A entrevista (e a verdade): Lula entrega-se pela segunda vez. E o Brasil?

Publicado 27/abr/2019 – 12:36
Atualizado 30/abr/2019 – 14:00 – o comentário de Piero Leirner; o debate no Programa Duplo Expresso (final)

A entrevista (e a verdade): Lula entrega-se pela segunda vez. E o Brasil?

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

  • Diante da ausência geral de colhões, vamos lá nós do Duplo Expresso ficarmos “mal na foto”. De novo. Verdades inconvenientes. Ainda que impopulares.
  • Sim, este texto é uma porrada. Não só para ler mas também para escrever, acreditem. Serve apenas para quem ousa enfrentar, na medida do possível, os seus vieses cognitivos. Realidade obriga. E o tempo urge.
  • A pergunta – e a resposta – mais relevantes de toda a entrevista, garanto, é aquela em que Lula, feito refém, diz temer pelos seus filhos.
    Pano rápido.

Diante da ausência geral de colhões, vamos lá nós do Duplo Expresso ficarmos “mal na foto”. De novo. Verdades inconvenientes. Ainda que impopulares.

Anotações sobre os (curtos) trechos selecionados para divulgação pelos editores de Folha (de São Paulo!) e El País (da “imprensa OTAN”) até o momento:

(I) O ditame da “união”
(com traidores?!)

Na entrevista, Lula diz que no Sindicato em São Bernardo, diante da disputa entre os que queriam que ele resistisse e os que queriam que se entregasse, “escolheu” (ele, indivíduo, “soberano” e “consciente”) ir preso. “Para ficar perto de Moro” (!), disse ontem o ex-Presidente.

Como um encosto?

Um constrangimento moral?

Um peso na consciência (?) do Juiz para força-lo a dar uma guinada – fantástica – de 180 graus?

Num transatlântico?

Como sabem os medianamente informados, o que está em jogo no Brasil é capital e vai muito além das fronteiras do país. Para citar apenas os dois itens mais importantes: ao menos 10 tri-lhões de dólares (provavelmente o dobro) enterrados embaixo da costa brasileira (as jazidas do Pré-sal); o xadrez global entre o (decadente) Império Anglo-sionista e as (emergentes) potências eurasianas (China e Rússia). Ou seja, vai muito além de “indivíduos”. Quaisquer que sejam eles. Mesmo Lula. E mesmo o próprio Sergio Moro (sabidamente refém do dossiê Banestado, em posse dos gringos).

Relato de que decisão estratégica de tamanha monta – a entrega de Lula aos operadores locais dos EUA no Brasil –, algo cujas consequências vão muito além da pessoa dele, teria sido pautada por “expectativa” tão pueril, tão distante da realidade (“peso na consciência do Moro; tornar-me-ei um encosto”), não faz jus ao gênio político e à célebre intuição de Lula, que – para desespero dos adversários – nunca foi simplório ou ingênuo.

Parece que aqui, talvez com intenções nobres (“unidade”), Lula, pela centésima vez na vida (politicamente) magnânimo (ver aqui e aqui), resolve encobrir a pegadinha de que foi alvo naquele dia, no Sindicato, por parte dos agentes duplos no chamado “PT jurídico”. Sabidamente lá chegou José Eduardo Cardozo prometendo-lhe: “entra hoje, sábado, que o Sr. sai já na quarta-feira com habeas corpus do STF. Está tudo combinado”; “Já se não for, será decretada prisão preventiva por Moro (estou com ele na linha), em que não há (sic! Mentira!) possibilidade de habeas corpus por 90 dias”.

Atestaram essa versão no ato, publicamente, ao menos:

(1) Gleisi Hoffmann (do alto de um carro de som, diante das câmeras do mundo);

(2) Lindbergh Farias (então em entrevista a Paulo Henrique Amorim e novamente nesta semana, em vídeo no seu canal no YouTube – já devidamente salvo por nós, é claro);

(3) a religiosa budista Monja Coen (em visita a Lula meses depois); e ainda

(4) João Pedro Stédile, do MST (ainda no Sindicato, em entrevista gravada).

A bem da verdade, atesta essa versão até mesmo o próprio Lula, que confirmou os termos da “barganha” apresentada ainda naquele fatídico dia. Isto é, Lula confirmou-a quando era ainda um homem livre. Antes de ser feito refém.

Confira:

(a)

 

(b)

 

(c)

 

Elas por elas, fico com a versão do homem (ainda) livre, no lugar da do feito refém.

*

Sobre esse ponto ainda, o entrevistador escalado do El País, Florestan Fernandes Jr., veio seguir a mim, Romulus Maya, a Wellington Calasans e ao Duplo Expresso no Twitter nas semanas que antecederam a entrevista com Lula.

 

 

Não o conhecemos, mas supomos ser pessoa séria. Até pela responsabilidade diante do peso do nome que ostenta. Calasans sugeriu ao entrevistador três perguntas. Bastante diretas e reveladoras, na sua simplicidade binária:

 

Bem, para termos certeza ainda resta ver o remanescente da entrevista, quando sair (editada e) publicada…

Mas, a tirar pela divulgação ontem do relato – contrafático – dessa suposta “estratégia do encosto (em Sergio Moro!)”, pueril, as sugestões de Wellington Calasans não devem ter conseguido espaço.

Aliás, eu mesmo, com expectativas já bem reduzidas, alertava no Twitter dias atrás para o significado maior a tirarmos de eventual entrevista, finalmente… autorizada:

“Leão herbívoro” (apud Perón)…

*

(II) “STF: o último a errar” (errando do mesmo jeito)

Lula, inacreditavelmente, alude a esperanças de reparação no STF. Sim, no STF… o mesmo para onde deve ir, dentro em breve, João Gebran Neto (!). Aquele que no TRF-4, na qualidade de Relator, confirmou (em janeiro de 2018) a condenação imposta por Moro a Lula no caso do triplex, possibilitando a prisão do ex-Presidente. O mesmo Gebran que deve em breve confirmar, ainda no TRF-4, a segunda condenação de Lula, no caso do sítio. Aliás, o mesmo STF para onde se diz que seguirá, no devido tempo, o próprio Sergio Moro.

Ao aludir a tais “esperanças” no STF (mais que improváveis), Lula retoricamente elenca um rol de decisões contra-majoritárias da Suprema Corte brasileira, corajosas, que (à sua época!) contrariaram interesses com grande representatividade e poder de pressão. Citou: a autorização para pesquisas com células-tronco (em oposição a lobby da Igreja Católica); a demarcação da Reserva Indígena de Raposa-Serra do Sol (contra o lobby dos latifundiários); o reconhecimento do “casamento” gay (contra o lobby evangélico).

Bem, assim como a maioria de nós, Lula não esteve em outro planeta de 2016 para cá. Como asseverou, acertadamente, o próprio Lula (em grampo de Moro!), os Ministros do STF encontram-se “acovardados”. Isso, para dizer o mínimo. Prefiro ir ao cerne e falar em dossiês e chantagens.

Além de ir contra a sua própria constatação, passada, quanto ao “acovardamento” do Supremo, Lula não terá assimilado ainda, até aqui, o significado pleno do “entra no sábado e sai na quarta-feira, está tudo combinado no STF”?
(7/abr/2018, São Bernardo do Campo – SP)

Cenoura e porrete.

Good cop, bad cop.

A miragem no horizonte…
– … que nunca chegará.

Se for o caso dessa não assimilação por parte de Lula, um viés cognitivo de confirmação, ainda mais diante da falta de opções, poderia ajudar a explicar.

Mas que viés, hein!

Ainda? Nesta altura do campeonato?

Escalas: aqui, novamente, uma questão (geo!) política capital, com desdobramentos relevantes para o jogo global, fica reduzida a uma “disputa paroquial”.

Aliás, nem isso, não é mesmo?

Ficamos, tão somente, no campo da moral. E individual!

11 “consciências” (!)

– “Os Ministros do STF voltarão ou não a ter brio e dignidade?”

“Brio”…

“Dignidade”…

Parece pergunta retórica, certo?

E é.

Nela, saem da equação os 10 tri-lhões de dólares do pré-sal (provavelmente 20); China e Rússia vs. EUA; e, principalmente neste caso, os dossiês contra tais Ministros nas mãos de interesses estrangeiros.

A conta não fecha. Já é “viés de confirmação” demais. Se, no desespero, é o que restaria a Lula, a nós, mantidos de fora de eventuais (pseudo, meu Deus!) “barganhas” de bastidores, mas igualmente afetados pelas mesmas – enquanto nação! –, impõe-se resistir a tal escala de defeito de cognição.

Lula diz – e essa é a chamada do El País – que “(fica) preso 100 anos, mas não (troca) a (sua) dignidade pela (sua) liberdade”.

Decisão individual. De ordem moral.

(reparem: até na formulação)

Sobre a qual não apenas não nos atreveríamos a fazer juízo como ainda dedicamos empatia. Ninguém que não passou pelo mesmo pode dizer que faria diferente.

Mas, no entanto, decisão essa da qual – se impõe – tirar as consequências políticas:

– O Brasil pode, também ele, “ficar preso 100 anos”?

Os pobres e miseráveis do país – cujo número aumenta a cada nova sondagem – podem esperar… “100 anos”?

Aliás, a seguirem as coisas como estão, restará Brasil, enquanto nação soberana, daqui a… “100 anos”?

*

– O Sr. Já pensou que pode ficar aqui para sempre?

Não tem problema. Eu tenho certeza que eu durmo todo dia com a minha consciência tranquila, que eu tenho certeza que o Dallagnol não dorme, que o Moro não dorme.

 

– Ora, sonífero melhor não há – para ambos, Moro & Dallagnol – do que saber que o dossiê Banestado seguirá enterrado!

Mas Lula profetiza na entrevista: nem que seja no dia da extrema-unção (!) Moro e Dallagnol vão confessar suas mentiras (!)

Essa “estratégia do encosto”, hein…

Sei não…

*

(III) Conto da Disney vs. realpolitik (global!)

Infelizmente – para todos nós – essa (pretensa!) “estratégia de Mandelização” (ou “do encosto”, se preferir) não dá conta do presente ataque transnacional, público-privado, ao Brasil e aos brasileiros.

Aliás, por falar em (pretensa!) “Mandelização”, cumpre lembrar que – para além da versão “Disney” – quem efetivamente tirou Nelson Mandela da cadeia não foram ONGs ou cirandas de condoídos abraçadores de árvore no Ocidente. Mas, sim, o comando de Fidel Castro, por rádio diretamente de Havana, pesado armamento soviético (incluindo os temíveis lançadores múltiplos de mísseis Katyusha, os chamados “órgãos de Stalin”) e muito sangue cubano e angolano derramado na selva, na histórica batalha de Cuito Canevale, em Angola. Da qual saíram irremediavelmente derrotados Estados Unidos, África do Sul (do Apartheid), Israel e UNITA (nessa ordem).

Ou seja: a liberdade de Nelson Mandela foi fruto de uma grande barganha – geo! – política, dos “cachorros grandes”, acertada em conferências internacionais como a do Cairo. A soltura de Mandela não adveio de desdobramentos em uma “disputa paroquial”, ou melhor, moral!, entre, de um lado, Bôeres “malvadões”, constrangidos, e, do outro, um “vovozinho bacana no xadrez”.

Vamos acordar?

Desligar o Netflix?

*

Sobre isso, ver histórico documentário produzido e exibido pelo (insuspeito) canal franco-alemão “Arte”, linkado em artigo nosso de 10/out/2017 (devidamente) intitulado “Angola: o dia em que Fidel Castro tirou Nelson Mandela da cadeia”.

*

(IV) “Sei muito bem que lugar me reserva a História” (?) – Lula (26/abr/2019)

 

Vemos que Lula, caso não seja apenas um recurso retórico, até hoje não teria assimilado a lição que – ousou – lhe ensinar o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães (em 2010, no Planalto, e novamente em 2012, no Instituto Lula), ao ouvir a mesma colocação, pretensiosa (é preciso dizer):

A ‘História’ é um livro em aberto, escrito pelos vencedores, Presidente.

Como registramos em artigo de 9/abr/2018, ou seja, há pouco mais de um ano, em se tentando repetir a História – seja como farsa, seja como tragédia (ou ambas) – corre-se o risco de mirar em Napoleão Bonaporte e acertar em…

– … Bokassa, “o breve”, Primeiro – e último – Imperador Centro-Africano (!)

Não sabe quem é?

Pois é:

Para que não restem dúvidas, são casos perdidos os artífices do “Plano B”, que opera pari passu com a (mera) promessa de “Mandelização”/ “Gandhização” – em vida. Notem bem: autoconcedidas tal qual a coroa imperial de Napoleão!

 

Cumpre registrar, contudo, que ao imperador francês – de quente sangue corso… – foi dado não apenas coroar a si mesmo, mas, o que é tão – ou mais – importante quanto, encomendar a tela que imortalizou tal ato ao pintor neoclássico Jacques-Louis David.

Ou seja: Napoleão era, também, o dono da “Globo”!

É preciso manter isso sempre em mente, para não mirar em Napoleão – ou Gandhi ou Mandela ou Martin Luther King ou … – e acertar em Bokassa I – e último! – do “Império (!) Centro-Africano”. Aquele que (também) quis – auto – transplantar titulação honorífica estrangeira. E que acabou, sim, inscrito na História… mas pelo ridículo:

 

Para salvarmos a Lula – e a nós próprios – precisamos gritar mais alto que as vozes dos bajuladores mal e bem-intencionados, que repetem ao Presidente que “ele já é enorme na História”. Gostemos ou não disso, Lula é o líder – incontornável – da resistência anti-imperialista nesta geração. É, portanto, preciso que também ele lute contra a auto-doutrinação e aceite a verdade:

– O único Davi esculpido em mármore de Carrara pelo mestre Michelangelo é aquele 1 em 100 que, contra todos os prognósticos, venceu o gigante!

 

Afinal, a História é escrita – mal ou bem, pouco importa – pelos vencedores.

*

P.S.: não sou revolucionário. Sou social-democrata e patriota, “tão somente”. Assim como Jucá, quero “um grande acordo nacional”. Mas… a minha versão é “com Lula, com PT, com povo, com soberania, com tudo”. E a única chance – já remota – de conseguir tal acordo, como ensinou De Gaulle, é ir pro pau como se não houvesse amanhã.

*

‪Pesquisa na Europa Ocidental na década de 50 perguntava: “quem derrotou os Nazistas?”‬
‪Mais de 90% (testemunhas oculares) respondeu: “URSS”.‬
‪Fizeram msm pesquisa nesta década. Mais de 70% respondeu: “EUA”.‬
‪Fatos mudaram?
‪Ou foram reescritos p/Hollywood?‬
‪(máquina de propaganda do VENCEDOR da Guerra Fria?)‬
Fonte: TV Púbica francesa (France 5; programa “C’est dan l’air”, dezembro de 2018)
*
Aceita a lição do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães que dói menos:
– A História (majoritária) é, sim, um livro em aberto, escrito pelos vencedores (e a sua propaganda).
*
Aliás, vamos ter menos inocência e deslumbramento com a era digital…
Quem controla a internet??

*

(V) Meta-análise

(a) Não é aleatório faltar, à maioria dos brasileiros, conhecimento para compreender as referências deste texto a “Cuito Canevale”, Bokassa, De Gaulle e geopolítica em geral. Na verdade, isso explica muito por que foi – e segue sendo – tão fácil derrubar no tabuleiro a tal “oitava economia do mundo”….
E ajuda explicar, também, por que Lula se entregou.
Da primeira vez, no Sindicato, e ainda desta segunda, na forma de “entrevista”.

(b) A pergunta – e a resposta – mais relevantes de toda a entrevista, garanto, é aquela em que Lula, feito refém, diz temer pelos seus filhos.
Pano rápido.

(c) Sim, este texto é uma porrada. Não só para ler mas também para escrever, acreditem. Serve apenas para quem ousa enfrentar, na medida do possível, os vieses cognitivos de confirmação, representatividade, retrospectiva (hindsight) e otimismo.
Estamos sós.
O projeto nacional brasileiro, sob forte ataque, encontra-se sem lideranças e desarmado.

E agora?

*

*

*

P.S.: o (inacreditável mas compreensível) elogio à obra do “PT Jurídico” (nominalmente Marcio Thomaz Bastos, Tarso Genro e José Eduardo Cardozo) de empoderamento excessivo de corporações – não eleitas – em prejuízo dos Poderes – políticos – que representam a soberania popular.
Síndrome de Estocolmo?
Ou a máxima “está no inferno? Abraça o capeta”?

*

P.P.S.:

*

P.P.P.S.: num país, como vemos, politicamente infantilizado recomenda-se, por oportuno, voltar às fábulas. Especialmente à do “Flautista de Hamelin”. Com especial atenção ao seu final.

*

*

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Atualização (28/abr/2019) No. 1:

Por Piero Leirner
(Antropólogo, Professor da UFSCar)

Bom, descontando o fato de que deveria haver muita carga emocional ali; de que, enfim, trata-se de uma vida… Há algo ali notavelmente desconcertante. A narrativa do “chegarei aos 120 anos”, “fico aqui 100 anos”, “só saio daqui quando me pedirem desculpas”, etc., deve ser levada como a de um mártir em vida?
Depende.
Toda a entrevista ele assumiu a postura de quem está absolutamente no controle da situação. A primeira coisa que a gente tem que ter em mente é que o Lula não é muito de dar o braço a torcer, assim como não é cagüeta. Ele prefere morrer do que dizer que uma decisão não foi dele, e faz isso pela simples questão que ele sempre tem que estar no controle, que seja o controle de qualquer coisa. No caso, ele não pode admitir de jeito nenhum que não estava no controle da situação, nem no Sindicato nem a qualquer momento. Esse é o sentido de ele dizer que “esperava há meses”, que “sempre soube”, etc. Ele se coloca como o cara que se jogou nessa voluntariamente, mas não para ficar perto do Moro; nem para (só) se martirizar. Mas para se manter dono da narrativa no PT. E dono da narrativa do PT sobre Curitiba.

E qual é o problema nisso?

É que até agora a narrativa do PT sobre Curitiba foi a do “equívoco judicial” em relação à pessoa, e não à instituição nem à estrutura. Quem já leu trabalhos acadêmicos que mostram qual foi o papel de Lula na montagem do PT pós-1994 sabe que sempre houve a preocupação primária de produzir uma máquina de certo tipo, e o controle do Lula, para o bem e para o mal, sempre foi um ponto chave nessa questão. A transformação dele em um “insider” do pacto burguês não é algo à parte das estruturas do próprio Partido, não deve ser vista como “jogada eleitoral”. Tem algo mais profundo aí, que é o descolamento do topo do Partido sobre sua antiga base, e sua montagem como a de uma estrutura aparelhada pelo Estado (sim, antes de dizer que o PT aparelhou o Estado, é bom ver como o Estado aparelhou o PT).

Lula e o PT tiveram sua chance na eleição, de virar a mesa e criar um campo onde 30% da população ia agora estar botando pressão nos golpistas. Ao contrário, eles avalizaram a Justiça (e a “eleição”) e agora simplesmente não existe oposição – nem ao Governo, nem ao Golpe.

Infelizmente toda a entrevista mostra um completo insider, inclusive no sentido de sua prisão ser o “outside view from the inside“.

De novo essa conversa de que “nós engrandecemos a PF, MPF, etc.”…

“Nós que resgatamos a dignidade das Forças Armadas e enchemos de dinheiro”…

Não percebeu que é golpe?

São essas instituições – não eleitas – que estão querendo produzir um novo Estado (não um novo “Governo”!), com um Deep State à brasileira, e elas não vão expressar “gratidão”.

Dito isso, fico com a sensação de que Lula/PT ainda esperam que a decepção óbvia contra o “antissistêmico fajuto” que é o Bolsonarismo reflua para um “sistêmico anterior”. Eu não boto mais fé nisso, pois não há mudança de Governo, mas sim de Estado. Ou se percebe que há uma implosão e montagem de algo novo em curso – que pode dar errado, vá lá – ou vamos ficar reféns de um dualismo inócuo.

Não é a liberdade de Lula que vai implodir o Governo ou o Golpe, é a implosão do Golpe que pode dar alguma margem para a liberdade de Lula. Mas isso pode implicar rifar muita coisa, entre elas certas estruturas das quais o PT é dependente e todos seus agentes que operaram na “normatividade” até aqui. E, principalmente, pode implicar ter que engolir seco que a luta não tem slogan nem personagem para começar.

É uma porcaria chegar a essa decepção, mas eu pelo menos estou vislumbrando um cenário em ruínas e algo que vai começar do zero, ou quase zero. Enquanto forem 3 gatos pingados falando que as instituições já eram, fica difícil.

*

Nota D.E.:

Piero Leirner dá uma explicação (partindo da leitura que fez de tese de doutorado – que já citou no programa Duplo Expresso – sobre a dinâmica interna do PT) para esse “ajuste editorial, retroativo,” na narrativa apresentada por Lula na entrevista. É a preservação da sua dimensão simbólica dentro do PT. Levando a uma externalização (voluntaria ou involuntária), pública, de um exemplo pronto e acabado do viés cognitivo de retrospectiva (“hindsight bias“) em operação:

(Obs.: claro que, se for voluntário, aí não haveria que se falar em “viés”/ “defeito” de cognição, mas de tática retórica)

Diz Piero:

“Toda a entrevista ele assumiu a postura de quem está absolutamente no controle da situação. A primeira coisa que a gente tem que ter em mente é que o Lula não é muito de dar o braço a torcer, assim como não é cagueta. Ele prefere morrer do que dizer que uma decisão não foi dele, e faz isso pela simples questão que ele sempre tem que estar no controle, que seja o controle de qualquer coisa. No caso, ele não pode admitir de jeito nenhum que não estava no controle da situação, nem no sindicato nem a qualquer momento. Esse é o sentido dele dizer que esperava há meses, que sempre soube, etc. Ele se coloca como o cara que se jogou nessa voluntariamente, mas não p/ ficar perto do Moro; nem para (só) se martirizar. Mas para se manter dono da narrativa no PT.”

Seria um o ajuste, post factum, da narrativa pra preservar a dimensão simbólica de Lula dentro do PT. Uma “encampação”. Seja plenamente consciente, seja no nível do “viés cognitivo” operando.

Como observa ainda outro comentarista (Mendez),

Talvez o Lula esteja usando uma estratégia que, concordemos ou não, ele, após muito ponderar, considerou a melhor ou, talvez, a possível. Assim, por exemplo, pode não ter considerado ser prioridade contar a história “real” do que aconteceu no Sindicato, no dia da prisão.
Por exemplo, como reagiriam os seus liderados ao saber que ele fez “papel de bobo”?
O primeiro compromisso do líder não é com a verdade factual.
(…)

Concordamos integralmente. É preciso que fique claro: o objetivo deste artigo não é, em nenhuma medida, reprovar a fala de Lula ou sugerir que tivesse feito discurso diferente do que aquele que ouvimos. O discurso, e os seus limites, está completamente dentro do que se poderia esperar. Tanto na parte que se destina para dentro do PT como na que mira para fora, para a sociedade.

Como observa ainda outro leitor (Tiago),

A galera espera que o Lula diga de dentro da prisão o que ele não dizia nem quando estava solto.
(…)

O ponto deste artigo é, “apenas”, tirar as consequências políticas do discurso. Lula já se vê – e no discurso aceita-se – fora do jogo. Fala em “viver 120 anos”, “ficar na cadeia 100 anos”, etc.

No entanto, a maioria, compreensivelmente prisioneira de seus afetos e da falta de alternativas no presente – que não virão, mesmo, até começarmos a encarar a realidade –, é ainda incapaz de aceitar o inusitado de uma “orfandade (com o progenitor ainda em vida)”. Vida civil, humana, individual, que segue merecendo toda a nossa solidariedade, mas em grande medida não mais política. Ao menos não como liderança.

Perguntamos mais uma vez:

– Afinal, o Brasil também pode esperar “100 anos”?

– Daqui a “100 anos”, nesse ritmo, existirá ainda Brasil?

Aliás, para além da retórica, o próprio Lula pode, mesmo, “esperar 100 anos”?

Vai mesmo chegar “aos 120”?

Como muito bem sintetiza Leirner na sua conclusão:

Não é a liberdade de Lula que vai implodir o Governo ou o Golpe, é a implosão do Golpe que pode dar alguma margem para a liberdade de Lula.
Mas isso pode implicar rifar muita coisa, entre elas certas estruturas das quais o PT é dependente e todos seus agentes que operaram na “normatividade” até aqui. E, principalmente, pode implicar ter que engolir seco que a luta não tem slogan nem personagem para começar.
É uma porcaria chegar a essa decepção, mas eu pelo menos estou vislumbrando um cenário em ruínas e algo que vai começar do zero, ou quase zero. Enquanto forem 3 gatos pingados falando que as instituições já eram, fica difícil.

*

*

*

O delírio:

vs.

A (dura) realidade:
(que não vai embora por negação)

? “Não era Gramsci quem dizia ‘pessimismo na análise’ e ‘otimismo na ação’?
Pois na esquerda brasileira o ditame está simplesmente invertido:
– Otimismo (delírio) na “análise” (?) e pessimismo (nulidade) na ação.
Querem botar um El Cid em cima do cavalo que se vê (e aceita-se), ele próprio, “100 anos” fora do campo.
*
Bem… concedamos, ao menos, a esses crentes que o El Cid original não viveu “até os 120 anos”, não é mesmo?
Quem sabe com um novo, que se veja (?) chegando a essa idade…”
Ass.: Romulus Maya – mais uma vez no (bilateralmente) cruel papel de Cassandra

*

*

*

Atualização (28/abr/2019) No. 2:

Por arkx Brasil

vamos ao fato político, conforme descrito nas palavras do próprio Lula.

ao 17’55” da entrevista, Lula expõe qual foi sua estratégia para as Eleições de 2018, assim como o motivo de ter fracassado:

“Uma das condições que fez com que eu também viesse para cá [para a cadeia], era porque não havia nenhum advogado naquele instante que não garantisse que eu disputaria as eleições sub judice. Havia uma certeza, de muitos juristas, de que não haveria como impedir a minha candidatura. Mesmo condenado eu poderia concorrer sub judice. E eu tinha certeza, e estava com um orgulho muito grande, de ganhar as eleições de dentro da cadeia.”

foi também assim, e mais uma vez, que continuamos vagando num labirinto de paredes espelhadas, aprisionados na repetição entre a farsa e tragédia e incapazes de gerar a diferença.

p.s.: meus elogios para os programas do Duplo Expresso. e em especial para o Romulus – mais experiente, menos ansioso e inteligente como sempre.

*

Por Romulus Maya

Ô, sumido. Venha mais para estas bandas. Menos ansiedade não é necessariamente um bom sinal. Eu ficava bem mais ansioso quando havia mais chances de deter o avanço do Golpe. A cada vez que levantávamos alguma bomba para emparedar a Lava Jato. Você viu bem de onde vieram os ataques nas diversas oportunidades em que o fizemos. A consciência de que “tá tudo dominado”, que está tudo muito bem amarrado, se por um lado é terrível, por outro reduz a ansiedade, que passa a não ter razão de ser. Ansiedade é coisa de quando há dúvida num dado curto prazo. Não é mais o caso, como sabemos.

*

O seu recorte é perfeito. Essa foi a outra mentira do “PT Jurídico” – contando inclusive com o aval (fake) em artigo (na mesma Folha de S. Paulo!) de um dos pais da Lava Jato e mentor de Moro, o ex-Min. do STJ Gilson Dipp:

(…)

(nosso mal é ter memória, Dipp…)

Moro surge como um dos “Dipp Boys” no âmbito da ENCCLA, coordenada por Dipp et caterva (incluindo o primeiro PGR de Lula, o primeiro “lista tríplice”, Claudio Fontelles). Vale lembrar, ainda, que Dipp vem do mesmo… TRF-4!

E nem assim os caras desconfiaram do “parecer”…

Flávio Dino, co-autor da “Ficha Limpa” (com J.E. Cardozo!), que queria não Lula mas Ciro como candidato, foi outro que também garantiu que Lula “seria candidato, sim”… em artigo e em abundantes entrevistas.

Nós aqui no Duplo Expresso, é claro, demos o alerta:

“(…) com especial atenção ao artigo do Min. Gilson Dipp, publicado na Folha de S. Paulo, que tanto repercutiu e inebriou a militância por estes dias…
Ai, como é dura a vida de Cassandra!
Troia queima!
E os ratinhos encaminham-se para o fogaréu…
(…)”

(24/jan/2018)

Lula, mais uma vez enrolado por esses “doutores”, não se apercebeu de que estava se desarmando completamente ao ir para a cadeia. Perdeu toda a alavancagem política. Hoje é, lamentavelmente, refém por completo. Como observa o Piero Leirner no comentário dele, e como vimos dizendo ao longo de todo 2018, a última grande bomba do nosso lado – devidamente desarmada pelo Golpe (com o auxílio – indispensável – do “PT Jurídico”!) – era colocar em xeque a “eleição” (entre aspas mesmo), obrigando o Judiciário a cassar – ele e não o PT! – a chapa que “ganhava no primeiro turno em todas as pesquisas”.

Para completar, a terceira contribuição do “PT Jurídico” à consolidação do Golpe em 2018: o fato de Haddad vir não apenas como o “candidato normal” – no lugar de encarnar uma “anti-candidatura”, p.e. –, mas, mais do que isso, como o “candidato normal-izador“:
(1) Mascos Lisboa (INSPER/ “Ponte para o Futuro”!) para a sua eventual Fazenda;
(2) Joaquim Barbosa ou Rodrigo Janot (!!) para o seu eventual Min. Justiça;
(3) “não há conspiração do Judiciário para pegar Lula”; “é apenas um erro judicial”; “será certamente corrigido em BSB”; “Moro prestou grandes serviços ao Brasil”, etc.;

*

*

*

Atualização (30/abr/2019) No. 3:

A entrevista de Lula é tema de debate no Duplo Expresso:

– Wellington Calasans, Romulus Maya e Patrícia Vauquier comentam: “O que Lula disse, não disse ou deixou de dizer” (28/abr/2019):

 

– A doutora em Sociologia Thais Moya fala sobre: “Os ’não ditos’ de Lula” (30/abr/2019):

 

 

 

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.