“Bolsa desaba e dólar dispara” – como Globonews e CBN criaram o “coxinha”

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso 
Assim como o leitor abaixo, você lembrará deste texto quando vir um “coxinha” analfabeto político (e econômico!) arrancar os cabelos porque “o dólar disparou” e “a bolsa desabou”. Assim como ocorre hoje, depois do anúncio da demissão de Pedro Parente:

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COMO GLOBONEWS E CBN CRIARAM O “COXINHA”
(texto originalmente publicado em maio de 2017)
Hoje (5a feira 18/5/2017, dia seguinte à divulgação do áudio do grampo em Temer) fiquei o dia todo pendurado na Bandnews, por conta dessa bomba. Fazia anos que não ouvia coisas do gênero, como CBN (que tava fora do ar hoje).
 
É impressionante como essas rádios de noticia são “para yuppies”:
 
– Todas têm “colunista de vinhos”; “investimentos no mercado financeiro”; “alta gastronomia”; “viagens”; “empreendedorismo e startups”; “fitness” (sim: em inglês!); “comportamento (descolado)”; etc.
 
Não é à toa que a classe média brasileira – ouvindo isso 24h por dia (no carro, na sala de espera do dentista, no táxi…) – passou a se achar “empreendedor”, “investidor”, “sofisticado”.
 
“Muito diferente do povão”, né… fala sério!

O que eles não veem é que não valem o que eles pensam que valem “em dólar“.
 
O valor deles é diretamente proporcional ao da economia brasileira.
 
Eles não são “tradable“.
 
Não podem ser exportados: só o Brasil os compra “pelo valor de face”.
 
Dessa forma, eles não vão bem se o Brasil for mal.
 
E aí não podem mais viajar pra Miami com tanta frequência…
 
Não por acaso, cada grande desvalorização cambial causa um enorme ódio na classe média:
 
– Da noite para dia ela “descobre” que não vale o que ela achava que valia… “em dólar”.
 
O novo câmbio, baixo, é o choque de realidade que a acorda do sonho…
 
– … do sonho americano, bem entendido!
 
E a nova viagem à Disney, no câmbio desfavorável, esfrega isso, dolorosamente, na sua cara…
 
De maneira inexorável…
 
Como só números sabem fazer:
 
– Você não vale o que você achava que valia…
 
E é nessa hora que ela se dá conta de que o seu bolso é diretamente proporcional ao – “maldito!” – Brasil.
 
Sim…
 
O Brasil daquela gentinha “indolente”, “morena” e nada “refinada”.
 
Que não sabe harmonizar vinhos, não lê livros sobre “liderança” e que – imagina! – está a anos luz da nova série-fenômeno do Netflix…
 
Também pudera: nem falar português direito eles falam… que dirá ver série em inglês!
 
Piada, né?
 
*
 
Entendem como o choque cambial é dolorido?
 
De uma hora para a outra a classe média é lembrada, sem muito tato, de que ela está mais para “aquela gentinha” do que para um…
 
– … americano!
 
“Ninguém merece”, né??
 
Mas é a verdade, ora!
 
Aceita que dói menos:
 
– Você, classe média, vale tanto quanto o Brasil – no seu conjunto!
 
Se ele, como um todo, vai bem, você vai bem…
 
Se ele vai mal, você vai mal!
 
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Problema:
 
Com o austericídio da “PEC da Morte” – mesmo que focado quase que exclusivamente no povão – não tem como o Brasil – no seu conjunto – ir bem.
 
Por isso:
 
Tsc, tsc, tsc, classe média…
 
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To divagando, mas enfim…
 
Dá pra entender em parte o fenômeno “coxinha” ouvindo essas rádios de notícia 24h e a Globonews.
 
De novo:
 
– Com “colunista de vinhos” (importado$!); “investimentos no mercado financeiro” (“compro dólar?”); “alta gastronomia” (a “trufa” também é importada, sabe…); “viagens” (em dólar!); “empreendedorismo e startups” (igualzinho à Califórnia!); “fitness” (sim: em inglês!); “comportamento descolado (ou seria “cool”?)”; etc.
 
*
 
Um amigo confirma: “você vê 4 horas de Globonews por dia e vira um ‘democrata eleitor da Hillary’. É inevitável…”
 
Ao que respondo: lógico. A linha editorial econômica é a da Febraban. Nas vozes de Miriam Leitão, Sardenberg e cia.
 
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Com o discurso:
 
– Isso beneficia você, (projeto de) yuppie!
Malandrão…
Agora você é um ‘investidor’ da Bolsa!
Uau!
E tá no caminho do ~sucesso~ com os preciosos ensinamentos de obras seminais como:
– “Pai rico, pai pobre”;
– “O Segredo”; e
– “O monge e o executivo”.
Já sabe “se vender”, “liderar” e… “empreender”!
Com um arsenal desses ninguém $egura!
 
E, é claro, na entrada e na saída do quadro daquele colunista econômico na rádio:
 
– Comercial da corretora!
 
(“num oferecimento da XP investimentos”)
 
Sim porque o grosso do dinheiro do (projeto de) yuppie vem de especulação na Bolsa…
 
E não do salário dele no fim do mês (!)
 
E, consequentemente, do emprego dele…
 
Do tra-ba-lho!
 
(“essa coisa vulgar”)
 
Portanto, o seu bolso depende MUITO mais de o seu emprego continuar existindo…
 
Do que de quanto subiram as ações da Vale e do Itaú no trimestre.
 
Dessa forma, o (projeto de) yuppie depende ~muito mais~ de a economia real ir bem…
 
Do que de o “Mercado” ir bem.
 
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Vemos coisas como funcionários públicos defendendo reforma da previdência e reforma trabalhista (!) Se falar em privatizar o setor dele dá um chilique… mas, fora isso, quer mais é que privatizem o mundo inteiro (dos outros!). O mantra assimilado é: “não pode ter Estado porque, se tiver, eles vão roubar”.
 
Sonham com um mundo em que Armínios Fragas debatem política pública e em que a população fica devidamente afastada de qualquer influência no processo decisório, só “escolhendo” (?) se mandará o Fraga, o Meirelles ou o Levy.
Pequenos comerciantes, autônomos, profissionais liberais, pessoas que têm um pequeno comércio ou escritório, consultório, etc., acabam por empregar alguns funcionários (além da doméstica em casa, é claro!).
 
São tão povo quanto os seus empregados. Ou, no máximo, um extrato superior da classe trabalhadora.
 
Pois hoje, com a captura ideológica aqui descrita, essas pessoas se consideram “empresários”… “empreendedores”! E se acham “importantíssimas” porque geram esses… empregos. Pior: repetem – e talvez até mesmo achem (dissonância cognitiva explica) – que “só elas trabalham nesse país”…
 
E consideram a classe trabalhadora desprezível: “sempre querendo passar a perna no patrão”.
 
Ah, e “mamar no Estado”!

Estado esse que são elas, pessoas “de bem”, as que “trabalham duro”, que sustentam…
 
– … “com esses impostos altíssimos… uma injustiça absurda!”
 
– Impostos que, “quando não roubados pelos malditos políticos, são gastos com esses vagabundos aproveitadores…”
 
– “Vagabundos esses que, reduzidos à sua torpeza clientelista, mantêm esses mesmos ladrões no poder”…
 
– “Ambos se aliando para, juntos, roubar a riqueza criada pelo Brasil que trabalha”…
 
– “Num ciclo sem fim de roubalheira institucionalizada!”
 
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“Hunf…”
 
– “Brasil de merda! Como eu queria poder morar em Miami!”
 
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Ou seja: a classe média está no 99% mas se crê mesmo no 1% – e, por isso, sustenta socialmente o interesse econômico do… 1%.
 
No genial dito que circula pela internet:
 
A classe dominante não tem ódio.
A classe dominante tem astúcia.
O ódio ela terceiriza e não se expõe.
O que não falta são Bolsonaros (e Bolso-minions!) para defendê-la.
 
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“Wall St.” – tão perto… e tão distante…
 
 
 

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.