Os Hitlers já estão entre nós!

Por Maria Eduarda Freire, para o Duplo Expresso

Falar de fascismo é falar sobre o aspecto humano da liberdade e sobre a conjuntura histórica-social que favorece a renuncia individual à liberdade e a assunção do caráter autoritário, pois ao contrário do que muitos pensam, o fascismo não é uma patologia dentro de um corpo social saudável, nem muito menos, um momento de loucura em um contexto de sanidade, mas uma característica própria da condição humana à espreita de todo indivíduo saudável.

Toda crise cria um ambiente propício para o “cio da cadela do fascismo”, o ego individual combalido e fragilizado pela crise, impedido de realizar as suas potências, começa a preparar sua fuga e a perda de si mesmo.

Não foi só a posição econômica da classe média que começou a declinar, mas também o seu prestígio social, e essa distinção é o “Calcanhar de Aquiles” do narcisismo de classe. Portanto, toda essa frustração social estava sendo fervida em uma panela de pressão pronta para explodir. Pois é, estamos falando aqui da classe média da Alemanha pré-Hitler em 1933, mas também poderíamos estar falando da classe média brasileira no começo da Lava Jato, certo?

A classe média brasileira estava incomodada na sua cegueira seletiva, pois os pobres começaram a se tornar visíveis. O aumento pontual do poder de consumo fez com que os pobres passassem a frequentar os lugares que eram ocupados somente pela classe média como shoppings e aeroportos, ou seja, o que antes estava no “seu lugar” e portanto, invisível, agora estava fora do lugar. A classe média irracionalmente se sentindo “desalojada” e ameaçada em seus privilégios, além do ódio ancestral escravocrata que relega uma classe inteira ao abandono, invisibilidade e miséria são os ingredientes explosivos dessa panela de pressão social. O grau de destrutividade de cada indivíduo é proporcional a intensidade com que sua vida foi tolhida, portanto tínhamos na classe média, o reservatório de onde se nutrem as tendências hostis reprimidas, que se voltaria quer contra outros, quer contra a própria pessoa.

O fascismo institucional da operação Lava Jato foi o canal que ventilou o ódio ao pobre da classe média através da mídia que fez o trabalho sujo de racionalizar o ressentimento de classe através de um bode expiatório, a corrupção de um partido só. O bode expiatório para “colar” precisa vir acompanhado de um discurso moralizador e ser construído a partir de um preconceito prévio. Na Alemanha nazista, o racismo étnico viabilizou a criminalização dos judeus, aqui o racismo de classe pavimentou a criminalização do único partido que visibilizou os pobres, o Partido dos Trabalhadores. A transmutação do ódio de classe para um “moral cidadão de bem” com vassoura na mão para “limpar o país da corrupção”, orientado por ideias higienistas de aniquilação e destruição do outro manifestou-se em um festival de gozo sádico. A espetacularização midiática das prisões, escárnio público dos acusados de cabeça raspada, agrilhoados e despidos de poder foram verdadeiros rituais de expurgação do sentimento de inferioridade da classe média. A terapia de massas da Lava Jato já havia sido explicitada por Hitler em seu livro Mein Kampf em que fala da satisfação que as massas sentem por serem dominadas “O que elas querem é a vitória dos mais fortes e a capitulação incondicional dos mais fracos”.

O mundo que antes ameaçava esses indivíduos de classe média agora inclui bandeiras verde e amarela, camisa da CBF e gritos de ordem, esses indivíduos dissolvem-se em um todo maior e mais poderoso, para adquirir a força que seu ego individual carece, tornando-se parte de um poder que é reputado inabalavelmente forte para participar de sua força, glória e dominação. Assim como na Alemanha nazista, onde a dimensão de impotência que sentiam aquelas pessoas no bojo de uma grande crise econômica começa a encontrar nas SS um sentido de força. Ao lado da admiração e submissão à autoridade, ao mesmo tempo, o indivíduo deseja ser, ele mesmo, a autoridade e fazer com que os outros se lhe submetam.

A conformação do caráter autoritário, onde o indivíduo anula a independência de seu ego individual para se livrar de todos os riscos, medos e dúvidas que subjazem ao fardo do próprio livre pensar e o desamparo próprio da experiência de liberdade para se submeter como um rebanho em troca de segurança e alívio de dúvidas à uma autoridade externa que lhe traga “soluções mágicas”, verdades absolutas e que, portanto, o desincumba da angústia e ansiedade da reflexão, deixando-se conduzir pela mão forte de pseudos “Heróis”, “Salvadores da Pátria”, e “Benfeitores da Humanidade” ao anônimo papel de instrumento à serviço de fins que inevitavelmente, sacrificam as liberdades, os direitos individuais liberais concretos, alimentando totalitarismos de todas as espécies, ou seja, “Infeliz a nação que precisa de heróis”.

Para ser mais explícita: “As massas amam o que manda mais do que o que suplica e intimamente ficam muito mais satisfeitas com uma doutrina que não tolera rivais do que com outra que garante direitos liberais, muitas vezes sentem-se perdidas com estes direitos, e mais facilmente sentem-se desertadas. Elas não percebem a imprudência com que são espiritualmente aterrorizadas nem tampouco a mutilação ultrajante de suas liberdades humanas, pois de forma alguma lhes assoma ao espírito a falsidade desta doutrina”. Pasmem! Essa é uma citação de Hitler em seu livro Mein Kampf.

Os Hiltlers já estão entre nós!

A verdade é filha do tempo e não da autoridadeBertolt Brecht.

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