“Eleições” vs. Golpe: e se Celso Amorim fosse “o embaixador do Lula”?

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

Certo ou errado, apostaria que, em circunstâncias normais, o (eterno) Chanceler Celso Amorim seria um excelente nome para a Presidência da República. Sua biografia e folha de serviços prestados ao Brasil, em defesa do interesse nacional, mais que o cacifam para disputar o cargo de supremo mandatário da República. Na verdade, a presença de um brasileiro do seu quilate muito engrandeceria uma disputa pela chefia do Executivo nacional – fosse ela regular.

Até um alegado calcanhar de Aquiles – o fato de ser jejuno em eleições (e respectivo financiamento), na verdade, nestes tempos de lawfare descarado, torna-o virtualmente imune a tentativas de chantagem de bastidores e a canetada de togado riscando-o da urna.

Notem, contudo, que acrescentei “certo ou errado” para qualificar essa minha “aposta”. Isso porque, em 2010, também apostava que Dilma Rousseff seria uma excelente Presidente. Erradamente, sabemos todos agora. Independentemente de qualidades pessoais inquestionáveis, como honestidade e resiliência, o fato é que para o Brasil defeituoso da realidade, com o seu nível de (i-)maturidade político-institucional e vulnerabilidade a ataques (de 4a geração) do Império (“guerra híbrida”), o nome de Dilma foi a escolha equivocada que atormentará Lula até o fim dos seus dias.

Isso porque faltava ao “poste” aquilo que em Lula abunda; certos requisitos indispensáveis a lideranças populares e nacionalistas para que consigam resistir ao assédio do golpismo conservador e/ ou imperialista, sempre na esquina:

(i) carisma, a servir de âncora em momentos de crise;

(ii) ser um ás da comunicação. Interlocução direta com as massas possibilita by-passar o fuzilamento midiático, que é crônico;

(iii) exímia habilidade política. Para, entre outras coisas, garantir a governabilidade ao saber explorar com sucesso as contradições entre as diversas forças conservadoras, rachando-as e cooptando parcela delas para o seu projeto.

Depois da experiência dos últimos 5 anos com a Lava Jato, acrescento ainda:

(iv) política externa de primeira linha, mantendo fina articulação com as demais “províncias imperiais rebeldes” no tabuleiro geopolítico mundial;

(v) aguçada visão estratégica/ sistêmica. Para, entre outras coisas, (a) não cair em pegadinhas como o “republicanismo” (sic) em nomeações para o Judiciário; e (b) não abrir as portas para cavalos de Tróia, como o empoderamento excessivo (e sem retorno) de “órgãos de controle” – não eleitos e facilmente cooptáveis pela Finança internacional – patrocinado pelo Império sob os (falsos) rótulos de “Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro” – ENCCLA (sic) e “meritocracia” (à brasileira!);

(vi) boa interlocução com membros das Forças Armadas. Para – mais uma vez – explorar as contradições internas e não permitir que, via antagonização com o “perigo vermelho bolivariano-russo-chinês” (sic), sejam sequestradas – em bloco – pela sua parcela entreguista israelo-americanófila, a chamada “ala profissional” (sic).

Celso Amorim não é Lula.

Longe disso.

Mas é inquestionável que preenche muito mais tais requisitos do que Dilma Rousseff.

Certo?

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Continuando… além de ter anotado o grau de álea de uma aposta dessa natureza, ilustrando-o inclusive com o insucesso da aposta em Dilma, registrei ainda, na abertura do texto, que “Celso Amorim seria um excelente candidato… em circunstâncias normais”. Como sabemos todos, esse não é o caso. Bem longe disso. Portanto, a discussão em torno do nome de Amorim não pode, de forma nenhuma, servir para normalizar o ápice do Golpe transnacional de que o Brasil é alvo: a exclusão do nome de Lula das urnas.

Ainda mais se o objetivo – de certos espertos… – for justamente dar azo a essa discussão somente para poderem usar o inquestionável cacife de Celso Amorim, e a estima ao seu nome, para normalizar, nas bases, a ideia de substituição do nome de Lula. Tudo para, na hora H, num golpe em convenção, sagrar Fernando Haddad, o Plano B – de B’astardo do Golpe, candidato. Ou outro nome tão “B’astardo do Golpe” quanto Haddad (e há!).

A posição – política – do Duplo Expresso, diante do (grande) Golpe que ora chega ao clímax, sempre foi a da manutenção da candidatura de Lula “até as últimas consequências” (apud Gleisi Hoffmann).

E dela não saímos.

É forçoso reconhecer, contudo, que, dentre os nomes aventados até aqui para eventual substituição, o de Celso Amorim é o melhor. E de longe. Seu compromisso com o interesse nacional não é apenas inquestionável: foi provado – na prática.

Até no slogan de campanha poderia sair na frente: “Celso Amorim – o embaixador do Lula!”

Mas como não normalizar o golpe eleitoral?

É algo a se pensar…

E se Celso Amorim estivesse disposto a encarnar uma anti-candidatura? Recusando-se a legitimar o processo eleitoral falseado?

E se, em vez disso, usasse a campanha para justamente, com a ajuda do seu nome e projeção internacional, denunciar tal golpe, com mais força ainda?

E se Celso Amorim, a cada intervenção sua no debate da Rede Globo, dissesse “quem deveria responder à pergunta que aqui me é feita é o ex-Presidente Lula. Contudo, o verdadeiro candidato do povo brasileiro se encontra preso ilegalmente, justamente para não poder estar aqui diante de vocês hoje. Tudo isso como parte de um golpe transnacional patrocinado pela Finança e pelos EUA. E operado localmente pelos irmãos Marinho, donos desta emissora, que, assim como na ditadura militar, usam mais uma vez uma concessão pública – esta TV – para trair o Brasil e massacrar os pobres deste país”?

Celso Amorim estaria disposto a encarnar o anti-candidato?

Aquele que rasga a fantasia – dos demais?

E mela a farsa?

Justo ele, o homme d’état por excelência?

Estaria Celso Amorim disposto, de fato, a ser… “o embaixador do Lula”?

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P.S.: Notem:

(1) A tese de “anti-candidatura” só vinga com alguém forte de caráter o suficiente para torna-lo imune a tentativas de cooptação pela vaidade ou por pressão ou ameaça. Tem de ser 100% leal a Lula, sem pretensão política individual mas, em vez disso, um forte compromisso com o coletivo e firmeza ideológica e nacionalista. Contam-se nos dedos de uma mão as pessoas que reúnem tais características – as características de um Estadista – na atual conjuntura.

(2) Uma (suposta) repetição da operação Perón-Cámpora 73, o que os articuladores do Plano B tentam vender – com muita malícia – desde o início do ano, não seria possível no Brasil atual. Explicamos isso em artigo anterior. Não se pode tirar Lula da cadeia e trazê-lo de volta à política com um simples “indulto e convocação de novas eleições”. Inviável, inclusive, com o atual quadro jurídico-“institucional” brasileiro. O anti-candidato, se houver, tem que ser muito mais capaz do que um Cámpora.

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Última participação de Celso Amorim no Duplo Expresso (28/fev/2018):

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.