, constatem o nível de malícia deste novo “Vargas”, ao reler o relato de um ex-Secretário seu, reproduzido abaixo.

Haja dissimulação nesse verdadeiro “gênio” oculto:

“É uma pessoa muito difícil de lidar. Extremamente vaidoso a ponto de isso prejudicar a gestão e a sua autonomia decisória. Estava sempre preocupado com o que era falado dele na imprensa, na Folha e no SPTV (Globo). Perdia muito tempo com isso. Falávamos que o cidadão comum não lia a Folha que não adiantava responder, mas ele insistia em conversar com os amigos dele lá dentro para conseguir notícias positivas e responder as negativas.

Tinha tanta teimosia em alguns pontos que chegava a ser quase suicida. Um exemplo é a questão das ciclovias. Haddad não entendia que para o povo elas não tinham maior significado. Como se compreendesse as razões das classes mais populares melhor que elas. Como podem não querer ciclovias? Inclusive nossos próprios engenheiros de trânsito e especialistas em transporte eram contra muitas das ciclovias, colocadas em ruas estreitas no centro de São Paulo. Eram importantes para passagem de ônibus, que são o meio de transporte principal dos trabalhadores da periferia e bairros mais distantes. Muitas ciclovias prejudicavam o espaço para o transporte de ônibus e tinham que ser construídas com mínimo espaço. Mesmo assi, Haddad insistia. Hoje muitas delas acabaram sendo desativadas – e sem protesto por parte da população supostamente beneficiada pelas mesmas.

Esse perfil vaidoso, preocupado demais com como é avaliado (pelos seus iguais), arrogante, pouco maleável, teimoso e pouco afável é inapropriado para uma liderança que precisa unir um país em frangalho. O PT errará se o escolher”.

 

– PRESSÃO EXÓGENA (1): O COLAPSO DA PAX AMERICANA
Como anota com originalidade ímpar o comentarista de Economia do Duplo Expresso, Gustavo Galvão, os EUA passaram a trabalhar para erodir o sistema de livre fluxo de bens, serviços e capitais que edificaram no pós-Guerra, com as instituições de Bretton Woods e o padrão dólar. Isso porque as potências entrantes, notadamente a China, estariam se valendo do mesmo, como carona/ free rider, para galgar posições. E, finalmente, poderem suplantar os próprios Estados Unidos como potência hegemônica dentro do sistema.

Em resposta, os Estados Unidos estariam implodindo o multilateralismo financeiro-comercial e, bully/ “valentão”, abusando da sua condição ainda hegemônica para impor à sua periferia um neocolonialismo 2.0. Nele, haveria a adoção (i) do comércio administrado, em vez do livre comércio; combinado com (ii) novos “pactos coloniais”/ “exclusivos comerciais metropolitanos” – de facto senão de jure – com a sua periferia. Em detrimento, obviamente, do avanço eurasiano na mesma.

Isso explicaria, por exemplo, a doutrinação anti-China/ Rússia demonstrada pela ala americanófila das Forças Armadas – aquela veterana da infame Escola das Américas, tão bem representada no inacreditável site “defesanet”. Os papagaios, evidentemente, repetem o que ouvem dos mestres na matriz.

Com o aprofundamento desse impulso disruptivo, os EUA deixariam de estar dispostos a alimentar o enorme déficit em conta corrente que historicamente irriga o mundo de dólares – que eles próprios imprimem –, comprando as exportações dos demais países. Como era isso o principal fator de estabilização do sistema econômico que possibilitava a própria existência das democracias liberais no Ocidente – e das suas cópias (mais ou menos) imperfeitas na periferia – a tendência seria ao colapso das mesmas.

BRASIL:
Essa pressão exógena atuaria de forma a diminuir a probabilidade de ocorrência do “PLANO IMPERFEITO”, em que a Finança não apenas não destrói como nutre o PT, ainda que minimamente. Ela aumentaria, ainda, as chances de haver uma “RUPTURA”, sendo, no caso, um golpe militar muito mais provável que uma revolução.

 

– PRESSÃO EXÓGENA (2): DEUS EX MACHINA
O imponderável. Aquele que, por definição, não pode ser ponderado. E, portanto, não pode entrar nos modelos. Em ocorrendo, pode zerar tudo: meteoro, invasão alienígena, a Segunda Vinda de Cristo, de Dom Sebastião, de Vargas, de…

– … Lula?!

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(III). COMO A “MENSAGEM AO PARTIDO”/ “PT JURÍDICO” TOMOU A SIGLA DE LULA; E O QUE ISSO PRENUNCIA DE UM GOVERNO HADDAD

Dizíamos na abertura do artigo:

“Aos poucos vai ficando claro por que Fernando Haddad negou 3 vezes na semana passada, diante de Renata Lo Prete na bancada do Jornal da Globo, que seus votos fossem, exclusivamente, de Lula. Fez o que pôde para não ser reduzido ao que é: um mero poste do ex-Presidente, ilegalmente encarcerado. Disse que “era mais complexo que isso”. Segundo Haddad, as intenções de voto não viriam de Lula, mas sim principalmente da campanha, do projeto (impessoal) e “da força do PT”. PT esse cujo controle, convenientemente, a sua tendência (de criação) – a “Mensagem ao Partido”/ “PT jurídico” – finalmente conseguiu tirar do criador, Lula. Obstinados, tentam o golpe desde (ao menos) 2005, quando surfavam (a farsa de) ‘o Mensalão’”.

 

2018: eis que 13 anos depois – sim, exatamente 13! – conseguiram, finalmente, concluir a missão. Contaram para isso com a indispensável intervenção dos seus parceiros situados no Judiciário e na PGR/ MPF. Quem observou de perto a interação entre os (supostos) advogados de Lula na Justiça Eleitoral e o TSE bem viu que se estava diante muito mais de uma tabelinha, para que ambos pudessem, juntos, enquadrar o outorgante da procuração (Lula) – e, tão importante quanto, a sua base social –, do que propriamente de um embate pela manutenção da candidatura do ex-Presidente. Buscavam-se ali, tão somente, álibis. Para ambos os lados.

Se havia alguma dúvida, o sincericídio de Eugênio Aragão em entrevista coletiva naquela semana a sepulta de forma inapelável:

 

 

 

Note-se que tal tabelinha vinha operando desde o início. E fez-se primordial, inclusive, no fim de semana em que se registrou a tal “chapa triplex”, com Haddad de Vice temporário e Manuela de definitiva. A tal “determinação” da Justiça Eleitoral para que o registro fosse concluído até a meia noite do domingo para segunda-feira, sob pena de “a chapa não ser registrada”, deveu-se muito mais ao discurso que Aragão vendeu aos dirigentes do que propriamente aos termos exatos do pronunciamento do TSE.

Bem… oxalá ao menos Eugênio Aragão possa finalmente ser recompensado por um para sempre agradecido “Presidente Haddad” com uma cadeira no STF. Afinal, há muito ele se bate por uma. Para isso, celebrou até mesmo pacto com o maior dos verdugos do PT na PGR, Rodrigo Janot, cujos termos garantiram que esse viesse a ser o PGR, no lugar da escolha original de Dilma, a de todo correta, ponderada e sólida Ela Wiecko. O próprio Eugênio deu publicamente uma versão, água com açúcar, sobre as suas gestões para que tal troca se concretizasse.

Talvez, essa mudança de peça individual no tabuleiro do jogo tenha sido, juntamente ao fato de Dilma forçar a sua candidatura à reeleição em 2014 no lugar da volta de Lula, aquela que mais peso teve para determinar o fim que levou o ex-Presidente.

(e o Brasil)

Parabéns, Eugênio Aragão!

A recompensa parece estar, finalmente, logo ali na esquina.

Mas voltemos ao fatídico domingo em que Eugênio Aragão garantia às lideranças do PT que, não fosse registrada a chapa – já com Vice – até a meia noite, não haveria mais chapa. A manobra visou a interromper negociações que Lula entabulava com outros candidatos a “Plano B”, preferidos pelo ex-Presidente a Haddad. Além de Jacques Wagner, que refugou, e de Gleisi Hoffmann, que corria por fora, havia ainda conversa com Ciro Gomes – impedido pelo PT jurídico de encontrar-se com Lula –, intermediada pelo Senador Roberto Requião em pessoa, lá mesmo de Curitiba.

A tripla faca colocada no pescoço de Lula – empunhada por (i) “TSE” – na verdade, via discurso construído por Aragão; (ii) o “impaciente” Fernando Haddad; e (iii) o PCdoB, para a definição da chapa ainda naquela noite, tornou o “duplex” fuleiro Haddad/ Manuela (“muquifex”?), fato consumado na rodada seguinte.

Nada disso teria sido possível caso luminares da “Mensagem ao Partido”/ “PT jurídico” não tivessem, ao longo de mais de década!, usado o poder outorgado pela soberania popular para voltarem-se contra… a própria! Ocupando cargos no Ministério da Justiça por obra e graça de votos, e em Lula – o que inclui os 2 mandatos de Dilma Rousseff –, Tarso Genro, Fernando Haddad, seu braço direito, e José Eduardo Cardozo impulsionaram a agenda legislativa/ institucional que criou o mais sofisticado arsenal punitivista da história do Brasil (a “ENCCLA”). E aquele que mais empoderou os Poderes não eleitos do nosso sistema constitucional – Judiciário, MPF (e polícias) – em prejuízo, é claro, dos eleitos. Ou seja, do Executivo e do Legislativo.

Decorrência direta das leis da Física: dois corpos não podem ocupar, ao mesmo tempo, o mesmo espaço. De poder, no caso. Artigo finito que é. Se um ganha mais poder, outro necessariamente há de, antes, tê-lo perdido.

No arsenal punitivista que empoderou de maneira exorbitante os Poderes não eleitos, Judiciário e MPF, incluem-se, entre outros:

(i) a observância da lista tríplice para a nomeação de PGR, antigo pleito corporativista da ANPR;

(ii) nomeação de indivíduos “demofóbicos” para o STF. Seres “iluminados” que desprezam a soberania popular e sabem, no seu lugar, o que é melhor para a mesma. Isto é, mesmo quando essa se reúne, de 4 em 4 anos, num colégio eleitoral de nada menos que 150 milhões de almas! Trata-se dos pretensos “refundadores da república”, tal qual o inacreditável malandro Luis Roberto Barroso;

(iii) a compra pelo BNDES de sistemas de interceptação telefônica (“Guardião”) e outros equipamentos de última geração de inteligência e contra-inteligência para aparelhar a PGR, constituindo a chamada “ABINzinha (!). E, assim, liberando geral a arapongagem sobre os Poderes eleitos – de maneira oficial mas também, é claro, clandestina!;

(iv) a Lei de Drogas (Lei 11.343/2006), relatada na Câmara pelo Deputado Paulo Pimenta, do PT, impulsionada pelo “PT jurídico”. Ela, simplesmente, promoveu a encarceração em massa da juventude negra do Brasil, levando à explosão do contingente carcerário do país, o terceiro maior do mundo. Meros usuários de drogas, pegos com um cigarro de maconha, viram-se obrigados, uma vez dentro do sistema carcerário, a aderir a uma das facções criminosas brasileiras para que pudessem, simplesmente, permanecer vivos. Sejam elas aquelas afiliadas ao PCC, sejam ao Comando Vermelho. Essa Lei deveria ser batizada, em realidade, de “Programa Nacional de Recrutamento do PCC/ CV” (!)

(v) a Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/ 2010). Lei essa que transformou o Judiciário no “Conselho Supremo da Revolução Iraniana” do Brasil. Ou seja, o órgão – não eleito, portanto blindado contra a soberania popular – que passa pente fino na lista de pretensos candidatos para definir quem pode – e quem não pode – concorrer. Tutela, assim, a soberania popular, entidade “ignara”, tosca. Lei essa, vejam só, relatada na Câmara por ninguém menos que José Eduardo Cardozo, no Senado por Aloizio Mercadante e impulsionada pelo Ministro… Tarso Genro. Circuito fechado!;

(vi) a nova redação do artigo 282 do Código de Processo Penal, estabelecendo um “liberou geral” para que juízes decretassem prisões preventivas (Lei No. 12.403/2011). Ou seja, a alteração legislativa que tornou legal o crime de extorsão mediante sequestro, desde que praticado por juízes e procuradores abusando de poderes de Estado;

(vii) a Lei de Organizações Criminosas (Lei 12.850/2013). Ou seja, a “Lei PT”. Como se sabe, no Brasil da Lava Jato o PT é a única “OrCrim” do país! Trata-se também da lei que instituiu as infames “delações premiadas”. Combinando os dispositivos desta lei com o novo artigo 282 do CPP (item anterior), criou-se, na realidade, a “delação torturada. E também, como consequência direta, a própria Lava Jato. O PAC morreu, sabemos todos, mas Dilma Rousseff segue amparada na maturidade. Afinal, é também a mãe da… Lava Jato! “Não vai ficar pedra sobre pedra”, lembram?;

(viii) a Lei (supostamente) “Anti-Terrorismo” (Lei No. 13.260/2016). Aquela que permite, pura e simplesmente, a criminalização de qualquer movimento social.

Reparem que a “Mensagem ao Partido”/ “PT jurídico”, apesar da traição a Lula, não é de todo ingrata. Reconhece a enorme dívida que mantém com o sistema de justiça, por esse ter tirado (o enorme) Lula do seu caminho. E ter, assim, permitido que tomasse, depois de mais de década, o controle do PT.

Notem: filho dileto da “Mensagem ao Partido”, ex-assessor de Tarso Genro no Ministério da Justiça, um grato Fernando Haddad promete agora, em campanha, federalizar os crimes relacionados às “organizações criminosas”. Ou seja, quer empoderar – ainda mais – o MPF e a Justiça Federal, criando competência exclusiva!

Na verdade, competência exclusiva para julgar o PT, certo? Haddad almeja criar a “vara do PT”? Com “juiz natural” (anti-PT)? Afinal, como sabemos, trata-se da única “OrCrim” do Brasil, não é mesmo?

Ou melhor, Haddad quer criar a vara de um certo PT: o PT de Lula! Supõe-se, aliás, que a nova vara há de ficar em Curitiba. Antiguidade é posto. Assim, o novo “PT”, “renovado tal qual as socialdemocracias europeias (sic) (novamente: conforme já antevia o Manifesto de lançamento da candidatura Haddad, ainda em fevereiro, na Folha de S. Paulo), poderá crescer e florescer. Tudo sobre as nutritivas cinzas do PT “em obsolescência” (tudo conforme o Manifesto), popular e sindical.

Fora isso, lembremos do garrote financeiro imposto a essa ala popular e sindical do PT, aquela de Lula. A ela se nega, além de caixa 2, também o caixa 1. Afinal, os empresários já sabem, à esta altura, para quem não podem doar se não quiserem problemas com a Justiça, reais ou inventados. Notem que, conforme relato recebido pelo Duplo Expresso de membro fundador do PT (i.e., do PT original, popular e sindical), lá mesmo de São Bernardo do Campo (e não outro lugar), o mesmo garrote financeiro não ocorre com a “Mensagem ao Partido”/ “PT jurídico”. Ao contrário, nadariam em caixa 2! E não seria de hoje. Sem sequer disfarçarem muito, pareceriam não demonstrar a menor preocupação com relação a eventuais sanções por parte de Ministério Público e Judiciário.

Ora, como poderiam, não é mesmo?

Fica tudo em família.

Com essas duas pernas fecha-se a pinça “pedagógica” que efetua, pouco a pouco, a cooptação dentro do PT – outrora de Lula:

(i) quem adere à “Mensagem ao Partido”/ “PT jurídico” tem acesso a abundantes recursos para fazer campanha. E, portanto, continuar na política;

(ii) quem não adere há de entrar na mira da nova vara federal a ser criada por Fernando Haddad. O PT, i.e., o popular e sindical, é única “OrCrim” do Brasil, lembram?

Esquematicamente:

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(IV). COMO EVITAR O GOLPE MILITAR JÁ DEPOIS DO CARNAVAL

Para não dizerem que o Duplo Expresso torce pelo fracasso de Haddad…

Um problemão para Haddad, por Piero Leirner
(antropólogo, Doutor pela USP, Professor da UFSCar)

A essas alturas tudo indica que aquilo que estávamos falando há duas ou três semanas (certo, Romulus?), está em curso: a banca desistiu do Bolso, e está migrando pro ex-dono da lojinha da 25 de março (bom sinal, sabe negociar). Não vamos nos iludir: a ordem veio de fora, como sempre, e precisou ser explicitada pela The Economist, NYT, etc. Claro que ainda se espera céu de brigadeiro, com Alckmin chegando lá. E, claro de novo, como sempre, esqueceram de combinar com os eleitores. Mas evidentemente os sinais estão aí, para quem quer ver. Como bem me mostrou a Renata Moreira, a Época já decretou o #elenão. Grupo Globo assumiu. Tive ontem que superar minhas resistências, e participei do que seria a sessão de tortura da Globonews pós-Ibope. Nada de surpresas, nenhuma conversa de que a eleição está polarizando nos “extremos”. O script do FHC bateu e voltou, não teve efeito. E, como bem lembrou o Romulus hoje, a PF acabou de jogar panos quentes na facada. A mesma PF que até anteontem fazia tiro ao alvo em foto da Dilma, de repente virou o arauto do legalismo?

Vamos dizer que a coisa continue como está, sem Alckmin decolar. Haddad tem tudo para ganhar com um 60/40. Ele só vai ter, entre outros, um problema. Mas será maior que os outros. O que fazer com esse monte de militares que já estão fechados? Deixe-me colocar alguns pontos, para a gente pensar.

O primeiro problema é que as ideias na corporação militar não correm na mesma velocidade que as mudanças de vento nas eleições. É certo que muita gente lá dentro (tô mais pensando em Exército, acho que Aeronáutica é mais tranquila e Marinha mais ainda) apoia Bolsonaro, e há alguns que não. Já se falou isso em várias entrevistas por aí com militares DA ATIVA. Fora isso, tem essa história que tô falando há tempos, de que o comando deixou livre a campanha do Bolso correr entre os jovens oficiais. Pelo menos desde 2014 ele é presença constante na AMAN, então não duvido que agora tenha um bando de tenentes bolsonaristas. É uma bomba-relógio, qualquer um sabe que a pior coisa para a tropa é ter a baixa oficialidade, lá, junta com os sargentos, pilhada. Então temos 3 problemas aqui:

1) Jovens tenentes com disposição para a quartelada;

2) Vários oficiais intermediários e superiores com disposição para engrossar esse caldo;

3) Dois oficiais da reserva com muita liderança e diretamente ligados ao perdedor, que são Heleno e Mourão.

Se há algo que apavora as FFAA mais do que qualquer outra coisa, é uma ruptura em suas fileiras. Podem escrever: 1964 não teria ocorrido do jeito que ocorreu se Jango não tivesse se dirigido aos sargentos. Teria acontecido algo diferente, mas não aquilo. Conversei com pelo menos 3 ex-generais que se reformaram na década de 1980 que sabiam muito do que se passou, e todos me disseram isso. Mas vamos lá. Vamos acreditar que esse “extended play” do Villas-Boas é um recurso hercúleo para manter a unidade desde já. Isso aguenta com Haddad? Sinceramente, acho que sem uma “defesa mínima não-provocativa” por parte do novo Presidente, ele não dura 1 ano. Então vai aí minha dica:

Prezado Haddad, algumas sugestões para você:

– Procure os comandos das 3 Forças desde já. Garanta que você vai OUVIR o que eles têm a dizer. Lembra aquela história de que a Dilma não ouvia os empresários? pois é, segundo soube, não eram só eles que se sentiam “não escutados”.

– Garanta a eles que essa história de Comissão da Verdade não vai para frente. Já eu te garanto que foi isso que produziu essa galvanização das FFAA em torno de Bolso. Deixe que o MP e o judiciário cuidem disso, é até bom, pois aí você reestabelece as FFAA como fator dissuasório para as barbaridades que os “fora da caixinha” vão querer continuar a fazer.
– isso vai desagradar gente de dentro? Claro que sim. Mas é isso aí, é melhor você rifar a turma do jurídico-PT que cercava a Dilma do que rifar mais ainda as FFAA. Você vai precisar delas se quiser botar Lula do seu lado e garantir apoio popular. Lembre-se do que aquele General falou lá na Lo Prete: “o problema não está em Lula e Haddad, que estão aqui em cima [fez o gesto com a mão]; o problema são os outros do PT…”. Ele falou uma bobagem lá de gramscianismo (isso é outra história), mas pode ter certeza que essa visão se formou com os anos de experiência que militares tiveram junto à Dilma no palácio do Planalto. Foi, para dizer o mínimo, desastrosa.

– Aproveite e diga que o “Documento de Conjuntura” do Rui Falcão é um equívoco, que eles podem ter certeza que você não vai nem mexer nas promoções, nem nos currículos. Imagine o Exército colocando uma cláusula de “patriotismo” para determinar as pontuações de concurso para docente em Universidades Federais. Você não gostaria disso, certo?

– É muito chato isso, mas você vai ter que dar um jeito de dizer: “Dilma lá, eu aqui”. Acho que até vale uma barganha, vantajosa para todo mundo: “Que tal Dilma lá, eu e Lula aqui?”. Acho que funciona hein…

– Como gesto de boa vontade, ofereça a pasta de defesa a um Almirante. Idem para o GSI, coloque alguém ou da Aeronáutica ou da Marinha. Nada de Aldo Rebelo, nem de congressista. Se botar político, aí já era.

– O grande problema da carreira dos oficiais é o posto de coronel. Quando o sujeito chega lá, entra automaticamente numa angústia absurda. Eles sabem que o funil para general é barra pesada, e é uma roleta. Ninguém tem certeza se vai ser promovido (muitos sabem que não vão, mas tem um monte que acha que vai e acaba não indo). Qual seria a melhor coisa a se fazer? Aumente o número de Brigadas (e o equivalente nas outras Forças). Tá precisando mesmo de umas em região de fronteira.

– É claro que isso aumenta o gasto. Que tal então falar que vai reaver um projeto de tributação do pré-sal, e que uma porcentagem disso vai para a defesa? Te garanto que aí fica bem mais difícil qualquer tentativa de sabotagem a um projeto de “reconquista da Petrobras”. Olha que bacana, as coisas voltam um pouco aos seus lugares.

– Finalmente, se tem uma coisa que eles detestam é que se mexa nas “tradições”. É uma coisa maluca, mas às vezes, quando ia visitar alguma unidade, eles preferiam muito mais falar do orgulho que tinham da galeria de ex-Comandantes, da biblioteca, dos quadros, do Refeitório (“rancho”), do que do tanque, da arma, etc. Talvez porque achavam que eu era professor e ia se interessar mais por isso, mas também vi esse protocolo ser aplicado para visitas de oficiais estrangeiros. Seja como for, demonstre algum apreço por isso, e decore a hierarquia batendo o olho no ombro do sujeito. Outra coisa que os caras detestam é ver capitão sendo chamado de “coronel”.

Enfim, vai ser uma dureza fazer esse monte de concessões, sabemos. No entanto, será melhor do que continuar a política de Dilma para os militares como forma de fazer concessão ao PT-jurídico achando que tá batendo no Bolso como se fosse cachorro morto. Isso não vai funcionar. Aliás acho bem melhor ter Lula e o pré-sal (ou o que restou dele) de volta do que continuar insistindo nos elementos que causaram essa alergia toda. Convencer a massa de militares que aderiu ao bolsonarismo a voltar para a caserna vai ser difícil, mas negociar isso com generais e daí a ordem ir para baixo é plausível. E, por mais que se tenha os militares no vértice oposto do espectro ideológico, é bem melhor ter eles ao lado, que afinal vivem sob uma cadeia de comando que tem que estar unida, do que ceder isso e ter que apostar em procuradores e juízes que atiram por conta própria.

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(V). RESUMO AUDIOVISUAL

Parte das ideias aqui expressadas foram discutidas no Duplo Expresso de 25/set/2018 com Wellington Calasans, Gustavo Galvão e Carlos Krebs:

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P.S.: abaixo, a síntese do Duplo Expresso que antecipou todos esses movimentos. E que saiu uma semana antes da capa da revista The Economist, que os explicitou:

Pois eis que a Finança, igualmente cortejada pelos gorilas e pelo Plano B, parece estar namorando a ideia de casar-se com ambos, adotando conformação de tal bigamia que lhe permitisse extrair os maiores retornos. E com os menores riscos. Inclusive de imagem:
– O Plano B na Presidência, tão sitiado e disposto a fazer “concessões” (mais para “convicções”) quanto Dilma Rousseff em 2015.
– Com os gorilas providencialmente fungando no seu cangote, na qualidade de chefes da oposição. E líderes, em potencial, de um novo golpe.

Note-se que esse desenho é bom para todos eles:
(i) a Finança consegue TUDO o que quer;
(ii) os gorilas conseguem efetivo poder político, o que não tinham desde o fim da ditadura – e, melhor, sem as responsabilidades de governar; e
(iii) o Plano B, é “gloriosamente” eleito e “legitimado pelo voto”. E ainda se salva da perigosa responsabilidade de ter de salvar Lula, enfrentar a Finança, a Justiça, a mídia e os gorilas, pois consegue um álibi para cumprir as ordens de quem tirou Lula do páreo.
E, assim, dar seguimento à “Ponte para o Futuro” do, amigo, Marcos Lisboa et al. O álibi é: “se não der para eles por bem, vai ter que dar por mal: olha o golpe militar aí na esquina, minha gente!”. Se esse álibi não for suficiente para convencer as bases, o Plano B tem finalmente a caneta na mão, cheia de tinta. Com ela terá facilidade para cooptar a ala fisiológica do PT (abstêmica de cargos desde 2016), bem como a “Blogosfera (dita) progressista” com publicidade estatal (ave, banners de BB, CEF e Petrobras de volta aos sites!). Ambas seriam encarregadas de amansar – e passar vaselina – nas bases. Aliás, como já se adiantam a fazer, numa “venda em consignação” para crédito do Plano B – a ser devidamente cobrado.

O fantasma Bolsonaro/ Mourão seria, assim, o pé de cabra com que o Plano B – e a Finança – manteriam o Brasil arrombado. Note-se que ambos já se escolheram, reciprocamente, como “adversários” (aspas). Estão, na verdade, mais para duas faces da mesma… moeda.

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E, uma semana depois, a confirmação escrita – e manchetada:

Aos poucos vão se somando novos indícios de que a hipótese levantada pelo Duplo Expresso há uma semana pode estar mesmo se concretizando: o (zero vírgula) 1% global, que patrocinou junto com o Deep State americano o Golpe no Brasil, não quer Bolsonaro na presidência.
Mas quem ele quer?
E quer Bolsonaro onde?
As duas matérias dedicadas ao tema na revista The Economist ajudam a responder essas perguntas.
Houve muito provavelmente algum grau de coordenação entre a revista, dos Rothschild, e a campanha de Haddad. Possivelmente essa última fora informada antes de que a matéria jogando Bolsonaro ao mar seria publicada. Inclusive sobre o conteúdo da mesma, opondo (ultra) “liberalismo” e protofascismo. Isso porque…

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ATUALIZAÇÃO 26/set/2018: o artigo serviu de base para um rico debate no Duplo Expresso de 26/set/2018:

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P.P.S.: e se fosse o Ciro? Incógnita para o Brasil; não tanto para o PT

 

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P.P.P.S.: A prova definitiva de que é gato por lebre!

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.