União Europeia pode ser parceira da Rússia? 

Da Redação do Duplo Expresso,

15/6/2018, The Saker, Unz Review, in The Vineyard of the Saker

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

A renomeação para os mesmos cargos (embora um pouco modificada) do “bloco econômico” do governo Medvedev gerou muitas explicações, umas melhores que outras. Hoje quero examinar uma hipótese específica que se pode resumir nos seguintes termos: Putin decidiu contra o expurgo de um “bloco econômico” (impopular) ativo dentro do governo russo, porque queria apresentar à União Europeia (UE) “caras conhecidas” e parceiros nos quais os políticos da UE pudessem confiar. Nesse momento, ante o comportamento insano de Trump, que acintosamente afasta praticamente todos os líderes europeus, é a hora perfeita para acrescentar um empurrão russo ao “tranco” dos EUA, e ajudar a trazer a UE para mais perto da Rússia. Ao renomear “liberais” russos (eufemismo para designar os russos aderidos a OMC-Banco Mundial-FMI e assemelhados), Putin dá à Rússia ares capazes de atrair, na medida do possível, a UE.

De fato, o sucesso descomunal na Cúpula de São Petersburgo e no Fórum Parlamentar é prova de que essa estratégica está funcionando.

Essa hipótese depende crucialmente de um pressuposto: que a UE, dadas as condições certas, possa vir a ser parceira dos russos.

Mas o que confirmaria a verdade desse pressuposto? Pessoalmente, não acredito que a UE, dadas as condições certas, possa vir a ser parceira dos russos. Adiante, tento expor as razões desse meu ceticismo.

Primeiro, não existe “UE”; não, pelo menos, em termos políticos. Ainda mais crucialmente, não existe “política exterior da UE”. Sim, há estados membros da UE, os quais têm governantes e líderes políticos, há uma grande comunidade de negócios na UE e há muitas organizações da UE. Mas ela, a “UE” não existe e é especialmente inexistente em termos de política exterior. A melhor prova disso é o quanto a chamada “UE” absolutamente não soube o que fazer na Ucrânia; depois, frente às sanções anti-Rússia; depois com uma invasão de imigrantes ilegais; e, agora, com Trump.

No máximo se pode considerar a UE como um protetorado/colônia dos EUA, com alguns vassalos “mais iguais que outros” (por exemplo, na relação Grã-Bretanha versus Grécia). A maioria (a totalidade?) dos estados membros da UE são abjetamente obedientes aos EUA, o que não é surpresa, se se considera que até a chamada “líder”/”peso pesado” da UE – Alemanha – goza de soberania muito limitada. Os líderes da UE são nada além de uma elite compradora que não dá bola para as opiniões e interesses do povo da Europa. Fato inegável é que a dita “política exterior da UE” caminhou em oposição aos interesses do povo da Europa durante décadas; e esse fenômeno só piora.

Segundo, a organização mais poderosa e unificada na Europa nem é a UE, mas a OTAN, e a OTAN, em termos reais é no mínimo 80% EUA. Esqueçam aqueles exércitos europeus com cara de mau, não passam de piada. Não apenas não representam qualquer força crível (pequenos demais, mal treinados demais, sub-equipados e muito mal comandados), mas também são completamente dependentes dos EUA para uma longa lista de competências críticas e “multiplicadoras de força“: comando, controle, comunicações, inteligência, redes e trabalho em rede, vigilância, reconhecimento, aquisição de alvos, logística, etc. Além disso, em termos de treinamento, planejamento de força, aquisição, instalação e manutenção de armamento, os estados da UE também são totalmente dependentes dos EUA. A razão? O orçamento militar dos EUA obscurece qualquer coisa que os estados da UE possam gastar individualmente. Então, todos dependem do Tio Sam. Claro, o comandante da OTAN – secretário-geral – é de modo geral uma não entidade que faz declarações grandiloquentes e é europeu (o palhaço atual, Stoltenberg, parece-me perfeito exemplo), mas a OTAN não é comandada pelo secretário-geral da OTAN. Na realidade é comandada pelo Supremo Comando Aliado na Europa [ing. Supreme Allied Commander Europe (SACEUR)], cabeça do Quartel-general Supremo das Potências Aliadas na Europa [ing. Supreme Headquarters Allied Powers Europe (SHAPE)] e não há gente mais vermelha, branca, azul que esses caras. Esqueça o “Eurocorps” ou qualquer dos ditos “exércitos europeus” – só bafo, como o recente surto de suposta indignação de Trudeau contra palavras de Trump [sobre isso, leia aqui (NTs)].

Na realidade, na UE, assim como no Canadá, todos sabem quem manda por ali. E aqui está o fato separadamente decisivo e mais importante: a OTAN precisa desesperadamente da Rússia como justificativa para sua própria existência: se as relações com a Rússia melhorarem, a OTAN deixa de ter razão para existir. Alguém realmente acha que alguém permitirá que aconteça? Não, garanto que ninguém admitirá! E nesse momento os europeus estão ocupadíssimos solicitando mais tropas norte-americanas em solo europeu, não menos; e todos fingem estar assustadíssimos ante a probabilidade de uma invasão russa, daí a necessidade de mais e maiores exercícios militares próximos da fronteira russa. E (só para não deixar de comentar nenhuma de suas bases) a OTAN está hoje se expandindo gradualmente também para a América Latina.

Terceiro, há uma longa lista de governos da UE que carecem vitalmente de relações cada vez piores com a Rússia. Dentre esses governos citam-se:

1.      Governos impopulares que precisam explicar os próprios fracassos e para isso carecem das ações nefandas de um perigoso inimigo coringa externo. Bom exemplo disso são as autoridades espanholas a culparem a Rússia pela crise na Catalunha. Ou os britânicos, com o Brexit deles. Suecos estão fazendo até melhor: já começaram a preparar a opinião pública para uma “interferência russa”, caso o resultado das eleições não seja o que o governo sueco precisa obter.

2.     Governos cuja retórica sempre foi tão histericamente anti-Rússia que é simplesmente impossível recuar. Melhores exemplos: Reino Unido e Merkel. Mas dado que muitos (mas não todos) estados da UE realmente atuaram na farsa conhecida como “caso Skripal”, caso de falsa bandeira, repetindo a versão “altamente provável” que os britânicos distribuíram e em nome da “solidariedade”, todos estão presos na posição de cúmplices daquela política. De modo absolutamente nenhum alguém os verá admitir que foram usados como otários, pelos britânicos.

3.     Os estados prostituídos da UE: estado cuja única política é obedecer aos EUA contra a Rússia. Esses estados competem uns contra os outros do modo mais abjeto, para ver quem mais rapidamente supera o outro no jogo sujo para alcançar a posição de “serviçal mais confiável e dedicadamente leal dos EUA”. Melhores exemplos são os três statelets do Báltico, mas a posição #1 é garantidamente dos “ferozmente patriotas poloneses” que agora já ofereceram até pagar ao Tio Sam para serem ocupados militarmente (apesar de o mesmo Tio Sam estar tentando extorquir-lhes bilhões de dólares). É verdade que, agora que os subsídios que a UE lhes pagava estão sendo cortados, a situação desses estados vai-se tornando cada vez mais difícil, e eles sabem que o único lugar de onde ainda pode sair algum dinheiro é os EUA. Assim sendo, que ninguém espere qualquer mudança de conversa, no curto prazo (ainda que a Bulgária já se tenha dado conta de que ninguém no ‘ocidente’ está preocupado com essa questão).

4.     Governos que queiram atacar as oposições internas e se disponham a acusar qualquer movimento ou partido político independente de estar sendo “pago pelo Kremlin” e de representar interesses russos. O melhor exemplo aí é a França, e o modo como enfrentou a Frente Nacional. Parece-me até que muitos estados da UE estão, de um modo ou de outro, trabalhando para constituir um “estado de segurança nacional”, porque percebem (corretamente) que o povo europeu está profundamente frustrado e opõe-se a políticas da UE (daí os referendos anti-UE que as elites governantes perderam).

Ao contrário de mito insistentemente repetido, os interesses do business europeu não representam força poderosa contra a russofobia. Por quê? Basta ver a Alemanha: apesar de todo o envolvimento da Alemanha (e de Merkel pessoalmente) na Ucrânia, apesar de toda a retórica estúpida sobre “a agressão russa” e a Rússia que “não cumpre os Acordos de Minsk”, o gasoduto Ramo Norte avança a todo o vapor! É, dinheiro fala, e a verdade é que, se as sanções anti-Rússia custaram bilhões à Europa, os grandes interesses da finança (por exemplo, a empresa francesa Total) encontraram meios para ignorar ou contornar as sanções. Claro, há na Europa um lobby pró-comércio com os russos. É real, mas simplesmente não tem nem perto do poder que têm, na UE, as forças anti-Rússia. Por isso já há anos vários políticos e figuras públicas da UE fazem tanto barulho sobre ‘o fim das sanções’, mas na hora de votar todos e todas votam como lhe ordenam seus reais patrões.

Aliás, nem toda a russofobia que há na UE é gerada nos EUA. Vimos claramente dia desses, quando Trump sugeriu que o G7 (mais precisamente o G6+1) precisava reconvidar a Rússia, que os primeiros a gritar “nada disso!” foram os europeus. Na medida em que exista alguma (qualquer uma) “posição da UE” (mesmo que vaga e fraca), ela será principalmente anti-Rússia, especialmente na parte norte da Europa. Assim, quando Tio Sam ordena que a Europa ponha-se a ofender a Rússia e os russos, todos rapidamente se alinham e obedecem; mas no caso raro, extraordinário, de os EUA não promoverem alguma agenda doentiamente anti-Rússia, os políticos da UE repentinamente recobram a força de vontade para dizer “não”. Por falar nisso, quanto a Trump falar de reconvidar a Rússia para o G6+1, verdade é que os EUA dedicam-se hoje a impor mais sanções à Rússia.

As atuais miniguerras entre EUA e UE (comerciais, contra o Irã, disputando Jerusalém) absolutamente não significam que a Rússia consiga beneficiar-se automaticamente. Mais uma vez, o melhor exemplo é a desastrosa reunião de cúpula do G6+1, na qual Trump, basicamente, afastou todos os demais países, só para obrigar o G6 a reiterar sua posição anti-Rússia, mesmo que os países do G6+1 precisem muito mais da Rússia, do que a Rússia precisa do G7 (absolutamente não precisa!). Assim como líderes de EUA e Israel podem discordar e, vez ou outra, combater uns os outros, sem que isso signifique que não estejam, de algum modo, sempre ligados como irmãos xifópagos. Pense nas ‘famílias’ mafiosas que podem fazer “guerras” umas contra outras, sem que isso implique qualquer benefício para o resto da população que a máfia saqueia.

A crise ucraniana só beneficiará as forças anti-Rússia na Europa. Há muito alta probabilidade de que, em futuro próximo, o regime ucronazista tentará reconquistar a Novorrússia (República Popular de Donetsk, RPD [ing. DNR] e República Popular de Lugansk, RPL [ing. LRN]). Penso que o resultado desse ataque não é duvidoso: os ucronazistas serão derrotados. A única questão é: quem os derrotará?

·         Opção 1: serão derrotados por forças unidas das repúblicas RPD e RPL. Esse parece ser o resultado mais provável. Se acontecer assim, há alta probabilidade de um contra ataque novorrusso para retomar as regiões principais de Donetsk e Lugansk, especialmente as cidades de Slaviansk e Mariupol. Dado que o comportamento passado é o melhor guia para comportamento futuro, pode-se apostar até o último vintém em que a reação em Kiev e no ocidente será culpar a Rússia por tudo que aconteça. Os anglo-sionistas jamais admitirão que o regime ucronazista foi derrotado em guerra civil pelo próprio povo, porque os novorrussos jamais aceitarão governo nazista a governá-los. Quer dizer: vitória dos novorrussos resultará em surto ainda mais histérico de russofobia.

·         Opção 2: os ucronazistas são bem-sucedidos no ataque e ameaçam derrubar Donetsk, Lugansk e o resto da Novorrússia. Putin simplesmente não pode permitir que aconteça. É promessa que fez e refez muitas vezes, e que ainda recentemente repetiu nas suas mais de quatro horas de ‘linha aberta’ com o povo russo. Se os russos forem obrigados a intervir, não será massiva invasão por terra – porque não é preciso. A Rússia tem todo o poder de fogo necessário, em termos de ataques com mísseis e artilharia para destruir as forças ucronazistas atacantes e impor uma zona aérea de exclusão [ing. no-fly zone] sobre toda a Novorrússia. Se Kiev insistir e lançar ataque em grande escala contra propriedade russa, as forças armadas ucranianas serão totalmente desorganizadas e o ataque acabará em cerca de 48 horas. Esse é o cenário que chamo de “sonho dos neoconservadores”, porque essa intervenção russa não será imaginária, mas muito real; e o Kremlin confirmará tudo muito publicamente e provavelmente reconhecerá as duas Repúblicas Populares exatamente como aconteceu em 8/8/2008, quando Saakashvili decidiu invadir a Ossétia do Sul.

Assim, finalmente, os anglossionistas terão a ‘prova’ de que a Rússia agride países, poloneses e bálticos se prepararão para uma “iminente” invasão russa, e acho que será ótima chance para que forças da OTAN entrem na Ucrânia ocidental para “deter os russos”, ainda que os mesmos russos não tenham absolutamente qualquer desejo de (sequer teriam motivo para) invadir o resto da Ucrânia nem, muito menos, Polônia, Suécia ou os statelets do Báltico.

Admitirei que ainda há pequena possibilidade de que não aconteça ataque ucronazista. Talvez Poroshenko & Co. recuem (eles conhecem as reais condições dos militares ucronazistas e dos seus esquadrões da morte). E talvez as ameaças recentes feitas (nada veladamente) por Putin sobre “graves consequências para a sobrevivência do estado ucraniano” alcancem o necessário efeito. Mas o que acontecerá, mesmo que esse ataque não aconteça? Os líderes da UE e o regime ucronazista em Kiev mesmo assim culparão a Rússia pelo que já é claramente um estado ucraniano fracassado. Seja qual for o cenário na Ucrânia, quanto mais se pensa mais as coisas pioram e seja o que for, tudo será declarado culpa da Rússia.

A crise na Síria só beneficiará as forças anti-Rússia na Europa. Vai-se tornando perfeitamente claro que os EUA tentam agora uma reconquista da Síria ou, pelo menos, conseguir quebrar a Síria em várias zonas, algumas das quais a serem controladas pelos EUA. Nesse momento, os EUA e os “terroristas do bem” perderam a guerra, mas isso não os impede de reincendiar guerra nova, principalmente reorganizando, retreinando, realocando e, mais importante que tudo, rebatizando os “terroristas do mal” sobreviventes, que passariam a ser ditos “terroristas do bem”. Esse plano tem o apoio do dinheiro saudita e do poder de fogo israelense. Além do mais, Rússia está noticiando agora que Forças Especiais dos EUA já estão trabalhando com os (novos) “terroristas do bem” para – adivinhem! – preparar outro ataque químico forjado de cuja autoria os sírios serão acusados. E por que não? Funcionou perfeitamente várias vezes, por que não funcionaria outra vez? No mundo, seria mais uma oportunidade de os EUA tentarem mostrar a efetividade dos seus Tomahawks (mesmo que fracassem mais uma vez. Afinal, fatos não contam). E que ninguém se engane, a “vitória” dos EUA na Síria (ou na Venezuela) seria desastre não só para a região, mas para todos e quaisquer países que aspirem a ser soberanos (sobre isso, ver excelente artigo de Andre Vltchek, aqui). E, mais uma vez, a Rússia será culpada de tudo; e, com doidos perigosos no poder, como Bolton, é possível até que as forças russas sejam atacadas. Como já escrevi muitas vezes, a coisa ainda não acabou. Assim como no caso da Ucrânia, pode acontecer algum tipo de acordo (pelo menos, oficiais militares de EUA e Rússia ainda conversam uns com os outros), mas pessoalmente entendo que fazer qualquer tipo de acordo com Trump é tão fútil quando fazer acordos com Netanyahu: nenhum desses é confiável e ambos quebrarão quaisquer promessas ou acordos num piscar de olhos. E se Síria e/ou Irã virarem o inferno, a OTAN providenciará para que os europeus entrem obedientemente em linha (“solidariedade”, lembram?).

Em resumo, é o seguinte: atualmente, é altamente improvável que a UE torne-se parceira viável para a Rússia; e o futuro é gravemente sombrio.

Objeção que se poderia fazer ao meu pessimismo é o inegável sucesso da Reunião de São Petersburgo e do Fórum Parlamentar. Contudo, acho, pessoalmente, que nenhum desses eventos teve a ver especificamente com a Europa, mas com o mundo ao geral (ver excelente matéria de Gilbert Doctorow sobre isso, aqui). Sim, a Rússia vai muito bem e, por mais que a imprensa anglossionista ame falar do “isolamento” da Rússia, a verdade é que quem está isolado é o Império, e Rússia e China estão alcançando sucesso tremendo na construção do mundo multipolar com o qual querem substituir o Império. Assim sendo, por mais que os líderes ocidentais prefiram ver um “bloco econômico” liberal no novo governo russo, o resto do mundo absolutamente não deseja tal coisa (especialmente considerando o alto número de países que já sofreram horrores nas mãos do pessoal tipo OMC/Banco Mundial/FMI).

Conclusão

O Império Anglossionista não está baseado nos EUA, nem na UE, nem em Israel, nem em qualquer outro local do planeta. É uma entidade transnacional com variantes regionais e que abriga diferentes grupos de interesse sob seu guarda-chuva. Pense no Império Anglossionista como uma gangue criminosa gigantesca que chantageia todo o planeta para vender “proteção”. Supor que mostrar a esses bandidos um rostinho “liberal” os seduzirá a ponto de eles se tornarem amigos e apoiadores desse “liberalismo” é ingenuidade: esses sujeitos nem veem o rosto de ninguém; só querem, do próximo, a submissão mais servil.

Vladimir Putin acertou em cheio quando disse que “Eles não querem humilhar a Rússia. Querem nos submeter. Querem resolver os problemas deles à nossa custa“.

Contudo, se a UE é como inexistente para todas as finalidades práticas, a Rússia pode – e assim fará – relacionar-se com os estados-membros da UE tomados um a um. Há enorme diferença entre, digamos, Polônia e Itália, ou Grã-Bretanha e Áustria. Mais importante que tudo isso é que a UE não é só disfuncional: é também inviável.

A Rússia muito ganharia se a atual UE ou se partisse aos pedaços ou fosse profundamente reformada. A UE que hoje existe é criação exclusiva de norte-americanos apoiados por gente do ‘Grupo de Bilderberg, nada de que a Europa ou o povo europeu precise. De fato, eu até diria que a UE é o mais grave perigo, considerado individualmente, que ameaça o povo do continente europeu.

A Rússia deve usar seus recursos para estimular a cooperação bilateral com estados-membros da UE, sem jamais empreender qualquer ação que reforce (ou que legitime!) organizações derivadas da UE, como o Parlamento Europeu, a Corte Europeia de Direitos Humanos, etc. Todas essas são entidades que existem para minar a soberania dos estados-membros – inclusive da Rússia, é claro. Mais uma vez, foi Putin quem encontrou a melhor formulação, ao declarar recentemente que “ou existe Rússia estado soberano, ou não existe Rússia“.

Sejam quais forem a ideologia e os slogans, todos os impérios são inerentemente daninhos e inerentemente perigosos contra qualquer país que aspire a ser soberano. Se Rússia (e China) querem criar um mundo multipolar, precisam desengajar-se gradualmente de todos esses corpos transnacionais que são completamente controlados pelo Império – simples assim. Em vez disso, a Rússia precisa aproximar-se e aprofundar suas conexões com países, partidos políticos e forças em geral que defendam o que de Gaulle chamou de Europe des Patries [“Europa das Pátrias”; ing. “the Europe of fatherlands“].

Ambos, o Império Anglossionista e a UE passam hoje pela mais profunda crise da história de cada um, e está tudo aí, à vista, para quem queira ler. Mais cedo ou mais tarde, um por um, os países europeus recuperarão a soberania, e entre eles, a Rússia. Só se os povos europeus conseguirem recuperar a soberania, a Rússia poderá procurar e encontrar parcerias autênticas no ocidente – se por mais não for, porque a massa terrestre eurasiana que se vai integrando oferece tremendas oportunidades econômicas que muitos benefícios podem oferecer às nações da Europa.

Uma Europa próspera “do Atlântico aos Urais” ainda é possível. Mas só acontecerá quando as atuais União Europeia e OTAN forem substituídas por instituições europeias, e as elites que hoje governam a Europa forem substituídas por governos soberanistas.

O povo russo, dos países da UE e, me parece, também dos EUA, tem o mesmo objetivo e o mesmo inimigo: querem recobrar a soberania, livrar-se das elites governantes corruptas e – sejamos francos – traiçoeiras, e se libertar da hegemonia do Império Anglossionista.

Por isso a “verdadeira soberania” (e dos valores nacionais tradicionais) é, me parece, a ideia política mais poderosa, que tem maior potencial para unificar os povos e derrotar o Império. Será luta longa. Mas o resultado é certo.*******

 

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