A lição do vírus contra o crescimento sem limites

Por Ana Paula Lemes de Souza.

O establishment estatal, econômico e científico não dará respostas válidas e suficientes.

de repente, a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta

— José Saramago

Em “Ensaio sobre a cegueira”, José Saramago apresenta uma doença invisível, não passível de cura e de diagnóstico, nomeada “cegueira branca”, que se alastra rapidamente e deixa todos cegos, com a exceção de uma mulher. Antes do espalhamento indiscriminado da doença, os primeiros foram isolados em quarentena, para o “bem da humanidade”.

A disseminação da cegueira e o confinamento dos corpos, agora desumanizados e excluídos da distribuição de bens e direitos, leva à disputa interminável por poder, abrigos e alimentos, despertando o instinto de sobrevivência, que se sobrepõe ao comunitarismo e à construção de redes possíveis de mútua ajuda e acolhimento, levando ao cenário de pânico geral e degradação do mundo em comum.

Como lembra um dos personagens do livro, experimenta-se o regresso à horda primitiva, com a diferença de que eles não eram mais “milhares de homens e mulheres numa natureza imensa e intacta, mas milhares de milhões num mundo descarnado e exaurido”. Há a troca da lógica de um mundo sem homens para homens sem mundo, aqui representando tanto a deterioração e putrefação geral das relações como a decomposição do mundo, no sentido físico e literal.

A cegueira e a podridão que amalgamaram o planeta somente poderiam alcançar algum fim pelo olhar singular da mulher do médico, a única que guardava as belezas e os horrores de poder enxergar, reacendendo balbuciante o comunitarismo, os vínculos de união e de afeto que as relações em um mundo egoísta e alienante destruiu. Mesmo entre os diferentes, antes colocados em guerra, a mulher lembra que “organizar-se já é começar a ter olhos”, afinal, é preciso aprender a compor com esse mundo esgarçado, reabitá-lo de outros modos, aprendendo a caminhar nas ruínas.

O ensaio de Saramago é uma metáfora sobre a alienação da vida em comunidade, própria do capitalismo, provocando a nossa perda da visão, não apenas objetiva e literal, mas também subjetiva.

É sobre o esquecimento das artes do afeto e do cuidado, essas que o egoísmo e a alienação da vida em comum tornaram ainda mais invisíveis, em tempos de capitalismo cognitivo, transformando as relações de trabalho e de modo de produção para aprofundamento da cegueira.

O COVID-19 se trata de um acontecimento que gera novas possibilidades de ligações e construções de futuros. O vírus, que tem provocado catástrofes ao longo de todo o planeta, parece, além de invisível aos nossos olhos, também surdo às nossas súplicas, dotado dessa estranheza pálida transcendental. Por outro lado, a pandemia, causada por esse vírus que nossos olhos sequer podem alcançar, assim como a mulher do médico no ensaio de Saramago, pode ascender as nossas potências da visão.

Além de reaprendermos a arte do cuidado — esse estrangeiro todo outro do capitalismo — é possível reativarmos novas formas peculiares de cooperação e de trabalho, pois, como lembra a única personagem que não é cega, “organizar-se já é começar a ter olhos”.

Em tempos de quarentena, quando os tempos devem ser renovados em outros brilhos e afetos, o COVID-19 faz milagres como brotar águas claras, cristalinas e repletas de vida nos canais de Veneza. Ele nos ensina que é tempo de parar! Mostra que é possível parar, de uma forma brutalmente anônima, para olharmos uns aos outros, para reaprendermos concretamente que a vida se faz nesses espaços pequenos, do gesto de afeto transformado em palavras digitais, da troca de olhares a uma distância segura, transbordantes de beleza e gratidão.

E é na falta do abraço concreto do outro, preenchido pelo olhar de brandura, que se mutila a dor, converte silêncios e invade o coração de possíveis. São nesses espaços que instauramos a ternura genuína, que não precisa do abraço para se instalar, e basta uma palavra de ternura para reinventar esperanças!

O COVID-19 nos ensina que, em tempos de fúria da Terra, é possível sermos contrapontos desse crescimento sem limites. Que é preciso pisar leve, tranquilo, sem grandes pegadas. No território dos corpos devastados pela pandemia, podemos resistir ao aprendizado doloroso: é preciso parar, é necessário parar, e talvez seja o último momento que temos para aprender com essa dor, embora dolorida, sempre professoral.

A sua intervenção se faz com certa brevidade, sem espaços para grandes reflexões. Ela exige ouvir para além dos ouvidos, ver para além dos olhos, esse aprendizado inconveniente. É preciso reconciliar com a Terra, saber ser Terra, restabelecendo, como nas águas de Veneza, verdades cristalinas, que nos convidam a lidar com essas situações incômodas e incertas, quando a vida vira surpresa ainda mais efêmera.

O COVID-19 pode ser esse professor inesperado que nos mostra, na prática, o quanto estamos terrivelmente despreparados para lidarmos com esse fim de mundo, essa catástrofe ambiental sem precedentes, que já deixa marcas de desastres pungentes. Se sobrevivermos a ele, talvez estejamos preparados para voltarmos a ver, para recobrarmos a visão.

Assim como a cegueira branca de Saramago se tornou uma epidemia, espalhando caos, é possível que desse mundo de morte e de dor reapareça alguma esperança de mundo, não sem cooperações exigentes, para que sejamos todos juntos, ao mesmo tempo em que todos separados.

Até quando assistiremos, quase sem ver, apáticos e cegos, a normalização dos absurdos? O mercado guarda consigo essa grandeza de Deus, colocando-se como porta-voz da grande Economia, cujo “E” maiúsculo indica uma mania de grandeza própria daqueles que se acham donos do mundo. Megalômano, ele quer transformar o futuro comum em novas oportunidades de lucro.

O establishment estatal, econômico e científico não dará respostas válidas e suficientes. Será o tempo de abandonarmos o sonho de um Estado protetor, que dará todas as respostas, para elaborarmos as nossas próprias questões inquietantes. A corrida mundial pela produção e comercialização de medicamentos eficazes contra o COVID-19, especialmente diante do cinismo dos EUA, que busca a compra exclusiva da vacina, exige reação.

Temos que aprender uns com os outros — e uns para os outros. Qual o antídoto e a dosagem? O COVID-19 é um acontecimento incômodo que faz aqueles que se dizem responsáveis tremer. Ele desloca o futuro para que vejamos o passado de um modo diferente, para que lembremos de outros sonhos, sonhados juntos em outros tempos. Ele não traz soluções fáceis e milagrosas e nos mostra que, tornado um aliado, em tempos de catástrofe social e ambiental, é possível reconectar, recobrar esperanças, para que que o futuro comum não seja transformado em mera fonte de lucro.

Hesitemos, mas jamais anestesiados. Com alguma surpresa, essa aliança inesperada pode ativar novas formas de resistir, pode brotar a inteligência coletiva que nos faça entender que, algumas vezes, assim como na cegueira branca, somente perdendo a visão é possível voltar a enxergar, e somente morrendo é possível reaprender a viver…

link original: https://www.cartacapital.com.br/opiniao/a-licao-do-virus-contra-o-crescimento-sem-limites/

 

Ana Paula Lemes de Souza

Pesquisadora, escritora, ensaísta, professora e advogada. Mestra em Direito pela Faculdade de Direito do Sul de Minas (FDSM).

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