A grande disputa geopolítica do século XXI: mobilidade, meio ambiente e inteligência artificial – Série em 10 artigos

Por Gustavo Galvão, para o Duplo Expresso

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Parte X: Guerra ambiental ou crise: China, Ocidente e Brasil

A ausência de compromisso chinês com a indústria do petróleo e a velha indústria automobilística deve acelerar o processo substituição tecnológica. Esses setores sempre resistiram nos EUA e Europa à expansão do carro elétrico, como pode ser constatado no filme “Quem matou o carro elétrico?”.

Na China, as empresas de petróleo e automóveis são na grande maioria estatais e seguem o governo, que vê o carro elétrico de uma forma muito especial. Para eles, essa é a única chance de difundir o automóvel por sua população (o que é essencial para a modernização econômica) sem causar um sério desastre ambiental nas já poluídas cidades chinesas e em todo planeta. Além disso, a oferta mundial de petróleo não tem como suprir a demanda, com preços razoáveis, a popularização do automóvel na China.

O automóvel é imprescindível para a continuidade do crescimento chinês. Nos EUA há 75 veículos para cada 100 habitantes. Na China, em 2007, havia pouco mais de 4 veículos por 100 habitantes. Isso significa que os chineses estavam mais de 60 anos atrasados em relação aos países desenvolvidos em relação à civilização do automóvel. E esse é um dos motivos pelo qual ainda é o único país do mundo em que a indústria tem um peso no PIB maior do que os serviços, respectivamente 49% e 40%, em dados de 2007. Normalmente, em qualquer país, os serviços correspondem ao triplo ou ao menos o dobro da participação da indústria no PIB. O espaço para crescimento dos serviços mostra o potencial latente de continuidade do alto de crescimento na China. Potencial que só pode ser aproveitado com uma mudança no padrão de vida e aumento do consumo de serviços, que precisam do automóvel para acontecer.

As exportações industriais puxaram o crescimento chinês nas últimas décadas. Mas com a crise, elas mostraram claramente que bateram no teto em muitos setores. A saída agora deve ser o mercado interno e os serviços. A questão é como fazer com que os chineses aumentem o consumo de serviços. Uma das soluções é aumentando a renda das pessoas através dos gastos públicos. A outra – complementar a essa – é mudando os hábitos de consumo. E o automóvel é chave para essa mudança.

O crescimento da indústria automobilística é uma das poucas coisas que podem fazer com que a China continue crescendo próximo a 7% ao ano. A indústria de serviços é altamente dependente do fácil e rápido deslocamento individual, porque os serviços são normalmente dependentes do contato humano direto ou dependem do deslocamento humano para se realizarem. As empresas de serviços podem ampliar significativamente sua área de mercado, se seus consumidores ou empregados puderem contar com o automóvel. Podem assim aumentar sua escala, reduzir custos, assim como, sofisticar e inovar na oferta. O que seria dos shopping centers e dos centros de lazer em geral sem o automóvel? Além disso, o automóvel em si é um grande demandante de infra-estrutura pública viária e de serviços, como manutenção, seguro, limpeza, organização do sistema de transporte etc.

Toda a mudança do paradigma urbano do século XX, que teve o automóvel como carro-chefe ainda está para ser construída na China onde mais de 40% da população ainda é rural.

A popularização do automóvel é absolutamente necessária para a continuidade do crescimento chinês. Mas a popularização do automóvel a gasolina é algo impensável lá por razões ambientais e de oferta de petróleo. Por isso é inevitável que invistam pesadamente no carro elétrico.

O governo chinês quer transformar o país em uma potência na produção de carros elétricos para o consumidor comum. Para isso, investe no financiamento em pesquisa de novas tecnologias e dá subsídios de até US$ 8.800 para os consumidores trocarem seus carros com motor a combustão pelos veículos elétricos.

A resposta do Ocidente

Dada a velocidade da expansão chinesa nos carros elétricos, pode-se esperar que a indústria automobilística vigente estará decadente em menos de 12 anos. Muitos sucumbirão em razão da depreciação de seus ativos. Os governos, mais uma vez, salvarão suas marcas e Campeões Nacionais, para salvar o seu próprio futuro. Enquanto se adaptam ao carro elétrico e aos asiáticos, muitos campeões serão estatais, para-estatais ou simplesmente viverão à custa do Estado. O governo americano, francês, japonês e inglês já anunciaram pesados subsídios à pesquisa. A indústria automobilista vive uma grande corrida em busca do Santo Graal elétrico. Há quem preveja que 86% das vendas de automóveis em 2030 será de carros elétrico[1].

Mas o desempenho do carro elétrico é tão superior, que boa parte dos lançamentos no ocidente inicialmente tem sido de carros elétricos esportivos. A primeira foi a Tesla Motors da Califórnia.[2].

A corrida tecnológica pelo carro elétrico, o aumento da demanda por usinas elétricas e as formas alternativas de produção de eletricidade são a grande esperança para elevar o investimento e o consumo privado no mundo. São também uma grande esperança de crescimento sustentável a médio prazo para o Planeta.

Brasil em uma rua sem saída?

Porém, esse quadro auspicioso para o mundo, é terrível para o Brasil.

Há uma grande probabilidade de uma segunda onda de crise a curto prazo e de estagnação por muitos anos. Em contraposição, a popularização do carro elétrico e novas fontes de energia elétrica são as possibilidades mais críveis de crescimento vigoroso e sustentável. Mas qualquer dos dois cenários pode ser péssimo para o Brasil dada nossas atuais apostas de desenvolvimento econômico.

Em ambas situações, crise econômica ou saída pelo carro elétrico, prevê-se redução dos preços e demanda da maioria das nossas commodities. O carro elétrico também será um choque contra nossas atuais apostas. O carro elétrico não usa gasolina, diesel ou etanol. Portanto, a popularização dele acabará com o imenso prêmio que esses combustíveis líquidos tem sobre o carvão mineral, o óleo combustível e o gás natural. A popularização do carro elétrico deve reduzir o preço dos combustíveis líquidos frente aos sólidos, viscosos e gasosos.

A outra prejudicada será nossa cadeia metal-mecânica, muito concentrada na cadeia automobilística tradicional. O carro elétrico tem menos peças mecânicas e utiliza menos aço, aços especiais, ferro-ligas, ferro-gusa, serviços de fundição, forja e usinagem. Em todos esses setores o Brasil é altamente competitivo e exportador.

Nossas exportações de alimentos de maior valor agregado, como carnes, e de produtos manufaturados também podem ser prejudicadas, porque são fortemente direcionadas para os países exportadores de petróleo. Somos o maior exportador mundial de carnes e mais de 70% dessas exportações vão para países exportadores de petróleo.

Há quem ache que o carro elétrico demorará muitos anos para se popularizar. Mas os modelos híbridos já estão entre os mais vendidos no Japão, EUA, Coréia e China. O carro híbrido de primeira geração consome metade da gasolina dos veículos tradicionais e por si só já pode causar um forte impacto no consumo de combustíveis líquidos a médio prazo. O carro híbrido de segunda geração já é um carro elétrico e utilizará muito pouca gasolina. Utilizará basicamente nas estradas a longas distâncias e não na transumância diária.

O Brasil não pode parar esses processos, que, como vimos, serão prejudiciais às atuais nossas apostas em exportação de petróleo, etanol, metal-mecânica tradicional e até de carnes.

Mas podemos nos preparar para não sermos atropelados. Para isso, o país deve no mínimo implantar fábricas de carros híbridos e elétricos. Porém, pode fazer mais. O Brasil tem um enorme potencial hidroelétrico a ser explorado, grandes volumes de gás natural, sol abundante e outras formas de produção de eletricidade com baixa emissão de carbono a serem aproveitadas. Não precisamos ficar dependentes apenas da incerta manutenção do atual prêmio obtido pelos combustíveis líquidos, ao mesmo tempo em que não podemos abrir mão da riqueza do pré-sal.

Essa é uma chance em 100 anos. Uma nova indústria automobilística e energética estão para serem construídas. A revolução do carro elétrico vai desestruturar todo o mercado automobilístico. Muitas das empresas vencedoras serão novatas com a BYD, na China, e a Tesla, pois não precisarão se preocupar com grandes volumes de capital que ficarão obsoletos. O Brasil pode pela primeira vez na história ter Campeão em tecnologia de vanguarda, uma vez que a Embraer já era, foi entregue quase de graça para a Boeing que vai desativar aos poucos e enviar tudo para os EUA.

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Temos capacidade empresarial, tecnológica e capital para construirmos um Campeão nos veículos elétricos e híbridos. Basta que o governo acorde para essas grandes mudanças.

E depois de todo esse investimento será necessário ter grandes empresas interessadas em bancar a introdução do mercado e competir com tecnologias mais consolidadas. Nenhuma empresa privada fará isso por livre e espontânea vontade.

Sem um campeão nacional em carros elétricos, não há nenhuma possibilidade de manutenção de nossa posição na indústria global.

Referências Bibliográficas de toda essa série de artigos

Abramo, Pedro (1995) A regulação urbana e o regime urbano: a estrutura urbana, sua reprodutibilidade e o capital, Ensaios FEE Vol. 16, No 2 (1995)

Bresser-Pereira, Luiz Carlos, Gala, Paulo (2007) “ Por que a poupança externa não promove crescimento” rev. Econ. Polit. vol.27 no.1 São Paulo Jan./Mar. ;

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CUNHA, Maria Soares da; SILVA. Maria Geane Bezerra da (2007) O impulso à análise espacial a partir do trabalho de fred schaefer “excepcionalismo em geografia: um estudo metodológico” (1953): questões contextuais e teórico-metodológicaS Revista de Geografia. Recife: UFPE – DCG/NAPA, v. 24, no 1, jan/abr. 2007

Dos Santos, Gustavo A. G. (2005), “Uma Releitura das Finanças Funcionais”, Tese Doutorado, IE-UFRJ.

Dos Santos, Gustavo Antônio Galvão, Silva, José Francisco Sanches da, Medeiros, Rodrigo Loureiro, Barbosa, Eduardo Kaplan, Dos Santos, Bruno Galvão (2009), “O Nordeste na tomada do crescimento”. Custo Brasil. Mar/abr 2009, pp.26-39.

Fani Ana Alessandri Carlos (2005) Novos caminhos da geografia ed.Contexto

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Santos, Antonio Tiago Loureiro Araújo dos; Lima, Gilberto Tadeu; Carvalho, Veridiana Ramos da Silva (2005), A restrição externa como fator limitante do crescimento econômico brasileiro: um teste empírico em: Anais do XXXIII Encontro Nacional de Economia

Santos, Fabricio Marques (2008) Crescimento sob restrição externa: uma análise utilizando técnicas de dinâmica de sistemas, Dissertação de Mestrado, FEA-USP

Sávio, Marco Antônio Cornacioni (2002) “A Modernidade Sobre Rodas: tecnologia automotiva, cultura e sociedade”, Educ, 2002, São Paulo

  1. http://oglobo.globo.com/economia/mat/2009/07/13/carros-eletricos-podem-dominar-ruas-dos-eua-em-2030-756790731.asp
  2. http://gazetaweb.globo.com/v2/supermaquinas/texto_completo.php?c=7184
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