A marca “Haddad” e a busca pelo sucesso: “não é Bolsonaro” ou “é Lula (e além!)”?
Por Gustavo Galvão (*), para o Duplo Expresso
- A campanha de Haddad parece seguir script escrito para ela pelos marqueteiros de… Bolsonaro (!)
- A nova aposta, em “Haddad não é Bolsonaro”, significa desistir de mostrar “quem é o melhor”, para focar no “quem é o pior”.
- A posição que trouxe Haddad até aqui é: “Haddad é Lula”, “o Brasil feliz de novo”. O fato de essa posição não ter levado ainda a uma posição majoritária não significa nem que ela venha a ser necessariamente bem-sucedida nem que não será. A grande questão é que essa posição não pode ser alterada sem grandes custos e grandes perdas no curto prazo. Se cuspir no prato que está comendo, ou seja, se mudar muito de posição, os eleitores que lhe rejeitam continuarão rejeitando, os indecisos tendem a ter mais dúvidas e seus eleitores podem diminuir a motivação em fazer campanha.
- Perder com honra pode muitas vezes ser melhor do que ganhar com desonra. Mas certamente é melhor do que o pior dos mundos: perder com desonra.
(*) Doutor em economia pela UFRJ, economista do BNDES licenciado, assessor parlamentar e comentarista de Economia do Duplo Expresso.
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“Andrade é Lula”. Isso trouxe Haddad ao segundo turno. Mas se mostrou insuficiente no segundo turno em razão do aumento de mais de 15 pontos percentuais do Bolsonaro em uma semana, sendo que metade disse aconteceu em 24 horas, por razões ainda inexplicáveis, segundo a campanha do Haddad.
Dessa forma, a campanha do Haddad decidiu, “Andrade não é mais Lula”, a palavra de ordem agora é: “Haddad não é Bolsonaro”.
Uai, será que o eleitor já não sabia disso?
Explico. Na falta de ideia melhor, parece que a campanha de Haddad está investindo tudo no “medo do fascismo, machismo e todos os ismos associados ao Bolsonaro”.
Imagino que eles devem estar com as pesquisas em mãos para garantir que isso dará certo.
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Pesquisas
Eu não tenho pesquisas à mão, hoje sou um mero palpiteiro. Mas tenho alguma experiência com pesquisas. Meu pai é proprietário de uma empresa de pesquisas eleitorais competente, prestigiada e com 40 anos de mercado. Baseado nisso, vou dar algumas modestas opiniões.
Tudo indica que a estratégia “Haddad não é Bolsonaro” não será suficiente no campo estritamente da campanha eleitoral. Primeiro, porque nem a classe média sabe direito o que é fascismo e muitos que sabem aprovam. Já as classes populares devem pensar assim: “como que esse tal de fascismo me prejudica?” Temo que se Haddad perder mais tempo explicando pode ser até pior, o povo pode acabar concluindo que o fascismo não os prejudica muito, ou até que seja bom. Ao menos agora é só um palavrão usado para xingar alguém.
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Mensagens
Essa estratégia de “Haddad não é Bolsonaro” além dos problemas do conteúdo em si, ela ainda tem que chegar na casa das pessoas para explicar os “ismos”.
Por outro lado, a campanha do Bolsonaro está diariamente na casa de todos os brasileiros, em razão da fantástica rede de grupos de Whatsapp dele e também pela sua grande capacidade de gerar frases de efeito e polêmicas.
As mensagens da campanha do Haddad chegam na casa das pessoas eventualmente e, pior, sem impacto, sem estarem vinculadas a um arcabouço compreensível e atraente.
Aliás, pior ainda, a campanha do Haddad parece que está seguindo o script escrito para ela pelos próprios marqueteiros do Bolsonaro, por exemplo:
- Dizem que PT e PSDB são igualmente corruptos, farinha do mesmo saco e falsamente adversários. E bingo: Haddad e Jacques Wagner convidam FHC e o PSDB e outros políticos tradicionais para compor uma frente conjunta.
- Dizem que Bolsonaro é a mudança e o PT é a manutenção de tudo o que está aí. E bingo: PT defende uma Frente de toda a classe política desta “democracia que está aí” contra Bolsonaro. E bingo bônus: é uma Frente que não está em torno de nenhuma proposta de mudança, ao contrário, é só contrário à mudança prometida por Bolsonaro. Para piorar, uma frente com FHC deve expulsar muita gente boa e que realmente tem voto.
- Dizem que o PT, com essa ideologia de gênero e seu gaysismo (esse ismo o povo entende), é contra a família brasileira. E bingo: a campanha do Haddad coloca de vice uma mulher fortemente ligada a essas causas e que abertamente se coloca a favor da ideologia de gênero, independência feminina (com aborto), dos gays, ainda se enchendo de bandeiras arco-íris e fotos de um candidato bonitão, moderninho e engomadinho sempre entre a bela esposa e a linda Manoela, que em alguns momentos parece também ser a esposa ou namorada, dando a entender um relacionamento triangular, o que deve gerar inveja aos homens e repulsa nos moralistas. Depois dessa “confusão semiótica” ainda chamam os eleitores de Bolsonaro de misóginos. Por causa disso, depois de explicar o que é fascismo, vai ter que explicar o que é misógino….
- Dizem que o PT inventa os direitos humanos só para proteger os bandidos e corruptos. E bingo: O PT reafirma que os direitos humanos são para todos, incluindo bandidos e corruptos. Nesse caso, como no anterior, é uma armadilha quase inevitável, em razão da obrigação do PT de ter a dignidade de defender Lula (o que, note-se, não se tem verificado). Cabe à campanha mudar de assunto.
- Dizem que o PT e o Haddad são “o sistema” (o mesmo “sistema” que está nos filmes daquele diretor fascista, americanófilo e agora californiano). E bingo: Haddad parece estar tentando reunir todo o sistema político no #elenão e acenando para o judiciário e a grande mídia por apoio. Outro dia o Bolsonaro disse que o segundo turno será “uma campanha entre o bem e o mal”. Se a decisão continuar sendo essa de acenar para “o sistema”, não pode ser mais discreto?
- #Elenão. E bingo: “falem mal mas falem de mim”, essa campanha desperta ainda mais curiosidade em relação ao adversário, centraliza “Ele”, gera polêmica com o seu nome, dando a “Ele” chances de se manter 24 horas por dia na casa das pessoas, com mais a oportunidade de se defender de forma muito favorável. Nada melhor do que ser um #perseguidoportodos.
Para piorar, o tema de campanha tornou-se assim “valores”, com “micaretas” espalhadas pelo Brasil que mais pareciam paradas do orgulho gay fora de época. Isso, num país que caminha a passos largos para se tornar o “Evangelistão do Sul”.
E, depois, os “ingênuos” organizadores foram surpreendidos com a informação de que falsificações e montagens grassavam nas redes de Bolsonaro no WhatsApp, com fotos de outros eventos, anteriores, às vezes fora do Brasil, com mulheres nuas estilo Femen, travesti caracterizado de Jesus Cristo crucificado e de um homem nu enfiando um enorme crucifixo no seu fiofó.
Nada contra a ideia por trás do movimento #EleNão. Pelo contrário. O problema é que, como vimos, ele foi muito facilmente instrumentalizado pelo outro lado. A campanha de Haddad não pode depender de algo que, ressalvados todos os seus méritos, ao fim e ao cabo teve efeito político-eleitoral líquido negativo. - Bolsonaro disse que houve fraude nas urnas para impedir que ele ganhasse no primeiro turno, apesar das evidências em sentido inverso. E bingo: O PT pede para o TSE (quem supostamente pode fazer as fraudes das urnas) para proibir que Bolsonaro denuncie que houve fraude nas urnas. (link para provar, pois realmente é difícil de acreditar que o PT pediu isso)
- Há diversos outros exemplos similares.
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Estratégia exclusiva
A aposta do “Haddad não é Bolsonaro” significa desistir de mostrar “quem é o melhor”, mas focar no “quem é o pior”. Tudo indica que isso pode não funcionar como estratégia exclusiva, porque:
- o que a campanha do Haddad define como “pior” não é sentido como realmente pior pela maior parte da classe média e dos pobres;
- a campanha do Bolsonaro já se preparou para neutralizar esse discurso e está diariamente nas casas das pessoas para (tentar) inverter ou ridicularizar instantaneamente quaisquer dessas mensagens da campanha do Haddad;
- Se o Bolsonaro consegue trazer esperança, mudança e perspectiva de melhoria real em alguma coisa (segurança), mesmo que Haddad consiga mostrar que #elenão encerra graves riscos, o cidadão, que está desesperado por mudança, pode apostar nele mesmo com medo de não dar certo. Ou seja, se Bolsonaro consegue mostrar que é o melhor, não adianta tanto investir exclusivamente na disputa de “quem é o pior”.
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Estratégia subjacente?
Aparentemente essa aposta, “Haddad não é Bolsonaro”, parece contar com um possível futuro apoio (não sei se para ajudar ou prejudicar) da Globo, Veja, Altas Finanças, forças externas, partidos de direita (chamado de centro depois da prisão de Lula), judiciário, polícia federal, ministério público. Espera-se que essas forças possam investir nas muitas vulnerabilidades do Bolsonaro. Isso realmente pode funcionar eleitoralmente, se atingir em algum “calcanhar de Aquiles”. Essa seria a “esperança branca”, a cavalaria que espera a campanha do Haddad? Afinal qual outra explicação para tantos acenos visíveis a esses grupos?
De fato, é correta a análise que Bolsonaro é uma ameaça a essas forças muito maior do que Haddad ou o PT. Aliás, essas forças vicejaram felizes nos governos do PT e ninguém sabe ainda por que resolveram “tocar fogo em Roma”.
Realmente parece que algumas delas já estão percebendo isso e começam a sair da campanha do Bolsonaro, apesar de estarem “de cabeça” nela até outro dia.
O problema é que a campanha do Bolsonaro se colocou em uma posição vitoriosa e essas forças são antes de tudo oportunistas e covardes, elas não querem ficar inimigas de um presidente autoritário e não ficarão. Ao menos não abertamente.
Então pode ser inútil e até contraproducente a campanha do Haddad perder tempo namorando essas forças. Afinal de contas, já é óbvio que Haddad não representa ameaça nenhuma e que Bolsonaro é uma incógnita.
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A clareza da posição
Um dos problemas do Haddad é a falta clareza em sua posição. A posição, a marca, do Bolsonaro é clara, compreendida e firme “vou matar bandidos na favela, prender adolescentes marginais, prender ou matar corruptos e reduzir direitos sociais ou trabalhistas que prejudicam os patrões ou oneram o Estado”. Ele confirma essa posição sempre sem pudor, mesmo quando questionado sobre as contradições e efeitos colaterais dessas políticas.
Por exemplo, se questionado se suas políticas podem matar ou prender inocentes, ele responde que isso é inevitável e um preço a ser pago. Se questionado sobre as pessoas que vão perder os direitos, ele os chama de vagabundos, corruptos ou pervertidos. Ou seja, ele mantem sua posição de forma clara, simples, sólida e aparentemente franca não importando qual seja o questionamento. Essa posição dele não é exatamente minoritária, também não se pode dizer que seja majoritária. Mas sempre foi grande, sempre foi uma posição forte. Porém, no passado, o que o PT oferecia era muito mais gostoso do que “matar bandidos e corruptos”: emprego, salário, churrasco, celular, carro novo e casa nova.
Evidentemente que a posição dele melhorou com o tempo com ajuda da mídia, do judiciário, dos factoides e de sua incrível rede grupos de WhatsApp. Eles criam uma sensação cada vez maior nas pessoas de que a posição do #elenão é correta. Isso foi construído ao longo de anos e assim ele tem um bom contingente populacional a seu favor. Muitos fanatizados.
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Uma sugestão estratégica
Não mudar de posição. Deixar sua velha e conhecida posição cada vez mais clara, direta, simples e franca, como faz Bolsonaro.
A posição que trouxe Haddad até aqui é: “Haddad é Lula”, “o Brasil feliz de novo”. O fato de essa posição não ter levado ainda a uma posição majoritária não significa nem que ela venha a ser necessariamente bem-sucedida nem que não será. A grande questão é que essa posição não pode ser alterada sem grandes custos e grandes perdas a curto prazo. Se “cuspir no prato que está comendo”, ou seja, se mudar muito de posição, os eleitores que lhe rejeitam continuarão rejeitando, os indecisos tendem a ter mais dúvidas e seus eleitores podem diminuir a motivação em fazer campanha. Ao menos nas primeiras semanas. Além disso, o adversário não é um alvo fixo. Ao contrário, ele se mexe muito rapidamente e de forma estratégica. Ele vai questionar assim: “tá vendo, até Haddad tem vergonha e se esconde de Lula”. Como responder a isso?
Parece-me mais sensato, ao invés de mudar de posição, fortalecer a própria posição. Fazer uma nova faixa de tijolos de pedra sobre os muros de sua fortaleza para deixa-la mais alta e forte. Como faria isso?
Se Haddad é Lula, se é PT, se é esquerda, se é pro-pobres, se é pro-povo, então entregue “mais do mesmo” para quem foi sua base e estavam do seu lado até outro dia, ao invés de apostar naqueles que sempre estiveram contra.
O jornalista César Fonseca, do Blog Independência Sul-americana, publicou um artigo com propostas nessa direção e uma delas eu copiei e vou usar como exemplo:
– Se “Haddad é Lula” e Lula aumentou muito o salário mínimo, Haddad pode aumentar ainda mais. Como o momento exige medidas impactantes, Cesár Fonseca sugeriu aumentar, de cara, o salário mínimo para R$ 1.500,00. Isso pode ser feito antes ou depois de acabar com a “PEC do Congelamento do Estado e dos gastos sociais”, como veremos logo abaixo.
Ele sugere um grande conjunto de ótimas propostas nessa direção que igualmente significam que “Haddad é Lula mesmo, pra valer, e não só um slogan vazio”.
E isso não significa que Haddad seja um poste e não deva colocar sua própria natureza, ideias e personalidade na campanha. Ele pode e deve ser “muito Haddad”. Mas sem deixar de ser “Lula mesmo e pra valer”.
Haddad é um professor bem preparado, com experiência de governo e mestrado em economia. Então ele deve usar suas qualidades pessoais para mostrar que “é muito Haddad além de ser muito Lula” e explicar por que um salário mínimo de R$ 1.500,00 reais é perfeitamente possível e financiável e em quais condições. Sobre isso explicamos no apêndice abaixo.
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Controlar a agenda: a verdadeira Ponte para o Futuro
Se o “Marcos – Ponte para o Futuro – Lisboa” ficar magoado ou com inveja dos conhecimentos superiores de economia do “Haddad é também Haddad”, tanto melhor. Deixe que ele vá para a campanha do Bolsonaro, porque assim poderá chama-lo de “Jair – Ponte para o Futuro – Bolsonaro”.
Essa é uma das poucas formas de furar o bloqueio das incríveis redes de grupos de WhatsApp do Bolsonaro, que certamente atingem diariamente mais de 100 milhões de pessoas direta ou indiretamente.
Um aumento de 50% no salário mínimo não pode ser escondido, não pode ser respondido, neutralizado, reprimido, ridicularizado ou amenizado. Com isso, Haddad passa a ser o dono da agenda eleitoral e invadirá todas as casas, colocará novamente a agenda das eleições na mão do PT, o que não acontecia desde o “atentado” (fake – aqui e aqui) de Juiz de Fora.
Dessa forma, joga a eleição na temática que lhe interessa e de que Bolsonaro tem horror: economia e política social. E mais: isso é Lula até a medula; e é o Lula de que todo mundo se recorda, o lado bom e saudoso de Lula. Assim Haddad mantém e reforça sua posição de Haddad é Lula, mas vai além, “Haddad é Lula + R$ 500 e sendo também muito Haddad”.
Se vai dar certo, eu deixo para ser avaliado pelos marqueteiros. Mas de uma coisa eu não tenho dúvidas: “Perder com honra pode muitas vezes ser melhor do que ganhar com desonra. Mas certamente é melhor do que o pior dos mundos: perder com desonra”.
Cuidado: se o Haddad não tiver interesse em uma proposta como essa, talvez até Bolsonaro ou Ciro tenham. Não é apenas a Nova República que acabou, o neoliberalismo também. E em breve será enterrado. O próximo governante, quem quer que seja, será diferente de tudo o que foram seus antecessores. É tempo de coragem e ousadia. Alguém tem dúvidas? Bolsonaro não.
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Apêndice do texto para quem gosta de economia
Exemplo detalhado
Não precisa nem acabar com a “PEC do Congelamento do Estado e dos gastos sociais” antes de aumentar o salário mínimo. É possível aumenta-lo já em março com aprovação do Congresso Nacional, que jamais seria contra o aumento do salário mínimo.
O “salário mínimo total” iria imediatamente para 1500 reais. Sendo que 500 reais seriam pagos em vale refeição/alimentação. Até o final do mandato, o “salário mínimo total” ultrapassaria 2000 reais, já prometido em campanha. Sendo que 30% serão sempre pagos com vale refeição/alimentação.
Vantagens
Ao fazer isso haveria muitas vantagens:
- Primeiro, pesaria muito menos sobre as empresas, porque não há incidência de encargos e benefícios sobre o vale refeição/alimentação.
- traria o apoio dos setores beneficiados, como agropecuária, indústria e comércio de alimentos e restaurantes. Uma boa coincidência no caso é que esses setores são normalmente o que pagam salários mais baixos e, portanto, são os que mais resistem ao aumento do salário mínimo, mas nesse caso, como são diretamente beneficiados, não haveria resistência.
- Não precisaria esperar acabar com o teto dos gastos (o que é inevitável, vença quem vencer), o que explicarei abaixo.
- Não afetaria o caixa das empresas no curto prazo, porque o aumento salarial seria financiado com taxas de juros baixas, como mostraremos abaixo.
- Em termos de crescimento econômico o impacto é gigante e só com isso o país sairia imediatamente da crise econômica, com as contas públicas melhorando rapidamente. Dois fatores fazem com que o impacto de geração empregos nas classes mais favorecidas seja especialmente importante: (a) o coeficiente de importação desses setores é muito pequeno, o que direciona o consumo adicional para a produção e o emprego nacional, (b) esses setores são normalmente intensivos em mão de obra, especialmente a menos qualificada, a mesma classe que está hoje com o consumo mais reprimido.
- Não prejudicaria quase nada a competitividade da indústria brasileira porque o salário médio na indústria teria um impacto muito pequeno em razão do não-efeito nos encargos e benefícios e pelo fato de a média salarial na indústria ser maior do que o mínimo. Como o dólar deve subir um pouco ainda, qualquer pequeno aumento salarial seria mais do que compensado com um dólar mais alto. Além disso, com o dólar mais alto nos últimos meses, a competitividade da indústria já tem melhorado bastante.
- Não prejudicaria a inflação porque os setores alimentares são apenas uma parte dos índices de inflação e o dinheiro adicional na economia irrigaria basicamente setores onde há imensa capacidade de oferta no Brasil ou que tem preços internacionais.
- Cabe salientar que os componentes que realmente devem trazer preocupação em relação à inflação brasileira são: preço do dólar e do aluguel (inflação de salários é desejável) e esses não serão afetados. A capacidade de o governo manter o preço do dólar controlado depende das reservas e do saldo em conta corrente do balanço de pagamentos. Em razão do baixo coeficiente de importação dos setores diretamente afetados, não haverá grande impacto sobre esses fatores. O preço do aluguel não será tão afetado, porque a capacidade do trabalhador pagar o aluguel será menos afetada porque o aumento salarial, exclusivamente por vale refeição, irá preferencialmente para alimentação, inibindo os proprietários de aumentar o valor do aluguel. Assim, além de não aumentar tanto a capacidade do trabalhador pagar o aluguel, também não aumenta tanto a capacidade de comprar os outros bens em geral e em especial os carros. Mais carros na rua aumenta o trânsito e, portanto, aumenta a disposição das pessoas de pagar mais caro o aluguel para morarem mais perto do trabalho.
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Como contornar o problema do Orçamento Público limitado do próximo ano
Em tese, essa política pode ser legalmente determinada apenas para o setor privado. Basta que não seja legalmente um aumento do salário mínimo, mas a criação de um “vale refeição mínimo” para trabalhadores.
Eu não sugiro isso, porque seria injusto com os aposentados e beneficiários de políticas sociais como benefício de prestação continuada e Bolsa Família, que também poderia ser reajustada ou até dobrar de valor com um adicional de vale refeição como faz o Governo Norte-Americano com a política de food stamps.
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Para atender as transferências sociais
Para criar também um “vale refeição mínimo” também para os aposentados, Bolsa Família e outros beneficiários de política social, dou a seguinte sugestão.
A União, Estados e municípios poderão ceder em leilões públicos e transparentes direitos creditórios de longo prazo aos bancos públicos (que não serão privatizados!), bancos privados e qualquer investidor apenas sobre a arrecadação de impostos nos setores agrícola, indústria de alimentos, comércio de alimentos e restaurantes.
O projeto de lei que permite essa política foi recentemente aprovado com apoio da direita bolsonariana no Senado com objetivos impublicáveis – muito bem denunciados e explicados por Maria Lúcia Fattorelli, da Auditoria Cidadã da Dívida. Esse projeto hoje é uma forma de destruir a capacidade de arrecadação do Estado e gerar lucros bilionários para alguns bancos de investimento em troca de um suposto benefício de curto prazo para Estados e municípios.
Porém, com pequenas modificações, o projeto pode ser usado com objetivos quase opostos aos que eram pretendidos.
Esses títulos poderão ser transacionados no mercado.
Serão resgatados a longo prazo pelo Tesouro Nacional ou podem ser resgatados antecipadamente por meio do pagamento de impostos sobre os setores agrícola, indústria e comércio de alimentos e restaurantes. Podem também ser resgatados como pagamento dos empréstimos agrícolas do Banco do Brasil ou como pagamento de empréstimos de qualquer banco público ou privado para os setores da indústria e comércio de alimentos ou restaurantes, desde que os fundos (funding) desses empréstimos sejam originados de fundos públicos previamente direcionados a esses setores, como depósitos compulsórios, partes do FGTS e outros fundos estatais ou paraestatais. Os bancos vão aceitar esse título como forma de saldar o serviço da dívida de seus empréstimos, se puderem resgatar antecipadamente esses títulos por meio do pagamento da dívida que eles têm com o fundo público previamente dedicado ao setor que ele usou como funding para seus empréstimos.
Mas não só. Esses títulos podem ser usados para saldar empréstimos que qualquer empresa tome para pagar a aquisição de cartões de vale refeição/ alimentação para seus funcionários. Para que a empresa de vale refeição/ alimentação aceite esses títulos como pagamento, ela terá que resgatá-los também antecipadamente pagando seus próprios impostos e, principalmente, pagando pelos recursos que ela possa usar, como sua própria fonte de financiamento (funding) que serão também os fundos públicos setoriais previamente disponibilizados para esses setores.
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