Haddad contraria PT e adota discurso da direita sobre Venezuela. Sobre os EUA? Nada diz

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

Condensado do Duplo Expresso de hoje:

*

Impressiona a falta de traquejo político – e até de sagacidade – daquele que almeja substituir (não outro que…) Lula (!) como o candidato do PT à Presidência da República. A quantidade de tiros no pé disparados em pouco mais de 1 semana por Fernando Haddad, o “FH” desta geração, é fabulosa. Imaginemos o que ocorreria numa campanha em plena marcha, com escalada da tensão.

Ontem, Haddad submeteu-se a sabatina promovida pelo site Catraca Livre, um dos mais destacados veículos na promoção da agenda do chamado “globalismo progressista”, patrocinado internacionalmente pela Open Society de George Soros. Nele, abundam pautas identitárias (e.g., feminismo, LGBT, racismo), com bastante destaque inclusive para os excessos das franjas hipermega-ultra-uber vanguardistas desses – de todo importantes – movimentos.

Aliás, Fernando Haddad estava lá no Catraca Livre acompanhado da “token black girl” do seu Secretariado na Prefeitura de SP, Djamila Ribeiro.

Algo como “a jovem negra decorativa”, destinada a suprir o álibi de “diversidade” sem ousar “em demasia”. Aliás, Emmanuel Macron – o original – também carrega a sua:

O marketing – inclusive o político – ensina que a fim de angariar simpatias de identitários pós-modernos sem, ao mesmo tempo, repelir em demasia racistas, dê-se preferência à figura de uma jovem negra. Diferentemente de um homem negro, essa não seria vista como figura ameaçadora na psiquê de membros establishment.

Na redução que o “globalismo progressista” promove da política a uma oposição entre (pós-) “modernos” e “reacionários”, o conflito capital vs. trabalho, fundamental desde sempre no ideário de esquerda, passa a um segundo plano. Mais que isso, suprime-se o outro eixo definidor no mapeamento (geo-) político: o conflito, dentro da lógica de “império”, entre os interesses do centro e da periferia do capitalismo.

Assim, quando perguntado por Gilberto Dimenstein, do Catraca Livre, sobre se a Venezuela e a Nicarágua não seriam “ditaduras”, Fernando Haddad tenta ensaiar um murismo.

Acaba, contudo, entregando-se e dizendo, por exemplo, que o “regime” (sic) venezuelano, com uma “sociedade conflagrada” (sic), não seria uma democracia. Repete ainda a asneira plantada pelos EUA – que, por certo, deve estar reverberando entre o pessoal “descolado” lá na Vila Madalena – de que a Nicarágua viveria uma “guerra civil”. Isso quando, na realidade, tenta-se uma nova “primavera”: o pequeno país centro-americano é a bola da vez nas operações de desestabilização patrocinadas pelos EUA. Aliás, da mesma leva de que fomos vítimas nós mesmos, a partir das “jornadas de junho” de 2013.

Aliás, não esqueçamos que não é nada desprezível a contribuição do então Prefeito de São Paulo para a escalada daquele episódio, que iniciou o ciclo mais aberto do Golpe continuado e gradual (creeping coup d’etat) que vimos sofrendo desde então.

A opinião de Haddad sobre a atuação dos EUA na promoção de “primaveras”?

Na melhor das hipóteses, não ficamos a saber.

Na pior, ele exclui por completo da equação os EUA e os choques de desestabilização patrocinados pelos mesmos. No seu discurso, que não é digno de um professor universitário – ao menos não de um intelectualmente honesto –, reduz a disputa que se trava nas diferentes “praças da guerra” – no caso, Venezuela e Nicarágua – a disputas paroquiais entre “golpistas” (sic) de direita e de esquerda.

Nada sobre as causas subjacentes:

(i) o petróleo venezuelano; e

(ii) o canal bioceânico, ligando Atlântico e Pacífico, construído na Nicarágua pela China para rivalizar – com maior capacidade e modernidade – com o Canal do Panamá/ EUA.

Fica a parecer que Haddad é da escola de Dilma Rousseff, que – de maneira (literalmente) inacreditável – negou à TV russa, duas vezes, qualquer participação dos EUA no Golpe no Brasil, para surpresa indisfarçável dos entrevistadores. A HispanTV, do Irã, levou ao ar na sequência um especial em que, sabendo todos que Dilma fora, sim, alertada por Vladimir Putin sobre o que viria, pergunta-se se ela seria, de alguma forma, refém dos EUA. Só assim para ousar tal negativa.

Se Haddad desconhece – ou oculta – a causa do Golpe no Brasil – o Pré-sal – e o seu patrocinador – o Deep State dos EUA – é certo que dele não virá enfrentamento ao mesmo. Ao menos não a contento – como não foi o de Dilma.

Aliás, é oportuno lembrar algo que já observamos nesta semana:

(…) Seguindo o atual Programa do PT, que deveria ter o nome (de Haddad) e não o de Lula, (o Plano B) discutirá com Alckmin (em debates na TV) – para além de “quem mais combate corrupção” (!):

(…)

(iv) quem mais defende os interesses dos acionistas privados – e estrangeiros – da Petrobras. Em prejuízo, no verso da moeda, da sua atuação como empresa verdadeiramente pública, que deve atender à lógica de fomento ao desenvolvimento da economia brasileira como um todo.

Nota: o Programa Haddad defende que a Petrobras siga o modelo estabelecido desde FHC, repassando no Brasil os preços internacionais de combustíveis. Pouco importa que os custos de extração e refino sejam calculados e dispendidos em Reais, a partir da autossuficiência proporcionada pelo Pré-sal conjugado com a entrada em operação das super refinarias de Abreu e Lima e COMPERJ. Sem surpresa, ambas as obras foram atacadas – e paralisadas – pela Lava Jato (e pela administração golpista da Petrobras). Aliás, trata-se de algo a mais que Haddad propõe desnacionalizar, sugerindo a adoção de “PPP” (com estrangeiros) para as duas refinarias.

A despeito de despesas em Reais, o Programa Haddad propõe manter o repasse internamente do custo da variação cambial do dólar e também dos prêmios de risco político (Oriente Médio, Rússia, Venezuela) que, por motivos óbvios, fazem parte da matriz de formação dos preços… internacionais.

Como demonstramos no Duplo Expresso, além de tornar a renda petroleira imbatível no Brasil, deixa-se o setor em que temos a mais clara vantagem comparativa, o agronegócio, com o freio de mão puxado. Nele, o preço do diesel é componente fundamental na formação do preço dos produtos finais. Atende-se, assim, ao interesse geoeconômico e geoestratégico do nosso maior rival no setor: os EUA.

Duplamente: com a monumental renda petroleira extraída diretamente no Brasil pelas multinacionais do petróleo – e pelos acionistas estrangeiros da Petrobras –; e com a coleira colocada no pescoço do agronegócio brasileiro, maior ameaça ao americano.

Mas o pior não é isso: de forma inacreditável, o Programa Haddad não fala em retomada do que foi levado pelas estrangeiras do Pré-Sal durante o Golpe! Patrocinado, por essa razão, pelas próprias!

Aliás, só há 3 ou 4 vezes a referência à palavra “Pré-sal” em todo o programa Haddad. Sendo que apenas uma para falar dele propriamente. As demais tratam dos fundos sociais para saúde e educação, nas respectivas seções temáticas.
Ou seja, se “foi Golpe” das petroleiras, continuaria, em grande medida, sendo!

*

Como discutimos no Duplo Expresso de hoje, com seu discurso sobre Venezuela e Nicarágua Fernando Haddad contradiz a posição oficial do Partido dos Trabalhadores:

O Partido dos Trabalhadores, através de sua Secretaria de Relações Internacionais, condena veementemente o atentado à vida do Presidente Nicolás Maduro da Venezuela durante as comemorações de 81 anos da Guarda Nacional Bolivariana e de um ano da Assembléia Nacional Constituinte.

Rechaçamos as pretensões de violência que buscam alterar as decisões democráticas do povo da Venezuela,pretensões essas que atentam contra a paz na Venezuela e na região latino americana e caribenha.

Seguimos atentos na defesa intransigente dos pressupostos da Proclamação de América Latina como Zona de Paz aprovada em 2014 pela CELAC- Comunidade de Estados Latino Americanos e Caribenhos. Expressamos nossa solidariedade ao legítimo presidente Nicolás Maduro e ao povo venezuelano.

Monica Valente
Secretária de Relações Internacionais
Partido dos Trabalhadores

05 de agosto de 2018

*

Tão logo se iniciou a crise política e social na Nicarágua, o Partido dos Trabalhadores, através da Secretaria de Relações Internacionais, em 27 de abril passado manifestou preocupação com esses acontecimentos e apoiou a formação da Mesa de Diálogo para que o governo, as organizações sociais e políticas e o povo nicaraguense buscassem uma solução pacífica para essa crise assegurando o respeito à soberania e independência da Nicarágua (clique aqui para acessar a nota).

Defendemos o direito de oposição política a qualquer governo, a liberdade de expressão da cidadania e processos políticos pacíficos. Lamentamos profundamente as mortes e eventuais violações de direitos humanos ocorridas.

Porém, é necessário lembrar que os enfrentamentos de hoje na Nicarágua a um governo legítimo e democraticamente eleito não são uma novidade nas Américas e tampouco um fenômeno espontâneo. Já houve questionamentos violentos a governos do campo progressista antes, como as situações semelhantes na Venezuela em 2002, depois na Bolívia com ameaças de secessão no país, em Honduras, no Paraguai e mais recentemente no Brasil, onde houve um golpe parlamentar, jurídico e mediático. Em todas elas foi visível a presença de interesses estranhos à maioria das populações destes países e características semelhantes da aplicação dos chamados “golpes brandos”.

Na Nicarágua existe uma institucionalidade democrática estabelecida e que deve ser respeitada. Cabe ao seu governo e aos grupos de oposição preservá-la para assegurar que a segurança e os interesses da população sejam garantidos e que as divergências sejam resolvidas politicamente.

(…)

Monica Valente
Secretária de Relações Internacionais do PT
19 de julho de 2018

*

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu publicamente nesta quarta-feira a política do presidente venezuelano Hugo Chávez. Durante solenidade de assinatura de um acordo entre as estatais de petróleo brasileira e venezuelana (Petrobras e PDVSA), Lula disse que a Venezuela teria democracia “em excesso”.

O presidente referia-se ao fato de que Chávez teria ganho eleições, feito uma Constituição, um referendo para ele mesmo e, depois, ganho novamente as eleições.

“Eu não sei se a América Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática na Venezuela”, disse Lula, ao comentar que ninguém poderia acusar a Venezuela de não ter democracia. “Poder-se-ia até dizer que tem em excesso”.

Segundo Lula, o presidente Chávez chegou a ser “demonizado” no Brasil, e “apanhou como pouca gente apanhou”, mas é um companheiro do Brasil e da integração da América do Sul. “Hoje [Chávez] é um presidente que, a cada dez palavras que fala, cita a integração, porque é nisso que nós acreditamos”, completou.

*

Lula com Hugo Chávez e com Daniel Ortega.

*

Cada dia fica mais claro que “Plano B” é escrito com “B” de B’ancos, de B’astardo do Golpe e de B’ola nas costas. Como vemos, não apenas nas de Lula (e dos 208 milhões de brasileiros)… sobra agora bolada nas costas também para toda a América Latina – em favor da “narrativa” do Império.

O Globo aprovou, é claro:

Oportunamente, o Presidente Lula já mandou recado na semana passada, dizendo que Haddad não é ainda candidato e que estaria em “estágio probatório”. Esperemos que ele, lá do cárcere (ilegal), ainda esteja “olhando e matutando”.

Muito.

Afinal, já errou uma vez.

E estamos todos, até aqui, colhendo as consequências daquele primeiro – e capital – erro.

Ele, Lula, o primeiro de todos.

#PTsemLulaÉfraude

*

*

*

P.S.: ainda sobre esse bate-papo com os “descolados” globalistas do Catraca Livre, Fernando Haddad parece tentar repetir o “FH” original em sua derrota para Jânio Quadros, em 1985, na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Parece que já vai plantando os álibis para a derrota que Alckmin contratou:

*

P.P.S.: sobre o sequestro da nada “popular” (de povo) chapa Haddad-“Manu”, ver:

Quem acompanha o nosso trabalho há mais tempo sabe a atenção que vimos dando à relação simbiótica entre as franjas radicalizadas do chamado “identitarismo” – movimentos monotemáticos representativos das minorias (LGBTs, mulheres, negros, pessoas com deficiência) – e a extrema-direita midiática, estilo MBL. Um não brilha sem o contraste do outro. E, juntos, dominam a parada das “descoladas” hashtags. Não é só na física que os opostos se atraem.
Mais que isso, ambos os lados muitas vezes contam com o apoio de patronos e/ ou plataformas de comunicação (igualmente) americanos: do lado do “globalismo descolado”, George Soros. Do do conservadorismo “politicamente incorreto”, os irmãos Koch. E, assim, a tática da pinça – manipulando a resultante do debate público com o controle dos polos opostos – se fecha.
Tão ocupados temos estado expondo os últimos desdobramentos da conspiração do “Plano B”, que agora chega ao seu clímax, que nem tínhamos atentado para o papel que essa pauta tão cara ao Duplo Expresso pode desempenhar no enredo do Golpe. Se não for obra do acaso, é do arco da velha. E, no final, tudo se encaixaria como uma luva.

LEIA MAIS>>

*

P.P.P.S.: sobre a instrumentalização dos excessos das vanguardas identitárias pela direita – fenômeno que se dá em todo o mundo ocidental -, ver:

Previsão feita pelo Duplo Expresso no ano passado vem a se confirmar: o Golpe, com projeto econômico para apenas 20 milhões de pessoas (em vez de 200), e com Lula liderando todas as pesquisas, tentará sequestrar a eleição com temas “morais”/ “comportamentais”.
O STF, destacado braço do Golpe, arma a arapuca.

LEIA MAIS>>

*

*

*

Acha o nosso trabalho importante? Reforce a nossa causa em apenas 2 segundos: apoie a sua divulgação tornando-se um Patrono do Duplo Expresso

Facebook Comments

Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.