A saída da crise ao alcance da mão, Parte 1: Ciclo político, democracia e bilionários

Por Helio Silveira¹, Gustavo Galvão² e Rogério Lessa³, para o Duplo Expresso

Como sempre a força midiática do liberalismo!

É do liberalismo a afirmação, que deixados livres e sem a interferência do Estado, os empresários levariam a Economia ao Pleno Emprego, por mais que governos liberais como Temer e FHC mostrem o contrário.

Os liberais alegam que o déficit público tiraria a Economia do seu equilíbrio e produziria inflação. Em “Liberalismo: ‘fake news’ ou ‘bad news’?” mostramos que a assertiva não resistiu, por exemplo, às 2 grandes crises de 1929 e de 2008, quando a presença do Estado salvou o capitalismo de um final apocalíptico. A despeito destes 2 rotundos fracassos (e muitos outros menores), o liberalismo, a voz selvagem do capitalismo, aproveita a bonança da recuperação econômica produzida pelo Estado keynesiano para ludibriar a população com repetição diária na imprensa sobre os benefícios de uma suposta ausência de intervenção do Estado.

Toda essa massiva repetição, do que hoje chamamos de Fake News, se viabilizar pela a força financeira e política daqueles bancos grandes demais para quebrar que causaram a crise, que agora ninguém mais lembra.

Até quando os 99% consentirão?

Nos anos 30, a atuação Estado, corroborando as teses de Keynes, tirou o capitalismo de sua grande crise mundial. A tese keynesiana⁴/kaleckiana⁵ da Demanda Efetiva – DE – e a operacionalização dos partidos de corte social-democrata conduziram a recuperação econômica do pós-guerra e políticas desenvolvimentistas até início dos anos 70.

No entanto, aproveitando a crise do petróleo nessa época, os liberais começam a questionar a política keynesiana que produziu os 30 anos gloriosos do pós-guerra. Alegavam que o déficit público produzia inflação e os mais moderados só o aceitavam em caso de grave recessão econômica! Assim tão logo a situação voltasse ao normal cessaria a necessidade do Déficit Público.

Comentaremos a seguir como os expoentes da economia keynesiana, Kalecki, Minsky e Wray, em suas respectivas épocas, analisaram a atuação política dos liberais contra a presença do Estado e como os liberais fingiam não ver o uso do Estado para salvar a “fortaleza liberal” nos 2 episódios!

Até quando os 99% aceitarão que todas as vezes que os liberais advogam o “Estado Mínimo”, o 1% quer o “Estado Máximo” só para eles?

Kalecki em “Os Aspectos Políticos do Pleno Emprego” na época do capitalismo produtivo real

Kalecki afirmou em fins da II Guerra Mundial, que os empresários, por razões políticas, não aceitariam pleno emprego e nenhuma política do governo que pudesse efetivamente levar a ele. Faziam isso, apesar de advogarem, com supremo cinismo, que eles próprios livres de usar seu poder sem serem incomodados pelo Estado e pela democracia, produzirão, unicamente pelos sistemas de mercado, o Pleno Emprego. Ou seja, eles abominam o que dizem ser o resultado final do próprio liberalismo que apregoam como redenção da humanidade.

Esse artigo está publicado no link a seguir: “Os Aspectos Políticos do Pleno Emprego”. Ele é sintetizado pelas afirmações abaixo:

1- Os mega empresários aprenderam e sabem que o Estado através do Déficit Público pode manter a Economia em permanente situação de Pleno Emprego!

2- Eles, em particular aqueles do setor financeiro, não querem a manutenção do pleno emprego, especialmente se ele é atingido por meio do gasto público.

3- Eles acham que o Pleno Emprego permanente acabaria com poder político e econômico dos Grandes Tubarões Capitalistas, pois faria a sociedade descobrir que não é totalmente dependente do humor e “nível de confiança” deles para produzir prosperidade e bem-estar.

4- Na grande depressão de 1929, eles se opuseram ao aumento do emprego pela atuação do Estado mesmo quando não envolveu tributação adicional. Se opuseram também à volta à normalidade econômica propiciada pelo aumento da Renda Nacional e também se opuseram a volta de seus lucros em decorrência das políticas de aumento de emprego feitas pelo governo.

5- A resistência dos líderes industriais se resume a 3 questões:

a) Reprovam a atuação do Estado no estímulo ao emprego: Empresários não querem a concorrência da atuação de um Estado Forte (eles querem um Estado Servil aos seus interesses). Eles querem manipular condução política das condições econômicas, para tanto eles vendem a imagem que a Economia depende do “estado de confiança empresarial”. Esse “estado de confiança empresarial” poderia, segundo a “catequese” deles, “ser abalada” se o governo interferir na economia. Se eles se sentirem muito “abalados” por um governo proativo, não investiriam e haveria redução do emprego e da Renda Nacional. Tudo mistificação mal intencionada. Na verdade, eles temem que a intervenção do governo, que só pode ser feita por meio do déficit público em situações de baixo crescimento, mantenha Economia e o emprego sob controle do governo democrático e, portanto, tornando esse independente dos empresários, mas só do voto. Ou seja, a possibilidade do governo fazer déficit, faz os Grandes Tubarões perderem o controle da política para a maioria dos eleitores. Daí a verdadeira razão da insistência ao equilíbrio das contas públicas das “finanças saudáveis” (sem déficit): amarrar as mãos de um governo eleito democraticamente, pois sem poder fazer déficit, não há como tirar uma economia da recessão. Os Grandes Tubarões dão primazia à manutenção do poder político a obter maiores lucros, mesmo sabendo que os gastos públicos aumentam suas vendas e seus próprios lucros.

b) Reprovam a atuação do Estado no incremento do Investimento Público e no Subsídio ao Consumo:

  • Investimentos Públicos – Empresários aceitam investimentos públicos em objetos que não concorrem com os negócios privados, à época de Kalecki (anos 40): hospitais, escolas, rodovias e serviços públicos naturais como- eletricidade, telefonia, água, gás e transportes públicos urbanos eram serviços da órbita pública que não competiam com segmentos privados, já hoje, pelo avanço liberal tudo é passível de privatização. Então os empresários não queriam naquela ocasião a ameaça do Estado avançando sobre os segmentos do setor privado, como a indústria pesada, as finanças, os insumos básicos, a mineração, o petróleo e o refino. Eles sabiam que pela força de seu poderio econômico o Estado poderia tirar-lhes mercado.

 

  • Subsídio ao Consumo Popular – Seria de se esperar que empresários fossem mais condescendentes com subsídios ao consumo popular (por meio de pensões às famílias, subsídios para manter baixos preços essenciais – no caso brasileiro recente: bolsa família e redução de preço de combustíveis essenciais) do que em Investimentos Públicos, dado o receio do avanço empresarial público. Entretanto, é muito mais fortemente rejeitado porque fere o primeiro princípio moral da ética capitalista imposta ao trabalhador: “ganharás o pão com o suor de seu rosto!” (desde que não tenha uma herança ou um grande capital para bancar seu ócio, é claro…).

c) Reprovam a manutenção permanente do Pleno Emprego pela complementação da atuação do Estado devido ao possível empoderamento político dos trabalhadores: Empresários temem a manutenção de uma situação de Pleno Emprego, porque isso os enfraqueceria politicamente frente à sociedade democrática e aos trabalhadores. Teriam reduzido seu poder de barganha frente aos trabalhadores dentro das instâncias estatais. No Pleno Emprego, a demissão dos trabalhadores deixaria de ser uma medida disciplinar, o que daria mais poder aos trabalhadores e sindicatos. O medo do aumento do poder político dos trabalhadores é mais importante do que obter mais lucros. Possivelmente a tensão salarial, dado o grau de monopólio da Economia poderia gerar aumentos de preços e o mais temido receio dos liberais – a inflação, que afetaria seus interesses “rentistas’! Isto alarma o empresariado que prefere abrir mão de parte de lucros como um “preço pela estabilidade política” na mão deles. Para eles algum nível de desemprego é normal e desejável na lógica capitalista. E que a atuação do Estado para estimular a economia somente é aceitável em determinados momentos, quando a recessão é tão forte que pode levar todo o sistema ao colapso econômico e político.

6) Sempre haverá um economista a defender o que os Grandes Tubarões e Rentistas quiserem. Kalecki infere que em uma situação prolongada de Pleno Emprego ou bastando estar próximo a ele, os empresários e “rentistas” estariam contrariados e, nessa situação, estariam dispostos a encontrar mais de um economista (diríamos também mais de um jornal) para declarar que a situação é claramente enferma e de risco iminente de inflação galopante!

7) Ele infere ainda, em 1944, que o futuro das democracias capitalistas seriam uma alternância de momentos intervenção Estado estimulando a economia nas recessões e retirada do mesmo quando em situações próximas ao Pleno Emprego, ainda que seja na marra (em 2014 o Brasil estava próximo do Pleno Emprego). Isto mostra a eficácia da atuação do Estado na manutenção e desenvolvimento econômico das sociedades, mas que os Grandes Tubarões não desejam que essa eficácia seja conhecida e seja sempre em operação.

Leia a segunda parte do texto em https://duploexpresso.com/?p=95253

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1 Economista aposentado do BNDES
2 Economista do BNDES, doutor em economia pela UFRJ
3 Jornalista Econômico da AEPET – Associação de Engenheiros da Petrobras
4 https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Maynard_Keynes
5 https://pt.wikipedia.org/wiki/Michal_Kalecki

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