“Gente como a gente”: como capitão fracassado virou “mito” popular

BOLSONARO É GENTE COMO A GENTE?
COMO UM O CAPITÃO FRACASSADO VIROU UM MITO POPULAR

Por Thais Moya*, para o Duplo Expresso

Muito tem se falado sobre o perfil popular de Bolsonaro, principalmente, devido à exposição recorrente do seu cotidiano simples e corriqueiro, presente na maioria das famílias brasileiras. Se é ou não, de fato, o modo de vida dele, podemos divergir, porém, é patente que há uma superprodução com evidente intento de potencializar sua faceta de “gente como a gente”.

Entender e problematizar esse fenômeno é necessário pois o atual presidente tem ocupado o vácuo de liderança carismática, que cresce a cada dia que Lula passa isolado na prisão. Não se trata, obviamente, de uma simples substituição, até porque estão alocados como antagonistas no cenário político, o que torna a questão ainda mais intrigante, tendo em vista que uma parcela considerável de eleitores que votaria em Lula, até meados de setembro, ajudou eleger seu opositor quarenta e poucos dias depois.

Para além da equivocada e inconsequente candidatura de Haddad, que tem o mesmo carisma dos tucanos, e que não convenceu quase vinte milhões de lulistas, declarados nas pesquisas, no primeiro turno, e metade disso no turno decisivo; é imprescindível reconhecer que houve um ponto de identificação entre lulistas e Bolsonaro.

Em seu primeiro programa eleitoral, 1984, Lula abriu a porta de sua casa e expôs sua rotina bem familiar com a maioria dos brasileiros, veja.

 

A semelhança das narrativas de Lula, nesse vídeo, e de Bolsonaro, atualmente, são incontestáveis. Ambos se aproximam do eleitor por meio de uma “bagunça abençoada” tão presente nas casas mais populares do país.

 

Antes de focarmos em Bolsonaro, é preciso fincar a fronteira, talvez, mais importante entre os dois, que orienta toda divergência ideológica que resulta de suas lideranças. Como vemos no vídeo, e em toda sua carreira, Lula é um ser político, que valoriza e incentiva a política popular, ele, em si, tornou possível que as pessoas, todas elas, se projetem como políticos.

Já Bolsonaro é a antítese disso, pois foi forjado num intenso processo de despolitização popular por meio de narrativas que fomentaram repulsa pela política e políticos. Paradoxalmente, o combate à corrupção é o motor mais potente para produzir esse fenômeno, pois ilude a população de que os problemas sociais são todos decorrentes de esquemas corruptos, construindo, então, polêmicas enormes, muitas vezes parciais, focadas em políticos e partidos específicos, enquanto as causas fundantes e verdadeiramente capazes de alterar e melhorar a sociedade (concentração de renda, exploração do trabalho, colonização dos bens naturais, tecnológicos e subjetivos, como a racialização da pobreza, a misoginia da subalternidade, entre outras) são marginalizadas, esquecidas e naturalizadas.

Enfim, como o próprio sempre diz, Bolsonaro foi elevado ao mais importante cargo do país para “mudar tudo isso que tá ai, ta ok?”. Outra evidência de que sua liderança é ancorada no asco e, consequente, desinteresse popular pela política fica expressa no fato de ter sido eleito mesmo com sua expressa incapacidade intelectual, assumida ignorância em Economia, inexperiência administrativa, e quase três décadas de legislatura improdutiva. Ele não foi eleito para valorizar a política, pelo contrário, foi colocado lá para sepultar toda dialética que a mesma produz.

Para analisarmos como Bolsonaro e sua equipe constroem sua imagem acessível e popular, vamos avaliar cinco estratégias executadas simultaneamente por ele e sua equipe: 1) socialização da casa; 2) padrão “PiJânio” Quadros; 3) instrumentalização da narrativa moral-religiosa; 4) arquétipo de masculinidade e 5) gestão ideológica por meio de mídias digitais.

Socialização da casa
Todo dia, aqueles que seguem suas redes sociais recebem imagens e vídeos do interior de sua casa, são situações corriqueiras que geram sensações de empatia e intimidade, como se você fosse, ou pudesse ser, amigo próximo da família, aquele que costuma chegar, no meio da tarde, para tomar café e comer pão com leite condensado na mesa sem toalha.

 

Tal dinâmica é emocionalmente reforçada quando se faz questão de mostrar que as visitas mais poderosas recebem o mesmo tratamento que você receberia, como aconteceu com o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo. Bolsonaro ofereceu uma mesa de café da manhã exageradamente simples e bagunçada, que soou até caricata de tão produzida.

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O método permanece no Palácio do Planalto, o que honra ainda mais seus seguidores, obviamente. Na primeira semana, Bolsonaro postou mais uma de suas fotos mais típicas: deitado no sofá. Tem hábito mais popular, cotidiano, masculino e desejado pelos trabalhadores? Desconheço.

 

Sua esposa, Michelle, também abriu o Palácio para suas amigas da igreja que congrega, que postaram fotos e vídeos esnobando ter acesso livre no ambiente.

 

 

Vale ressaltar que essa prática de abrir a casa cotidianamente iniciou apenas em 2018, ou seja, no período eleitoral. Tal fato pode ser constatado em seu perfil Instagram, que está ativo desde 2014, e demais redes, o que reforça nossa tese de que se trata de uma produção predeterminada.

Padrão “PiJânio” Quadros
O ex-presidente, Jânio Quadros, é conhecido por ter performado extrema simplicidade, com vestuário maior do que seu número, simulações de caspa na lapela, cabelo desarrumado, dentre outras simulações. Bolsonaro segue um estilo semelhante, principalmente em sua casa, com bermudas e camisetas com aparência de muito usadas e sem preocupação alguma com combinações e estética padrão; mesmo na presença de personalidades, como se vê abaixo.

 

Até mesmo em sua posse, Bolsonaro não fez questão de usar um terno renomado, ao contrário, vestiu a produção de um alfaiate que é seu eleitor e fã, morador de Belford Roxo/RJ. Veja.

 

O vestuário pode parecer, para alguns, irrelevante, mas o impacto no imaginário popular é intenso e move afetos. Repare, por exemplo, nas imagens das entrevistas de Haddad e Bolsonaro para o Jornal Nacional, na campanha para o segundo turno.

 

Enquanto Haddad veste um terno pomposo, senta eretamente, numa sala tipicamente de classe média; Bolsonaro usa uma camisa preta com as ombreiras dois dedos abaixo do que deveria, calça jeans, escorado na cadeira e com pernas cruzadas, nitidamente à vontade em seu quintal.

Além do estilo, Bolsonaro segue a prática excêntrica de Jânio Quadros de governar informalmente por meio de bilhetinhos, porém, no caso atual, ocorre por meio do Twitter. O que demonstra objetivos inversos para métodos similares: Jânio objetivava manter suas diretrizes no campo privado, já Bolsonaro conduz sua liderança de fora para dentro, com estreita relação com o público.

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A semelhança mais relevante com Jânio Quadros, sem dúvida, é instrumentalizar questões morais para se consolidar entre os conservadores e distrair a população dos temas econômicos e embaraçosos. Jânio, por exemplo, estabeleceu o que ficou conhecido como programa de reformas morais, dentre outras medidas, proibiu o uso de biquínis na televisão e a briga de galo.

Instrumentalização da narrativa moral-religiosa
Até meados da década de 2010, Bolsonaro era um deputado sem relevância e produtividade que emendava mandatos, com esporádicas aparições polêmicas na televisão.

Ele começou a ganhar proeminência e eleitorado consolidado quando instrumentalizou e demonizou políticas federais educacionais que visavam combater a discriminação da população LGBT, batizando-as de Kit Gay, durante o primeiro mandato de Dilma. A partir de então, seu nome ganhou repercussão na internet e em alguns programas televisivos populares como CCQ e Super Pop, processo que lhe rendeu quase meio milhão de votos, em 2014, pleito que foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro; o quadruplo de eleitores de 2010.

Seu eleitorado multiplicou de um mandato para outro devido a sua postura moralista e preconceituosa (não só contra LGBT, mas também contra mulheres e negros, propriamente) que foi interpretada como “lacração” por uma legião de pessoas, majoritariamente homens, que passaram a chamá-lo de Mito. Simultaneamente, a Esquerda e movimentos variados partiram para uma campanha de oposição ferrenha, que, paradoxalmente lhe deu mais fama, em diversas camadas e esferas sociais, pois seu nome e discursos circularam em várias esferas sociais.

Já em 2014, surgiu a campanha para sua candidatura para Presidência, e, desde então, pipocava a #Bolsonaro2018 nas redes. Nesse processo, houve a aproximação das igrejas evangélicas que se identificaram com seus posicionamentos contra LGBT, que aumentou a potência quando convergiu com a caçada internacional ao que denominaram Ideologia de Gênero, comandada pelo Vaticano, e, aqui encabeçada por lideranças evangélicas. Literalmente, juntou-se a fome com a vontade de comer: um líder carismático famoso por sua perseguição a tal grupo e um movimento religioso mundialmente articulado para demonizar e extinguir qualquer política pública que toque nas questões de gênero e sexualidade. Sendo assim, Bolsonaro surfou na onda evangélica que se agigantou, no Brasil, na última década.

Quanto mais 2018 se aproximava, mais seus discursos anti-LGBT e antifeminista, antes apenas raivosos e pouco fundamentados, se alinhavam com as expectativas judaico-cristã, no escopo de valores que determinam a supremacia da família tradicional, criada por Deus. Paralelamente, ele lançava deboches e críticas a religiões afro-brasileiras e correlatas, o que afinava sua oratória com os movimentos que o elegeriam poucos anos depois.

Bolsonaro, mesmo se declarando católico, chegou a se batizar como evangélico, em Israel, no rio Jordão, ou seja, no exato lugar em que Jesus foi batizado por João Batista. Detalhe: tal fato ocorreu durante a votação do Impeachment de Dilma no Senado. Para quem é minimamente familiarizado com os signos evangélicos entende a seriedade e a importância do ritual, e como tais imagens o chancelariam para assumir o posto de liderança nacional.

O deputado é batizado

 

Arquétipo de masculinidade
Todas as pesquisas eleitorais demonstraram que o núcleo duro do eleitorado bolsonarista é formado por homens. Esse fenômeno é compreensível quando entendemos que Bolsonaro reproduz insistentemente o arquétipo da masculinidade forjada por meio do combate de ameaças da mesma.

Nada mais explicativo do que a mitologia do Kit Gay que desenvolve uma verdadeira Cruzada contra a possibilidade da masculinidade heterossexual ser corrompida nas esferas extrafamiliares, mais especificamente nas escolas. Perceba que não se trata do anseio de proibir que as crianças sejam apresentadas à não-heterossexualidade porque não deveriam estar cientes dela naquele momento; ao contrário, trata-se de garantir o poder unilateral de apresentá-la como algo péssimo e merecedora de castigo e violência. Ou seja, querem a garantia estatal de que as crianças cresçam sob medo e vergonha de serem homossexual ou transexual; além de incutir no imaginário delas de que estão autorizadas à marginalizar quem é ou supõem ser.

Para seus seguidores, a masculinidade não é ameaçada somente pela homossexualidade, é também abalada pela contestação e desconstrução do padrão misógino que tem como pressuposto a superioridade dos homens e, consequente, autorização para os mesmos controlarem as mulheres. Não à toa, Bolsonaro e seus filhos empunharam a bandeira antifeminista, e lançaram ideários de que o Estado não pode intervir na discriminação que essas sofrem no mercado de trabalho, por exemplo.

Quando percebemos que o homem médio brasileiro tem em Bolsonaro, ao mesmo tempo, um espelho, um megafone e uma arma, fica mais compreensível a enorme adesão masculina que o atual presidente possui.

Falando em arma, eis nela outra prova de que o bolsonarismo está fundamentalmente dependente da necessidade de reafirmar que a masculinidade está em risco, e o famoso discurso da liberação de posse de arma de fogo em domicílio reforça isso.

Enfim, tal arquétipo é um prato cheio para milhões de homens que tem se sentido ameaçados pelas políticas sociais que desestabilizaram a superioridade masculina que os mesmos presumem ser merecedores.

Gestão ideológica por meio de mídias digitais
Embora saibamos que parte da força digital do bolsonarismo venha dos robôs e impulsionamentos irregulares, é necessário reconhecer que Bolsonaro desenvolveu uma enorme e complexa rede de comunicação que lhe permite acesso direto a cada seguidor, ou por meio de pouca mediação, pelo WhatsApp. Sendo que essa mediação possui uma conotação ainda mais íntima e confiável tendo em vista que as mensagens costumam chegar de familiares e amigos.

Ignorar ou minimizar esse poder de comunicação é literalmente tapar os olhos para o que acontece ao nosso redor, em nossas famílias, ambientes de trabalho e entretenimento. Trata-se de uma realidade palpável, ou seja, existe uma hegemonia cultural bolsonarista que orienta milhões de brasileiros por meio de narrativas, muitas delas falsas, porém, convincentes para quem a recebe.

Além de criar e difundir fake news, a equipe de comunicação de Bolsonaro tem evidente preocupação de qualificar as mensagens, ou seja, uma evidente gestão ideológica que demoniza personalidades, intelectuais, partidos políticos, imprensa, e afins; ao mesmo tempo que prestigia e indica alternativas, como se vê abaixo.

 

 

 

Como vimos, a popularidade de Bolsonaro tem um complexo processo de confecção que tinha como matéria prima, pasmem, um capitão fracassado, expulso/reformado por planejar atentado terrorista contra o próprio quartel. Gostemos ou não, sua equipe soube criar um Mito, que, hoje, tem respaldo popular, em diversas camadas econômicas e culturais.

Por fim, resta a Esquerda olhar tal fenômeno com apreensão suficiente que redunde em conclusões similares às apresentadas pelo rapper Mano Brown, diante da nata petista e militantes, durante a campanha eleitoral:

Eu não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, que me respeitavam, me amavam, que me serviam café da manhã, que lavavam meu carro, que atendiam meu filho no hospital se transformaram em monstros, não posso acreditar nisso. Não posso acreditar que essas pessoas são tão más assim. Se em algum momento a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço, porque a comunicação é a alma, e se não estão conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo. Falar bem do PT para torcida do PT é fácil. Tem uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada ou a gente vai cair num precipício. […] Deixou de entender o povão já era. Se nós somos Partido dos Trabalhadores, partido do povo tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta para base, vai procurar saber.

 

 

Obviamente, não se trata de repetir as narrativas discriminatórias e reacionárias do bolsonarismo, ao contrário, significa se aproximar e entender o porquê e como tais pautas atuam de modo imperativo nas classes mais populares. Trata-se de reinventar e/ou criar do zero estratégias, comunidades e movimentos que sejam alternativas às igrejas no que tange o papel de acolhimento emocional, material e cultural. Trata-se de (re-) aprender o cotidiano cansativo do trabalhador que tem em sua mão uma válvula de escape: celular e a internet.

Sem o retorno à base, como Mano Brown exortou, jamais conseguiremos reintroduzir o debate econômico e o apreço pela política no cotidiano brasileiro, o que nos manterá reféns das pautas manipuladas pela Direita.

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* Thais Moya é Doutora em Sociologia e Pós-Doutora em Ciências Sociais.

 

 

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