Operando contra o país: o papel do Banco Central no Golpe de 2016

Por Ligia Deslandes, para o Duplo Expresso
Presidente no Sindicato dos Trabalhadores no Comércio de Minérios e Derivados de Petróleo – Rio de Janeiro 

  • Inimigo “externo”: o Brasil tem ao redor de 450 bilhões de dólares não declarados no exterior, operando ciclicamente contra si. Essa massa de dinheiro se comporta como investidor “estrangeiro”: ganha quando o Brasil perde, pois realiza lucros em dólares e não em reais.
  • Mas, diferentemente do investidor estrangeiro verdadeiro, opera em um mercado que bem conhece. Inclusive contando com informação privilegiada para se posicionar. Quando não com operações estruturadas sob medida por seus sócios no poder, possibilitando ganhos ainda maiores, em mecanismo de dupla alavanca.
  • E quem são os verdadeiros donos de tanto dinheiro não declarado no exterior? Trata-se de recursos, em sua maioria, de origem ilícita. Cuja origem remonta ao modo de operar pós-instituição da correção monetária, no Regime Militar.

PAPEL DO BANCO CENTRAL NO GOLPE DE ESTADO DE 2016

O papel dos bancos centrais do mundo é defender os interesses dos países pelo qual são responsáveis. O principal instrumento para isto é a política de juros. Elevar os juros significa tornar o capital mais caro, ou seja, enxugar o mercado. Baixar os juros significa tornar o capital mais barato, ou seja, irrigar a economia. Aos Bancos Centrais é fundamental que não exerçam papel político na economia e que possam exercer um papel meramente relacionado à saúde financeira do país. Isso é o que se espera de qualquer Banco Central no mundo. Este é o aspecto técnico e econômico explicado de uma forma simples.

O PAPEL DO BANCO CENTRAL DO BRASIL E A RECESSÃO

Vamos partir do momento em que o Banco Central do Brasil estava com os juros fixados a 7%, ou seja, antes da forte desvalorização cambial ocorrida e provocada por um aspecto político: a não aceitação do resultado das eleições presidenciais ocorridas em 2014.

O ataque político orquestrado pelo PSDB através de seu candidato derrotado, Aécio Neves, provocou uma insegurança política no país e o resultado normal para isso foi a forte desvalorização cambial, consequência de uma realização de lucro por parte dos investidores estrangeiros e seus parceiros brasileiros que tinham dinheiro no exterior e objetivavam um lucro em moeda estrangeira, no caso, o dólar americano.

A consequência natural foi provocar um aumento de preços nos produtos importados. Ou seja, um ajuste de preços destes produtos, um encarecimento em reais e a queda dos preços na BOVESPA, pois o estrangeiro trabalha com a dupla alavanca – i.e., com o ganho cambial, nos investimentos em renda variável (leia-se ações, na BOVESPA).

AJUSTE DE PREÇOS E INFLAÇÃO

Naquele momento o Banco Central do Brasil interpretou de forma errônea (acredito que de forma proposital) o ajuste de preços ocorridos como uma inflação de demanda que nunca existiu.

O que é uma inflação de demanda? É uma inflação provocada por um excesso de compradores e falta de produtos no mercado.

Na verdade, nunca houve falta de produto no mercado. Pelo contrário, as vendas caíram em virtude do aumento irresponsável e lesa pátria dos juros pelo Banco Central do Brasil. O Banco Central elevou os juros, ou seja, enxugou o mercado, criando um aperto de liquidez.

Este aperto de liquidez teve como consequência um aumento dos custos na dívida dos trabalhadores, dos empresários produtivos através do aumento do custo financeiro do capital de giro, para citar apenas um fator, e por conseguinte o aumento das dívidas dos Estados brasileiros (aqui não vamos analisar o papel da corrupção nos estados) e o aumento do custo da dívida do Estado brasileiro como um todo.

Ao invés de baixar os juros, como qualquer Banco Central do mundo teria feito, o nosso Banco Central aumentou os juros. Sendo assim o principal causador da recessão no Brasil foi o Banco Central do Brasil que favoreceu e viabilizou o golpe em curso.

O TRABALHADOR

O trabalhador do Brasil que teve parte do seu consumo financiado através do cartão de crédito sofreu uma violenta redução do seu poder aquisitivo. Ao sofrer esta violenta queda do seu poder de compra é natural que ele passe a comprar menos, ou seja, a consequência natural é a queda da arrecadação de impostos.

O EMPRESÁRIO PRODUTIVO

O empresário produtivo, além de ter os seus custos aumentados, teve que subir o preço dos seus produtos devido ao aumento do custo financeiro e ao mesmo tempo foi afetado nas suas vendas, vendendo menos. E isso fez com que também menos impostos fossem recolhidos por eles.

OS ESTADOS

Além do aumento do custo financeiro de suas dívidas junto à União provocados pelo aumento irresponsável e anti-Brasil dos juros pelo Banco Central, eles foram confrontados também pela queda de recolhimento dos impostos, o que ocasionou uma queda na arrecadação e um aumento de custos.

O ESTADO BRASILEIRO

O Estado Brasileiro como elo final desta corrente sofreu os seguintes revezes.

  1. a) Aumento de custo da dívida interna, principalmente nos títulos de renda fixa pós fixados e os títulos públicos de renda fixa atrelados à SELIC.
  2. b) Queda de arrecadação em consequência do exposto acima, com trabalhadores consumindo menos, gerando menos impostos, indústria vendendo menos, recolhendo menos impostos e a dificuldade de os Estados honrarem as suas dívidas junto à União, pela queda de arrecadação e queda de receita.

Toda a questão exposta acima tem como única causa a elevação equivocada e irresponsável de juros pelo Banco Central do Brasil.

Quase todos perderam – mas alguns poucos ganharam.

PARA ONDE FOI O CAPITAL E OS JUROS

A transferência de capital e de juros pode ser analisada de uma forma muito simples. Ela foi para os Bancos através da política agressiva de juros no cartão de crédito e o cheque especial e outros instrumentos financeiros. O capital e os juros foram para os detentores da dívida pública brasileira de renda fixa, de títulos pós fixados e títulos atrelados à SELIC, todos nas mãos das elites brasileiras e das elites internacionais. Um jogo de cartas marcadas. Em qualquer outro país haveria uma investigação séria a respeito.

BOVESPA

Como já citado, com a instabilidade política provocada pela não aceitação do resultado das eleições presidenciais, da vontade popular, a forte desvalorização do câmbio derrubou a BOVESPA. Isso aliado a uma forte campanha midiática diária e de instrumentos jurídicos interpostos em cima da principal empresa brasileira, a PETROBRAS, no Brasil e no exterior. E o que o Banco Central fez? Elevou os juros. A elevação de juros, ao invés de dar suporte à BOVESPA, como deveria ser, defendendo assim o patrimônio nacional, derrubou-a mais ainda.

Qualquer Banco Central no Mundo em uma situação como a que vimos teria em primeiro lugar irrigado a economia, ou seja, baixado os juros de 7% para 5% por exemplo, permitindo assim que ocorresse o efeito contrário ao que ocorreu.

Os juros baixados de 7% para 5% teriam gerado as seguintes consequências:

  1. a) O investidor teria tomado capital a custo baixo para investir em ações na BOVESPA, investindo no mercado interno, interrompendo assim a queda e a desvalorização dos ativos.
  2. b) O trabalhador teria continuado a consumir mantendo ou até aumentando a arrecadação de impostos.
  3. c) A indústria teria continuado a vender, podendo aumentar a sua produção para repor os produtos importados encarecidos pela desvalorização do câmbio e desta forma também aumentado a arrecadação dos impostos.
  4. d) Os Estados não teriam tido o custo das suas dívidas aumentados – pelo contrário: elas teriam sido reduzidas e a arrecadação teria subido e estariam hoje saudáveis.
  5. e) O Estado Brasileiro também, consequentemente, teria o custo financeiro de suas dívidas reduzido e os impostos teriam sofrido um aumento natural de arrecadação permitindo ao Estado Brasileiro manter e até implementar suas políticas sociais inclusivas que foram a grande conquista dos 14 anos do PT no governo.

O PORQUÊ DA POLITICA RECESSIVA ANTI-BRASIL

Por que o Banco Central do Brasil implementou esta política de juros que agride todos os fundamentos de todas as teorias econômicas que tratam do assunto? As opções que temos: burrice, ignorância ou a defesa de interesses de pessoas que não estavam e continuam nem um pouco interessadas no desenvolvimento e na soberania do país. Essa última é que entendemos ser a correta, por razões factuais.

Não podemos esquecer que o Brasil tem ao redor de 450 bilhões de dólares não declarados no exterior. Esta massa de dinheiro se comporta como o investidor estrangeiro, ganha, quando o Brasil perde, pois realiza lucros em dólares e não em reais. E quem são os verdadeiros donos de tanto dinheiro não declarado no exterior?

Se analisarmos a anistia que se propôs ainda no Governo Dilma para repatriação desses recursos, o que está em curso ainda, podemos ver que o percentual de pessoas que aderiram é irrisório, pois a mesma só pode ser aproveitada caso os recursos tenham origem, ou seja, sejam fruto de trabalho. O que nos leva a conclusão de que esses recursos em sua maioria são de natureza ilícita. Portanto, aqueles que estão por trás desse golpe queriam também esconder isso.

A DÍVIDA EXTERNA E O FMI

Como lembramos, em 2002 o Brasil não tinha reservas sendo obrigado a recorrer ao FMI solicitando um empréstimo de 30 Bilhões de dólares para poder pagar os juros da dívida externa e desta forma amenizar o forte ataque ao país via dívida externa, já que não havia como fazer nada sem pagar os juros dessa dívida. Esse fenômeno (o ataque à dívida externa) ocorre a cada eleição onde Lula concorreu, 1989, 1994, 1998 e 2002.

Esta situação mudou com os governos de Lula e Dilma, pois o país passou a dispor de aproximadamente 370 bilhões de dólares em caixa (reservas externas) com tendência crescente. Desta forma ficaria inviável atacar a dívida externa do país, pois, caso ela fosse atacada, o país poderia através do Banco Central recomprar suas dívidas a um custo bem em conta.

O problema da dívida externa brasileira é outro. Paga-se juros altos e o que se tem em caixa, os 370 Bilhões, não rende quase nada. Portanto, o Brasil perdeu na época uma excelente oportunidade de recomprar parte de sua dívida externa a preços convidativos, além de recomprar títulos da dívida de empresas estratégicas como a Petrobras e outras que sofreram ataques virulentos durante este período.

Conclusão: a dívida externa brasileira ia muito bem e poderia ter sido gerida de forma bem mais eficiente e inteligente do que o foi, tornando o país mais saudável e sólido.

A DIVIDA INTERNA

Como já pudemos compreender, a dívida interna cresceu de forma brutal em função da política anti-Brasil adotada pelo Banco Central do Brasil, quebrando o trabalhador, o industrial, os estados e o País, uma reação em cadeia que tem como causa a política de juros do BCB. A política de juros diametralmente oposta a todos os fundamentos econômicos tem um objetivo maior: desestabilizar a economia interna, o desmonte de todas as conquistas alcançadas de 2003 para cá, viabilizando o Golpe e o Estado de Exceção que infelizmente segue o seu curso no país.

A MOEDA BRASILEIRA ANTES E DEPOIS DE 1999

Vamos nos aprofundar um pouco mais na análise da moeda brasileira pré-1999 e pós 1999. O Brasil dispunha de uma moeda própria antes do golpe de 1964 chamada Cruzeiro. Dispunha de um câmbio flutuante e praticava juros condizentes com a realidade da época. Com o golpe militar em 1964 o país foi dolarizado através do artifício único no mundo que passou a existir no Brasil, a correção monetária.

O que era a correção monetária?

Tratava-se de um artifício contábil onde se corrigia o ativo e o passivo com a inflação do mês anterior. Com isso fixou-se a desvalorização cambial e dessa forma se dolarizou, de fato, o país. Todos passaram a ter o referencial em dólar para saber se ganharam ou perderam dinheiro. Por isso a moeda brasileira, que não era moeda na verdade, desvalorizava todo mês.

Nenhuma moeda se desvaloriza eternamente, ela flutua. Portanto, isso é a prova cabal de que a moeda do país inexistia. Com essa prática contábil gerava-se números cada vez maiores que já não cabiam mais nas máquinas de calcular Facit usadas na época. Simplesmente cortavam-se alguns zeros e dava-se um outro nome ao “dólar brasileiro” instituído através do artifício da correção monetária.

Não havia câmbio flutuante. Ou seja, o país não tinha moeda. Assim, as crises tinham que ser controladas através do aumento de juros, pois o dólar tupiniquim, fictício, tinha que oferecer mais atrativos do que o dólar real.

Vem dessa época a cultura de se pensar em dólar, ganhar em dólar e ficar rico em dólar, época em que começou a ser construído o gigantesco Caixa Dois Brasileiro avaliado hoje, por diversas fontes, em 450 bilhões de dólares, grande parte de origem ilícita – e mais uma pequena parte de origem lícita. E naturalmente esse Caixa Dois foi construído em parte com e através das grandes corporações nacionais e multinacionais que faturam em dólar através de exportações via paraísos fiscais.

Acha o nosso trabalho importante? Reforce a nossa causa em apenas 2 segundos: apoie a sua divulgação tornando-se um Patrono do Duplo Expresso

Facebook Comments

Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.