“Cui Bono” (finalmente): quem matou Marielle? E por quê?

Sim, os Bolsonaro são parte da trama. Mas de forma ainda mais sinistra do que vem especulando o senso comum na atualidade.
Dossiê completo, no estilo D.E. (relatos de fontes, devidamente checados, links e prints. Muitos prints…)
Mais — EXCLUSIVO: as “esquisitices” apontadas pelos laudos da perícia criminal do local do assassinato, contradizendo a narrativa oficial em diversos pontos. Sim, temos os laudos! E também a análise dos mesmos, feita por perito veterano, amigo do blog. (ver final)

Publicado 3/nov/2019 — 01:26
Atualizado 3/nov/ 2019 — 13:45 — EXCLUSIVO: as “esquisitices” apontadas pelos laudos da perícia criminal do local do assassinato. (ver final)
Atualizado 5/nov/ 2019 — 13:35 — vídeos:  (i) “Quem matou Marielle: a live”; (ii)“O plano ‘Evangelistão do Pó’ (fardado!)”; (iii) “Dando nome aos bois”. (ver final)

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

Já está se tornando recorrente o celebrado jornalista Pepe Escobar abrir suas participações no Programa Duplo Expresso dizendo que só o D.E. faz jornalismo investigativo no Brasil:

 

Exagero à parte, é certo que ninguém no chamado “PIGuinho Vermelho” – os veículos que (interessadamente) orbitam o PT desde os tempos em que esse passou a poder oferecer banners de estatais federais em seus sites a R$ 200 mil/ mês cada – faz a pergunta mais básica do jornalismo investigativo: “cui bono?”. Do latim, “quem sai ganhando?”.

É certo também que, “estranhamente”, mesmo alertados – às vezes até em reveladoras intervenções ao vivo em suas transmissões (mais de uma) –, nenhum desses veículos ousa falar dos Projetos de Lei que constituem as pernas do chamado “Patriot Act” Tabajara, que permitem o fechamento – de fato – do regime (PL 2418/ 2019, PL 1595/ 2019, PL 443/2019, PL 3389/ 2019):

 

 

Tais PLs tramitam na Câmara desde o primeiro semestre deste ano, no mais absoluto sigilo. Ou melhor, assim caminhavam – até o Duplo Expresso, e o bravo Deputado Glauber Braga, entrarem em campo e furarem o muro de silêncio avençado entre governo e “oposição”. Entre PIG e “PIGuinho vermelho”.

E por que falamos disso agora? Em artigo intitulado “‘Cui Bono’ (finalmente): quem matou Marielle? E por quê?”. Ora, porque uma coisa está intimamente ligada à outra.

Desde o dia seguinte ao assassinato da ex-vereadora Marielle Franco, o Duplo Expresso ousou fazer a (perturbadora) pergunta – “cui bono?”:

O nome da rosa: Marielle
15/mar/2018

A vereadora foi assassinada dentro do carro a tiros na noite de 14/03/18, na Rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, região central da cidade do Rio de Janeiro. O motorista também foi baleado e morto, enquanto a assessora que a acompanhava, Fernanda, sobreviveu.

A notícia do assassinato a sangue frio da vereadora caiu como uma bomba – também semiótica. Fontes na Polícia do Rio rapidamente se colocaram à disposição. Enfáticas, afirmam que o caso é um enigma. As milícias são uma espécie de “inimiga íntima” da Polícia, velhas conhecidas. Estranharam, portanto, a execução (i) de uma autoridade (ii) em período já extremamente conturbado: não apenas eleições se aproximam como, com a intervenção federal, todos os refletores voltam-se, justamente, para o Rio de Janeiro – e para as falhas na sua política de segurança pública. Tal “ousadia” foge aos padrões de atuação das milícias, que preferem sempre as sombras. Ao contrário, a execução de Marielle coloca um refletor de alta potência voltado para a ferida aberta da segurança pública e para as hordas criminosas que, como tumores, surgem no corpo enfermo da polícia do Estado.

Cui bono? A quem beneficia? E, no verso da moeda, a quem prejudica?

(…)

Marielle parece ser um dos casos em que as “instituições” tentarão nos empurrar o “óbvio”. No entanto, depois da sofisticação dos ataques híbridos de que tem sido vítima, espera-se que a sociedade brasileira relute em sucumbir, mais uma vez, a sugestionamento. Assim como em “O nome da rosa”, somente uma investigação – sem concessões – poderá revelar a verdade, por mais terrível que essa possa ser.

 

Voltamos ao presente. Depois da (não) “polêmica” nesta semana com Luis Nassif, blogueiro de conduta “controversa”, sobre se havia ou não sistema de interfone no condomínio em que mora Jair Bolsonaro (ver “Exclusivo: porteiro some; interfone aparece — live especial” – 31/out/2019) – e há! –, a questão ganha novos contornos.

Importante registrar – apenas 36h depois, de próprio punho, Luis Nassif admite que mentia. A conclusão, mais uma vez: “Duplo Expresso: a verdade chega primeiro”.

 

 

 

 

 

 

 

*

Voltemos ao caso Marielle.

Antes de ser fulminada pela confissão do próprio Nassif de que mentira, a (não) “polêmica” sobre o interfone havia incendiado as seções de comentário de sites e blogs. E foi nesse contexto que fui notificado pelo Facebook da marcação do meu nome na (simpática) postagem abaixo:

Romulus Maya é o mais independente jornalista do país hoje, que está revelando os podres do jornalismo de “esquerda” que não passa de uma das pernas do mesmo processo de guerra híbrida. Acompanhem o Duplo Expresso, seu canal, que tem colaboradores preciosos.

Hoje ele desmente a mentira de Luis Nassif, segundo a qual não existe interfone no condomínio de Bolsonaro. Existe sim. E o porteiro não está de férias, está desaparecido.

Continuo duvidando dos interesses que Bolsonaro e sua família teriam em matar um vereadora combatente mas ainda pouco expressiva à época em que foi executada. Não que eles não fossem capazes, mas ainda é muito nebuloso o nexo entre um e outro.

De qualquer maneira, não é publicando barrigada e mentiras facilmente refutáveis que vai se chegar à verdade nesse caso.

 

Nos comentários, deparei-me com uma tentativa de análise do fator “cui bono” no assassinato de Marielle Franco. Mas muuuito “insatisfatória” ainda, digamos:

 

Como nós mesmos falávamos — desde o dia do assassinato e novamente nesta semana — sobre o “cui bono”, resolvi fazer as devidas pontuações:

(…)

Transcrição do comentário:
(ora complementado com abundância de prints e links, no estilo D.E. de dossiê)

Pois é. Não passa no teste da verossimilhança. Março de 2018. Eleições em apenas sete meses, com Bolsonaro já favorito. O (suposto) “embate” de Carlos Bolsonaro com Mariele, levantado agora em veículos do PIGuinho Vermelho, foi… um ano antes. Em maio de 2017. E nem foi com ela. Foi com assessor que foi dar um tour da Câmara de Vereadores para amigos que o visitavam e, provocador, “emancipado” e “empoderado”, parou na porta do gabinete do “Carluxo” para “lacrar”: disse em viva voz que “o filho de um deputado ‘ultraconservador’ que beirava o ‘fascismo’” dava expediente ali.

Era verdade.

Mas o “empoderado lacrador” esperava que um “fascista” ouvisse isso calado?

Sempre ouvi que vingança era um prato que se comia frio. Mas nunca vi tanta desproporção numa reação:

(1) Assessor fala que Bolsonaro é fascista na frente do filho;
(2) Os Bolsonaro, então, mandam matar a sua… CHEFE;
(3) Mas, “apenas”, 1 ano depois (!)

(incidentalmente, apenas 7 meses antes da votação presidencial em que o chefe do clã era favorito;
e em que lograria eleger, ainda, todos os filhos que se candidataram a cargos eletivos naquele ano)

Em tempo: o tal assessor, ofensor da honra familiar, segue… vivo.

Essa de “recado” para Freixo é nova para mim. rs

Recado para quê?

O que Freixo estava fazendo que poderia parar de fazer, em março de 2018, caso submetido a pressão, ameaça, “recado”?

Só consigo pensar, naquele momento histórico, em criticar veementemente – e colocar lupa – na intervenção militar na Segurança do Rio de Janeiro de Temer/ General Etchegoyen. E nas ações de tomada de território da facção criminosa Comando Vermelho pelas Forças Armadas. Que, na verdade, longe de serem “liberadas” e ocupadas pelos Estado eram repassadas, de forma branca, à administração por facção criminosa rival ao Comando Vermelho. Não por acaso, a associada local do PCC paulista:

 

Sim, o PCC… aquele capaz de celebrar – e fazer observar na sua hinterland – a “pax paulista”, pactada clandestinamente com o PSDB (que dirige SP há três décadas): em pagando o “pedágio” devido, pode traficar à vontade. Em troca, o PCC compromete-se a coibir assassinatos e enfrentamentos com a polícia na sua área de atuação. Proibindo, inclusive, o porte de armamento ostensivo. E, até mesmo, o uso de fuzis. A intervenção federal visava, justamente, a exportar o modelo para o Rio de Janeiro. Plano piloto para o que viria na sequência: o projeto “Evangelistão do pó”.

 

Hoje, com os Generais sucessores de Etchegoyen no GSI e com a Juristocracia peessedebista no Ministério da Justiça, já se caminha para a exportação da “pax paulista” para todo o Brasil. É nesse contexto que se compreende a “estranha” relocação, neste ano (2019), dos “capi” do PCC e do CV para certos presídios federais. Quase todo o comando do PCC foi levado para Brasília. Ou seja, do ladinho de Sergio Moro e dos Generais do GSI. Incluindo até mesmo Marcola. E “Marcolinha”, o seu irmão e principal conselheiro:

 

 

 

Dali, de Brasília, Juristocracia, Generais do GSI e PCC administram a associação entre essa facção criminosa e o CV, antes inimigas (literalmente) mortais. A intervenção federal tocada pelo mesmo GSI, então do General Etchegoyen, visou justamente a enfraquecer a posição relativa do CV, para que esse fosse forçado a entrar no “acordão”. Como sinal – mafioso – de sua “boa-fé” nas negociações, Beira-Mar havia mandado no final de 2018 uma de suas filhas, sozinha, para uma “visita” em favela de SP controlada pelo PCC (evento conhecido pela cúpula da segurança pública de mais de um Estado). Poderia voltar em pedaços. Afinal, meses antes, membros do CV e do PCC decapitavam-se, literalmente, em presídios Brasil afora:

 

 

 

Com o sucesso nas negociações entre PCC e CV, contando com a mediação de Juristocracia e Generais, contudo, a filha de Fernandinho Beira-Mar retornou sã e salva para casa, dias depois. Um armistício foi selado. De lá para cá, do final de 2018 até março de 2019, os termos do “tratado de paz” e da associação comercial entre as duas facções – e também Juristocracia e Generais, evidentemente – foram negociados. Para a “cerimônia de assinatura”, o Ministério da Justiça de Sergio Moro reuniu por um mês, em um mesmo presídio federal (Porto Velho), Marcola, pelo PCC, e Fernandinho Beira-Mar, pelo CV (cronologia, com links, abaixo).

É assim que se explica o “estranho” périplo de ambos pelos presídios federais do Brasil nos primeiros meses do governo Bolsonaro, terminando com a reunião de ambos em Porto Velho-RO.

Cronologia:

– 25/05/2017 – Fernandinho Beira-Mar é mandado para o presídio federal de Porto Velho-RO.
(onde ficaria até maio de 2019)

– 13/02/2019 – Marcola também é mandado para o presídio federal de Porto-Velho-RO. Ele e Beira-Mar ficarão aí reunidos por cerca de um mês, fechando os termos finais do acordo de associação entre PCC e CV.

– 23/03/2019 – no mês seguinte (!), Marcola é mais uma vez transferido. Desta vez para … Brasília, onde já se encontrava o restante da liderança do PCC (incluindo seu irmão, “Marcolinha”), mandada para a Capital Federal apenas 10 dias antes.
Obviamente, quem também se encontra em Brasília?
– Juristocracia e os Generais do GSI, patrocinadores — e terceiros intere$$ado$ — no acordo.
De lá, PCC, Ministério da Justiça e Generais supervisionarão a sua implementação em campo.

– 26/05/2019 – Fernandinho Beira-Mar é mandado para o presídio federal de Mossoró-RN.

Com a “Pax brasileira” a caminho (mais uma vez, articulação conhecida nas cúpulas da Segurança Pública de mais de um Estado), consolida-se a superestrutura coercitiva – a oficial e a mafiosa – no “Evangelistão do Pó”, território outrora conhecido como “República Federativa do Brasil”. Tal qual São Paulo, as taxas de homicídio despencarão – pelas mãos do PCC –, sendo falsamente atribuídas ao Governo Federal e sua “política anti-crime” (exatamente como ocorre em SP). Ao mesmo tempo, as taxas de lucro do tráfico explodirão. Agradecem, além dos sócios locais no Estado e fora dele, três das principais destinações da droga que passa pelo Brasil:

(i) Máfia Italiana – a ‘Ndrangheta (distribuição na Europa Ocidental);
(ii) Máfia SérviaClã Šarić (distribuição no Leste Europeu); e
(iii) Máfia IsraelenseClã Abergil (distribuição na África e na Ásia).

Ah, como o movimentado Porto de Santos vai brilhar à noite…

*

Nota (1): sobre o tema da importância do tráfico de droga na atual ordem global, não deixar de conferir: “Geopolítica da droga, os EUA e os golpes na América Latina” — 11/mai/2019. Textos de Pepe Escobar, Romulus Maya e Eduardo Jorge Vior.

Nota (2): sobre o modelo paulista de coerção mafiosa “subcontratada” pelo Estado (!), ver “MP: Paulo Preto deu R$ 740 mil a grupo ligado ao PCC por obra no Rodoanel” — 19/jun/2019 (UOL). No caso, o PCC foi pago para coagir moradores a aceitarem as indenizações — baixas — oferecidas pelas desapropriações para a construção do “RoBo-Anel”. Pois esse é o modelo a ser nacionalizado no marco do “Evangelistão do Pó”.

 

Nota (3): “batom na cueca” — a prova, estatística!, da origem do modelo do “Evangelistão do Pó”: São Paulo. Como se sabe — até filme indicado pelo Brasil ao Oscar há a respeito — a última grande confrontação entre a PM-SP e o PCC se deu em 2006, quando a facção determinou um “Salve, Geral!” (ataques violentos “aleatórios” em todo o Estado, “terroristas”), como resposta à insatisfação de seus membros com uma política penitenciária rigorosa e o isolamento imposto às lideranças (em regime disciplinar diferenciado — RDD). O PCC ganhou a parada, botando o Estado de joelhos. Depois da guerra, celebrou-se a paz. E, como resultado, o Sudeste, que sempre foi a região mais violenta do país, viu os seus índices de homicídios desabar — puxados pela tal “Pax Paulista” PSDB/ PCC –, passando à última (!) colocação no ranking de homicídios.

2006 — Sudeste lidera, com folga, ranking de homicídios. Ano do “Salve, Geral” — que termina com o pacto com o PSDB:

 

Celebrada a “Pax Paulista” PCC/ PSDB, em apenas dois anos (!) o Sudeste — puxado pelos números de SP — cai da primeira para a última posição (!):

E os números seguem caindo:

 

 

Animação (evolução de 1980 a 2017):

*

Ah, Sergio Moro…

Ah, General Augusto Heleno…

Vamos aplicar o tal “domínio do fato” aos dois??

*

Voltemos ao contexto do assassinato de Marielle Franco. Ocorrido — lembrem — enquanto as FFAA enfraqueciam a posição relativa do CV em favor do PCC, para que se chegasse mais à frente à “Pax do Evangelistão do Pó”, como acabamos de ver. As críticas do padrinho político de Marielle, Marcelo Freixo, à intervenção militar na Segurança do RJ – antes e depois do crime – foram bem protocolares. Para além de tardias. O que era criticado até por correligionários seus. Talvez, fruto de instinto de sobrevivência eleitoral, para alguém com as suas ambições.

 

Pois sabe quem se colocava muito vocalmente contra a intervenção federal então (pelas razões erradas), mesmo em ano eleitoral? E mesmo com o entusiástico apoio à mesma de sua base?

– Jair Bolsonaro!

Pois é. Que coisa, não?

 

Olhando concretamente, Marcelo Freixo saiu com consagradores 350 mil votos da eleição do ano passado. Muito em função da comoção com Marielle. Foi o segundo mais votado. O primeiro, um candidato Bolsonarista.

Quem?

O tal “Helio Negão”.

Natural: nada acionou mais a cismogênese naquele ano do que o assassinato de Marielle.

Que símbolo!

Que bomba semiótica, o seu assassinato!

De um lado, desembargadora aloprada falando que “ela era do Comando Vermelho”, brutamontes asqueroso quebrando placa com seu nome (e recebendo rios de votos por isso – e se elegendo inclusive –), ampla vitória no Estado de Bolsonaro para Presidente e Wilson Witzel para Governador. Ou seja, nas eleições majoritárias.

Do lado outro (ou seria “inverso”?), Freixo, o padrinho de Marielle, nacionalizando o seu nome com o drama e recebendo 350 mil votos, “solidários”. Conseguindo assim arrastar toda uma bancada (David Miranda, marido do ubíquo Glenn Greenwald, p.e., teve míseros 17 mil votos e está lá na Câmara Federal agora). Logrou ainda fazer com que seu partido, o PSOL, ultrapassasse a cláusula de barreira, recém-estabelecida. Objetivo esse muito incerto no inicio do ano, antes do assassinato de Marielle. Aliás, até por isso lançaram todos os políticos do partido, com peso eleitoral – como Freixo –, para a disputa FEDERAL proporcional:

 

Candidaturas (formalmente) “majoritárias” como as de “Professor Tarcisio” para o Governo do Estado do RJ e do então Deputado Chico Alencar para o Senado eram, na verdade, palanques para alavancar a votação proporcional, para a Câmara Federal. Era essa que contava para o cálculo da cláusula de barreira. O partido foi para o tudo ou nada, com o terreno prioritário sendo o RJ. Conheço várias pessoas na burocracia do PSOL. Antes do assassinato de Marielle já se faziam planos de contingência para o caso do fim do acesso ao fundo partidário, se não se atingisse a barreira.

No final, contudo, sucesso:

 

Objetivamente, em boa medida graças à – justa – comoção com o assassinato brutal de Marielle. Aliás, saíram eleitas justamente várias “Marielles” Brasil afora, como Áurea Carolina, a “Marielle de Belo Horizonte”, e Taliria Petrone, a “Marielle de Niterói”.

 

De novo — Marielle: que símbolo. Que bomba semiótica.

E – como visto – com dois gumes, simétricos, beneficiando ao mesmo tempo ambos os polos da cismogênese.

Elege o padrinho; elege também o proto-fascista que quebra a placa com o seu nome.

*

*

Atenção: não sugiro, de forma nenhuma, que alguém no PSOL pudesse ter algo a ver com o assassinato.

Isso é apenas para que se veja como a pergunta do “cui bono” – ou “quem se beneficiou” – leva a questão a outras dimensões. Sendo desinteligente, no mínimo, falar em prejuízo ao PSOL ou “recado a Marcelo Freixo”.

Ao mesmo tempo, o “cui bono” afasta a verossimilhança da hipótese de envolvimento dos Bolsonaro, que caminhavam para eleição tranquila dos membros juniores do clã, com o patriarca sendo o favorito na corrida principal (na ausência de Lula). Nunca foram, sequer, forças concretamente contraditórias no panorama eleitoral. Na dinâmica de cismogênese, identitários “lacradores” e proto-fascistas “mitadores” sempre foram “melhores inimigos”. Um catapulta o outro. Dentro e fora do Brasil.

(ver, p.e., a prioridade editorial de canais de extrema-direita no mundo anglófono, como o competente — e diabólico — Paul Joseph Watson).

Bolsonaro não teria virado “mito”, nacionalizado, com tanta facilidade, se não fossem as sucessivas “dobradinhas” altamente midiatizadas com Jean Wyllys, Maria do Rosario e o restante do bonde da “lacração empoderada”. Dobradinhas em que um servia de escada para a projeção do outro, na sua respectiva bolha. “Lacradas” vs. “mitadas”, sempre. Cismogênese na veia. Tudo direto para as redes sociais e para os “CQC” e “Pânicos na TV” da vida…

*

Mas…

… o pessoal vai preferir dizer algo reducionista como “o macho branco hétero (de sobrenome europeu), num crime de ódio, matou a mulher negra, favelada, lésbica, periférica, esquerdista…”. Estou vendo várias postagens de influenciadores – identitários – no twitter com essa pegada:

 

Pouco importa que o cara estivesse com um pé no Palácio do Planalto.

E que não tivesse nada a ganhar.

E tudo a perder.

Razão para que se, para nos acalmar, (paradoxalmente) temos emoção?

E afetos?

(de sinais positivo e negativo)

E – fundamentalmente – viés cognitivo de confirmação pra “resolver a questão”?

Trazendo-nos de volta para a zona de conforto (psicológico-cognitivo)?

*

Se for para especular, como essa de “recado para o Freixo” (?), muito mais sentido fariam outras hipóteses. Há diversas nos círculos de inteligência na Segurança Pública. E até inteligências fora do Brasil. Inclusive algumas em “camadas”. “Conspiração dentro da conspiração”. Estilo cebola.

Eis uma, por exemplo, que ao contrário de “o Bolsonaro mandou matar”, passa nos testes de (i) verossimilhança; e (ii) cui bono:

Tratou-se de uma sofisticada operação orquestrada por grupos poderosos, com fortes interesses, para terem uma grande arma de dissuasão, nuclear, contra aquele que agiriam para colocar, pouco depois, na Presidência da República. A ser traduzida em decisões econômicas de grande vulto, com a arbitragem presidencial para a escolha dos vencedores. E traduzidas também em alinhamentos políticos. Dentro do Brasil, com a agenda de certas tendências ideológicas e corporações no Estado, mas também fora, com a adesão irrestrita a certos interesses geopolíticos bem demarcados.

Mais: quem sabe até, dependendo das contingências de um grande planejamento estratégico, bomba nuclear essa a ser finalmente acionada em algum dado momento futuro, para liberar a cadeira presidencial para um eventual sucessor…

Isso, no caso de Bolsonaro, à frente, tornar-se inconveniente. Até aqui, longe disso. Muito pelo contrário. Em várias dimensões e sentidos, não é mesmo? Até como “para-raios” o “tosco” Bolsonaro serve, para o consórcio civil-militar aboletado no poder.

Consegue imaginar ator(es) que pudesse(m) planejar – e executar – algo parecido?

Com tamanha capacidade de inteligência e operativos com as competências requeridas para uma execução sem falhas desse roteiro?

Até mesmo conseguindo envolver um VIZINHO de Bolsonaro na trama?

(i.e., a trama aparente, a “para o público”)

Ainda que sem nenhuma verossimilhança para a hipótese de o vizinho em questão ser ‘o’ executor”, na real? O cara que puxou o gatilho?

(po, o cara mora num condomínio de luxo!
Com atores da Globo!
Eu sei: já fui lá.
Várias vezes!)

 

Consegue imaginar algum(ns) ator(es) que tivesse(m), até mesmo, a presença de campo ideal para tal operação, naquele momento da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro?

Que símbolo era – e continua sendo – Marielle Franco, não é mesmo?

Até jardim em Paris, com o seu nome, tem agora…

 

Pobre Marielle: os identitários tem razão em dizer que ela foi morta por tudo o que representava: mulher, negra, lésbica, favelada, periférica e esquerdista militante dos direitos humanos.

A questão é que não teve nada de “crime de ódio”.

Foi, e continua sendo, muito útil.

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P.S.: Um “a propósito”, direto do túnel do tempo: “Operação Gládio” e os false flags (operação de falsa bandeira).

Quem ordenou o sequestro e o assassinato do ex-Primeiro-Ministro italiano Aldo Moro?

Cui bono? Quem ganhou com o mesmo?

Quais foram suas consequências jurídicas – e políticas – na Itália dos “anos de chumbo”?

O que se obteve, concretamente, em termos de controle estatal dos indivíduos?

Quais foram as consequências geopolíticas do episódio, na Guerra Fria (i.e., a anterior)?

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P.P.S.: “Duplo Expresso – a verdade chega primeiro”

Po, Nassif!

Me ajuda a te ajudar! “Não tinha interfone” (sic) e agora você quer saber o sistema do…
– … “interfone”?!

– Tinha “fonte fidedigna dentro do condomínio” (sic) e agora pede informação – do condomínio… – a TODA A INTERNET BRASILEIRA?!

 

 

 

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– Obrigado, universo!

 

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P.P.P.S.: Clã Bolsonaro parece estar começando a entender o jogo. Talvez orientados pelo mais novo “expressonauta”, Olavo de Carvalho (!).

Cui bono, Bolsonaros…

Abordagem indireta…

Guerra híbrida!

 

 

 

 

 

(sobre a referência acima, ver ““Kompromat”: sexo, crime, dinheiro, chantagem – o explosivo submundo da disputa pelo PT” — 21/out/2019)

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Há quantas andam os alertas na “imprensa independente” sobre o “Patriot Act” Tabajara e o fechamento — clandestino — do regime que porporciona?

Que nada…

 

E os “liberais de direita”?

 

 

 

 

Bem, nada ainda…

 

Enquanto isso, do “outro” (sic!) lado do espectro ideológico…

Percebe o que é operação em pinça PIG/ PIGuinho vermelho?

Domínio de espectro total?

Pastoreio (herding) do “debate” público?

Pois é.

Mas piora…

*

Experientes “jornalistas” fingindo-se de tontos. Ah, o “PIGuinho vermelho”…

 

 

 

Antes…

 

Pois eis que, um ano depois, chega a hora de ser “babaca”, sim, já que — além de pagar o óbulo ao “PIGuinho Vermelho” e passar a nos detonar como os demais — Rodrigo Vianna agora também se faz de tonto para alimentar a armação — com objetivos sinistros — para cima de Bolsonaro:

(…)

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“Domínio de espectro total”: Globo e Brasil 171

 

 

 

 

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Às vezes, mesmo o “expressonauta” cede a velhos vícios…

 

 

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Sim, seguiremos, General Heleno…

(dublê de Senador/ Chanceler/ Imperador Palpatine, de “Star Wars” (apud Leirner))

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Atualização 3/nov/2019 — 13:45: os pontos problemáticos identificados no laudo da perícia criminal sobre a cena do crime

Comentário enviado por perito criminal veterano, de SP

Parabéns pela coragem. Não se ousa falar no acordo PCC/ CV/ militares fora das cúpulas da inteligência da segurança pública.

Aguns fatos chamam a atenção quando se lê os laudos do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes.

A saber:

(i) AEC COM ESQUEMA LESÕES MARIELLE
(ii) AEC COM ESQUEMA LESÕES ANDERSON
(iii) LAUDO LOCAL

[D.E.: atenção! Conteúdo com imagens muito fortes, não adequado para pessoas sensíveis!]

É importante entende-los para se ter uma visão mais clara do acontecido.

Um dos fatos que chama a atenção no laudo de Exame de Necropsia de Anderson e Marielle é que Anderson foi atingido pelas costas, através da janela e do banco do carro, com projétil de arma de fogo padrão, totalmente encamisado: “parcialmente deformado na ponta, revestido de metal amarelo”.

Já no caso de Marielle, o mesmo laudo indica “projétil de arma de fogo, chumbo nu deformado”. Ou seja, um projétil parcialmente encamisado. I.e., não padrão.

O que isso indica?

Que foram utilizados dois tipos diferentes de munição. E que havia dois atiradores.

Explico: existem vários tipos de projéteis de armas de fogo (projétil é a parte da munição que sai do cano). O que vários elementos da perícia no local e nos corpos indicam é que pelo menos uma parte dos projéteis era do tipo “ponta oca semi-encamisada”, não compatível com o lote desviado da PF, suposta “origem” da munição. “Ponta oca”: para fazer estrago, visível, gráfico, provocar impacto (midiático?). Essa foi a munição usada em Marielle, apenas.

Aliás, essa alegada “origem”, em si, do lote já é uma “saga” à parte, com versões sucessivas, contraditórias entre si. Tudo muito esquisito, para dizer o mínimo.

[D.E.: sobre o desencontro de versões, refletidos em matérias da grande imprensa da época, ver os links reunidos pelos expressonautas neste fio]

Já os outros projéteis eram “totalmente encamisados” (compatíveis com um lote da PF). Tendo também pontas, não eram aptos a provocar as mesmas “crateras” (midiatizáveis?) deixadas no corpo de Marielle. Independentemente de detalhes mais técnicos isso indica que o “famoso” “lote desviado da Polícia Federal, lote UZZ-18” só conta parte da história. Tudo indica que foram utilizados os estojos desse lote para uma recarga (estojo é a parte da munição que contém pólvora e espoleta). Sim, os estojos são recicláveis, o que – convenientemente – torna a identificação da origem virtualmente impossível por meios de perícia.

Esquema de munição 9mm com projétil “ponta oca encamisada”, mais o estojo que contém o propelente, a espoleta e o projétil. O estojo pode ser reaproveitado.

 

Outro detalhe que chama a atenção é relativo à posição dos tiros e dos três ocupantes do veículo:

 

Não se nota nas fotos do laudo pericial do local que teria havido qualquer tentativa de alvejar a assessora de Marielle de nome Fernanda. Os tiros foram – exclusivamente – dirigidos a Marielle e Anderson. Moça de sorte. Muita sorte…

Tem mais: pela descrição, o carro possuía vidros cobertos de “insulfilm”. Ou seja, não permitiria ver os ocupantes. No entanto, os assassinos sabiam exatamente a posição das vítima dentro do veículo. Ao ponto de poderem planejar – e executar – a ação de modo a atingir alvos específicos. Apenas dois de três.

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Atualização (4/nov/2019):
Em tempo: Fernando Nogueira Martins Jr., Professor de Direito Penal e Processo Penal da Universidade Federal de Lavras, revelou no Duplo Expresso que, à época do assassinato, ele e outros colegas veteranos de militância pelos direitos humanos (como um policial civil com 20 anos de experiência), com o know-how portanto de acompanhamento de investigações policiais, acostumados por ofício a desmontar manipulações, falhas e até mesmo farsas e “plantações” nas mesmas, ofereceram a Deputados do PSOL, como Jean Wyllys e Marcelo Freixo, trabalho — voluntário  — de acompanhamento da investigação policial no caso Marielle. Não houve abertura. Ou interesse.

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Da seção de comentários: o beabá do ataque híbrido ao Brasil — cascata de manipulações; mais uma “cebola”

Por “FAN”

Genial o artigo. Lembremos: aqui mesmo no D.E. o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães deixou escapar, mais de uma vez, que após a reforma da previdência os Generais viriam com tudo pra cima de Bolsonaro. Conhecido nas FFAA me dizia que o Etchegoyen não suportava ele. Quem suportaria? Ainda mais um militar, General 4 estrelas, com senso de hierarquia e disciplina, e com postura. Pense em ter Bolso como chefe pra alguém assim?

Explicando de forma um pouco mais didática a interação de 3 coisas: (a) a conspiração em camadas de cebola; (b) o pastoreio da opinião pública com 2 pastores (falsamente) antagonistas (também chamado de método da pinça, que precisa de 2 lados para manipular um objeto); e (c) o uso de forças especiais não oficiais para intensificação-afrouxamento da violência urbana para realização de operações reais para manipulação da opinião pública:

[Uma cascata de manipulações. Outra “cebola”]

(i) alguns poderes (famílias banqueiras, sionismo, sociedades secretas) manipulam o Deep State americano e sua oposição, que acham que estão no controle;
(ii) o Deep State americano manipula o “Deep State” brasileiro (Heleno + Moro) e sua “oposição”, que acham que estão no controle;
(iii) o Deep State brasileiro manipula(va?) a opinião pública e a política brasileira controlando cada lado das seguintes (falsas ou simuladas) dicotomias identidários X bolsonaristas, PIG X PIGuinho vermelho, lideranças evangélicas X lideranças gays, feministas e pró-maconha, PCC X forças de segurança, PCC X milícias, violência urbana X direitos humanos, aumento da violência X combate e diminuição da violência, corrupção X direitos civis.

Com o controle sobre o que dizem os porta-vozes (donos do “lugar de fala” como preferem os identitários) de cada lado desses dilemas é possível levar a opinião pública, as votações no Congresso Nacional, as manifestações públicas e os votos nas eleições para qualquer direção que se deseja, por mais irracional que seja essa direção em termos dos interesses verdadeiros daqueles que estão sendo manipulados pela introversão do mecanismo reflexo (pavloviano) de ação reação.

Mecanismo, aliás, idêntico àquele introvertido pelos torcedores fanáticos de time de futebol que vivem e reagem puramente a partir do critério da disputa contra os torcedores de times “antagonistas” (aliás, ótimo nome para um site de política que cultive essa manipulação, não é mesmo?).

Um dos fatores mais poderosos de controle pavloviano da opinião pública é o uso da violência (urbana ou terrorista), porque a violência provoca fortes reações emocionais e incontroláveis sobre o ser humano, como medo, horror, ódio etc. Por isso controlar as redes de crime organizado (ou de terroristas) seja tão importante para o poder que pretende manipular a população e a opinião pública com esse tipo de método.

Além do impacto psicológico, o controle funcional e amigável do Deep State sobre as redes de crime organizado (ou terroristas) é importante para servir de efetivos operacionais e justificativas simbólicas para ações de forças especiais não oficiais, que interagindo em pinça no nível midiático contra as forças especiais oficiais são capazes de realizar qualquer tipo de teatro de operações midiatizável, como um assassinato de grande impacto simbólico, e, portanto, fazer a população acreditar em qualquer coisa e reagir da forma não planejada, ainda que por antagonismo.

E se nada disso der certo, essas forças especiais oficiais ou não oficiais servem também para eliminar (ou ameaçar) aquelas ovelhas que não estejam aceitando serem conduzidas pelo pastoreio dos dois pastores (falsamente) “antogonistas”.

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Atualização 4/nov/2019 — 11:25: vídeos

– “Quem matou Marielle: a live”:

 

– “O plano ‘Evangelistão do Pó’ (fardado!)”:

 

– Dando nome aos bois!

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Cui bono…

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Leia mais:

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.