Pense e dance, pense, pense e dance

Por Carlos Krebs*, para o Duplo Expresso:

Muitas pessoas (inclusive eu) apregoam a necessidade de buscarmos fontes alternativas de energia. Há necessidade que se diminua o impacto provocado no meio ambiente pelo consumo exponencial de eletroeletrônicos. E a tendência é de que a humanidade demande isso cada vez mais.

Aproveitando o fato da mídia corporativa e parte da mídia alternativa incitarem as pessoas a um posicionamento no padrão oito ou oitenta, e de estarmos em ano eleitoral, que tal imaginar o Brasil como uma imensa pilha? Com tanta polaridade alimentada durante os anos mais recentes, que tal pensarmos em uma forma de produção de energia que serviria tanto aos patos amarelos e seus protestos (de)coreografados, quanto aos patos vermelhos e suas micaretas (r)evolucionárias?

 

Hemisférios Cerebrais

Nossos cérebros tem dois hemisférios responsáveis por processar as informações distintamente. Enquanto o hemisfério esquerdo diz respeito às atividades racionais e analíticas, o da direita ocupa-se das atividades sensoriais e emocionais. Notem que não há polaridade entre eles, mas sim, uma necessária dualidade.

Se tivéssemos apenas o hemisfério esquerdo atuando e fôssemos colocados e frente a uma floresta, poderíamos entender que uma árvore é diferente da outra que é diferente da outra e da outra e assim por diante. Se tivéssemos apenas o hemisfério direito, veríamos essa floresta apenas como uma grande massa vegetal verde, sem a singular distinção entre as árvores…

Imagem esq: “Albert Einstein” por Oren Jack Turner, do acervo The Library of Congress (USA) | imagem central: “Brain Hemispheres” (Hemisférios Cerebrais) por freepik.com (2015) | imagem dir: “Salvador Dalí” por Philippe Halsman, Fundação Gala (SPA)

Ninguém precisa possuir as genialidades de um Einstein (com seu domínio lógico) ou de um Dalí (com sua sensibilidade artística) para entender  melhor a situação do Brasil, e sob quais condições estamos obrigados a viver. Nem só pensar, nem só dançar. Quem quiser se deixar levar pelas emoções, vai dançar – e não será por diversão. Quem evitar o raciocínio sobre o que estão oferecendo como contraponto político ao regime atual, também dançará. Os think tanks que atuam no país induzem ao pensamento linear e coordenam discussões que fazem que olhemos as árvores sendo cortadas uma a uma, sem que possamos entender o tamanho do “mato sem cachorro” que nos enfiaram…

 

Piezoeletricidade

O tema abordado esta semana, do ponto de vista técnico, não é nenhuma novidade. Trata-se da piezoeletricidade, que é a capacidade de alguns cristais gerarem tensão elétrica por resposta a uma pressão mecânica. A palavra “piezoprovém do grego piezein [pí-zín], que significa apertar/pressionar, ou seja, eletricidade gerada por pressão.

O efeito piezoelétrico (mecânico-elétrico) foi descoberto em 1880 pelos físicos e irmãos franceses Jacques e Pierre Curie (este último, ganhador do Nobel de Física em 1903 junto com sua esposa de nacionalidade polonesa, a físico-cientista Marie Curie), explorando as potencialidades do quartzo. O efeito piezoelétrico inverso foi deduzido matematicamente no ano seguinte pelo físico franco-luxemburguês Gabriel Lippmann, a partir da observação dos princípios fundamentais da termodinâmica [DE1].

Imagem esq: Jacques Curie por © Emilio Segrè Visual Archives (1926) | imagem central: o casal Pierre Curie e Marie Sklodowska-Curie (1895) | imagem dir: Gabriel Lippmann (1908)

Entretanto, essas descobertas permaneceram no mundo das curiosidades até o físico alemão Woldemar Voigt lançar o “Livro da Física do Cristal”, onde ele apresenta as estruturas cristalinas capazes de gerar uma corrente elétrica quando submetidas a uma determinada pressão mecânica.

Com isso temos a transformação mecânico-elétrico:
– Agulha de toca-discos;
– Microfone.
Ou a transformação elétrico-mecânico:
– Ultrassom;
– Alto-falantes.

 

Pop Stage WATT

Há dez anos a empresa Energy Floors, a partir de um conceito básico desenvolvido na University of Technology Delft (TU Delft),  apresentou uma proposta interessante para melhor aproveitar o know-how dos DJs holandeses e o frenesi das pessoas dançando no ritmo alucinante das raves eletrônicas. Sob o slogan “pense global, dance local”, instalou uma pista de dança modular no clube noturno de dança WATT na cidade de Rotterdam (NED).

Imagens esq e central: Cine-Teatro Roxy (1936) por © Nostra, em reportagem sobre o cinema perdido de Rotterdam (2015) | imagem dir: Club WATT por © ANP (2010)

Concebido como um clube de dança sustentável, e apostando em um ecossistema ambientalmente amigável como diferencial de mercado na primeira década deste século, o projeto foi desenvolvido pelo Döll | Atelier voor Bauwkunst – em parceria com Kossmann.dejong, de Amsterdam (NED),  para Brotherhood Holding (2007-2008). Segundo um exagero de descrição dos autores, a WATT tornava-se uma cidade em si, um prédio para passear. Cada ambiente tinha uma atmosfera específica, criados pelo uso de materiais e cores únicas, através da adaptação do um antigo Cine-Teatro Roxy (posteriormente rebatizado Arena) que sobrevivera à Segunda Grande Guerra. O elemento principal do design era a entrada monumental da rua que conectava as principais funções do edifício: a área de shows para 1400 pessoas, o salão de dança para 300 pessoas, o salão-teatro para 150 espectadores e o café-restaurante com 200 lugares.

Sequência de desenhos mostrando o projeto do Pop Stage Watt, Rotterdam (2007-2008)

O clube oferecia ambientes ao ar livre para que o público experimentasse a relação entre a cidade e a natureza. No terraço mais alto, o WATT coletava a água da chuva que era utilizada nos sanitários. No desenho da fachada havia uma grande parede de led que servia como elemento de comunicação dos aspectos sustentáveis ​​do clube e dos critérios de respeito com o meio ambiente, além de uma parede lateral vegetada que apresentava-se como continuação vertical do parque adjacente.

Diferente das propaladas inteções do projeto, a operação do clube não teve uma vida tão sustentável quanto se imaginava. Em 2010, o WATT foi à falência devido à repetidas reclamações pela poluição sonora, uma grande dívida e uma relação pouco clara com o município, responsável (entre investimentos e subsídios) por €3,5 milhões injetados na operação.

Imagens do Clube Noturno WATT por © Thjis Wolzak (2008)

Se o clube noturno não deu certo, a Energy Floors não tem do que reclamar. De acordo com números obtidos em seu website, a empresa tem atuado em diversos locais do mundo. Já “energizou” quase 300 eventos, tem 34 instalações permanentes, atingiu 12 milhões de pessoas e gerou 5,8 bilhões de joules (1611,1 kWh).

Imagem esq: Dimensionamento dos Módulos por Carlos Krebs | Imagens central e dir: Instalação permanente no De Kuip Stadium (do time holandês Feyenoord), em Rotterdam, por © villadinamica.com (2014)

A energia E em kilowatt-hora (kWh) é igual à força P em watts (W), vezes o período de tempo t em horas (h), dividido por 1000:

E(kWh) = P(W) × t(h) / 1000

Então:
kilowatt-hour = watt × hora / 1000
ou
kWh = W × h / 1000

Imaginemos então as 80.000 pessoas que participaram do evento Festival Lula Livre no Rio de Janeiro. Digamos que cada pessoa pudesse dançar e cantar as músicas por duas horas, além de gritar slogans e pular ritmadamente por mais uma hora durante o tempo do evento.

Seguindo a fórmula, teríamos gerado algo como 80.000 x [(10W x 2 / 1000) + (20W x 1 /1000)], ou seja, 3.200kWh.

Artigo baseado em pesquisa no Conjunto Habitacional Jardim São Luís, em São Paulo, apontou um consumo de eletricidade de 47kWh/mês por morador, com ocupação média de 3,3 moradores por habitação. Assim, essa energia totalizada no evento poderia significar a demanda de mais de vinte meses para uma família de baixa renda.

Se for para discutir a inutilidade do discurso de liberadade sem ação política associada, eu prefiro investir então no tunt-tunt sustentável. Já tenho até um misto de garoto-propaganda, mentor com forte liderança e eficiente diretor de recursos humanos em mente. E você?

Imagem esq: Pixelbay por © New Order (2017) | imagem dir: Sarrada por CC Ricardo Stuckert/Instituto Lula (2017)

 

 


* Carlos Krebs é arquiteto, cinéfilo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.

* * *

DE1 – “Termodinâmica” é o ramo da Física que estuda as leis regentes das relações entre calor, trabalho e energia.  De uma forma mais específica, trata a transformação de um determinado tipo de energia em outro, ou da disponibilidade de energia para a realização de trabalho, ou ainda a direção das trocas de calor. No âmbito da física das construções, entender a direção do fluxo de calor significará compreender quando/quanto o ambiente interno ganha/perde de calor em relação ao meio externo. Sempre haverá uma busca pelo estado de equilíbrio entre as duas partes. Impedir ou facilitar essa condição poderá ampliar a sensação de conforto de um usuário ou morador, por exemplo.

 

 

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