Para não dizer que não falei da Copa – Somos todos alienados! Aceita que dói menos

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Wellington, para quem você vai torcer nesta Copa: Brasil ou Suécia?” Esta pergunta, feita por um amigo sueco, me pareceu uma das mais difíceis dos últimos tempos. Inquieto, tentei mudar de assunto, falei sobre lojas com as bandeiras suecas e toda a atmosfera da Copa em Estocolmo e Gotemburgo, o telefone dele tocou e eu “me piquei”, como falamos lá na Bahia.

Eu acompanhei muito o futebol, frequentei estádios e cobri jogos internacionais. Confesso que escrevia um “esqueleto de texto” antes do jogo e preenchia o “corpo” na medida em que aquele festival de previsibilidade era confirmado. Com raras exceções, sempre foi muito fácil ter um texto pronto ou um áudio gravado logo após cada uma das partidas.

Um recente artigo do jornalista alemão Philipp Lichterbeck, publicado na DW, me forçou a uma reflexão (alguns chamariam de autocrítica) sobre a tal “pátria de chuteiras”. O brasileiro gosta mesmo do futebol ou isso é um delírio coletivo?

Comecei a lembrar do monopólio da Globo, o que falavam, as propagandas dos álbuns de figurinhas, etc. Lembrei da propaganda do Batom Garoto: “Cooooommmmpre batom! O seu filho merece batommmm”. “Sou vítima de uma máquina de moer a capacidade crítica”, concluí aliviado após a “regressão”.

Acontecia o mesmo com o futebol. “O Brasil é o país do futebol”, “Temos o melhor futebol do mundo”, “Pátria de chuteiras”, etc. Balela para acreditarmos que o futebol, um esporte como outro qualquer, era mais importante do que todos os problemas que nos cercavam.

Aqui na Suécia a TV Pública (SVT) divide o “pacote da transmissão” com a TV Privada (TV4 e C More). É menos piegas do que a Globo, há um pouco de jornalismo no trabalho deles. A cobertura privada tenta apelar para o óbvio e a TV Pública fala mais sobre política, cultura dos países, situação sócio-cultural, etc. Mesmo assim, é mais do mesmo.

Nos anos 90, Alain Touraine já havia nos alertado para o fato de que “a democracia ficará privada de voz se a mídia, em vez de fazer parte do mundo da imprensa, portanto, do espaço público, vier a abandoná-lo para se tornar, antes de tudo, empresa econômica cuja política é comandada pelo dinheiro ou pela defesa dos interesses do Estado”.

Neste artigo da publicação portuguesa “ZeroZero” temos um exemplo espetacular do que deveria ser a cobertura do futebol no Brasil. Principalmente nos anos que antecederam a famigerada Copa de 2014, quando Lula e Dilma deveriam ter comprado o direito de transmissão para a EBC e ter feito do futebol (num perfeito casamento com a comunicação social pública) uma ferramenta para “ensinar o povo a pensar”.

No lugar disso, vimos um dos mais sublimes momentos da nossa história esportiva ser substituído pelo ódio, festival de alienação dentro e fora dos estádios e uma Globo corrupta ditar as regras sobre a ética na política, ao sabor “Padrão FIFA”. Imperdoável!

O preconceito contra o futebol também é reprovável, mas apenas para consolidar a minha suspeita de que a atenção excessiva dada ao futebol – quando usado como ópio – no Brasil tem objetivos capitalistas estratégicos, lembrei de um artigo de 2010, de Marc A. Thiessen, “Soccer Is a Socialist Sport” (O futebol é um esporte socialista, tradução para o português), onde o autor tenta explicar as razões para o desinteresse dos norte-americanos por este esporte.

Será mesmo que amamos tanto o futebol? Seria isso apenas um vício? É possível sair da imensa bolha de alienação da Copa? Será que você vai sobreviver se o Brasil for eliminado? Estas perguntas foram feitas a mim mesmo quando lembrei das Copas que assisti, desde a infância. Foi assim que lembrei da propaganda do Batom Garoto.

Ah! Respondendo à pergunta do meu amigo sueco, depois de muita reflexão: vou torcer pela Islândia! Sei que o time tem pouquíssima chance de passar da primeira fase, mas é um país formado pelo povo e não por escritórios de hipócritas.

Em 2008 o povo islandês expulsou e condenou o primeiro-ministro, prendeu banqueiros e decretou a moratória dos bancos, rasgou a Constituição e escreveu uma nova, em um estádio de futebol, com a participação de representantes de todos os segmentos da sociedade. Assista a este vídeo quando tiver um tempinho:

 

Este pequeno país nórdico já havia feito bonito no Euro 2016 (nas arquibancadas e dentro de campo). Nas ruas e praças do país, uma sociedade consciente, politizada e guerreira celebrava o simples fato de estar em uma competição gigante, pois são poucos os praticantes do futebol naquele lugar gelado do planeta. Veja neste vídeo:

 

O futebol é pior do que a religião, pois esta não consegue mais disfarçar que quer o nosso dinheiro. O futebol nos faz torcer, ter fé, sofrer, comemorar, gastar, etc. e perder tempo, dinheiro, amigos… Tudo isso com a certeza de que nada perdemos ou nada ganhamos com ele, apenas legitimamos o mito da “pátria de chuteiras”.

Somos alienados! Aceita que dói menos!

 

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.