Terremoto na Turquia pode mudar o mundo?

Por Gustavo Galvão, para o Duplo Expresso

SITUAÇÃO
A imprensa brasileira pouco fala, mas está acontecendo um pequeno terremoto econômico e geopolítico no Oriente Médio nesta semana em razão do violento ataque cambial contra a moeda da Turquia. A Lira turca perdeu mais da metade do seu valor este ano, 40% em apenas uma semana.

Ao contrário de todas as outras crises cambiais que eu já assisti, nesta o Chefe de Estado não sucumbiu, ao menos até agora, à pressão do mercado. O presidente da Turquia, Ergodan, disse que não fará nada o que o mercado está exigindo:

  1. Não aumentará os juros;
  2. Não aceitará nenhum pacote de ajuda, seja do FMI, da União Europeia, dos EUA ou mesmo outros membros da OTAN.
  3. Não vai soltar o “pastor” americano preso, Brunson, e em vias de ser julgado por terrorismo e conspiração (espionagem) na tentativa de golpe para derrubá-lo.

Erdogan diz que a Turquia está sofrendo com terrorismo e sabotagem econômica por potências estrangeiras (EUA) e lobbys bancários. E disse que não vai ceder a chantagens.

O presidente Donald Trump contribui para dar credibilidade a essas afirmações de Erdogan na medida, porque os ataques cambiais à Turquia começaram ou se intensificaram violentamente na última quinta feira logo depois que Trump ameaçou pelo Twitter impor sanções comerciais à Turquia, basicamente às exportações de aço e alumínio do país para os EUA.

Trump fez isso em resposta à decisão do dia anterior, quarta-feira, de um tribunal da Turquia de rejeitar o acordo de troca do “pastor” americano, acusado de terrorismo e espionagem, por um prisioneiro turco em Israel.

Erdogan disse que não vai rever a decisão do tribunal que condenou o “pastor” à prisão domiciliar. Ao contrário, ele contra-ataca ameaçando se aproximar da China, Rússia e dos BRICS, caso o ataque cambial não cesse.

A crise na Turquia tem um imenso impacto econômico mundial, porque por contágio os investidores estão sacando seu dinheiro das carteiras de fundos de investimentos em países emergentes.

Não apenas os emergentes estão sofrendo. Bancos europeus especialmente da França e da já sofrida Europa Mediterrânea (exceto Grécia) tem imensos volumes de empréstimos ao setor privado turco. Se a moeda não voltar a subir, a maior parte desses empréstimos deve se tornar insolvente. O ministro da Economia da Itália disse que espera um ataque neste mês contra os títulos da dívida pública italiana. Cabe salientar que os ataques cambiais em países que perderam sua soberania monetária, como a Itália, acontecem basicamente sobre seus títulos de dívida pública.

A médio e longo prazo, se esse quadro não mudar, o sul da Europa vai sofrer também com o aumento da concorrência em suas exportações para o Norte da Europa, em particular, turismo, azeite de oliva, frutas mediterrâneas, hortaliças, alimentos processados, manufatura leve e bens duráveis de consumo.

[Nota D.E.: a Turquia faz parte de uma união aduaneira com a União Europeia]

Mas por enquanto o impacto maior está acontecendo entre os emergentes. A Argentina, como resposta à crise Turca, aumentou sua taxa de juros para 45% ao ano. O dólar comercial no Brasil atingiu o patamar de R$ 3,91 na segunda feira. Moedas fortes como franco suíço estão subindo.

DIAGNÓSTICO ECONÔMICO

I) A Turquia estava realmente vulnerável

Não foi apenas um ataque geopolítico dos EUA contra um país/província rebelde, a Turquia, como no Brasil do período Dilma. A Turquia realmente tem uma grande vulnerabilidade externa que tornou o ataque cambial fácil e previsível.

Os principais indicadores de vulnerabilidade externa a ataques cambiais são:

(1) Déficit em transações correntes do balanço de pagamentos;

(2) Relação entre reservas cambiais e dívida de curto prazo.

A Turquia mostra elevada vulnerabilidade em ambos indicadores.

Em particular o déficit em transações correntes na Turquia é de 6% enquanto que o mercado e os economistas práticos consideram que 4% do PIB de déficit em Conta Corrente já seria insustentável.

Nos próximos 12 meses terá o setor privado, incluindo bancos e empresas, de rolar US$ 142 bilhões em dívidas. Os ativos da Turquia em dólares somam cerca de US$ 100 bilhões – ou seja, não dão conta de cobrir as obrigações financeiras do próximo ano.

Para tornar a crise mais grave, Erdogan rejeita adotar as medidas mais usuais nesse momento, que são aumentar as taxas de juros, apesar de as taxas de juros na Turquia serem muito baixas. A taxa de juros da Turquia está abaixo da inflação há tempos.

II) O gatilho para o ataque cambial não foi a ameaça de sanções comerciais por parte de Trump

As exportações da Turquia para os EUA são de apenas 5% de suas exportações totais. As exportações de aço e alumínio da Turquia para os EUA são ainda menos importantes em relação ao total. Portanto, as ameaças de sanções comerciais por Trump não tinham nenhuma importância em si mesmas para iniciar o gatilho do ataque cambial.

DIAGNÓSTICO GEOPOLÍTICO

Se não foi a ameaça de sanções comerciais que coordenou os investidores no ataque em massa à moeda turca, o que pode ter sido?

O tuites do Trump na verdade passam a seguinte mensagem para os investidores: “acabou a garantia de empréstimo de última instância dos EUA e União Européia ou dos órgãos controlados por esses países como FMI para a Turquia”. Assim, “a partir da agora, a Turquia está livre para também sofrer ataques cambiais, ao menos até Erdogan se dobrar aos EUA”.

A Turquia viveu por muitos anos sob alta vulnerabilidade externa com elevado déficit em conta corrente e, apesar da vulnerabilidade, passou relativamente incólume às crises:

  1. Asiática
  2. Russa
  3. Brasileira de 98
  4. Americana de 2000 e 2001
  5. Brasileira de 2002
  6. Americana de 2008-9
  7. Brasileira de 2015

A Turquia sempre foi protegida de crises cambiais com financiamentos externos sempre fartos do “Ocidente”, ou melhor, da OTAN, porque a Turquia era e é sempre foi uma ameaça em potencial de bloqueio da marinha russa e do transporte oceânico russo para mares não congelados.

Pelo menos desde a Guerra da Criméia, passando pela Primeira e Segunda Guerras Mundiais, a Turquia cumpre esse papel de bloqueio contra a Rússia.

Até pouco tempo atrás Erdogan era o garoto de ouro do Ocidente. Inclusive, mais do que seus antecessores.

Erdogan tinha ligações com a irmandade mulçumana, acobertadamente pró-ocidente, e com o equivalente turco dela controlada pelo ex-amigo de Erdogan, Fethullah Gullen, radicado nos EUA, que ele acusa de ser agente da CIA e de ter tramado a tentativa de Golpe contra ele em 2016.

Erdogan ajudou no serviço sujo de destruição da Líbia pela OTAN, depois foi fundamental na destruição da Síria sob comando dos EUA.

A aproximação recente da Turquia em relação à Rússia é a verdadeira causa do fim do guarda chuva de proteção financeira que protegeu a Turquia por décadas de ataques cambiais e em especial Erdogan.

As alianças com a Rússia que os EUA querem que a Turquia cesse são:

  1. a compra do sistema russo S-400 de defesa anti-aérea.
  2. a construção do gasoduto russo que abrirá uma terceira ou segunda alternativa de exportação de gás russo para a Europa uma vez que os EUA estão tentando impedir a construção do Nordstream sob o mar báltico e a Ucrânia está sempre bloqueando o gás russo e cobrando altos pedágios.
  3. terá de obedecer os EUA na questão Síria e não fazer alianças com Damasco e nem atacar tropas de mercenários e terroristas patrocinados pelos EUA e petro-monarquias do Golfo.

Erdogan prometeu não recuar, e, ao contrário, fortalecer os laços com a Rússia, China e Irã.

Quem vencerá essa queda de braço? Hoje dia 15 de agosto os mercados subiram timidamente. Correu um boato de que a Turquia já estava disposta a devolver o “pastor terrorista” para os EUA. Pode não ser verdade, mas se isso acontecer Trump poderá cantar vitória em seu próprio jogo, as eleições de meio mandato nos EUA. Trump provavelmente buscará novas “escadas”, depois de Kim, Maduro, Putin, Merkel, Irã, China e Erdogan para lhe levar ao “alto” da popularidade possível até a reeleição em 2020.

O novo Sultão da Turquia provavelmente fará o mesmo, mas, pela primeira vez em seus 16 anos no poder, terá que lidar com fortes limitações econômicas que lhe obrigarão a investir mais na indústria.

A mágoa frente aos EUA deve permanecer. A Eurásia – Rússia, China e Irã – saberão afagar essas mágoas com ótimos acordos que poderão alterar 200 anos de aliança geopolítica da Turquia com o “Ocidente” e alterar o perfil da economia Turca e da região. O mundo mudou substancialmente este mês, mas ainda está longe de ter terminado.

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