A grande disputa geopolítica do século XXI: mobilidade, meio ambiente e inteligência artificial – Parte 9

Por Gustavo Galvão, para o Duplo Expresso

Aqui, link para parte 8

Crise ou Guerra ambiental: China, Ocidente e Brasil

A Nova Guerra Mundial

A grande depressão dos anos 30 só foi superada pela Segunda Guerra Mundial que, ao destruir grande volume de capital, restabelecer as bases de cooperação econômica no ocidente e criar um enorme conjunto de novas tecnologias preparou o terreno para uma reconstrução que viabilizou o crescimento contínuo por 25 anos.

Felizmente o mundo hoje não tem mais a mesma propensão à guerra. Esperamos ao menos…

A solução da crise então passa por um aumento constante dos gastos e déficit público ou por uma revolução tecnológica radical que destrua boa parte da capacidade produtiva mundial e abra espaço para um grande volume de investimentos privados.

Sem guerra não será nada fácil. O grande empresariado resiste ao crescimento adicional dos gastos públicos e também a revoluções tecnológicas radicais que depreciem muito rapidamente seu capital. Uma guerra tem o poder de quebrar as resistências à mudança do grande empresariado.

A Guerra Ambiental

Porém, no horizonte, a grande guerra mundial que não gera a destruição da humanidade é aquela que buscará salvar o planeta do colapso ambiental. A guerra pela nossa sobrevivência.

Essa guerra mobilizará os governos em grandes volumes de gastos, destruirá imensas quantidades de equipamentos e infra-estrutura voltados para o antigo modelo de produção baseado no automóvel e nos combustíveis fósseis e implicará em uma revolução tecnológica que irá muito além da produção e uso de energia.

O carro elétrico pode ser o estopim dessa revolução. Primeiro porque exigirá a completa reformulação das cadeias metal-mecânicas, eletro-eletrônicas e químicas para ser produzido em grande escala. Além disso, será necessário uma mudança radical nas cidades, que precisarão se adaptar a esses carros e sua diferente dinâmica, especialmente se consideramos os carros robotizados.

Mas a maior parte dos investimentos deve ir para a produção e distribuição de energia elétrica, pois para mover a frota atual de 1 bilhão de carros com eletricidade seriam necessários uma capacidade de geração de 5 mil terawatts/horas, o que requer um aumento de 30% na produção de eletricidade. Como a produção de eletricidade é altamente intensiva em capital, só esse aumento, mais a reformulação das cidades seria capaz de tirar a economia mundial da recessão por mais de uma década.

Mas o investimento necessário será ainda maior porque a demanda por carros vai crescer muito e o mundo ainda precisa trocar todas as velhas usinas a carvão por novas fontes de energia, para que o carro elétrico possa realmente ser considerado uma solução ambientalmente correta. O carro elétrico é efetivamente a solução a médio e longo prazo contra a crise ambiental, econômica e para que o mundo evite uma guerra global como saída keynesiana-militarista para queimar capital e fazer déficit público.

Outra vantagem é que os novos carros e tecnologias não serão produzidos só na China, permitindo que o mercado dos países centrais sejam protegidos de uma invasão, pois a inovação e a tecnologia ainda serão por muitos anos os principais fatores competitivos dessas novas indústrias e não o custo da mão-de-obra barata, como está começando a depender a velha indústria automobilística que começa a ser “canibalizada” pelos carros chineses.

*Gustavo Galvão é economista pela UFMG, doutor em economia pela UFRJ, funcionário do BNDES, assessor parlamentar e comentarista de economia do Duplo Expresso.

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