Utopia Brasileira

Por Pedro Augusto Pinho*, para o Duplo Expresso

O Brasil não fez revolução alguma, jamais. Não se revoltou para conquistar a independência política. Nem para tirar da escravidão cerca de metade da sua população. Nem para implantar a industrialização burguesa. É incrível que alguém tenha medo da revolução socialista. É irônico, mas constitui uma das tragédias brasileiras: inimigos inexistentes.

O acordo das elites invadiu a sociedade, por todas camadas sociais. É, efetivamente, o pensamento dominante no Brasil.
Nossa literatura, pelos mais consagrados autores, retrata esta forma de solução dos conflitos: o acordo, a desistência da luta. Quem mais icônico do que Machado de Assis para nos expor esta característica domesticada, com Bentinho, com Brás Cubas!

Vivemos neste momento, com a eleição de Jair Bolsonaro, o tríplice ataque ao País. O ataque ao Estado Nacional, um objetivo perseguido pelo sistema financeiro internacional, a banca. O ataque à economia nacional, pelos Joaquim Silvério dos Reis colocados nas áreas econômicas, financeiras, na Petrobras e outras estatais, com objetivo de privatizar tudo, alienar o patrimônio nacional, seja o natural ou seja o construído com nosso esforço e saber. E com o controle da justiça e da repressão – além dos incentivos aos ódios de gênero, de raça, riqueza ou saber, não dando oportunidade de saída – extinguir a paz social.
E aí poderíamos estar construindo uma instigante novidade: a revolução brasileira. Provavelmente sem o propósito de criar um Estado Nacional Soberano e Cidadão, mas para fugir de uma terra arrasada, um território despovoado, um país de ninguém.

Leiamos o que nos escreveu o gênio Darcy Ribeiro, na obra que elaborou ao longo de 30 anos e editou em 1995: “O Povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil” (Companhia das Letras, SP).

Nós, brasileiros somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que a mestiçagem jamais foi um crime ou pecado. Um povo até hoje na dura busca de seu destino. Estamos abertos é para o futuro”.
“Nações há no Novo Mundo – Estados Unidos, Canadá, Austrália – que são meros transplantes da Europa para amplos espaços de além-mar. Não apresentam novidade alguma neste mundo. São excedentes que não cabiam mais no Velho Mundo e aqui vieram repetir a Europa. São, a rigor, o oposto de nós.

E, plagiados e plagiadores, na ânsia de manter a conquista do que, a cada dia, na economia e na guerra, se lhes esvai, apelam para a mentira, para construção de um mundo tão real quanto o comunismo olaviano no Brasil.

Na sempre competente tradução da Vila Mandinga, tomo conhecimento das novas derrotas dos ingleses e seus clones estadunidenses no Oriente Médio alargado. O artigo do professor de Literatura Inglesa e Orientalismo, na Universidade de Teerã, Said Mohammad Marandi, ” Irã inspira medo irracional ao ocidente: desastre à vista” (Middle East Eye, 22/04/2019), mostra, confirma que Irã, Síria, Iêmen, Turquia e mesmo o atual Iraque impõem derrotas à dominação ocidental e israelense.

A economia neoliberal naufraga em constantes déficits, não mais cobertos com os tributos sobre trabalhadores europeus – que se revoltam – e pelo mundo, onde a miséria é a mais forte componente das insuficiências fiscais.
A força militar da Rússia é inconteste, como demonstra o recuo em bravatas dos Estados Unidos da América (EUA) diante da Venezuela.

O texto do professor Marandi trouxe-nos também um dos fundadores do romantismo inglês, William Wordsworth (1770-1850). Permitam-me, em tradução livre, ampliar a citação, concluindo este artigo, sem antes deixar de lembrar, aos mais esquecidos, que o traidor Silvério dos Reis, festejado pelas elites, foi casado com a tia do Duque de Caxias.

Foram chamados a exercer suas habilidades,
Não na Utopia, campos subterrâneos,
Ou alguma ilha secreta, sabe o céu onde!
Mas no mundo mesmo, que é o mundo
De todos nós – o lugar onde ao fim
Encontramos nossa felicidade, ou não, para todos.

(Were called upon to exercise their skill, Not in Utopia, subterranean fields, Or some secret island, heavens know where! But in the very world, which is the world Of all of us – the place where in the end We find our happiness, or not at all, em William Wordsworth, The Major Works, Oxford University Press, Oxford, 1984).


*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

Acha importante o nosso trabalho? Fácil - clique no botão abaixo para apoiá-lo:

Facebook Comments