Brasil: a pior elite do mundo tem a ‘esquerda’ que pediu a Deus

Por Romulus Maya, para o Duplo Expresso

Na semana que passou, Wellington Calasans e eu nos questionamos seguidamente no programa Duplo Expresso sobre o papel que a (suposta) esquerda desempenhará na farsa marcada para outubro. Resultado já contratado, com Geraldo Alckmin “legitimado pelas urnas” – via fraude(s)  – para extinguir o Estado brasileiro enquanto ente soberano.

Vendo todas as engrenagens seguirem girando conforme o curso há muito traçado pelo Golpe (transnacional), muitas vezes não conseguimos nos segurar. E por isso, nos últimos dias, seguimos o lema do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães e demos nomes a alguns bois a mais neste vasto pasto. Esse que, em vez de alimentar, consome-nos a todos na atual quadra histórico-política.

Não buscamos o aplauso fácil, nesta era transfigurado em “curtidas” e “compartilhamentos” sob a hashtag #Lacrou!

Não…

Sem medo de cara feia, dada a gravidade da hora, ousamos criticar a adesão de um partido de trabalhadores à onda global de precarização do trabalho, com a criação pelo mesmo de nova modalidade de terceirização: a da greve de fome (!)


Animados pelo depoimento de uma monja nesta semana, editamos vídeo irrefutável contendo, além do mesmo, as palavras de Gleisi Hoffmann, João Pedro Stédile e de Lula. Prova, de forma definitiva, a existência de um círculo de traidores dentro do PT. No qual brilha, quase sem rival, o laranja podre do partido, José Eduardo Martins Cardozo.

Por fim, abordamos a promiscuidade entre golpistas e goleados na Corte brasiliense. Promiscuidade que desmoraliza, de forma contundente, a narrativa de que “foi Golpe”.

Mais do que isso, ao final da semana acabamos por nos perguntar se todos esses elementos – terceirização da luta; traição; e promiscuidade entre golpistas e “golpeados” – e ainda outros de igual calibre, como o caráter suprapartidário da máfia que frauda votações no Brasil, não constituem justamente aquilo que já nos permite antever o papel que essa mesma “esquerda” anseia desempenhar na grande fraude de 2018.

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Seguem dois condensados de emissões do Duplo Expresso desta semana. Batizados volumes (1) e (2) de “Brasil: a pior elite do mundo tem a ‘esquerda’ que pediu a Deus”, em referência a artigo que publicara em 2016 (parece que foi ontem…). Justamente aquele que prometi no programa republicar. Promessa aqui cumprida.

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Vol. (1)

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Vol. (2) 

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BRASIL: A PIOR ELITE (?) DO MUNDO. E FILHA DA SEGUNDA PIOR
(originalmente publicado em 26/nov/2016
OBS: notarão alguma diferença estilística. Fazia bem menos concessões às convenções então)
 

(1) Obrigado, golpistas! Ou: a (falta de) justiça distributiva no Brasil

 
Crise aguda é tempo para reflexão profunda. Serena e ponderada. Se os golpistas trouxeram algo bom foi justamente nos fazer pensar em como chegamos aqui e como sairemos do atoleiro.

Suscitado por debates nos comentários ao post “Xadrez do dia do pesadelo” (dia da votação do impeahcment na Câmara de E. Cunha), de Luis Nassif, alinhavei as linhas abaixo. Elas resumem um pouco do meu entendimento sobre (a falta de) justiça distributiva no Brasil. E que consequências (daninhas) ela nos lega.
 
À reflexão, pois:
 
A pesada herança escravocrata – vejam entrevista do Prof. Alencastro ao Nassif no Brasilianas – deixa ainda suas marcas. Como diz o professor, em nenhuma sociedade desde a Roma antiga a escravidão era a mão-de-obra predominante como o era no Brasil-Colônia/pós-Independência.

 

 
Heranças malditas por ela deixada: banalização da violência e do valor da vida (pelas punições corporais aos escravos), racismo e “classismo” (será um neologismo?) – que defino como o preconceito de classe mais tacanho e míope, que não consegue ver dinâmicas de interação entre as classes da modalidade ganha-ganha, mas apenas ganha-perde, resultando em apego exagerado a qualquer privilégio e reação violenta a qualquer tentativa de mudança na pirâmide social, por mais débil que seja.
 
Esses elementos “deveriam estar” apenas na cabeça dos “1%” – os reais beneficiários do status quo. Mas quem dá peso político a essas patologias é não outra que a classe média tradicional. Os membros dessa classe média se apegam aos “querequequés” que caem para si de cima da mesa do banquete do “1%”. E aferram-se a eles para se diferenciar do “povão” (p.e., nível superior, maior poder de consumo, emprego bom, emprego no funcionalismo, plano de saúde, escola particular, viagem para fora…).
 
São os campeões da (falsa) meritocracia: veem como justíssimo terem seu lugar ao sol, pois “chegaram na frente”. Só não levam em conta que deram a largada 1 minuto antes dos que ficam embaixo.
 
Contra isso – valores profundamente arraigados –  apenas anos e anos (e mais anos…) de políticas públicas voltadas para a reparação e o avanço social (políticas distributivas e ações afirmativas). E  – por que não dizer? – a morte de quem pensa dessa maneira pelo passar do tempo e a “passagem do bastão” entre as gerações. Com a substituição dos velhos “senhores” por filhos e netos – oxalá não contaminados na infância e no aprendizado com os pais por esses preconceitos daninhos.
 
Infelizmente, quanto a essa mudança de pensamento da classe dominante e da classe média tradicional, sou bastante cético. Creio que é coisa para longuíssimo prazo.
 
Voltando ao aspecto míope dessa visão, permito-me repetir um chavão: o pobre não é problema. O pobre é solução. Porque é justamente a avareza da classe média e do “1%” – em sua prática pessoal mas principalmente em seu controle político sobre a repartição do orçamento do Estado – que trava o desenvolvimento mais célere do Brasil.
 
A marginalização – antiga e mantida! – de um enorme contingente da população é que impede a consolidação de um grande mercado de massas, requisito fundamental para um capitalismo moderno e sofisticado. Sem consumo não há investimento.







<<Sem escala no consumo, não há escala no investimento. Perde-se, assim, em spill-overs (respingos) positivos, externalidades, sinergias e inovação, que beneficiariam toda a sociedade, porque falta escala nos investimentos a permitir esses requisitos do grande salto>>
 
O maior bem de um pais é o seu povo. E a maior “sorte” de um país é ter uma elite com um projeto nacional e com visão estratégica e de longo prazo. Não é generosidade não… é esperteza. Da mais pura e simples, pois os ganhos de escala beneficiam o próprio “1%” e a classe média tradicional.
 
Infelizmente para nós é esperteza mais sofisticada que a infame “lei de Gerson”, pelo Brasil tão difundida, pois requer inteligência para enxergar bem adiante – e não apenas o custo do aumento do salário da empregada doméstica por agora a lei trabalhista protegê-la…
 
Nem preciso dizer se acho que o Brasil deu essa sorte quanto a elite que tem, não é mesmo?
 
Pensemos num ponto positivo: a passagem do tempo é inexorável. Basta hoje plantarmos as sementes e cuidar para que se desenvolvam bem. Um dia, oxalá, chegaremos lá.
 
P.S.: Agradeço aos golpistas. A crise em que meteram o nosso país faz com que todos nós busquemos saídas. Sempre pensei o que vai acima. Talvez não antes tenha sentido necessidade de escrevê-lo e compartilhá-lo com pessoas que não as do meu entorno. Por isso, obrigado a ambos os conspiradores!
 
 
* Texto originalmente publicado em 17 de abril de 2016, dia da votação do impeachment na Câmara de Eduardo Cunha.
 
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“Ordem” e “caos”
 
É texto do início do meu blog, quando ainda não tinha “soltado a cabeça” e, portanto, não era ainda “caótico” na escrita (rs).
 
Como já disse num post, poderia seguir fazendo “esse” texto. Fiz isso a vida inteira: na escola, no vestibular – nota máxima em redação!, na faculdade, nos escritórios de advocacia e nas pós-graduações.
 
Sim, ~ poderia ~ fazer esse texto, tradicional. Mas não vou!
 
Não vejo a mesma graça que vejo no “caos”. Sei que isso torna a leitura mais difícil e reduz o número de leitores potenciais.
 
Não se pode ter tudo, não é mesmo?
 
Se serve de consolo, os leitores que ficam são um baita regalo!
 
Os melhores do mundo!
 




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– Acréscimo de hoje ao texto “certinho” de abril:



(2) A pior elite do mundo
Ou: um pouquinho de “caos”! (rs)

 
No texto acima, não “caótico”, perguntei:
 
Nem preciso dizer se acho que o Brasil deu essa sorte quanto a elite que tem, não é mesmo?
 
Não preciso, mas mesmo assim o digo:
 
Não deu nenhuma!
 
A elite brasileira é a pior do mundo, pois que filha da segunda pior do mundo – de quem, filha ingrata!, tirou o título: a elite portuguesa.
 
A bem da verdade, a elite portuguesa é, em realidade a ~ não ~ elite. É formada – e a brasileira por tabela – pelos descendentes dos “primos pobres” da verdadeira elite portuguesa.
 
E o que aconteceu à “verdadeira” elite?
 
Ora, como aprendemos na escola, foi literalmente dizimada na Batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, na luta pelo “Algarve d’além-mar”.



“Algarve d’além”
 




Alcácer-quibir – 1578
 
 
 
Eita!
 
Que frase ~ lapidar ~ (no sentido figurado, mas também no concreto) de Camões, o bardo dos lusíadas – e também d’ “Os Lusíadas” – hein??
 
Vale a pena ~ ler ~ de novo:
 
<<enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de ~ morrer ~ nela, mas ~ com ~ ela>>
 
Com a crise sucessória que se seguiu ao desaparecimento de Dom Sebastião – “ahhhh! Que falta faz! (?) Quando voltas, Senhor, para nossa salvação?” (?) – também aprendemos na escola que adveio a União Ibérica, sob Felipe II de Espanha.
 
E quem é que sobrou em Portugal?
 
Como disse, os “primos pobres” da verdadeira elite.
 
Aqueles que não davam para nada na família, sabe…
 
E que de repente, pelo “imponderável” (inshallah!), herdaram os bens dos que se foram e, grosso modo, um país.
 
Agora me diga:
 
– Se você fosse o diabo do “primo pobre”, que não entende nada dos negócios legados por aquele tio distante, que morreu com todos os filhos lá longe, o que você faria?
 
Ora, o mesmo que o Paulo Skaff, da FIESP fez (!):
 
– Em vez de produzir, alugar os “galpões” da família!
 
Não é verdade?
 
Pois imaginem um país inteiro fazendo isso, meu Deus!
 
Vivendo não da ~ manufatura ~, mas do ~ comércio ~ daquilo que outros manufaturam para si?
 
E não falo de “comércio” à toa não…
 
Notem a “coincidência”:
 
20 anos depois de se libertarem do jugo espanhol, os “primos pobres” desistiram de vez…
 
Jogaram a toalha!
 
Assinaram um tratado de livre comércio com a…
 
– … Inglaterra!
 
Justo a Inglaterra!
 
Aquela que estava ali, na antessala da Revolução Industrial, naquele início de Séc. XVIII!
 
Trata-se do Tratado de Methuen, o célebre “Tratado de Panos e Vinhos”:
 
 
Já ouviram falar em “doença holandesa“?
 
(justo “holandesa”, vejam vocês!!)
 
A pessoa que escreveu o artigo acima, na Wikipedia (foi mal, gente… sábado de manhã é Wikipedia mesmo… rs), certamente não…
 
Diferentemente do que disse lá em cima do ~ pobre ~ para o Brasil…
 
– … o ouro era (parte do) “problema”!
 
Não era “solução”!
 
O sujeito do artigo aí de cima desconhecia esse fenômeno…
 
Mas o daqui de baixo não, olha:
 
 
 
Agora imagine você quando o tal do “recurso natural” explorado e exportado é…
 
– … dinheiro!
 
Isso mesmo: dinheiro!
 
Sim, porque ~ ouro ~ era – e é! – dinheiro.
 
Dinheiro ali…
 
Literalmente “brotando da terra”!
 
Diga-me, caro “primo pobre” hipotético:
 
– Para quê produzir o que quer que seja, meu Deus??
 
*
 

Brasil, meu Brasil brasileiro

 
Como desgraça pouca é bobagem, sendo Portugal um país ínfimo, os “primos pobres” e seus filhos resolveram fazer um…
 
– … “grande Portugal”, sabe…
 
Um pouco mais ao Sul, digamos…
 
 
 
 
 
Chico, a música é linda e pura lira... adoro! Mas você há de concordar comigo – e sei que concorda! (rs) – que os “filhos” dos “primos pobres” que ficaram por aqui foram uma péssima aquisição.
 
Estávamos muito melhor servidos com índios ~ canibais ~ …
 
Sem sombra de dúvida!
 
Ao menos o seu canibalismo tinha uma finalidade nobre dentro da sua cultura…
 
Pois mais vil que a modalidade de canibalismo que os “primos pobres” trouxeram para cá não há!
 
Socorrendo-me na MPB novamente, ouço a Clara Nunes contar (e cantar) um pouco dessa história (e História) de canibalismo vil:
 
 

 
 
A esse respeito:
 
 
O canto das três raças“, na voz de Clara Nunes. Ilustra tanto a “Guerra da História” (a atemporal “agonia [do] canto do trabalhador”), como algumas “batalhas” (o índio subjugado, o negro feito cativo e o grito – abafado – de liberdade dos inconfidentes):
 
Atenção à letra:
 
(i) Batalhas da Historia
 
Ninguém ouviu / um soluçar de dor / no canto do Brasil
 
Um lamento triste / sempre ecoou / desde que o índio guerreiro / foi pro cativeiro / e de lá cantou
 
Negro entoou / um canto de revolta pelos ares / no Quilombo dos Palmares / onde se refugiou
 
Fora a luta dos Inconfidentes / pela quebra das correntes / nada adiantou
 
Nota: “Inconfidentes”.
 
Que “inconfidentes”? Da Inconfidência ~ Mineira ~ (apenas), Clara?
 
Se sim, é liberdade poética.
 
Um movimento muito mais de tentativa frustrada de ruptura entre a elite colonial [olha aí: os tais dos “filhos” dos “primos pobres”!] e a metropolitana [os “primos pobres” originais!] do que, propriamente “quebra de correntes”.
 
Ou seja, emancipação popular.
 
Exemplo efetivo de luta por “quebra de correntes” – e justamente por essa razão menos presente no imaginário e na cultura brasileira (é de propósito!) – foi a Conjuração ~ Baiana ~, influenciada tanto pela Revolução Francesa quanto – Oh, escândalo! – pela Revolução Haitiana.
 
(ii) A grande “Guerra da História”
 
E de guerra em paz / de paz em guerra / todo o povo dessa terra / quando pode cantar / canta de dor
 
Da minha perspectiva temporal mais para batalhas de “gerações” – e grupos – diferentes do que propriamente “guerra, paz, paz e guerra”
 
E ecoa noite e dia / É ensurdecedor / Ai, mas que agonia / o canto do trabalhador
 
Esse canto que devia / ser um canto de alegria / soa apenas / como um soluçar de dor
 
Nota: mais liberdade poética.
 
E retórica.
 
Todos sabemos – e os sambas cantados pela talentosa e bela mulata Clara Nunes são exemplos eternizados disso – que, malgrado toda a espoliação de que é vítima há 5 séculos, o povo brasileiro – paradoxalmente ou justamente por causa disso? – canta é ~ alegria ~ e não dor.
 
“Também” ou até “principalmente”, não é mesmo?
 
Nada de fado: samba!
 
Hmmm…
 
E então, leitor marxista, diga-me: esse “canto de alegria” do pobre espoliado é (também)…
 
– … “opio do povo”?!
 
Droga que anestesia (um pouco) a dor das chibatadas que leva?
 
Se sim, então digo:
 
Viva esse “ópio”!
 
Viva Clara Nunes e o “canto das três raças” fundadoras do Brasil!
 
Canto depois enriquecido pelas tantas outras que chegaram à nossa terra.
 
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E termino o post amarrando todo o “caos” da segunda parte com a primeira.
 
Faço-o de maneira simples, com apenas dois gritos:
 
– Viva o ~ pobre ~ !
 
– Abaixo o ~ primo ~ pobre!
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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.