O estupro do Brasil e a (ultra!) camuflagem: onde se esconde o último militar nacionalista?

Por Piero Leirner,[1] para o Duplo Expresso

  • “Guerra híbrida”: guerra baseada em operações de dissimulação, cujo objetivo máximo é produzir no inimigo um conjunto de ações divergentes para que este sempre esteja um passo atrás na leitura do “real”. Certos grupos de militares começaram a fabricar uma verdadeira guerra híbrida dizendo que o PT produz uma… “guerra híbrida” (!)
  • Nela, “o PT caminharia para um processo de ‘subversivação’”, com ligações com “as FARCs”, “setores militares da Venezuela”, “células terroristas” do Oriente Médio, “o PCC”, etc. Mais que isso, o pano de fundo seria um “novo comunismo internacional”, com novas “potências invasoras” – i.e., China e Rússia! – e suas ambições mineralistas e energéticas. Os aliados dos BRICS reavivariam assim, na cabeça dos que ainda vivem na Guerra Fria, um “comunismo 2.0”, disposto a colocar a ordem internacional de ponta-cabeça, com o Brasil numa posição de capacho sul-americano da Rússia.
  • E, então, por que as FFAA não reagem ao assalto que se faz ao pré-sal?
  • Ora, porque dizem “antes dar para os yankees (com duplo sentido mesmo!) a dar pra russo e chinês!”
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  • Bônus – Comissão Nacional da Verdade e revisão da Lei da Anistia: mais uma vez o que começa com a dupla Cardozo-Dilma termina com o… MPF!
  • E, sem surpresa, enfraquecendo a posição do PT!
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  • Veremos o desfecho dessa barafunda com a sucessão de Villas-Boas no Comando do Exército, já 2 meses atrasada?
  • Ou ela também está engasgada nas “eleições” (?) de outubro?

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Estamos numa guerra de nervos sem centro nervoso. Portanto, não há estratégia definitiva. Mas tem tática possível. O que vou escrever aqui trata de como os militares se apropriaram de uma leitura enviesada dessa situação e estão esboçando uma reação a ela. Vendo um constante chamamento dos apresentadores do DUPLO EXPRESSO, espero aqui contribuir para o debate de “onde, afinal, está o nacionalismo dos militares brasileiros”? Para nós, que estamos na defesa de uma nação sob ataque, e cuja única tática viável atualmente pesa sobre as costas de um brasileiro, ex-presidente, preso, é espantoso assistir a uma série de ações de Temer e seu núcleo de governo não ter uma manifestação de desacordo de militares. Pré-sal, submarino, caças Gripen, Base de Alcântara, Base dos EUA/ mineração na Amazônia, venda de terras a estrangeiros, Aquífero Guarani, almirante Othon, setor elétrico e nuclear. Nada, não se ouve uma palavra. Pelo contrário, assistimos generais recém-saídos da ativa se manifestarem com total descaso sobre esses temas, mas com muitas palavras sobre outros temas.

Nas últimas duas semanas ainda vimos a produção de uma notícia sobre um documento da CIA, feita pelo professor da FGV e colunista da Folha Matias Spektor, que apareceu como uma “revelação” de que, sim, a hierarquia inteira do Exército sempre soube e autorizou torturas e execuções na ditadura. Para quem conhece o tema, isso não é novidade. Até um sujeito sem noção como Bolsonaro já tinha falado sobre isso publicamente – e certamente ele não tinha “ouvido falar” de mortes e tortura através das publicações de Dom Paulo Evaristo Arns. Qualquer coronel R/1 (reserva) sabe do que aconteceu. Mas o que interessa aqui é que Spektor, que até outro dia estava desqualificando o almirante Othon na Folha, que sempre foi um crítico ácido das políticas externas petistas, tinha endereço certo. Como toda bomba semiótica, ela visava mais de um alvo ao mesmo tempo.

Diria que a primeira hipótese, que inclusive pensei conversando há dias com Romulus, era de que se tratava de um “passa-moleque” feito em grupos de militares que estavam falando mais que a boca; efeito-colateral das recentes atitudes lançadas pelo espalhafatoso general Mourão, que ecoam dentro de uma linha de comando da ativa que, para quem vê de fora, passa a perigosa imagem que nesse momento paira sobre o Exército: incerteza. É notável que todas essas manifestações que estamos vendo de militares, da reserva e da ativa, e que culminaram nos tuítes de comandantes (recadinhos nada sutis), não estão sendo acompanhadas nem por pessoal da Marinha nem da Força Aérea. O problema está no Exército, desde sua reserva, passando por Villas-Boas e, principalmente, desembarcando no General Etchegoyen. É aqui que se juntam as peças. Toda essa incerteza, no meu entendimento, vem do fato de que Villas-Boas ainda não passou o bastão, embora já devesse tê-lo feito. Para mim, Spektor viu esse sinal e mandou essa bomba, sabendo ainda que ela iria ter ressonâncias em outros veículos de comunicação, como a Globo, que na sua parceria com o Partido da Justiça ia dar de bandeja material para os Procuradores que estão querendo rever a lei da anistia. De quebra, ainda poderia danificar Bolsonaro e ajudar nessa pavimentação forçada de uma candidatura vitoriosa no 1º turno de alguém do PSDB.

Mas o que pode dar uma luz de como a tal bomba semiótica revelou as posições nesse teatro de guerra foi o inominável editorial do site “defesanet” de 18 de maio último. Ele fala de um “golpe de estado” produzido por uma “guerra híbrida” contra Temer. Mas o que é o “defesanet”? Sem maiores delongas, é o porta-voz do General Etchegoyen e de um grupo de militares e simpatizantes (especialmente) gaúchos que há alguns anos – eles, sim – vêm produzindo guerra híbrida contra os governos petistas. Esse editorial é tão fantasioso quanto sério. Ele se baseia em premissas do que entende serem os “estudos pioneiros” sobre a guerra de 4ª geração ou híbrida no Brasil, publicados, claro, pelo próprio site, embora com alguma reverberação nas escolas militares (facilmente verificável no google). São principalmente artigos de um General R/1 (4 estrelas, hoje na reserva), bastante ligado a Etchegoyen, que compõem a série “guerra híbrida no Brasil”. Não adianta lê-los esperando entender a guerra híbrida; mas podemos ler esperando tirar dali algum mapa de como um militar importante, atualmente uma referência (interna!) em estudos do tema, está pensando. Para inclusive ver por que suas noções de guerra híbrida são uma apropriação discutível, já temos bastante material trabalhado (aqui pelo Duplo Expresso inclusive) a partir das excelentes análises de Pepe Escobar, e que dizem respeito ao modus operandi do Deep State de “nações amigas”, que sustentam um projeto capitaneado pela finança internacional. Os alvos se repetiram ao longo da década (ou antes, como já se pensou aqui sobre o maio de 68), com a provocação de “primaveras”, “jornadas”, etc., e posterior acionamento de máquinas estatais para desestabilizar governos. No Brasil, como sabemos, foi a máquina jurídica.

No entanto, como mostrarei mais à frente, os articulistas do defesanet conseguiram distorcer essas premissas para localizar inicialmente em Ongs, Índios, Quilombolas, MST, MTST, e, claro, no PT, as fontes do “ataque à soberania nacional”. Isso está publicado no site, e republicado em dezenas de sites geridos por militares, pelo menos desde 2011. Agora, com este editorial desesperado, que inclusive agrega uma defesa tosca de Temer e Aécio como salvadores da Pátria, mostrou-se a cara: o tiro de Spektor atingiu Etchegoyen e seu grupo, e o contra-ataque deles vai investir numa produção intensificada de um discurso (que para qualquer pessoa de esquerda é sem pé nem cabeça) de que a Globo, “aliada” às pautas minoritárias, no fundo sempre foi um agente de esquerda infiltrado, e agora se situa no centro produtor e lançador dos mísseis semióticos. Devemos levar a sério essa fantasia de tom bolsonarista de uma “Globo comunista”? Notem-se algumas pérolas do tal editorial:

Antes era assim:

“(…) a agenda desta Guerra Híbrida atende a vários interesses:

(…) Imobilizar o governo Temer de qualquer ação contra a Venezuela, enquanto o Foro de São Paulo se reorganizaria (…) Aqui surge a necessidade destruir a imagem do Senador Aécio Neves, figura mais respeitada no exterior, como condutor de ações contra o governo bolivariano (…)”

Mas agora ficou assim:

“(…)Um ano após [a denúncia do grampo da JBS], o Grupo Globo tenta quatro tentativas derradeiras: 1 – Imobilizar e desestabilizar os militares. Em especial após os famosos tuites do General Villas Boas; 2 – Imobilizar a sociedade brasileira com o incentivo à violência urbana; 3 – Com o Ministro do STF Roberto Barroso e setores mafiosos da Polícia Federal ataca de forma sistêmica o Presidente da República, e, 4– Ataque especulativo ao Real e à Economia Brasileira”.

Para entender como esse caminho tortuoso foi elaborado por este setor militar, precisarei recuar um tanto, e talvez reforçar coisas que já falei em outro artigo publicado aqui no Duplo expresso:

 

Meu intuito é colocar um outro foco sobre este debate, que passe na transversal uma talvez falsa dicotomia “nacionalistas versus entreguistas” entre militares; e vendo como eles fazem seus movimentos, espero que alguém em algum lugar aqui enxergue uma possibilidade de contraofensiva, não contra militares, mas a favor de seu salvamento de tanta ilusão propagada pelas várias ofensivas da guerra híbrida, sendo a principal esse dispositivo de acionamento do ódio antipetista disseminado pelo judiciário e pela (antes aliada?) Globo & PIGs afins. Falarei de militares, mas poderia estar falando de juízes – uma categoria muito próxima, que se identifica como “uma seleção representativa da sociedade”. E que jogam hoje, ambos, com os mesmos recursos retóricos para impor uma pressão sobre a política: meritocracia, correção moral, valores éticos, independência em relação às oligarquias tradicionais. O famoso tuíte do General Villas-Boas antes do julgamento do HC de Lula, mais do que tudo, afirmava uma leitura que identificava a auto-imagem que o Exército teoricamente tem de si com aquela que Barroso quer ter do judiciário. Se o recado era claro ou não, “façam o serviço senão nós faremos”, agora jamais saberemos, porque o STF o fez. De todo jeito, há algo ainda em curso mais profundo, e quero mostrar esse exemplo, mas entendendo que ele serve para outros setores serem pensados “em paralelo”.

Por ‘n’ razões que não terei espaço para explicar aqui, é preciso ter cautela sobre o seguinte ponto: as FFAA são instituições corporativas por definição; o sentimento corporativo é alimentado em qualquer exército do mundo, através de um constante bombardeio ritual e simbólico que produz marcações muito claras em relação a um “mundo de fora”. Agora, o que e como se mobiliza isso é que é o ponto aqui. Pretendo dar uma visão de como estas coisas aparecem desde há algum tempo e qual é o resultado disso no modo que as FFAA se articulam com o resto da sociedade, ou, em outras palavras, como eles fazem ou não “política por outros meios” e o que a leitura deles sobre o atual momento pode elucidar sobre outros setores que têm agido de forma, digamos, mais “proativa”.

O primeiro fato a ser notado aqui é que depois de 1978, quando já se começa a preparar o terreno para a Lei de Anistia ainda no governo Geisel, os militares têm que dar conta de todo seu pessoal que vai ser anistiado pela lei de 1979. O que é de amplo conhecimento é que desde aquela época os jornais falavam em “linha dura” versus uma certa “linha moderada” ou “Sorbonne”. Não é este lado que nos interessa, pois ele não reflete exatamente como se estrutura o campo interno no Exército. O que ocorreu foi a confluência de 2 movimentos, que quero sistematizar de maneira breve aqui: (1), o problema da anistia e a herança do aparelho repressivo da ditadura; (2) os deslocamentos da doutrina militar e os novos teatros de operações.

O que pouca gente sabe é que internamente o governo Figueiredo, e posteriormente no Governo Sarney, começou-se uma clara política de imposição de um freio na carreira daqueles que tinham seu nome associado à tortura e à repressão. Nenhum torturador chegou ao posto de general, i.e., ao comando. Foi uma tentativa de “limpar a casa”, que até certo ponto teve êxito. Tanto que se viu até 2012 um enorme silêncio das FFAA em relação à política, excetuando-se talvez pelas ações espalhafatosas do então capitão Jair Bolsonaro, expulso da corporação ainda em 1980. Enfim, Lula passou incólume.

Com Dilma isso não ficaria assim. Ela é uma ex-guerrilheira, como todos sabem, do “pólo civil” dos anistiados. Já perto da eleição de 2010, uma série de associações de militares, como o grupo “TERNUMA: terrorismo nunca mais” começa a se manifestar, mas, mais do que isso, começa a proliferar. Isso porque o que eles temiam poderia acontecer, e de fato aconteceu: o Estado passou a agenciar uma política de revisão histórica e de tentativa de revogação da lei da anistia (ironicamente, MAIS UMA VEZ O QUE COMEÇA COM A DUPLA DILMA-CARDOZO, TERMINA COM O MPF). Nesse sentido, quero começar aqui com o que considero como o “ponto de convergência” de tendências anti-PT (anticomunistas, na verdade) que existiam no mundo militar para o que se desdobrou nos agenciamentos do Golpe de 2016.

Este ponto é seguramente a criação da Comissão da Verdade, que de início incomodaria muito mais ao setor da “comunidade repressiva” que estava na reserva, mas que depois acionou o gatilho corporativo e inflou uma mobilização geral. É preciso ter em mente algo muito sério aqui. Se por um lado houve uma “limpeza” na hierarquia militar nos anos 1980, é notável que desde o começo dos anos 1990, pelas poucas pesquisas que temos, houve um aumento progressivo da taxa de endogamia entre os militares que ingressavam na carreira. A grande maioria de novos militares é filho de militar ou ex-militar. A “comunidade repressiva” provavelmente continuou por meio de filhos e parentes, além de efetivamente estar presente em associações e clubes militares. Não é de se estranhar que o gatilho que a CNV acionou teve repercussão tão rápida.

2012 foi o ano em que se resolveu riscar o fósforo no paiol de pólvora, no meu entendimento. Em fevereiro deste ano, o Clube Militar lançou um manifesto contra a CNV. Houve uma interferência da Presidência da República, para que o manifesto fosse retirado das redes e das paredes de todas unidade de clubes militares do Brasil. Os clubes são entidades que dependem das Forças, mas são da reserva, e, portanto, tecnicamente autônomas e civis. Isso provocou uma reação em cadeia. Um segundo manifesto foi feito em favor do primeiro e publicado numa página da internet dedicada ao Coronel Ustra (torturador de Dilma), e foi assinado maciçamente. Fiz a contagem em março deste ano. Só de generais foram 130; coronéis, 868. Isso é muito. Hoje, trocando em miúdos, posso dizer, quase com certeza, que a CNV galvanizou nos militares em geral um forte anti-petismo, capaz de fazer um grupo minoritário, “estilo Bolsonaro”, surfar à vontade como uma voz representativa das FFAA. Falo dos generais de pijama que não se cansam de ameaçar, e que agora lançam suas candidaturas.

Este é um primeiro problema. O segundo movimento, então, é o que posteriormente vai alinhar a doutrina militar ao “problema interno” que a CNV gerou.

Desde a abertura política, a doutrina militar vinha sistematicamente produzindo um conjunto de peças que produziram um “inimigo” claramente identificado com um conjunto de interesses que se plasmava na tal “cobiça internacional pela Amazônia”. Isso era visto sobretudo através de uma lente que identificava uma ação disfarçada das grandes potências através de ONGs, do ambientalismo, da ONU, do movimento indígena, do MST, de parte da Igreja Católica, e de alguns partidos que eram identificados com esses movimentos, entre eles o PT. Não interessa o grau de acerto dessa proposição, mas sim o mecanismo que ela revela, essencialmente projetivo. Evidentemente isso tudo possui ambiguidades: nem todos nas FFAA vão se fiar a uma leitura tão estreita; mas é notável que isso foi assumido como uma “disposição oficial”: houve desde deslocamentos de brigadas inteiras do Sul/Sudeste para a Amazônia até a mudança de datas e comemorações. Armou-se todo um novo repertório, baseado sobretudo na ideia de um “inimigo infiltrado”. Vou voltar a isso.

Embora durante os anos Lula esses elementos tenham ficado em relativa estabilidade, no Governo Dilma 1 a CNV praticamente pavimenta o caminho para esta teoria ganhar o corpo que precisava. Nesse movimento, com a ideia de que a CNV era um compósito de (ex) comunistas querendo vingança, encontrou-se espaço para reativar a tese de um “novo comunismo internacional” que agora se plasmava nesse esforço geral das “potências invasoras”, vis-à-vis a China, Russia e suas ambições mineralistas e energéticas. Dilma e seus aliados nos BRICS reavivariam, assim, um comunismo 2.0 disposto a colocar a ordem internacional de ponta-cabeça, com o Brasil numa posição de capacho sul-americano da Russia. Nesse sentido, “tudo que estava disfarçado mostrou sua cara”, e se hoje vocês se perguntam por que as FFAA não reagem ao assalto que fizeram ao Pré-sal, é porque eles certamente pensam: “antes isso a nosso petróleo ser tomado pela estatal russa Rosneft (podem dar risada, mas ela começou a perfurar na Bacia do Solimões) e pela estatal chinesa Sinopec (podem dar risada 2, mas no Globo, em 2013, lia-se: “São quatro os tentáculos chineses que avançam sobre o petróleo brasileiro”).

O que vejo que está acontecendo, e não é difícil constatar isso a partir da produção de teses e dissertações nas escolas militares, é o modo pelo qual essas noções foram sendo costuradas. Trata-se então, para voltar ao que dizia acima, da consumação na doutrina brasileira de uma “teoria da guerra de 4a geração”, que é outro nome para isso que está se chamando de “guerra híbrida”. Basicamente trata-se de uma guerra baseada em operações de dissimulação, cujo objetivo máximo é produzir no inimigo um conjunto de ações divergentes para que este sempre esteja um passo atrás na leitura do “real”. Em outras palavras, trata-se de diversionismo, como em qualquer truque de mágica. Como disse, para se entender isso é crucial que tenhamos em mente que eles elaboraram para si próprios uma versão da noção de “guerra híbrida” que venha a explicar o que foi o movimento acima: “do disfarce ambiental-identitário ao neo-protagonismo comunista”. Lembre-se que se há uma central qualquer, ela está no deep state euroamericano, associado à finança internacional, que usou estratégias contra-informacionais para provocar as famosas “primaveras”, “jornadas”, etc. Para quem gosta do assunto, gostaria de chamar a atenção de que a “guerra híbrida” é um claro desdobramento da estratégia do Pentágono assumida desde mais ou menos 2005, baseada no que os Field-Manuals de contra-insurgência das FFAA norte-americanas postulam, basicamente se valendo de leituras das Ciências Sociais, Filosofia e Psicologia. Nesse sentido, não há mais uma “ação militarmente pura”, isto é, exclusiva de forças de combate: tudo se baseia em estratégias combinadas, e o aparelho de informações é o centro de comando e controle disso. O poder militar, então, passa a ser dependente de uma série de aparelhos-satélites que não podem operar na superfície do Estado, uma vez que sua operação é potencialmente danificadora da imagem de um estado como mecanismo de “garantia do real”. Trata-se, enfim, de uma máquina de mágicas e mentiras, e por isso mesmo ela é “deep”.

Nossas Forças Armadas ainda estão engatinhando nesse jogo. Isso é provocado por vários motivos, mas eu diria que isso se dá principalmente porque, em primeiro lugar, elas são extremamente fechadas e avessas à dependência de outros centros de produção de informações; para eles isso pode ser entendido como perda de controle. Tudo que vem “de fora” é absorvido de forma muito lenta, e com vários filtros. Em segundo lugar, há que se dizer que as FFAA também permaneceram durante um bom tempo numa certa defensiva doméstica, tendo que fabricar uma imagem de “garantismo legal” e de “assistência social”. Isso foi o custo da ditadura, e essa imagem foi trabalhada tijolo por tijolo durante os anos Lula, principalmente. O que sobra então para quem começa a prestar atenção na tal “guerra híbrida”? O acionamento dos velhos paradigmas do “inimigo interno”, que vão ganhando algum peso nas franjas do sistema informacional das FFAA, sobretudo Exército, nessas reuniões, clubes, escolas, palestras, grupos de estudos, etc. Nesse sentido, a adoção da “teoria da guerra híbrida” foi uma espécie de “achado”. E o que foi feito? Certos grupos de militares (como esses que se encastelam no defesanet) começaram a fabricar uma guerra híbrida dizendo que o PT produz uma guerra híbrida.

A ideia principal que foi publicada ao longo de uma série de artigos de pessoas ligadas ao defesanet, e que de certa maneira teve ressonância em políticas de segurança elaboradas por Etchegoyen, é que “o PT caminha para um processo de ‘subversivação’”. Geralmente se destaca como, a partir de sua destituição do Governo, o PT teria acionado para a guerra híbrida elementos que rapidamente estariam se convertendo em guerrilha, sobretudo através de “ligações com as FARCs” (os narcoestados, inclusive aqui procurando sobreabastecer o judiciário com a tese da “organização criminosa”), “com setores militares da Venezuela”, com “células terroristas” do Oriente Médio, “com o PCC”.

Estes seriam, no meu entendimento, os pontos de encontro que estavam e estão articulando setores não necessariamente coesos, como FFAA, PF e Juízes. Isso sem falar em todos os aspectos econômicos ligados ao problema energético e às finanças, que certamente entram nessa equação. É muito difícil juntar tudo isso em um quadro único, como as próprias teorias da guerra híbrida mostram acontecer, mas…

– … mas este é o ponto final a que queria chegar aqui: embora exista toda uma heterogeneidade dos agentes do golpe, há algo em comum que move eles nesse primeiro movimento tático: sua disposição conjunta para eliminar o PT. Porque isto ocorreu, acho que o Duplo Expresso vem com bastante pertinência explicando há meses. Por que se faz isso? Na minha hipótese, trata-se de depositar no outro aquilo que se quer esconder. Assim, se olharmos, por exemplo, a tese de “organização…” que o judiciário tem elaborado para o PT, veremos que ela se aplica igualmente sobre ele próprio: as ligações que Lula tinha com empresas, as palestras que ele deu, etc., hoje são rigorosamente repetidas por Sergio Moro. A “guerra híbrida” que o PT estaria produzindo, na verdade, é produzida dentro do próprio Exército, quando um general espalha sua versão da “Guerra Híbrida”. Tudo se passa, nesse sentido, como se essas corporações do Estado vislumbrassem, elas próprias, uma totalidade hegemônica que em dado momento de fato o PT produziu como uma narrativa triunfante sobre sua ligação com o Estado (“nunca antes na história desse país…”): tudo o que se diz sobre o que seria o tal “projeto de hegemonia gramsciana (sic) do PT”, hoje é igualmente procurado por esses atores.

Só que a guerra híbrida tem essa característica: corre-se o risco de se chegar a um ponto em que nem os agentes iniciais sabem exatamente das posições no teatro de operações. O que vemos como reação do grupo de Etchegoyen no defesanet é a tentativa de juntar duas frentes de batalha muito distantes uma da outra. Ao mesmo tempo, basta olhar os links que o site sugere, e se verá o general Mourão em convocatórias histriônicas, chamando soldados “à luta” (“Fica o alerta de Soldado, cuidado com a cólera das legiões !!!!”), seja lá o que isso quer dizer. E, claro, a partir daí, o apelo a Bolsonaro, o plano B da direita. Evidentemente não precisamos nos fiar no defesanet para chegar à conclusão de que o GSI acusou o golpe. A reação de Spektor, dias depois, mostra que a barra deve ter pesado nas bandas da FGV:

“Para mim, a experiência pessoal mais rica da última semana tem sido o depoimento de militares da ativa que fizeram contato depois de ler o documento para dizer que, finalmente, depois de tantos anos, o Brasil tem condições de olhar para seu passado de cabeça erguida”.

Duvido. “Agro-notícia”, como dizem aqui no Duplo Expresso: nenhum militar da ativa vai procurar um civil que anda girando a metralhadora para dizer “você tem razão”, sobretudo sobre o tema “passar a limpo”. O Exército não passará a limpo nem a Guerra do Paraguai, nem Canudos, nem 1964. Eu mesmo certa vez, na própria FGV, vi um conjunto de militares dizer que a CNV estragaria qualquer esforço de aproximação que se fazia entre militares e universidade(s).

O que fazer então? Não repetir o erro deles é o primeiro passo: nada de criar duas frentes. A essas alturas, seguramente o PT não deve contar com ninguém nas FFAA. Mas pode aproveitar da nada sutil reação que a turma do Planalto militar está tendo em reação a Barroso, por exemplo. Há alguns dias sugeri aqui no DE que bastam 5 minutos da propaganda eleitoral, batendo todo dia na tecla da justiça partidarizada, que eles vão ter que se dobrar. Mais cedo ou mais tarde haverá gente séria no Exército que vai perceber este movimento, se é que já não percebeu. Talvez a resistência de Villas-Boas seja um sinal disso, já que, como já se previu aqui também, o plano de Etchegoyen para intervenção no Rio foi lentamente cozinhado pelo comando, até se mostrar, hoje, inócuo. Por enquanto, pelo menos, as informações que estão chegando ao GSI ou são de baixa qualidade, ou muito mal interpretadas. A julgar pelas declarações mais recentes de Mourão, ou até mesmo do General Heleno, um dos mais condecorados militares que já passaram pelo Exército nos últimos tempos, tendo a crer que as avaliações que eles estão fazendo estão muito equivocadas. Enfim, veremos um desfecho disso com a sucessão de Villas-Boas. Ou ela também está engasgada nas eleições de outubro?

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  1. Doutor em Antropologia pela USP (2001), Professor na UFSCar.
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