B.I.G. | 79 & Park | Stockholm

Por Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

O assunto abordado aqui, apesar deste nome que parece mais um código alfanumérico que um título, trata sobre um empreendimento localizado na capital sueca. Para que fique mais claro, vou dividi-lo em quatro grupos: intróito, volteio, tema e finalmentes.

 

Intróito

Muita gente costuma perguntar-me: “Como são as coisas aqui na Suécia?” Ou, “O que estão fazendo de legal em Arquitetura?”. Ou ainda, “Teria alguma coisa realmente diferente para mostrar?”

O tema que escolhi abordar essa semana reúne essas curiosidades, ainda que estejam restrita a minha área de atuação profissional. Como eu imagino ser mais interessante, o foco não será exatamente “o quê” das coisas, mas na observação do “como”. Ou seja, vamos olhar um projeto de arquitetura que não é daqui para entender um pouco sobre como se pode ver o mundo segundo a ótica local.

Em 2010, eu exercitava minhas pernas e braços na seção de quadrinhos de uma grande livraria quando vi um título que só poderia ser uma provocação: “Yes is More!” Ora, isso seria uma adaptação de uma frase-conceitoDE1 do arq. alemão Mies van der Rohe, que pregava: “Less is More!” (o bem conhecido “menos é mais”).

Eu abri o livro e… ele era um livro de Arquitetura. Mostrava inúmeros prédios – quase todos em um estágio ainda de projeto – ou seja, ainda na prancheta. Ou no disco rígido de um computador. Quase nada construído.

E era uma mistura deliciosa de formatação de histórias em quadrinhos com aquelas nossas antigas revistas de fotonovela. Era repleto de fotomontagens junto com aquelas belas imagens que costumamos ver em anúncios publicitários de empreendimentos. Tinha uma história sendo contada por um personagem, não apenas a descrição de prédios. E esse personagem era Bjarke Ingels, o BI do escritório B.I.G. – Bjarke Ingels Group.

Eu farei uma pequena volta e já retorno para ele…

Imagem esq: Dary Reis e Sônia Braga estrelando a fotonovela “O Mistério das Cartas de Mara” por @ revista Sétimo Céu (fev1975) | Imagem centro: Sérgio Reis estrelando a fotonovela “Amanhecer Cinzento” por @ revista Melodias nº 120 (1967) | Imagem dir: capa de “Yes is More” do B.I.G. por © Ed. Taschen (2009).

Volteio

Viver na Suécia (praticamente na fronteira com a Dinamarca) tem proporcionado experimentar no dia-a-dia o tal “design escandinavo”. A expressão vem do nome de uma exibição que percorreu os EUA e o Canadá entre 1954 e 1957, promovendo o “estilo de vida escandinavo.

Imagem centro: capa do catálogo da exposição “Design in Scandinavia” por @ Tapio (1954) | Imagens esq e dir: exposição montada com ambientes domésticos por © Coleção das Artes Decorativas do Brooklin Museum (1954). Se quiser ver algumas páginas deste catálogo, clique no nome grifado.

Os Estados Unidos viviam o boom do “american way of life” pós II Grande Guerra, que propagava a busca da felicidade através das infinitas possibilidades de uma sociedade baseada no apelo consumista e no acúmulo de bens.

A exibição itinerante nórdica servia como um contraponto a isso: apresentava um outro estilo de vida, o da beleza pela simplicidade, com desenho claro e limpo baseado na observação de elementos da natureza. A concepção dos objetos seria objetiva, acessível e disponível para todos.

Essa “cultura do essencial” produziu na Suécia uma expressão sem tradução direta: lagom (pronuncia-se “luo-gom”). Seria equivalente a algo como o suficiente, o ajustado, o preciso. Mas ainda antes da II Grande Guerra, esse país já se apresentava como um expoente em inovação. Em 1930, na Exibição de Stockholm, eles já queriam vender a ideia do “país mais moderno do mundo”. Algo que hoje é muito difundido como uma referência quando se fala da Suécia, entre o país da inovação e do empreendedorismo.

Entre 1933-1939, na parte ocidental de Stockholm, em Södra Ängby (pronuncia-se Só-dra Êng-bvi), foi construído um conjunto residencial com este mesmo nome. Eram casas-caixotes, praticamente sem firulas e com telhado plano; um sacrilégio ao padrão nórdico da época. É a maior área de casas unifamiliares em estilo modernista em toda a Europa.

Imagem esq: Vista Aérea de Södra Ängby por © acervo Thorbjörn Andersson (sem data) | Imagens dir: “Villa construída em Södra Ängby” por © Acervo da Cidade de Stockholm (1938).

Os 500 cubos brancos, espalhados em uma malha de implantação imersa em uma grande área verde, foram projeto do arquiteto Edvin Engström. O conjunto proposto por ele apresentava um híbrido entre a corrente funcionalista da Arquitetura (forma segue a função) com o ideal utópico das cidades-jardins inglesas.

Sem que isso possa ser considerado um demérito, a Suécia é um país mais “tradicional” em relação aos seus vizinhos aqui do Norte. A gente vê isso no desenho das coisas, incluindo a Arquitetura. Parece que aqui há um domínio muito grande dos meios de produção, do como fazer, e do conceito que a ousadia pode vir dos outros; o mais importante é a segurança. Prova disso é a forma como a empresa Volvo costuma vender seus veículos.

Tema

Voltando àquela empresa de arquitetura mencionada anteriormente – o Bjarke Ingels GroupDE2. Eles são uma transnacional dinamarquesa na área, com escritórios em København, London e New York. Ainda no mês de maio último, Ingels Bjarke tornou-se o “arquiteto no comando” da empresa estadunidense WeWork, que trabalha com criação, desenvolvimento, suporte e locação de “espaços coletivos de trabalho”.

Em Stockholm, o B.I.G. foi contratado pela Oscar Properties para desenvolver um empreendimento residencial com 140 apartamentos na franja de uma grande área verde. Esta área da cidade consiste por uma parte densamente povoada (onde estará o empreendimento) e outra área largamente gramada com bosques que faz parte do Nationalstadsparken Gärdet (pronuncia-se “Iár-dêt”), ou o parque nacional “A Fazenda”.

No Brasil, é comum vermos nas principais cidades uma ocupação fracionada em cada quarteirão. Tem-se na base de cada lote dois ou três pavimentos, geralmente recuados em relação ao passeio e preenchendo quase que totalmente cada base. Depois, torres isoladas até o limite do gabarito de altura (que varia conforme o tamanho de cada lote. Na Europa, normalmente os centros urbanos tem uma ocupação de massa dos quarteirões: todo o perímetro preenchido uniformemente, e o miolo vazio, às vezes como área privativa de um prédio, às vezes compartilhado por um conjunto deles.

No caso do empreendimento “79 & Park”, o generoso lote é demarcado com uma grade virtual totalmente regular. A partir dessa divisão espacial, imaginem um bloco monolítico ocupando todo o lote, na parte mais próxima do parque (e do lado que o sol chega) você afunda a aresta do bloco; na diagonal oposta, você ergue. O miolo do bloco é vazado e a área retirada é redistribuída ao longo de todo o perímetro.

Imagem A: Implantação do empreendimento na borda do parque existente por © B.I.G. (2011-2018).

 

Imagem B: “79 & Park” – o empreendimento é interpretado como uma extensão do parque adjacente | Imagem C: “Porosidade” – três passagens permitem a conexão do público com o pátio interno | Imagem D: “Extrusão” – uma grade regular de quadrados é extrudada para criar um bloco perimetral que contorna o lote | Imagem E: “Iluminação Natural” – a esquina Sudoeste é rebaixada para ampliar a oferta da luz do sol no pátio interno | Imagem F: “Referencial” – a esquina Nordeste é elevada para criar um marco urbano. Todas as imagens por © B.I.G. (2011-2018).

Para completar, o que é mais interessante: além de permitir que mais sol chegue ao miolo deste lote e ampliar a possibilidade de que maior número de apartamentos tenham vista para o parque, os apartamentos são escalonados na forma de sucessivos terraços vegetadosDE3, resgatando aos proprietários e à cidade uma parte do ambiente natural que transforma-se em ambiente construído.

O projeto segue uma concepção de montagem e adaptação da construção, pois trabalha como se fosse uma maquete com peças Lego®, através do encaixe de 15 diferentes tipos de apartamentos… Uma intrincado esquema de empilhar tipos diferentes de “casas” dentro de uma modulação pré-definida, lembrando outros projetos residenciais já edificados em Ørestad, uma nova área em København. O revestimento será uma combinação entre fachadas opacas em painéis pré-fabricados de madeira e fachadas de vidro. Quem olha o volume desde o parque, terá a sensação não de um volume maciço e uniforme, mas sim de um reflexo pixelado…

Imagem sup: “79 & Park | Prédio + Parque + Stockholm” | Imagem inf: “Vista do pátio interno do empreendimento”. Todas as imagens por © B.I.G. (2011-2018).

 

Imagem esq: “Foto da Obra do 79 & Park” por © B.I.G. (2018)  | Imagem dir: “Plantação de árvores no ainda em construção ’79 & Park’ no bairro Gärdet por © Andreas Jennische (2018)

Finalmentes

No mercado da construção, uma afirmação é seguidamente repetida: o grande problema dos arquitetos reside na opinião consolidade de que eles tem boas ideias, mas que não conseguem torná-las “viáveis economicamente”. Um bom modelo de projetar quase nunca é um bom modelo de negócio, na opinião dos contratantes.

Seria muito interessante que as flexibilizações feitas nas legislações urbanas estivessem consorciadas com uma oferta de maior qualidade para os cidadãos brasileiros, ao invés de apenas uma maior monetização por metro quadrado. O B.I.G. vem provando que é possível viabilizar ideias não tão convencionais de forma a apontar uma direção que concilie desenvolvimento econômico, respeito ao meio ambiente e uma sociedade mais plural e integrada. Não seria exatamente isso que falta para nós e nossas cidades?

* * *

 

DE1 – Na verdade, o nome técnico disso é “aforismo”, uma sentença que resume em poucas palavras, ou define uma regra ou faz uma determinação de princípio de alcance moral. Um fundamento filosófico.

DE2 – A editora alemã Taschen, que publicou o livro “Yes is More”, oferece um pequeno vídeo chamado “Worldcraft: Bjarke Ingels – Future of StoryTelling” (2014). Para quem tiver a assinatura da Netflix, vale a pena assistir o episódio 4 da primeira temporada de “Abstract: The Art of Design”, onde Bjarke Ingels é o entrevistado sobre o tema Arquitetura. O trailer está aqui.

DE3 – Clique no nome do jornal para acessar a matéria publicada no Stockholm Direkt abordando a tendência de crescimento na quantidade de empreendimentos que usam cobertura vegetada na capital sueca.

 

 

*Carlos Krebs é arquiteto, cinéfilo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.

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