Entre pombos e pavões – A “ameaça Russa” e o caso do jornalismo dourado

Por Orcam*

Enquanto os canais midiáticos que se dizem “progressistas” ou “à esquerda” ficam tentando desacreditar determinados questionamentos sobre a política brasileira como “teoria da conspiração”, os canais “à extrema direita” fazem das “conspirações” seu verdadeiro modo operacional.

Um exemplo extremamente nítido são as questões em torno da lava-jato como uma “operação de guerra jurídica” com determinados fins para além do “combate à corrupção”: visava não só a prisão de Lula, mas fundamentalmente a desestruturação da Petrobrás como um todo.

Existe muita gente no Brasil atenta faz tempo aos meandros oficiais da lava-jato; principalmente com relação aos autos dos inúmeros processos e inquéritos da operação, que se utilizam de esquemas juridicamente fraudulentos e dependem do verniz de “normalidade institucional” que satura estrategicamente instâncias de controle do judiciário brasileiro (STJ, STF). Ate semana passada, quem defendia essa tese era taxado de “teórico da conspiração” em muitos circuitos “progressistas”.

É importante bater nessa tecla: não eram necessárias matérias de qualquer portal greengo, expondo as combinações ilegais entre acusadores e juízes, para dar credibilidade ao fato de que a lava-jato, como um todo, é uma operação de “guerra jurídica”.

Entretanto, parece que até esses circuitos progressistas independentes de notícias, por encanto, passaram a dar credibilidade total aos eventos que foram “interceptados” e expostos desde o domingo retrasado (9/06/19) sobre as conversas de Moro com Dalagnoll. Se antes era uma “teoria” a “guerra jurídica”, agora existiria uma prova sepulcral da “conspiração”?

Agora, um outro desenho se esboça a partir da “mídia nacional progressista”. As conversas entre os agentes jurídicos da lava-jato são tão fidedignas, tão verdadeiras, que quem ousar levantar questionamentos a esses “vazamentos à conta-gotas” está sendo taxado de “teórico da conspiração”, de estar duvidando do “mensageiro” ao invés de aproveitar a “informação”. Bem, me desculpem os jornalistas, mas como cientista social, e Isso é coisa que aprendemos no primeiro ano de universidade, muitas vezes a mensagem e o mensageiro estão imersos em dissonâncias e inúmeros vieses. Muitas vezes o mensageiro tambem distorce, em muitos sentidos, a mensagem. Dizendo de outro modo, a “realidade” e sua “representação” podem não ser tão homólogas assim, e isso não significa dizer que elas não estejam em correlação.

Pois bem, voltando ao início dessa postagem. Enquanto a “mídia progressista”, em bloco, da total credibilidade às notícias do The Intercept Br, a “mídia alternativa à direita” aposta na total manipulação do site estadunidense para desestabilizar o governo e o Estado Brasileiro. Ontem mesmo, após informações veiculadas no canal Duplo Expresso, passei um período da noite monitorando os principais canais influenciadores da “nova direita” na internet, buscando acessar a repercussão do suposto hackeamento do computador do jornalista Glenn Greenwald.

Em termos esquemáticos: um perfil do Twitter chamado de “Pavão Misterioso” foi criado ontem e esteve ativo durante algumas horas. o perfil divulgou ao longo de todo o domingo um suposto ataque hacker que cometeu no computador do jornalista norte americano. Desse ataque, o “Pavão Misterioso” disse que conseguiu capturar transações financeiras, em Bitcoin, de Greenwald para um “hacker russo”. Segundo o pavão, teria sido esse “hacker russo” que teria invadido os celulares de Moro e Dalagnoll, numa clara tentativa de “terrorismo cibernético contra a nação brasileira”. Em seguida há o levantamento de que, muito provavelmente, Glenn Greenwald é um “agente russo de guerra cultural”, em operação conjunta com os partidos de esquerda brasileiros (principalmente o PSOL e o PT). O “fato” que utilizam para essa construção é um suposto esquema de “compras de cadeiras parlamentares no legislativo brasileiro. Esse ponto é muito importante, pois, para todos os efeitos, Jean Wyllys saiu do Brasil por ter sido ameaçado de morte – fato esse que o deputado expôs somente depois da eleição, mesmo dizendo que recebia ameaças ha mais de 3 anos. Com a saída de Wyllys, a suplência ficou para David Miranda, marido de Greenwald.

É com esse encadeamento que as redes “bolsonarista” e “lava-jatistas” começaram a semana ontem. Com um tipo de “contra-informacao” que se transforma em “regras de engajamento” para a “guerra cultural” promovida pela “esquerda” no país, agora com a prova de que os “russos” buscam “desestabilizar a nação brasileira”.

O ponto é: em nenhum momento os influenciadores das redes midiáticas da extrema direita duvidam dos seus “mensageiros”, nesse caso, o tal hacker “Pavão Misterioso”. o vazamento promovido por esse hacker foi amplamente produzido como “verdade”, principalmente por que, ao contrário do jornalismo do The Intercept, há uma longa lista de prints de transações financeiras e fotos de Greenwald com um suposto neo-nazista estadunidense

(obs.: Nesse circuito, o fato das denúncias do The Intercept não terem “printscreen” já os coloca sob suspeita).

Se você chegou até aqui na leitura é importante frisar o que acredito ser o ponto principal nessa história toda. Enquanto a “mídia progressista” brasileira tapa os olhos, bocas e ouvidos sobre as ligações internacionalmente conhecidas entre o The Intercept e as organizações Pierre Omidyar, dizendo inclusive que essas ligações são “teorias da conspiração”, a “extrema e nova direita alternativa” aposta exatamente na ligação entre Omidyar e suas operações de desestabilização governamentais pelo mundo. Para essa direita, Omidyar é quem promove os grandes flancos de “guerra cultural” no mundo nos últimos anos. A ironia desse ponto é que essa “contra-informação” levantada pelas redes dessa direita midiática atrela as intervenções culturais das organizações Omidyar aos Russos! Sendo que, na verdade, as corporações Omidyar operam em conjunto com inúmeras instâncias da inteligência e contra inteligência norte americana (CIA, NSA, FBI).

Resumo da cyber-ópera: aposto que essa história de ameaça russa para desestabilizar Bolsonaro e Moro não deve estar sendo vista como “teoria da conspiração” pelas redes que são influenciadas pelas operações midiáticas ligadas à sustentação do atual regime presidencial. Nessas redes, a conspiração é nítida e ela vem do lado da “esquerda global marxista cultural”. E, por um acaso, quem está por trás disso é a… Inteligência Russa! Estamos há um passo de, a partir dos tabus sobre determinados assuntos que a própria “mídia progressista” criou nos últimos anos, aprofundar mais ainda a “conspiração (vista como) real” de que há um plano mundial da “esquerda” para desestabilizar determinados países. E o comando viria da Rússia.

É exatamente isso que especialistas e investigadores vem chamando de “Guerra Híbrida”, a criação de “campos de batalha” ambíguos e inesperados, onde a informação e contra-informação se confundem a partir mesmo de seus “mensageiros”. Em resumo: quando o “emissor”, ao dizer que um “mensageiro” está produzindo uma guerra híbrida, um ataque híbrido, é pq o próprio “emissor” está a confeccionando. É um tipo de “empreendimento moral”, onde quem acusa o faz para dissuadir suas próprias práticas.

O quanto pudermos não antagonizar sem pensar em estratégias nesse jogo midiático de informação e contra-informação envolvendo “russos e comunistas” e “hackers e leakers” e “mídia política x mídia neutra”, melhor.


* Mestre em Sociologia

 

Acha importante o nosso trabalho? Fácil - clique no botão abaixo para apoiá-lo:

Facebook Comments