Expresso da Meia-Noite: Caderno Mensal

Por Ricardo Guerra

Cooptação cultural e interesses econômicos dos EUA: a ideologia por trás da ultradireita e do atual pensamento hegemônico no ambiente militar brasileiro

Caros Expressonautas,

Convido a todos para a nossa viagem especial que acontece uma vez por mês. A 5° edição do Caderno Mensal do Expresso da Meia-noite já está circulando. Desta vez vamos explorar o contexto de formação do pensamento da ultradireita no Brasil e sua relação com os interesses estadunidenses e com a  ideologia que permeia o ambiente militar brasileiro.

Diz a lenda que Henry Kissinger (ex-Secretário de Estado norte-americano) teria dito, em uma palestra por volta dos anos 70, que o desenvolvimento do Brasil seria uma ameaça para a segurança dos EUA

Lenda ou não, a verdade que está por trás deste discurso, é que, com a economia norte-americana cada vez mais dependente de recursos naturais do exterior, eles estruturaram (desde sempre) uma política geoestratégica agressiva (da Doutrina Monroe até os dias atuais) visando garantir a continuidade do seu desenvolvimento alimentado pelo fluxo contínuo de materiais oriundos de países que os tivessem em abundância. 

Dessa forma, para garantir a expansão de seu domínio e manutenção de toda a América Latina e também o Brasil, numa posição subalterna, o governo norte-americano condicionou o desenvolvimento desses países à posição de dependente e vinculado à capacidade, quase que exclusiva, de investimentos privados. 

Esta estratégia também serviu para assegurar aos EUA a condição de principal credor desses países e, é claro, para abrir mais mercados para exploração econômica e expansão de suas empresas, que geram os empregos mais qualificados (e melhores remunerados) em seu próprio país. As empresas americanas nesses países preocupam-se apenas com lucros, não com a qualidade das relações de trabalho locais, e não promovem divisas internas, visto que os seus lucros são remetidos para a sede de suas administrações centrais. 

No contexto do Brasil, principalmente entre o primeiro governo Vargas até a ascensão de João Goulart ao poder (com alguns momentos de exceção), os investimentos na expansão da base industrial nacional, na diversificação do comércio exterior, no desenvolvimento de uma política externa independente e na estruturação de uma política interna preocupada com uma relação mais justa de organização do trabalho e da sociedade, levaram os Estados Unidos a intensificar sua investida intervencionista

Neste período, o intervencionismo norte-americano, que sempre procurou contar com o respaldo da elite local para se estabelecer – desde o advento da Proclamação da República –  encontrou apoio numa elite nacional, escravagista e patrimonialista (principalmente os cafeicultores paulistas) que perdeu poder, de forma mais contundente, exatamente com a ascensão do Nacional Trabalhismo Varguista.

A partir daí, infiltrando e cooptando lideranças locais em diversas áreas e instituições brasileiras, os EUA foram organizando e coordenando uma estrutura para desestabilizar e derrubar qualquer governo que abraçasse a causa nacionalista e se posicionasse contrário ao papel de ser exclusivamente fornecedor dos recursos necessários para o seu setor produtivo (e dos seus aliados), indispensáveis ao seu desenvolvimento. 

De braços dados com as oligarquias apátridas, que incluem representantes do empresariado, componentes do campo jurídico e, inclusive, quadros das nossas Forças Armadas (FFAA), a principal instituição que deveria agir para defender os interesses e a soberania do nosso país, os EUA foram conseguindo imprimir sua agenda dentro da doutrina de contenção e reserva estratégica e, assim, exercer melhor o controle territorial e cultural sobre o Brasil.

No entanto, para alavancar e consolidar no poder governantes que agissem de forma lesiva aos interesses do próprio país, era necessário aos EUA formar uma cúpula de oficiais locais de alta patente, alinhados aos seus interesses e culturalmente a eles tão submetidos, a ponto de defender para o Brasil uma relação de dependência e subserviência com eles. 

Assim, pouco a pouco, o controle do Exército Brasileiro (EB) foi se aproximando das mãos e dos interesses de um grupo, que nesse período ainda não era a maioria do EB, que reverenciava a dependência e subordinação do Brasil ao grande irmão do norte e defendiam um projeto de desenvolvimento nacional não soberano, mas subalterno e submisso aos EUA. Mais ou menos assim: o que é bom para os EUA, é bom para o Brasil.

Este conceito, ingenuamente ou não, foi formado sob o “argumento” de garantir uma suposta proteção contra uma ameaça comunista e foi sendo introduzido ao longo dos anos (desde o início do século XX). Mas é possível perceber que foi se intensificando de forma doutrinária, mais incisiva e agressiva, a partir do alinhamento do Brasil aos EUA contra os países do eixo na segunda Guerra mundial e depois do consequente acordo de cooperação militar celebrado entre os dois países neste momento. Acentuando-se, ainda mais, nos tempos da Guerra Fria.

Neste período, marcado por grande cooptação cultural estadunidense no ambiente do nosso EB, e consequentemente de nossas FFAA, ocorreram várias tentativas de golpismo (nos anos 1932, 1937, 1945, 1950, 1954 e 1955) culminando com o evento do golpe militar efetivado em 1964. Sendo importante saber que todo esse movimento (golpista) sempre esteve voltado contra as conquistas das classes populares originadas pela organização do Estado Nacional e Social da era Vargas e, que, em alguns momentos foram mais (e em outros menos) contrários à soberania do Brasil sobre seu próprio desenvolvimento e em favor de um projeto de desenvolvimento dependente dos EUA. 

Esses movimentos golpistas se estabeleceram no contexto do embate entre duas alas que foram se formando ao longo dos anos e passaram a disputar a hegemonia dentro do Exército, ficando conhecidas como alas “nacionalista e antinacionalista”. A disputa entre esses grupos pela supremacia no comando da corporação levou, inclusive, a tentativa de um golpe dentro do golpe da chamada ala antinacionalista contra o então Presidente Geisel, representante do grupo nacionalista e que atuou em defesa do desenvolvimento independente do Brasil, contrariando os interesses dos norte-americanos.

A partir desta compreensão, podemos dizer que o EB vem agindo como uma sombra e praticamente participando como coator do Estado brasileiro, desde o evento da Proclamação da República. Mas, é preciso ter clareza que é a partir da ascensão e influência da ala mais alinhada aos EUA, até então chamada de antinacionalista, que as atividades da corporação passaram a ser percebidas como comprometedoras para a viabilização de um modelo de desenvolvimento autônomo e, consequentemente, determinante para a derrocada da soberania do Brasil sobre seus destinos de forma independente. Também é importante saber que o termo entreguista, para denominar a ala antinacionalista, surgiu somente após as disputas políticas pelo petróleo no Brasil na década de 1950.

Após anos, com uma maior ou menor interferência nos destinos do nosso país, sempre vinculados aos seus interesses geopolíticos e econômicos, os imperialistas norte-americanos encontraram na chegada e permanência do PT no poder, por quatro mandatos consecutivos, a oportunidade para uma investida mais contundente no seu planejamento intervencionista, principalmente porque o Brasil começou a articular projetos mais ousados do que eles (EUA) poderiam suportar: 

Essa nova investida norte-americana contra o Brasil, ressurgiu sob o mesmo arcabouço anterior, em forma de golpe. Mas um novo tipo de golpe, agora envolvendo o consórcio jurídico/militar/financeiro/midiático (um quadrunvirato que lá de cima controla todo o jogo, como diz Romulus Maya) que foi sendo implementado ao longo de anos. 

O seu desenrolar, que ainda está em curso, pode ser percebido de maneira mais evidenciada na história recente do País entre os anos 2015 e 2018, quando foi estabelecida a articulação de um processo de impeachment contra a então Presidente Dilma, a condenação sem provas do ex-Presidente Lula (candidato menos favorável aos  interesses imperialistas e com amplas chances de ser reeleito) e a chegada do atual governo (completamente subserviente aos EUA) no poder, sob a máscara de um “evento democrático” (um processo, onde até a esquerda amarelou e se rendeu ao golpismo, alegando um “pretenso” respeito à constituição, conforme palavras do Professor Mário Maestri).

Assim, pelo menos até o presente momento, as elites brasileiras vão optando por demonstrar preferência por dar aparências democráticas ao golpe, mas não escondem que podem recorrer, se assim o quiserem e “precisarem”, à via autoritária que têm na manga – ou melhor, no coturno (palavras do Antropólogo Piero Leirner em alusão ao livro para o qual ele recomenda a leitura e eu o subscrevo, “carta no coturno a volta do partido fardado no Brasil”).

Estruturado desta forma, podemos dizer que o pensamento da atual ultradireita que comanda o nosso país, é um pensamento majoritariamente forjado no ambiente do Exército e por derivação em toda as FFAA, mas disseminado, também, no poder judiciário e em outras instâncias (finanças e mídia) dentro e fora da estrutura do Estado.

Esse pensamento encontra, nos dias atuais, referência teórica na obra do General Sérgio Coutinho (que teve seus escritos recentemente reeditados pela Biblioteca do Exército), mas também sofre outras influências, como por exemplo, da doutrinação capitaneada  por Olavo de Carvalho, a cereja no bolo dessa ideologia que domina a direita nacional, antinacionalista e desavergonhadamente entreguista que tomou conta do nosso País.

Essas duas correntes, se estruturaram fortemente apoiadas no pensamento  neoconservador  norte-americano  dos  anos  1980  e  1990 que ascendeu no contexto do declínio da antiga URSS, mas foi forjado no ideário da direita americana da década de 1920 e 1930, cujos pontos principais eram o anticomunismo e os ditos valores tradicionais da civilização ocidental cristã.

Um tipo de conservadorismo que ressurge num movimento que dá ênfase a uma guerra cultural, pois, segundo dizem acreditar, a  cultura  e  a moralidade  americana  estariam sendo  destruídas e o instrumento dessa destruição seriam o “multiculturalismo” e o tão propalado “marxismo cultural” que Olavo de Carvalho martela na cabeça de seus seguidores, o qual é percebido nas falas e no comportamento de vários representantes do atual governo nos mais diversos escalões e parece representar um tipo de fanatismo religioso medieval. 

Na concepção desse pessoal, os “propagadores do comunismo e multiculturalismo (que eles associam ao denominado marxismo cultural) são os responsáveis pela desconstrução da família tradicional e dos  valores que eles dizem ser cristãos e estão representados no discurso do politicamente correto e suas derivações no identitarismo político. Esses propagadores foram por eles personificados, nos acadêmicos (por isso o ataque às universidades e a educação como um todo), nos militantes de esquerda (por isso a demonização e a instigação ao ódio contra estes) e nos jornalistas (haja vista o ataque que fazem `a imprensa).

Portanto, alimentada e alimentando uma falsa luta contra uma imaginária ameaça comunista, sob forte doutrinação estadunidense e cooptação cultural daquele país, as nossas FAAA, foram formando um errôneo consenso em torno daquilo que consideram como “a grande ameaça” ao país: a ideologia do multiculturalismo, os socialistas e comunistas e os partidos de esquerda.

Dessa forma, aliaram-se aos nossos algozes, em nada se importando com a destruição da Soberania Nacional, o desmonte e entrega da nossa indústria e de nossas riquezas  (principalmente nosso petróleo, nossas terras e empresas de engenharia e tecnologia) e a aniquilação dos direitos conquistados por nosso povo.

Para esses “ideólogos”, o recente projeto de bem-estar social, parcialmente implementado com a ascensão do PT ao poder, mas principalmente a herança Varguista, seriam uma forma de sociedade socialista e os movimentos de defesa dos direitos humanos seriam ameaças revolucionárias que precisavam e precisam ser combatidas. E assim o fizeram. 

Enfatizando a polêmica em torno de questões identitárias embutiram neste contexto uma pregação de forma descontextualizada sobre a ideia de meritocracia e promoveram uma espécie de culto ao individualismo, conseguindo, assim, induzir as pessoas a pensarem que o que define o posicionamento político de direita e de esquerda são essas pautas e não o projeto econômico, a soberania nacional, a defesa dos direitos sociais e dos trabalhadores e a fundamental importância da intervenção do estado para que isso seja concretizado.

O colonialismo cultural ao qual estão submetidos é tanto, que eles se sentem orgulhosos do que estão fazendo e que é diametralmente contra o juramento que fizeram à Bandeira Nacional de honrar a Pátria, sua integridade e instituições. 

A visão sob qual estão submetidos e que é uma adaptação do ideário da extrema direita americana sedimentada na cabeça desses pensadores da direita tupiniquim, pariu no (e a partir do) ambiente militar, um projeto de Nação ultradireitista, rapidamente apoiado por empresários ávidos por destruir os direitos trabalhistas e pautar uma agenda ultraliberal no Brasil em conjunto com outros setores de nossa elite antinacionalista e entreguista.

Representados por uma mídia completamente vendida, sem qualquer empatia com o povo e nenhum sentimento de pertencimento à Nação, a  identidade  e  a  nacionalidade do país, para essas pessoas, é pautada pela hipocrisia e em nome de valores relacionados a uma caricaturada tradição familiar e religiosa, um falso e seletivo combate à corrupção e o medo de uma ameaça comunista (da mesma maneira que fizeram em 54 e 64). 

Fazem uma fervorosa defesa daquilo que chamam de “mercado” como uma espécie de remédio contra todos os males e como regulador de todas as relações sociais. O mercado, para eles, é o que traria a modernidade como que em passe de mágica para o país e o que nos tornaria “altivos” seria a identidade cultural pela qual foram cooptados – “os valores cristãos ocidentais” – não importando sermos subalternos no plano econômico, sendo esse o preço a se pagar para manter o Brasil livre do “comunismo” e próximo aos valores que eles afirmam ser  “importantes e tradicionais”. 

O conceito de nacionalismo que apregoam, está relacionado a questões de comportamento, não de soberania e desenvolvimento independente, muito menos de valorização e preservação do patrimônio físico e humano e ampliação dos direitos e qualidade de vida do nosso Povo. 

Assim, para dar um ar de legalidade e atingir o objetivo de voltar ao poder sem o uso de força ostensiva e implementar suas ideias e agendas no Brasil, eles foram se infiltrando na política e estrategicamente aumentando a “sinergia” que sempre tiveram com a juristocracia, aprimorando os meios para potencializar o uso da guerra comunicacional (Guerra Híbrida) a qual têm amplo domínio. Dessa forma, promoveram o ódio por intermédio de fake news, lawfare e manipulação de informações e foram criminalizando a esquerda e toda a política, ao mesmo tempo em que incitavam a ideia da negação da importância e consequente demonização do papel do Estado para o desenvolvimento nacional

Por fim, aliando-se ao que existe de pior em termos de lideranças pseudo religiosas (mercadores da fé), empresariado golpista (que quer obter e aumentar suas margens de lucros, explorando e expropriando os trabalhadores de seus direitos) e o pseudo empresariado que optou especular no capital financeiro (em vez de investir no capital produtivo e na geração de emprego) conseguiram promover, com sucesso, o seu intento. O sentimento contra o Estado e contra a esquerda, os trabalhadores e os movimentos sociais, sedimentou-se na sociedade, enquanto, paralelamente, foram conseguindo “convencer” muitas pessoas  da (falsa) ideia de que eram os bastiões da moralidade, da ordem e dos bons costumes. 

Todo esse processo abriu as portas para a ascensão, “por vias democráticas”, dos chamados “candidatos antissistema”, que são estrategicamente preparados para defender não os nossos interesses, nem tão pouco os da Nação brasileira, mas sim, os interesses daqueles os quais representam (o imperialismo) e cujas agendas e propostas fundamentam-se na proteção dos privilégios de uma minoria rica contra os direitos da maioria pobre.

A que ponto chegamos e onde podemos chegar com esse tipo de pensamento incrustado no seio da instituição de maior importância na defesa da Soberania do país, o Exército Brasileiro? 

O Exército de icônicos patriotas que obstinadamente sempre honraram a Nação e que jamais iriam permitir, muito menos colaborar, com a maior e mais vergonhosa destruição da soberania e do patrimônio nacional já vista na história do país, onde até o representante do nosso cargo de mais alta relevância presta continência para a bandeira dos EUA.

Basta! A memória de Osório e Caxias de vós exige reação.

Exército Brasileiro: retire da bainha vossa espada e resgate do algoz a Nação. Livrai-nos das garras imperialistas e pela glória que em vossa farda rebrilha, extirpe de vosso seio a traição. Em seu valor é que se encerra a esperança de que o Brasil recupere a pujança e retome o seu destino às mãos!

“…Como é sublime saber amar, com a alma adorar a terra onde se nasce!” (Hino do Exército).

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