Um Novo Começo

Este texto é a continuacão de outro – “Depois das Seis” –, apresentado há algumas semanas.

 

Texto e arte por Geuvar Oliveira, para o Duplo Expresso

Estávamos no ano de 1976 quando chegamos na casa nova, bem longe da que morávamos anteriormente. Essa era um pouco afastada do centro da cidade. A anterior ficava no centro, perto de tudo, mas era… mal-assombrada. Ou melhor, muito bem-assombrada.

A nova tinha uma calçada alta, e a rua na frente não era asfaltada. Tinha areia, onde a gente aproveitava para jogar bola. Entramos enquanto os adultos ainda tiravam os móveis de cima do caminhão e levavam para dentro. Era uma casa mais simples com cinco cômodos: Uma sala, outra sala, cozinha e dois quartos. Tinha um quintal grande, cercado por arame (não lembro se era farpado) e com um poço artesiano bem fundo. Daqueles com um carretel e uma lata de querosene amarrada por uma corda, para puxar a água. Logo, não havia água encanada.

Olhei para dentro e vi a água brilhando lá embaixo. O cheiro da umidade chegou até ao meu nariz. Meu pai chamou-me a atenção para sair de perto da borda do poço e sai rapidamente.

Do lado direito tínhamos um vizinho, o qual minha mãe ainda riria muito dele, porque cantava alto e ela achava-o parecido com um bode berrando. Nesse tempo, a novela A Escrava Isaura fazia um sucesso enorme, assim como o seriado estadunidense S.W.A.T., para você ver como o fascismo é algo que podemos chamar de raiz.

Ocorria ainda um fato curioso: Havia um rumor discos voadores estavam aparecendo e levando as pessoas. A cidade toda falava sobre isso. Um dia, eu e os manos brincávamos embaixo de uma árvore próxima da casa, e um dos meus irmãos berrou: “– Corram! Corram! Olha o disco voador!” A negrada disparou a correr sem olhar para trás. Nem eu olhei. Naquela manhã, ninguém fez piada. Apesar do meu irmão jurar que viu mesmo, ficou uma dúvida. Toda vez que íamos para o campo de futebol, eu olhava para cima da árvore. Depois de muitos tempo, já um adulto de 40 anos, fiz uma pesquisa sobre alienígenas, para uma HQ. Foi aí que descobri a história bem louca da Operação Prato, uma operação militar realizada no Pará para investigar aparições de OVNIS. Tinha relatos delas em várias partes do Brasil e, no mesmo ano de 1976. Enquanto eu desenhava a tal HQ, lembrava-me do tempo de menino.

Uma vez sai para passarinhar com o meu irmão. Ele era craque na baladeira. Andávamos pelo cerrado, cerca de meio quilômetro de casa, quando encontramos um boi morto. Aquilo me chamou muito a atenção. Olhei aquele bicho enorme caído, já fedendo, com urubus à volta. Quando nos viram, voaram, mas ainda ficaram por perto, agitados, ainda muito interessados na refeição. Com a curiosidade sempre aguçada, passei os olhos desde os chifres até as patas. Nunca tinha visto algo tão grande assim, morto. Depois de alguns minutos, meu irmão chamou-me para seguirmos. Andamos mais um pouco e voltamos com algumas rolinhas fogo-apagou no mocó.

Minha mãe, que ainda estava doente, não ia mais ao terreiro porque se desentendeu com a Ialorixá (Mãe de Santo). Assim, ela buscava outro lugar que fosse confiável. Das suas duas amigas que sempre estavam com ela, uma resolveu ficar no terreiro, e a outra deixou-o e passou a segui-la, Essa dormia de vez em quando lá em casa. A amiga de minha mãe – Dona Antônia, o nome dela – era uma pessoa muito carinhosa e gostava muito de mim. Era uma senhora já com seus 60 anos. Sempre que ela ia dormir lá era porque meu pai estava na delegacia ou em diligência nas chácaras distantes.

A Dona do terreiro ficou chateada porque Dona Antônia deixou o lugar para acompanhar minha mãe e prometeu vingança. Com aquele tom ameaçador de “ela vai me pagar”. Dona Antônia encontrou uma pessoa para minha mãe consultar. Numa determinada noite, elas resolveram ir na casa da pessoa, para a primeira consulta. Pedi para ir junto e ela deixou.

Logo depois das seis, ela passou as ordens aos meus irmãos e começamos a andar. A nossa casa não era muito longe da rodovia principal. Seguimos à margem da rodovia, eu atrás das duas, enquanto elas conversavam sobre a consulta. Minha mãe parecia preocupada. Os sapos cantavam como se formassem um grande coral. O ronco do sapo-boi até assustava um pouco. À medida que andávamos, a noite passava a cair.

Chegamos no local. Uma casa de tábua, muito simples, também à margem da rodovia. Não lembro se era coberta de telha ou palha, mas era pequena. Fiquei olhando a frente da casa toda remendada, e Dona Antônia chamou. Saiu uma mulher pedindo para que a gente entrasse. Por dentro, de grande apenas a decepção: Cadê o terreiro? E o altar? Não tinha nada. Tinha apenas um rezador – um homem que rezava nas pessoas.

Ele começou a falar com elas. Lembro que ele era sério e não expressou nenhum tipo de sinal com a face. Dona Antônia apresentou minha mãe e, enquanto conversavam, eu corria os olhos na casa toda. Cortinas nas portas, panelas dependuradas nas paredes, lamparinas acesas que deixavam a casa na penumbra…

A fisionomia do homem sumiu da minha mente. A da Dona Antônia também, mas lembro que ambos eram mestiços. Dona Antônia um tiquinho mais negra. Os três conversavam em um quarto com uma cortina como porta. Eu fiquei sentado em um tamborete na sala. Passou um tempo, as três pessoas saíram do quarto ainda conversando. O tal homem sisudo falou que minha mãe tinha que começar a trabalhar, e que era a Ialorixá Dona do terreiro que estaria fazendo coisas ruins para ela.

Saímos da casa, despediram-se e começamos a andar de volta. Na rua estava um breu. Era quase impossível ver dois metros à frente. Mais adiante, enquanto andava olhei para trás, mas a casa tinha sumido na escuridão. Vi apenas a cor da luz de lamparina. Elas falavam sobre a consulta e elogiavam o moço, achando-o sincero. Dona Antônia quis saber se minha mãe ia seguir o conselho dele e começar a trabalhar. Imaginei que minha mãe fosse arrumar um emprego. Ela respondeu que não sabia.

Um dia, estava no quintal perto do poço e minha mãe estava por lá também, fazendo alguma coisa. De repente, ela me chama e pede para eu entrar. Olhei-a e ela estava fitando o céu, nervosa. Perguntei o que estava acontecendo e ela disse: “– Olha esse tanto de gafanhotos vindo!” Olhei para cima e não vi nada, apenas o céu calmo e azul de um verão da infância. Mas ela, com grande agitação, mandou-me entrar rápido enquanto balançava os braços freneticamente para frente e para trás como se estivesse afastando algo. Entrei na frente e ela entrou de costas, fechando rapidamente a porta que dava para o quintal. Ela foi para o quarto, ajoelhou-se e bateu a testa no chão três vezes. E começou a fazer aquilo com os braços novamente. Ficou naquele frenesi por muito tempo, tanto que nem lembro quem fez o almoço. Aliás, nem lembro se teve almoço naquele dia.

 

Quando Dona Antônia (que era médium) chegou, chamou por ela, levantando-a do chão e fazendo com que parasse com a agitação dos braços. Sentaram na cama e começaram a conversar. E eu ali na porta, ouvindo a conversa, passado de estado de preocupado para o de pavor. A amiga perguntou o que ela fazia, e minha mãe respondeu que estava tirando os gafanhotos de dentro de casa. Que havia tirado todos, inclusive. Dona Antônia perguntou quem ensinou ela a fazer aquilo e ela respondeu: “– Eles!” Médiuns são empíricos, eles não costumam dar nomes para as entidades que os cercam. Ao menos, os que eu conheci até agora durante a vida. E ela entendeu o que minha mãe respondera. Continuaram conversando, e Dona Antônia passou a morar lá em casa para ajudar minha mãe. Aquilo era o trabalho que o rezador do casebre na beira da rodovia tinha sugerido. Ele disse que minha mãe era médium e que ela deveria desenvolver sua mediunidade, senão teria problemas.

Certos ensinamentos, a escola normativa nunca vai ensinar. E não estou falando dessa questão espiritual específica. Existe muita coisa, que de propósito ou não, passa batido pelo indivíduo. Existe tanta coisa na vida, que a gente sai dela sem saber. Muitas dessas coisas são tão básicas, que é de desconfiar. Sinceramente, eu só vim saber realmente o que é fogo e água, recentemente. Antes, eu apenas pen-sa-va-que-sa-bia.

Aconteceu durante os estudos sobre Mecânica Quântica. Estava vendo a respeito de vibração quântica e dimensões, quando relacionei a questão com o fogo. Fui procurar saber o que era o fogo e não achei na internet, tampouco nos livros de ciência dos meus filhos ou naqueles meus que uso de vez em quando. As explicações que obtive eram como ocorria o fogo. Que eu precisaria de algo para a combustão e tal, tudo muito superficial. Fiquei intrigado, e digitei fogo relacionando com a Física Quântica. A pesquisa foi longa, mas fiquei satisfeito. O algoritmo de procura ofereceu muitas coisas, inclusive relacionando isso com o meu filme preferido, The Matrix, de The Wachowski Brothers (1999)!

Assim como a colher ou a parede, o fogo também não existe. O fogo é o movimento dos átomos e das moléculas em altíssima velocidade. E essa velocidade intensa causa a sensação do calor sobre a pele ou outra superfície que esteja em menor movimento. A mesma coisa acontece com a água, só que em sentido contrário: Os átomos e as moléculas da água se movem bem mais lentamente, dando a sensação de frio. Enquanto têm os átomos do fogo que vibram em grande velocidade, os da água em forma de gelo, estão praticamente inertes.

Explicações obtidas por estudos de físicos. Os átomos, moléculas e partículas são energia. Tudo resume-se a energia e onda (movimento) na existência. As coisas, segundo os experimentos da Mecânica Quântica, existem porque nós as colapsamos. Como no experimento da dupla fenda, onde o observador colapsa a função de onda do átomo. Nós colapsamos as coisas a nossa volta. Assistindo pela primeira vez The Matrix, quando o menino diz ao Neo, “a colher não existe”, eu não tinha lido nada sobre a teoria da Física Quântica. Achei incrível o diálogo do Morpheus e Neo no sofá. Foi demais! O que é a mesa sob o computador, a parede ao meu lado, senão energia congelada. Nós somos energia congelada para ter experiência nesta dimensão.

Por que eu estou falando isso com essa convicção? Porque tive uma experiência fantástica, quando menino, durante uma caçada de passarinhos no mato: O meu saco de pedras, o qual levava para atirar com a baladeira, sumiu de perto de mim sem deixar vestígio nenhum. Isso eu falei no texto O Saco de Pedras. Naquele momento eu fiquei desorientado, mas muito tempo depois, posso relacionar com esses conhecimentos adquiridos da Física Quântica. Agora, outro fato dessa natureza: Quando menino, ao fechar os olhos, via uma quantidade infinita de energia à minha volta e aquilo me divertia. Por isso não vejo nenhum problema em relacionar a Mecânica Quântica com um filme de ficção científica, porque afinal o conhecimento do filme vem das descobertas dessa ciência. Só precisamos relacionar as coisas sabendo a diferença entre ficção e as questões da física quântica na realidade.

Eu sempre ajudava os meus irmãos mais velhos a pegar água no poço. Nunca fazia isso porque era perigoso, e a lata era pesada para mim. Mas, naquele dia, estava sozinho em casa e resolvi pegar água para tomar banho. Desci a lata vazia até embaixo, sacudi, ela encheu e comecei a puxar. Era pesada mesmo. Quando chegou no topo, estava com as duas mãos no carretel. O carretel parece um timão de navio antigo. Ao soltar uma das mãos para pegar na alça de madeira da lata, não tive força, e a lata caiu me puxando para dentro do poço. Com metade do corpo para dentro, soltei a lata, que desabou muito rapidamente. Eu me segurei na borda do poço para não ir junto. Foi um barulho muito forte da lata na água lá embaixo. Subiu um calor pelo corpo. Minhas orelhas ficaram quentes e o coração quase saiu pela boca mergulhando atrás da lata. Um dos pegadores do carretel bateu no meu braço e doeu muito. Parei um pouco para respirar e, depois, olhei lá para dentro. Se tivesse caído teria ficado lá, pois estava sozinho em casa. Puxei a lata novamente, mas dessa vez com muito mais cuidado. Com grande dificuldade, consegui por a lata na beirada do poço. Estava bastante amassada. Até parece que estou revendo aquele lugar, o chão do quintal e a cor branca meio cinza, ao redor do poço. Escapei por pouco naquele dia.

Numa outra noite, acordei na madrugada e pus a cabeça para fora da rede. Todos os irmãos dormiam, mas senti algo estranho. Uma sensação desagradável. Joguei as bordas da rede uma sobre a outra, me fechando como em um casulo, ficando quietinho lá dentro, apenas ouvindo. De repente, senti um forte abraço na rede me apertando. Foi muito rápido. Dei um grito bem alto, que acordou a galera. Levantaram as cabeças e minha mãe veio correndo, juntamente com a Dona Antônia. Relatei que levei um abraço e que estava assustado. Ficaram ali um pouco comigo. Os irmãos voltaram a dormir e, depois de um tempo, elas voltaram para o outro quarto. Mas aí, não dormi e fiquei de olho bem aberto. Como a coragem ainda não tinha vindo, resolvi ir para o quarto dela. Levantei e comecei a andar, quando cheguei na porta do quarto a porta estava aberta, vi minha mãe em pé rezando e a Dona Antônia quase flutuando em cima da cama, toda esticada. Ela estava com os cabelos como se tivesse levado um choque elétrico. Uma cena bastante assustadora. Ao me ver minha mãe mandou voltar ao quarto e fechou a porta. Ouvi ainda um falatório no quarto, até despertar de manhã.

 

Quando foi mais tarde, chegou uma senhora amiga da minha mãe dizendo que a Ialorixá dona do terreiro tinha morrido naquela madrugada. Ela estava em um baile em noite de réveillon. Minha mãe respondeu: “– Eu sei! Ela veio ontem aqui, assustou meu filho e depois deu muito trabalho para sair do corpo da Antônia!” Dona Antônia confirmou para a visitante e minha mãe continuou: “– Ela veio me pedir perdão pelo o que me fez, e disse não saber quem eu era e quem estava comigo!” As palavras dela soaram com uma certa autoestima. Algo havia mudado nela. Não parecia mais aquela mulher analfabeta com a clavícula quebrada. Eu estava ali do lado ouvindo a conversa. A morta ainda veio outras vezes pedir perdão, mas ouviu minha mãe dizer que só quem perdoava era Deus. Ela não tinha condição de fazer aquilo. De outra vez, minha mãe relatou que ela veio em forma de uma grande cabeça com olhos esbulhados, tendo uma cabeleira ao melhor estilo black power, com escapas como adereços na juba.

 

Aquela mulher, quando viva, tinha muito cabelo mesmo. Mas era escorrido e não black power. Ela era mestiça, baixa e de porte magro. Talvez por isso que nós crescemos e ela nunca permitiu que usássemos os cabelos ao estilo dos garotos do Jackson 5. Os primos todos tinham as cabeleiras iguais a do Tony Tornado, mas nós sempre ficávamos com os cortes mais “conservadores”. Só depois dos dezoito anos começamos a usar, sobre intenso bombardeio dela. Claro, era ela mesma quem cortava nossos cabelos no estilo lata de sardinha… Como se pusesse uma lata de sardinha vazia e virada para baixo em cima de nossas cabeças, raspando tudo que estivesse fora do perímetro. Depois, só aparava o que ficara dentro da lata. Aquilo deixava os negros grilados, não tinha jeito. Se desobedecêssemos, teríamos que dar uma volta no quarteirão com o corte. Mas a negrada queria ser estilosa. Sabe como é, né?

Talvez por causa desses estilos todos, eu tenha perdido aquela percepção de enxergar a onda de energia, não sei. Na mesma noite que ela viu a cabeça flutuando sobre a parede e pedindo perdão, ela contou que estava sozinha enquanto Dona Antônia dormia um sono profundo. Mas ela não estava sozinha por falta de companhia de gente visível. Seus protetores espirituais, por algum motivo, não estavam presentes. Então ela começou a rezar em silêncio enquanto entrava alguém na casa que, com grande força, manda a cabeça fantasma ir embora. Depois ficou ali, protegendo-a até amanhecer o dia. Ela me disse o nome da entidade, mas vou manter em segredo. A intimidade não é tanta assim, mas “elx” foi de grande ajuda. Passei a dormir mais tranquilo. Minha mãe afirmou que “elx” estava passando na rua, quando ouviu sua prece e veio em socorro, mas não fazia parte das entidades que normalmente ficavam com ela. Por isso, é sempre bom dar uma rezada de vez em quando.

A fama dela ampliou. Ela deu uma valorizada e começou a rezar no povo, igual ao moço da margem da rodovia, só que do jeito dela. Certamente, isso causou muita chateação no meu pai. Ele não queria aquilo. A casa não tinha virado um terreiro de Umbanda, mas tinha deixado de ser uma casa comum. Ao menos numa determinada hora do dia, quando eles começavam a chegar querendo um alívio. Por volta das seis e meia da tarde, mais ou menos, parecia a casa do Chico Xavier em tempos de psicografia. Minha mãe não cobrava para fazer a reza, mas as pessoas levavam coisas para ela. Eram presentes em forma de roupa, galinha, porco, frutas, grãos…

Uma vez passou um fotógrafo pela vizinhança, indo lá em casa perguntar se ela não queria tirar uma foto. Ela topou, pôs a indumentária e o fotógrafo começou a tirar várias fotos. Minha mãe já era tratada como “madrinha” por aqueles que vinham lhe pedir uma reza e por seus ajudantes. Tudo acontecia na sala em frente, em um altar cheio de quadros e estátuas de santos brancos. Apenas o Preto Velho e a padroeira do Brasil, como negros. Havia Yemanjá, mas era a pintura de uma mulher branca, mesmo que se saiba que essas entidades são de origens negras. Como na justiça nacional, tínhamos uma representatividade mínima dos Black Brothers naquele altar. Uma representação perfeita da distribuição de poder na sociedade brasileira.

Quando o fotógrafo veio mostrar as fotos foi aquele alvoroço. Dos quatro médiuns que estavam na frente do altar, havia uma grande faixa de energia cobrindo um dos lados do corpo de minha mãe, e de dois médiuns também, só que em menor escala em um e menor ainda no outro. Aquilo foi uma coisa, até meu pai que não entendia muito bem aquilo pediu para ver a foto e ficou admirado. Às vezes, eu ficava olhando por muito tempo para aquela foto e aqueles feixes de luz sobre eles.

 

Hoje ela está com 86 anos, e meu pai faleceu em 2016, no mesmo mês que eu publiquei o último número de uma de minhas HQs. Ela sofreu um AVC em 2017, mas não ficou com sequelas. Sempre recebe a visita de meu pai, que era um mulherengo, como quase todo policial. Ele vem lhe pedir desculpas e reafirma sempre que ela não teve culpa de nada. Ele deve se referir à sua morte, porque ele foi embora de casa em 92 e não voltou mais. Só quando já estava muito doente, meus irmãos foram buscá-lo de onde estava e o milico morreu perto da família. Foi tenso!

Então ele fala isso quando a vem visitar, que ela não teve culpa, que foi ele que teve. Se é verdade o que ela diz? Sim, outro dia, estava no trabalho, digitando algo e, de repente, deu-me uma vontade de cantar uma marcha de carnaval que ele sempre cantava quando estava embriagado. Era muito divertido ouvir ele cantando a marchinha com a voz pastosa pela bebida. E comecei a cantar quase que no automático aquela composição do Braguinha:

Vai
Com jeito vai
Senão um dia
A casa cai
Menina
Vai
Com jeito vai
Senão um dia
A casa cai
Se alguém
Te convidar
Pra tomar banho
Em Paquetá
Pra piquenique na Barra da Tijuca
Ou pra fazer um programa no Joá
Menina…

Os pelos do meu braço direito levantaram. Quase como o “sentido de aranha” do Peter Parker. Sabia que ele estava ao meu lado. Fiquei feliz por ele ter vindo me visitar. Nós somos energia e energia não desaparece. Todos nós, sem distinção, acreditando ou não, ateu ou crente, somos médiuns ou canais. A questão é que nem todos desenvolvem essa aptidão, por motivos diversos ou apenas por pura falta de sintonia com a energia primordial.

Não é a crença na existência ou não de Deus que fará a diferença, mas o bem que se faz as pessoas. Pois, na verdade, Deus não é o nome e sim a ação de fazer o bem.

Desculpem-me pela “evangelização”, rsrs!

Isso não é sobre religião, mas sobre benevolência (lembrei do Cabo Daciolo agora). Tenho muitos amigos ateus que ganham de 10 a 0 dos ditos religiosos, no quesito amar ao próximo. E essas pessoas são boas porque querem ir para o céu dos ateus? Não! Apenas porque é o certo a fazer: Ter respeito e tratar o outro com dignidade.

Ao citar ciência e fatos sobrenaturais, dá a impressão que coloco na mesma vasilha coisas diferentes. Talvez, do ponto de vista de um paradigma acadêmico, eu sinto que deva apresentar algo sobre ambos os lados – científico e empírico. A questão da Mecânica Quântica está relacionada ao lado acadêmico, científico, e a questão relacionada ao espiritualismo – no caso as visões de minha mãe e as minhas –, à busca do Eu interior. Cresci dentro do sincretismo percebido entre a igreja Católica e as religiões de matrizes africanas, e cada relação aconteceu em tempos diferentes. Na adolescência passei a frequentar o catolicismo por causa da escola, e minha mãe também ia à missa sempre que podia.

Inclusive, quando minha irmã nasceu (a única mulher dentre os 7 filhos) teve um impasse na hora do batismo. Minha mãe escolheu o nome Iemanjá para ela, e o padre não quis batizar. Aí a coisa ficou amarrada na frente do altar. Minha mãe não é de falar muito, mas é uma mulher decidida. “– O nome é esse, padre! Isso já está resolvido!” E esses padres de cidade pequena, lá dos meados dos anos setenta, pensavam que eram autoridades. Ele botou o pé na parede e ficaram lá. Todo mundo em pé, inclusive a penca de santos brancos, todos acompanhando aquele conflito paroquial. E, daquela vez, no altar não tinha sequer um santo preto; eram todos clarinhos. Aliás, com um grau de pompa e circunstância bem acima em relação ao altar da minha mãe.

Passou um tempo, o padre viu que não teria jeito, e veio com uma solução: “– Então vamos por o nome da criança de Iamanjá!” Percebam, “I-a-manjá”. Os padrinhos e minha mãe entraram num acordo e toparam. O padre argumentou que o nome era muito forte para a criança, e por isso ele sugeriu aquela pequena mudança. Minha mãe disse que “ELES”, lembram? Eles deram uma rodopiada no padre, e por isso a coisa andou. Mas como meus irmãos tinham a mania de por apelidos meigos uns nos outros, ela ficou com “IA”. Na adolescência mudou para “Nega IA”. Só as professoras e professores que a chamavam de Iamanjá, até acostumar, e depois seguiram com IA. Mas o padre tinha razão, o nome é muito forte mesmo. Ela adquiriu uma personalidade muito forte. Essa negra enfrenta as adversidades rindo. Faz o que dá na telha, na boa.

Mas, voltando à Mecânica Quântica, quando comecei a pesquisar cerca de dois anos atrás, conheci uma pessoa chamada Hélio Couto, um estudioso desse assunto e que tem muitos vídeos em seu site. Passei a assistir seus vídeos e, em um deles, ele fala sobre os médiuns e diz que as religiões são necessárias devida a compreensão de cada indivíduo. E que os médiuns são físicos empíricos, pois movimentam as mesmas forças produzidas pelos os experimentos da física quântica, só que na tentativa do acerto e erro.

Tudo na vida é energia. Nós somos feitos de energia, ou melhor, ONDA. O fato é que, depois dos livros e autores que ele indicou para ler, eu passei a entender melhor a mim mesmo. Muitas coisas passaram a fazer sentido. E a partir desses estudos, passei a observar melhor o mundo ao meu redor. No texto anterior mencionado – “O Saco de Pedras” –, comentei que não tinha uma explicação para o sumiço do saco com as pedrinhas que estava comigo. Mas, depois dos estudos, revisitei aquele momento para entendê-lo melhor.

Se tudo é energia, vamos voltar lá no átomo e nas partículas que falei acima. O átomo do fogo move-se numa frequência muito rápida e, por isso, dá a sensação de calor. Já a água tem seus átomos vibrando numa frequência muito baixa, em baixíssima velocidade, dando a sensação de frio e, quando mais lenta, na forma de gelo. Dessa forma, a onda que se move em alta frequência, quando reduz a velocidade, o que surge? A massa, ou seja, as coisas. Indo por esse pressuposto, a mesa, parede, nós todos e tudo somos energia congelada, assim como a água que se torna gelo e fica sólida. Pensem em duas situações do átomo, o fogo e a nossa pele se aproximando um do outro. Os átomos da nossa pele congelada, ou vibrando em baixíssima frequência e o fogo numa frequência altamente frenética, o que vai acontecer é que os átomos da nossa pele vão começar a vibrar ao aproximar do fogo, como a água na chaleira, então o cérebro vai perceber que algo está acontecendo e vai acusar dor, por causa da mudança naquele local.

No ano de 1890, no auge das investigações promovidas pelo Espiritismo de Alan Kardec, uma médium britânica chamada Elisabeth D’Espérance, durante experimento investigativo, desmaterializou-se e foi agarrada por alguém, obtendo por causa do gesto externo inúmeras queimaduras pelo corpo.

Não caberia a pergunta sobre essa questão de alta frequência no estado da médium, saindo de um estado de “congelamento” para um de altíssima vibração, ou ainda saindo da nossa dimensão, onde a frequência é uma indo para uma dimensão mais acima, onde a frequência é outra, mais rápida? Não seria por isso que sumiria das nossas vistas, como aconteceu com o saco de pedras que eu carregava? E quanto aos espíritos que minha mãe enxergava ou que eu via, não seriam seres de uma outra dimensão, numa outra frequência? Aquilo que damos o nome de espíritos?!

Quando menino eu fechava os olhos e via algo diferente de quando com os olhos abertos. Quando fechados, via uma grande onda de energia cobrindo todos os lugares. Era como os chuviscos de uma televisão analógica fora do ar. Mas apesar de ver aquela onda de energia, minhas mãos sentiam as coisas reais, ou seja, a parede, a rede onde estava sentado, o chão. Por que não mergulhava completamente naquela onda? Porque já havia criado meu mundo e meu consciente congelou nele, fazendo com que vibrasse na mesma frequência das coisas as quais vejo. Por isso eu as vejo e as toco, porque estou sintonizado com elas.

E por que médiuns como a minha mãe e a Dona Antônia veem seres em outras frequências? Porque são canais abertos com a energia primordial. Para esse fim, essas pessoas de forma empírica conseguiram desenvolver a técnica ou adquiriram com ensinamentos sensoriais. Sabem essas histórias que pessoas contam de viagem ao mundo astral? Ela faz isso, descola-se ou deixa o corpo físico, o que dá a impressão de estar dormindo ou meditando. Meu irmão mais velho, que tinha o apelido de MA (vide o texto “Depois da Seis”), passou uma temporada no Acre e um dia se assustou ao ver a mãe, ficou preocupado, achando que ela tinha morrido. Ligou imediatamente para o Maranhão querendo saber alguma notícia. Quando ele relatou o acontecido, ela disse calmamente: “– Deixa de ser besta, menino, fui aí te ver!” Como ele já conhecia o contexto, sacou a parada.

Então, gente, todos esses fenômenos que eu citei, o empirismo dos médiuns, os experimentos da física quântica, não se enganem, são a mesma coisa. Apenas estão em contextos diferentes. Seres multi-dimensionais ajudando esta dimensão, todos os recursos que temos aqui, celular, automóveis, computadores, toda essa tecnologia, é fruto sim de trabalho e pesquisa do pessoal daqui, mas será só isso? Não tem um empurrãozinho, uma inspiração não?

A questão é que vem para cá pessoas prontas para auxiliar, e pessoas ainda com baixíssimo grau de evolução, vibrando numa frequência muito limitada. Pessoas dessa natureza preocupam-se mais com o materialismo do que com o bem comum. Veja o exemplo do inventor Nikola Tesla: Queria energia livre e de graça para o mundo; seus concorrentes, não. Se ele fosse vivo, iria chamá-lo para criar um experimento para saber onde foi parar o meu saco de pedras e como ele sumiu. Talvez descobríssemos o tele-transporte, e aí?

Outro exemplo bem próximo é: O Duplo Expresso quer oferecer informações sem ruídos e de graça, para que nós possamos transformar em conhecimento a partir de nossas experiências pessoais. Já a Globo, ela não quer oferecer fatos ou informações. É a não-informação que ela tem e precisa pagar para que possamos seguir desinformados.

Outro dia, estava indo para o trabalho de ônibus e, como estava fazendo muito calor, ficava cochilando. Numa das cochiladas, ouvi uma voz que parecia estar em todo o lugar, e que falou assim: “– O que você tem a dizer para a mulher do seu genro?” Abri os olhos rapidamente. Foi questão de milésimos. Uma cochilada rápida, puxei a corda, o ônibus parou, desci e pensei: A mulher do meu genro é a minha filha! Quando terminou o expediente, voltei para casa e perguntei para minha esposa sobre a nossa filha. Ela estava justamente lá na casa dela. Fui lá rapidinho saber como estavam. O casal tinha brigado e mal se falavam dentro de casa. Conversei um tempo com eles aquele dia, mas acabaram se separando depois de um mês.

Apesar de todos esses acontecimentos que contei, de experiências sensoriais mediúnicas, afirmo que sou muito diferente de minha mãe. Meu caminho é outro; minha busca é outra. Mas ela ajudou-me a fazer esse caminho. A compreender essa realidade. Involuntariamente, e com ensinamentos importantes, meu caminho não é de ser um médium. Entendo isso de outra forma: Penso que a religião foi uma forma de ensinamento que deveria ficar no passado, e já deveríamos ter obtido algo menos prosaico da ciência que agulhas nos furando em quase todos procedimentos médicos.

Mesmo com os estudos incríveis da Mecânica Quântica, os homens insistem em enxergar apenas com os olhos da cara e do lado da ciência. Os físicos tradicionais não quiseram ultrapassar o limite da partícula e ficaram apenas com as descobertas dos fenômenos físicos do átomo, deixando essa lacuna em aberto. Apesar de alguns físicos, teorias e experimentos sobre a Mecânica Quântica, ainda existe um grande preconceito a respeito do tema e uma guerra de egos entre a ciência e a religião que se eterniza. Isso acontece porque a terra é pensada dentro do paradigma físico, palpável, da partícula, e não sobre um paradigma da frequência, da onda.

Vemos o mundo com apenas os olhos de um São Tomé, e não com todos os sentidos que temos à disposição nesse corpo muito mal explorado sensorialmente. As pessoas não entenderam ainda que o corpo é a partícula e a onda é o que chamamos de espírito, ou o ser etéreo vibracional, acoplado ao corpo. Quando no filme The Matrix questionam se a colher não existe, estão dizendo isso. Que devemos pensar como onda e não como massa. Porque a massa não existe. Nós a colapsamos como no experimento da Dupla Fenda, onde o observador interfere na passagem como partícula ou como onda. Ainda tem outra cena muito interessante, no filme, quando Morpheus oferece as pílulas vermelha em uma palma da mão e a azul na outra para o protagonista Neo escolher. Aquilo representa a onda e a partícula. Com a vermelha, Neo desperta do cativeiro e percebe que o mundo não é aquele que sempre experimentara. Com a pílula azul, Neo vai continuar no mundo criado para ele, pela Matrix. Mais à frente, Neo deseja voltar, mas é tarde. Ele já conhece a verdade, não pode voltar para uma ilusão.

Por que citei um filme de ficção?

Porque a verdade não está só na ciência. Essas pessoas surgem em vários locais diferentes para ajudar na evolução da humanidade. Assim como nascem aqui cientistas como um Tesla, um Einstein, surgem cineastas também. Alguns usam a linguagem cinematográfica para despertar a curiosidade e a atenção das pessoas. Hás produtores que não são totalmente materialistas, mesmo que não totalmente isentos dado o capital investido deste paradigma vigente, que busca apenas o entretenimento e o lucro, ainda passam um mel na obra para enganar e poder acordar as pessoas sem chatear os investidores.

Algo semelhante acontece na religião. Todas as religiões do mundo são uma mesma coisa. Uma unidade. Mas, devido aos contextos locais, tem-se essas alterações de conceitos. Veja a grande semelhança entre a mitologia grega e a mitologia dos Orixás, das religiões de matrizes africanas e as entidades que permeiam ambas. Tudo guarda uma certa semelhança, com diferença apenas no contexto social. Porque aí, cada uma agregará os valores das experiências naturais de cada povo.

Na questão das entidades espirituais, que para mim são seres ou pessoas que vibram em outra frequência e de uma dimensão, diferente desta, elas interferem aqui para compartilhar conhecimentos e ajudar. Aí vou afirmar que todas as religiões são a mesma coisa, mas com viéses diferentes. No Candomblé, ou na Umbanda, o ser evoluído de uma outra realidade (ou o ser de luz) surge canalizado como um Preto Velho, Iemanjá, caboclos, guias, ou o que pedir o momento. No Catolicismo, tem-se a questão dos santos, Espírito Santo, como a aparição de Fátima, em Portugal. No Protestantismo (ou religiões pentecostais), temos essa ideia de Espírito Santo, anjos, falar em línguas. O ser que puder vir aqui nessa dimensão e não ser visto, por causa da frequência do seu corpo, vai dialogar da forma que os indivíduos suportariam compreender.

Voltando ao saco de pedras, que sumiu do meu lado, imagino isso como uma manifestação de comunicação, não para o garoto, mas para o adulto de hoje. Uma espécie de orientação antecipada, como as pílulas do Morpheus. Inconscientemente escolhi a azul, e voltei para a minha zona de conforto. Contudo, não precisei fazer a experiência da Dupla Fenda. Ela já estava em mim, quando fechava os olhos e via a onda. E depois, concretizou-se quando o saco de pedras sumiu. Despertei muito cedo para essas questões, e tenho uma impressão muito forte sobre isso para que não se mergulhe profundamente nos dogmas das religiões, sejam elas quais forem.

Não estou aqui para ser um Pai de Santo, um Pastor ou um Padre – com todo respeito a esses. No meu caminho tem algo diferente. De qualquer forma, escolhi a arte para me esconder e me entender. Se deseja conhecer-te, olha para dentro de ti. Busca a tua energia interior, pois o que somos nós, senão átomos, energia? Energia congelada, mas energia, vibrando de acordo com esta dimensão e com o seu entendimento da realidade.

Só para finalizar, somos partículas e onda ao mesmo tempo, e para escrever este texto, usei hora a partícula, massa e hora onda, energia. O que é a massa? Energia em baixa frequência, onda? Energia em alta frequência, podemos ser as duas coisas e entendermos melhor esta existência, independente do nome que se deseje dar ao fenômeno – religião ou ciência –, tudo no fim é ONDA. Procure a onda.

Coloquei minhas experiências no texto, não para me exibir, mas porque houve uma mudança em mim e é muito interessante partilhar com outras pessoas. Peço perdão se tiver causado uma impressão errada. Também não é motivo de orgulho ver ou ouvir certas coisas, e sim uma responsabilidade. Vocês sabem…”com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. Na próxima, falo o que aconteceu comigo depois da Ressonância Harmônica. Vous voi!

 


* Geuvar Oliveira é maranhense de Imperatriz, mas mora em Palmas – TO. Funcionário público, cartunista, quadrinista, escritor. Tem várias obras publicadas, entre as mais conhecidas estão: Mugambi (da qual está produzindo o último capítulo), Liga do Cerrado e Viagem ao Centro da Gramática. Formado em Letras e Arte Cênica, trabalhou em alguns jornais impressos do Tocantins como cartunista. Atualmente, publica suas charges nas redes sociais e aqui na Caixa de Pandora do Duplo Expresso, porque os jornais têm medo de fazê-lo.

 

 

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