Manchetômetro: e se o PIG já tiver gastado todos os cartuchos contra Lula?

Eleições, nosso inverno russo?

Por Piero Leirner[1], para o Duplo Expresso

As tabelas abaixo foram produzidas pelo Manchetômetro (LEMEP/IESP/UERJ) e correspondem ao período que vai de 0 de maio a 14 de junho deste ano, e tratam de como os 3 diários do consórcio golpista estão produzindo suas notícias de capa. Uma delas diz respeito a quantidade de vezes que cada candidato teve seu nome citado quando o tema é “eleições”, a outra é como Lula é especificamente citado em relação aos vários temas.

 

 

Vislumbrei algo que pode ser interessante aqui, embora até a mim me pareça ou improvável, ou arriscado. É uma estratégia de espera pelo “inverno russo” por parte da defesa de Lula. Eu e alguns colegas temos visto que ultimamente a defesa do ex-Presidente tem agido dando murro em ponta de faca, para falar o mínimo. O Duplo Expresso levantou pelo menos duas saídas que me pareceram bastante promissoras, sendo uma delas, a de buscar um processo na Suíça, a mim me parece mais ainda. Mas e se a defesa, sob as ordens de Lula, estiver propositalmente ganhando tempo?

Pelo que o Manchetômetro nos diz, olhando AS DUAS TABELAS DE FORMA COMPOSTA, pela primeira vez em alguns anos as 3 gazetas não têm mais material para ficar lançando munição pesada em Lula. Sabemos que mesmo com ele preso os processos não pararam, eles são a garantia de que um HC ou liminar pró-Lula precisa de mais material para um juiz de 1a instância pedir uma “preventiva”. Mas o fato é que também me parece que toda a munição que se situa na classe da “produção de provas”, isto é, da “produção de manchetes novas”, foi gasta pelo MPF + PF. Então a única coisa a se fazer, do ponto de vista do consórcio golpista, é tocar o passo e avançar.

Mas vamos vislumbrar a possibilidade que a defesa, ou que Lula mesmo, esteja tocando a estratégia de “terra arrasada”, recuando e esperando o momento certo, o tal “inverno russo”, para lançar uma contra-ofensiva “em cima da hora”? Enquanto Lula está preso, não tem manchete. O que vemos? Essa estratégia de “mais um recurso”, “mais uma negativa”. Nesse meio tempo o que se vê é o aumento substantivo da imagem de Lula perseguido, da justiça seletiva, de Moro ganhando prêmios vestido com seu black-tie nessa festa aristocrata, e, ainda por cima, os outros candidatos se matando entre si enquanto Lula permanece intacto. Mas essa reversão de imagem (Lula X Moro, detectada, aliás na última pesquisa Ipsos/Estadão), só ocorre porque Lula está preso e silenciado. Tenho a impressão que nesse momento, quanto mais alguém fala, pior fica. E todos aqueles que estão falando muito estão sujeitos a perder. Além disso, sabemos que o STF está movido por dossiês “contra os magistrados”, mas seria interessante pensar que do lado de cá alguém tenha algo na manga também, certo?

Isso vale, para pensarmos em um sentido estratégico, se Lula tiver vislumbrado o momento certo para uma contra-ofensiva, e se para isso ele tiver, atrás dos Urais, um estoque seguro de recursos bélicos para ir até Berlin. Eu mesmo acho que talvez o maior desses recursos seja o horário eleitoral: 5 minutos de TV todo dia batendo em Sérgio Moro com sua vestimenta mafiosa e rindo do lado de Dória e Aécio e ele não dura. Vamos se lembrar que a internet não é TV, e essas imagens não passaram no Jornal Nacional. Mas pode, e deve haver recursos jurídicos também, além desses pífios que a defesa tem apresentado. É uma questão de tempo, e de fazer a coisa de modo que as 3 gazetas do golpe não tenham mais nada a publicar exceto uma falcatrua do MPF, uma venda de sentença, etc. Para a imprensa também não restará alternativa, pois ela não vai querer afundar junto com a seção estatal do consórcio golpista.

Isso, evidentemente, pode ser um certo otimismo, pois o que estamos vendo até aqui é uma completa desarticulação, e, pior, uma divisão interna dentro do PT. Mas ao mesmo tempo a candidatura de Lula se mantém, o que de certa maneira me faz pensar que alguma estratégia existe. Ainda que às vezes eu duvide que a ficha do PT caiu, no sentido dele entender que se trata de uma guerra, é preciso ter em mente que Lula – a parte mais interessada – deve estar pensando em algo. Enquanto isso, cá entre nós, podemos continuar nosso trabalho insano, aqui, direto de Stalingrado.

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  1. Doutor em Antropologia pela USP (2001), Professor na UFSCar.
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