Samuel Gomes – Carta a um amigo petista

Por Samuel Gomes, Para o Duplo Expresso,

 

Querido amigo

Só agora encontro tempo para responder a você. As coisas estão quentes aqui no front do acampamento em Curitiba (https://www.facebook.com/samuelgomesg/videos/2057464161205102/).

Aqui tive a alegria de levar o Jessé de Souza ao acampamento para prestar sua solidariedade a Lula e aos militantes (https://www.facebook.com/ptnacamara/videos/1406332822800650/ ), também pude aqui reforçar a luta dos petroleiros (https://www.facebook.com/samuelgomesg/videos/2058605064424345/ )

e fazer avançar o Congresso do Povo (https://www.facebook.com/samuelgomesg/videos/2058847307733454/).

Não havia lido o artigo do Romulus Maya ao qual você faz referência (https://duploexpresso.com/?p=92305).

De fato, sou comentarista do Duplo Expresso, assim como o Samuel Pinheiro Guimarães e outros de semelhante calibre. Mantenho uma participação fixa na quarta-feira. Já tive como convidados Celso Amorim, Lídice da Mata, Celso Pansera, Glauber Braga, Luiz Gonzaga Beluzzo, Benedita da Silva. Respondo pelo que digo em meus comentários. Não respondo pela linha editorial.

Excessos eventuais à parte, considero o Wellington Calasans e o Romulus Maya patriotas dedicados à defesa do Lula, da soberania popular e da soberania nacional. Não entro em polêmicas para defender ou secundar tudo o que dizem nem a forma como dizem, muito menos engulo o que alguns tiveram a pachorra de dizer no calor de conhecida refrega: segundo “informações da inteligência soviética”, ambos seriam agentes da CIA. Risível, no mínimo.

Quanto ao tema da tua mensagem, a crítica do Duplo Expresso à decisão “jurídica” de entregar o Lula à masmorra da Lava Jato, o que posso te dizer é que, independente do que pense ou diga o Duplo Expresso, é grande o mal estar com a decisão tomada por Lula em razão da orientação dada a ele por advogados em São Bernardo.

A primeira crítica a respeito a ouvi na mesma noite em que a decisão foi tomada. Um importante parlamentar democrata e nacionalista presente no Sindicato na discussão que antecedeu a decisão de entregar Lula expressou a mim por telefone a sua indignação com o que considerava ser um grande erro; e, pior, um erro fundado em informações não verossímeis, para dizer o menos.

No acampamento de Curitiba, tenho ouvido lamentos profundos e críticas acerbas à decisão de Lula ter-se entregado, de parte de pessoas que estavam presentes no desenlace da ocupação do Sindicato e, como você certamente também acompanha, vejo duras críticas na nossa mídia (Paulo Henrique Amorim: https://www.youtube.com/watch?v=jhVafmu_tcg) e nas nossas hostes, como as do Lindbergh (https://www.conversaafiada.com.br/politica/podcast-lindbergh-lula-tinha-que-ter-resistido).

Devo dizer que me impressionaram sobremaneira as informações que me apresentou, em longa conversa aqui no acampamento, o jurista Luiz Moreira (https://www.brasil247.com/pt/blog/luizmoreirajunior/350566/Lula-e-o-petismo-jur%C3%ADdico.htm) a respeito dos descaminhos e vulnerabilidades a que nos teria conduzido o que ele denomina “petismo jurídico” na formação de monstruosa articulação pluri-estamental, a Enccla – Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (http://enccla.camara.leg.br/acoes – etc), que fortaleceu absurdamente a face punitiva e de controle do Estado em detrimento da dimensão gerencial ou administrativa, com consequências nefastas para o nosso desenvolvimento e a soberania nacional.

Analisando as informações do Luiz Moreira é de se concluir que a Lava Jato seria uma espécie de monstruosa, mas previsível, consequência de um ingênuo moralismo udenista de que foi acometido o PT e que o levou a fortalecer os estamentos e corporações policiais, jurídicas e judiciais do Estado como ilusório contrapeso a ação deletéria das oligarquias políticas e parlamentares regionais com as quais , mercê do presidencialismo de coalizão, o Partido esteve forçado a governar.

Segundo as informações, o esquema teria iniciado pelo então Ministro da Justiça de Lula, Márcio Thomaz Bastos (http://www.justica.gov.br/news/enccla-define-acoes-para-2015-e-se-despede-de-seu-idealizador), seguido por Tarso Genro, para quem o Brasil ficaria conhecido como prestigioso troféu de ser “o país que mais combate a corrupção” (http://www.douradosagora.com.br/noticias/brasil/enccla-aprova-22-metas-para-combate-a-lavagem-de-dinheiro) e aprimorado por José Eduardo Cardozo, para quem a Enccla seria “o mapa e a bússola” ( http://www.justica.gov.br/sua-protecao/lavagem-de-dinheiro/arquivos_anexos/enccla-10-anos.pdf). Mapa e bússola do que estamos percebendo com o lombo agora. É interessante que tanto Tarso Genro quanto José Eduardo Cardozo tenham sido obsessivos profetas da “refundação do PT”, mas essa é outra (e a mesma) história.

A cruzada “anti-corrupção” conformada na Enccla envolveria o Ministério da Justiça (Thomaz Bastos, Tarso Genro e José Eduardo Cardozo), os PGRs do período Lula-Dilma, com especial ênfase em Gurgel e Janot, as associações de procuradores federais (ANPR) e de juízes federais (AJUFE), a Polícia Federal, a Justiça Federal e o Poder Judiciário.

No Judiciário a personagem chave foi o ministro Gilson Dipp (https://stj.jusbrasil.com.br/noticias/100217706/gilson-dipp-homenageado-na-reuniao-anual-da-enccla). Moro era um dos conhecidos “meninos do Dipp”, jovens juízes federais catapultados para viagens, cursos e bolsas de estudo nos Estados Unidos. Dilson e Moro foram estrelas do execrável convescote “acadêmico” promovido pelo Departamento de Estado norte-americano, em outubro de 2009,em solo pátrio (Rio de Janeiro), no qual juízes federais e procuradores da República de 26 estados da Federação receberam treinamento e trocaram informações com autoridades estadunidenses a respeito da luta “global” contra a corrupção.

Os objetivos, as atividades e os resultados do treinamento foram revelados em cabo diplomático vazado pelo Wikileaks (http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/wikileaks-eua-criou-curso-para-treinar-moro-e-juristas/15072017/). Tudo ali é repulsivo, tudo indigno, mas se há algo a destacar é a comemoração que as autoridades estadunidenses fazem da vitória de terem conseguido usar em solo brasileiro o termo “contraterrorismo” sem que fossem corrigidos. O Itamaraty jamais tinha aceitado o uso deste termo, claramente operacional da estratégia de hegemonia norte-americana. Mas Dipp e seus meninos gostaram e pediram mais treinamento, em Curitiba, claro.

Com base na Enccla, Moro pode atuar com seletiva rapidez (http://enccla.camara.leg.br/noticias/a-rede-que-possibilita-o-sucesso-de-operacoes-como-a-lava-jato-e-o-cerco-ao-pcc). A Lava Jato, filha legítima ou bastarda da Enccla? O que se sabe é que a Lava Jato funcionava e funciona como uma espécie de agenciadora de delatores de empresas brasileiras para as autoridades estadunidenses (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-38172725).

Tudo bem, afinal tratava-se do “maior caso de suborno internacional história”, já que a Odebrecht “sistematicamente pagou centenas de milhões de dólares para funcionários corruptos de governos em países de três continentes” ( http://g1.globo.com/politica/blog/matheus-leitao/post/departamento-de-justica-dos-eua-ve-maior-caso-de-suborno-da-historia.html). Uma orquestração terrível, gestada e executada pelo Brasil, um dos membros do Brics, jamais suspeitada pelo atilado John Perkins no seu festejado e revelador “Confissões de um assassino econômico” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Confiss%C3%B5es_de_um_Assassino_Econ%C3%B4mico).

Numa trama antinacional a Globo não poderia faltar. Ah, a Globo não pode faltar! E não faltou. A Globo entra no esquema patrocinando o prêmio Innovare (https://oglobo.globo.com/brasil/nona-edicao-do-premio-innovare-lancada-nesta-quinta-4445570), uma parceria “inocente” entre a coalização estamental punitiva da Enccla e a pérfida organização criminosa dos irmãos Marinho (http://www.premioinnovare.com.br/conselho-superior).

Ao que parece, com a louvação aos supostos poderes mágicos da Enccla o PT teria sido levado à ilusão de suportar-se num fantasioso “aggiornamento” tecnocrático do Estado punitivista para fazer avançar o seu projeto político. Nada mais descolado de uma leitura marxista, classista, do processo histórico. Como resultado do tal mapa e da tal bússola louvados pelo ministro José Eduardo Cardozo, eis que surge a Lava Jato, o monstruoso Mr. Hyde de um ingênuo, alegre, republicano e distraído petista, Dr. Jekyll.

É possível que as hipóteses e argumentos acima estejam estilizados e seja claro o recurso à caricatura. Mas, de fato, o assunto desperta a preocupação de qualquer democrata e patriota não distraído, mas desejoso de conhecer mais profundamente as causas do tormentoso momento que a Nação atravessa.

O fato é que a constelação de interesses em torno de um segmento ou setor da vida econômica cria um mercado. É assim no entorno das agências reguladoras e dos órgãos de controle do sistema financeiro. Como despir de significado o fato de um dos “meninos do Dipp”, o juiz Sérgio Moro, tenha sido destacado para escrever os votos da ministra Rosa Weber no processo do mensalão, aquela que disse não havia provas para condenar José Dirceu mas autorização literária (https://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/O-ultimo-julgamento-de-excecao-e-o-fim-de-uma-farsa/29577).

É o mercado, estúpido! Daí que figuras proeminentes do chamado petismo jurídico e da Enccla passarem depois a advogar para réus em casos de delação premiada (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/02/1856898-acionistas-da-oas-e-executivos-que-farao-delacao-entram-em-divergencia.shtml) e destacar as virtudes da Lava Jato (https://www.jota.info/justica/lava-jato-se-tornou-novo-padrao-de-enfrentamento-ao-crime-23082017).

Só ingressa no mercado de delações premiadas que mantém boas relações com os agentes de Estado que conduzem a Lava Jato, o que é denunciado amplamente, inclusive por ministros do STF (https://www.jota.info/stf/do-supremo/gilmar-corrupcao-mpf-lava-jato-11042018).Há quem diga que este espírito de contubérnio afetou negativamente a orientação jurídica a Lula nos momentos de tensão política extrema, como a de São Bernardo, nos quais a alternativa de esticar a corda e criar um impasse político foi descartada em favor de um republicanismo ingenuamente esperançoso na “ratio” democrática e constitucionalista do Judiciário. Uma “ratio” que, como o horizonte, nunca se alcança, mas esta alí, logo além.

A partir da conversa com o Luiz Moreira e outros companheiros fui à internet e revi uma curiosa entrevista do então ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, na qual ele expunha alegremente uma “profunda” e sintomática reflexão: “Recentemente, numa reunião da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro, eu usei uma metáfora. Comparei a corrupção a um câncer. No começo, é indolor. Entra no corpo e a pessoa não percebe. Depois, quando vem o diagnóstico, muitas vezes, o paciente se revolta contra o médico. Numa reação inconformada, não aceita o diagnóstico, questiona os exames e os próprios médicos. Mais tarde, quando se confirma a gravidade da doença, aceita o tratamento e fica agradecida ao médico. Eu acho que é isso que está acontecendo.”

Era janeiro de 2016. Lendo hoje o diagnóstico e a terapêutica do dr. Cardozo não estranha que o fatídico ano tenha terminado como terminou (https://exame.abril.com.br/brasil/caiu-dilma-sofre-impeachment-e-nao-e-mais-presidente/).

O dr. Cardozo disse que o câncer “entra no corpo e a pessoa não percebe”. Pois é. Foi o que aconteceu. E não é da corrupção que estou falando, mas do obstinado e cooperativo “combate” a ela pela iniciativa pluri-estamental nacional e estrangeira. Por ironia, na mesma entrevista o doutor Cardozo celebrava o combate à corrupção como um dos maiores legados do governo Dilma (http://www.pt.org.br/combate-a-corrupcao-sera-um-dos-legados-de-dilma-afirma-cardozo/). Deu no que deu.

Impossível não lembrar o belo samba do Chico: “e a nossa Pátria, mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em poderosas transações …” Mãe tão distraída, a Pátria não percebeu que, desde a descoberta do pré-sal, estava no epicentro da guerra híbrida (https://jornalggn.com.br/noticia/o-brasil-no-epicentro-da-guerra-hibrida-por-pepe-escobar). E não tem Enccla que resolva isso. Antes pelo contrário, como já se percebeu, a tal Enccla nos colocou numa encalacrada.

Minha cartinha fica por aqui, amigo. Espero que tenhamos um tempo para conversar a respeito do assunto, assim que eu voltar daqui a Brasília daqui do front de Curitiba.

Por ora, bola prá frente! A luta nos impõe lamber as feridas na própria marcha. Caminhando e fazendo caminho ao andar. Cumpramos o que nos cabe, pois.

Quando puder venha ao acampamento de Curitiba dar bom dia para o Lula! Mas agora, com o acampamento de Brasília, você pode fazê-lo daí.

Afetuoso abraço

Samuel da Ferrovia

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.