Como Vargas e Lula derrotaram o entreguismo – Parte 2 de MDB e “governabilidade”

Por Gustavo Galvão[1], para o Duplo Expresso

(Aqui, link para a Parte 1)

As estruturas partidárias nas democracias se organizam em torno de dilemas políticos básicos, que podem ser:

– Capital x Trabalho

– Metrópole x Periferia

– Livre Comércio x industrialização

– Agricultura x indústria

– Indústria x bancos

– Estado x mercado

– Nacional x estrangeiro

– Campo x Cidade

– Religião A x Religião B

– Etnia A x Etnia B

– Região A x Região B

– Estados ricos x estados pobres

– Capital nacional x regiões periféricas

– Movimentos identitários x conservadores morais

*

[Romulus Maya: na Europa vemos de maneira crescente também um conflito geracional: velhos vs. jovens. Os primeiros, que tiveram a sorte de constituir a força de trabalho dos chamados “30 (anos) gloriosos” do pós-Guerra, são hoje proprietários de imóveis e recebedores de pensões do governo, com pagamento certo todo mês. São, portanto, rentistas. Em vista disso, tendem a votar em candidatos afinados com o discurso financista/ monetarista. Enquanto isso os jovens, que precisam de empregos e portanto de economia REAL crescendo, votam em candidatos “heterodoxos”, à direita e à esquerda.
Tais candidaturas baseiam-se na plataforma de resgate da soberania e do papel do Estado em contraponto ao projeto globalista-liberalizante sob a égide da Finança, hegemônico desde os anos 80 no Ocidente. Por óbvio, todos esses projetos políticos, de contestação, são devidamente caracterizados pela grande imprensa de seus países como “extremos” e/ ou “populistas”.
Tal dinâmica político-eleitoral “velhos vs. jovens” deu-se, p.e., no “Brexit” e na eleição presidencial da França de 2017.
Mais sobre isso em “França: como no Brexit, velhos sacrificam jovens no altar dos seus medos” (5/mai/2017)]

*

Artificialidade do modelo político “universal” da USP

O modelo de dinâmica político-eleitoral (um) partido trabalhista vs. (um) partido conservador, baseado exclusivamente no conflito (institucional) de (apenas duas!) classes (pós-industrialização), não é universal como querem fazer crer os europeus e a sociologia da USP:

(i) EUA e América Latina nunca adoraram esse dilema como fundamental.

(ii) Na Ásia e África ninguém adotou esse modelo.

(iii) Todos esses países têm trabalhadores e burguesia, mas a política deles não se organiza a partir de partidos trabalhistas X partidos conservadores, como gostaria a sociologia da USP e o cartesianismo dos burocráticos socialdemocratas europeus.

(iv) Hoje, mesmo na Velha Europa, a divisão entre partidos trabalhistas e não trabalhistas também tem se perdido. O exemplo extremo é a Itália pós-“mãos limpas”, o modelo da Lava-Jato.

*

A portuguesa que fez nos vermos sul-americanos

A grande economista desenvolvimentista luso-brasileira Maria da Conceição Tavares sugere que a tradição europeia de partidos trabalhistas tem relação com suas particularidades históricas, não sendo, portanto, um modelo universal como quer a sociologia da USP. Mas nas aulas a que eu assisti, ela nunca explicou exatamente o porquê.

Minhas hipóteses, a partir de fragmentos de suas aulas, seriam as seguintes:

(a) Tradição medieval de organizar sociedade por classes/ estamentos;
(b) Países geograficamente pequenos, em sua maioria Estados unitários e não federais, com grande uniformidade étnica, cultural ou religiosa;
(c) Grande consenso em relação à unidade em torno da questão nacional e da soberania;
(d) Elevado grau de industrialização e, portanto, de sindicalização da força de trabalho;
(e) Industrialização precoce;
(f) Industrialização menos concentrada dentro do país, especialmente em razão do pequeno tamanho dos países;
(g) População e urbanização menos concentrada espacialmente em razão do pequeno tamanho dos países.

Características que não representam o Brasil.

*

O avô do “socialismo moreno” (de Brizola): Vargas trouxe o trabalhismo e tropicalizou-o

Engraçado. A sociologia da USP, criada para ser o maior bastião do anti-varguismo à direita e à esquerda, não reconhece que foi seu inimigo, Vargas, quem trouxe de fato o modelo partidário europeu, que tanto admira, para o Brasil.

Na verdade, o Brasil é um caso quase que único no mundo: não segue o modelo europeu, mas também não deixa de busca-lo.

A partir da Era Vargas, o modelo de partidos não-classistas, típicos do continente americano e do resto do mundo, se mistura com a dicotomia europeia de partidos classistas.

Vargas construiu um importante partido trabalhista, o PTB, tornando o Brasil um caso incomum nas Américas.

A introdução varguista floresceu inicialmente em São Paulo e Rio Grande do Sul, que organizaram seu sistema político a partir de forma parecida com a da Europa:
– dicotomia capitalistas vs. trabalhistas organizados;

Ou mais precisamente:
– empresários vs. sindicatos

Esses estados tinham a industrialização mais avançada e precoce e cultura com maior raiz europeia.

Estranhamente para quem acredita na universalidade do modelo europeu, outros estados industrializados e de cultura europeia não seguiram esse modelo, como Santa Catarina e Paraná.

Rio, Minas, Distrito Federal e Pernambuco parecem seguir um modelo parecido com algo como:
– Oligarquia vinculada ao Estado vs. trabalhistas não sindicalizados.

Ou mais precisamente:
– Tradicionais famílias políticas vs. “populismo” de esquerda

Outros estados têm normalmente dilemas políticos ainda mais fora do padrão do modelo europeu da USP.

*

Vargas dividiu a oligarquia para uni-la ao trabalho

Vargas criou o “PMDB” para organizar as oligarquias e feudos políticos regionais em prol do desenvolvimento. Vargas criou-o com o nome de PSD – Partido Social Democrático.

O PSD foi sua principal base política nos Estados menos desenvolvidos e no Parlamento. JK, o sucessor escolhido por Vargas, era do PSD. O PSD formou a base do MDB. Não por acaso, foi do PSD que vieram Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, os maiores nomes do MDB.

Graças ao PSD, Vargas conseguiu dividir a oligarquia e trazer a maior parte dela para o progresso e o desenvolvimento em aliança com seu partido trabalhista, que não tinha chances nos Estados onde não havia trabalhador sindicalizado mas voto de cabresto.

*

Lula segue Vargas

Lula, intuitivamente, seguiu Getúlio e se uniu ao sucessor do PSD, o PMDB, para conseguir estabilidade da sua base parlamentar e construir sua grande obra no segundo mandato.

(Aqui, link para a Parte 1)

_______________
[1] Gustavo Galvão é economista pela UFMG, doutor em economia pela UFRJ, funcionário do BNDES, assessor parlamentar e comentarista de economia do Duplo Expresso.

Acha o nosso trabalho importante? Reforce a nossa causa em apenas 2 segundos: apoie a sua divulgação tornando-se um Patrono do Duplo Expresso

Facebook Comments