Um guia prático nacionalista para o momento pós-eleitoral

Por Samuel Gomes, para o Duplo Expresso

O momento pós-eleitoral virou uma lavanderia. A melhor forma de autocrítica é andar para a frente em direção um objetivo definido, ainda que com o retrovisor sempre disponível. Lanterna na popa, mas olho na bússola. A bússola é o projeto nacional. Autocrítica para a ação é autocrítica na ação. Mãos em atividade construtiva mais que lábios ansiosos e estressados.

Não é que o passado não conte. Conta muito. As ações passadas são o critério legitimador da ação presente. A isso se dá o nome de coerência. Quem na campanha insinuou que Marcos Lisboa, do think tank (fábrica de ideias) neoliberal Insper (https://www.insper.edu.br/), daria um bom Ministro da Fazenda terá imensas dificuldades para criticar os arroubos ultraliberais, e criminosamente desumanos do financista Paulo Guedes entronizado por Bolsonaro no super-ministério da Economia.

Quem colocou Bendini e uma trupe de bruxos do mercado na Petrobras para “saneá-la” (governo Dilma) terá restrita legitimidade para criticar o provável aprofundamento da política de desmonte e destruição da nossa mais importante empresa estratégica na área de energia durante o governo Bolsonaro. Um dos membros da equipe de Bendini e igualmente colocado por Dilma, Ivan Monteiro, foi entronizado por Temer na presidência da companhia com a saída de Parente. Pedagógico. Agora, o guru econômico de Bolsonaro se apressa para colocar um chicago boy na presidência da Petrobras. Trata-se de Roberto Castello Branco.

O perfil dispensa comentários. Típico chicago boy. Era professor da FGV (ah! A FGV!), presidiu o IBMEC, think tank neoliberal, fundado por Guedes. E sabe o que fazer: atender “ao mercado” (as petroleiras internacionais estatais e privadas), desossando a Petrobras, desverticalizando-a, retalhando-a em pedaços que não se comunicam, repassando para os seus competidores fatias fundamentais de sua atuação, desintegrando-a. Vendendo as suas refinarias e com isso, reduzindo-a da condição de ativo estratégico do projeto nacional à reles exploradora de petróleo e vendedora de petróleo bruto (ou nem isso, porque os melhores campos estão sendo doados e continuariam a ser doados aos estrangeiros), quando em todo o mundo as empresas petrolíferas, de olho no futuro, estão sendo convertidas em empresas de energia, do que é exemplo a norueguesa Statoil.

O senhor Roberto Castello Branco sabe o que fazer. E por que sabe? Porque foi colocado no Conselho de Administração da Petrobras entre 2015 e 2016 (governo Dilma) para responder “ao mercado” quando Moro (o ex-juiz Viúva Porcina, que foi sem nunca ter sido) destruía a cadeia de petróleo e gás brasileira enquanto recebia prêmios, honrarias e alguma grana verde por palestras nos EUA.

Reconheçamos a exígua legitimidade política para criticar a eventual escolha de Bolsonaro por Castello Branco por parte de quem colocou o chicago boy no Conselho de Administração da Petrobras e disse na campanha que Moro fez “um bem para o país”, embora tenha “errado” no julgamento de Lula e vaticinando, como um invencível Doutor Pangloss, que “os tribunais superiores repararão o erro”.

O passado serve, neste sentido, como balizador da coerência entre a palavra (de oposição pós eleitoral) e a prática (no governo pretérito e no discurso eleitoral).

Mas o povo brasileiro não está interessado em lavagem de roupa suja. O povo está interessado em sobreviver. Por isso, mais útil e patriótico do que fazer uma improdutiva guerra de bugios as redes sociais é, desde já, acompanhar no detalhe, com relógio e lupa, os movimentos do proto-governo de Bolsonaro e sua simbiótica relação com o “governo” Temer, como mostra o esforço comum de ambos para destruir a previdência pública (ajuste fiscal) e internacionalizar definitivamente o sistema financeiro já antes da posse de Bolsonaro. Só assim cumpriremos o dever nacionalista e democrático de defender o povo brasileiro das medidas ultraliberais que aumentarão a dependência do Brasil aos interesses dos EUA e das corporações do capital financeiro internacional e sujeitam jogar o Brasil ao caos econômico e social.

Não cair em simplismos

Não se confunda simples com simplista. Simples é ciência e arte. O simples contem o complexo. Simples não é oposto de complexo, mas de complicado. Simplismo é ignorância descuidada, preguiçosa e arrogante.

A realidade é complexa o suficiente para não caber em fórmulas simplistas do tipo “os militares sempre estão errados”. Se um ou outro general resistir realmente ao entreguismo comandado pelo especulador Paulo Guedes, como agora no caso da Petrobras e da Embraer, não fazer coro com a imprensa venal, financiada pelo “mercado”, que critica a “fome de poder dos militares” será um ato inteligente.

Se um ou outro general recusar a ideia idiota de o Brasil violar a Constituição para ingerir-se em assuntos internos de outro país, como é o caso do general Augusto Heleno a respeito da Venezuela, não criticá-lo, mas apoiar a sua advertência, é uma atitude inteligente.

Anti-militarismo

O simplismo é filho da ignorância. O anti-militarismo raso que grassa entre nós não nasceu por geração espontânea. Foi introduzido na cultura política brasileira pelo aparato de propaganda ideológica estadunidense quando os militares já não serviam aos interesses norte-americanos patrocinados pelo golpe de 64.

Fiquemos num exemplo: o general Geisel. O presidente Geisel reorientou a política externa brasileira, que era de alinhamento automático com os EUA desde o golpe de 1964, passando a priorizar as relações com o terceiro-mundo, especialmente com a América Latina e África. Ele dizia que o Brasil tem vizinhos de aquém-mar (os latino-americanos) e de além-mar (os africanos). Reorientou a política externa e para isso contou com a expertise mundialmente respeitada do Itamaraty.

O reconhecimento da independência de Angola é um caso exemplar da competência da diplomacia brasileira. Quando Angola declarou independência de Portugal e se tornou uma república socialista, o primeiro país do mundo a reconhecer o novo Estado foi o Brasil, presidido pelo general Geisel. O reconhecimento foi dado no mesmo dia da proclamação da independência, 11 de novembro de 1975.

O reconhecimento de Angola não era um caso isolado, mas uma expressão concreta da orientação não-alinhada e terceiro-mundista de Geisel. No mesmo 11 de novembro, o delegado brasileiro nas Nações Unidas deu voto favorável à Resolução 3379/XXXX, que definia o sionismo como uma forma de racismo e discriminação racial, marcando ainda mais fortemente a autonomia da política externa brasileira em relação aos EUA. No mesmo ano de 1975, sob o comando de Geisel, o Brasil celebrou um acordo nuclear com a Alemanha. Em 1977, rompeu o acordo militar com os EUA. Lula, pela mão de Nelson Jobim, retomou o acordo com os EUA em 2010. Dilma aprofundou-o em 2015, incluindo proteção comum de segredos militares (!), em visita a Obama depois da Agência de Segurança Nacional estadunidense ter grampeado o seu telefone.

Os Estados Unidos passam a “defender os direitos humanos” no Brasil

Quando os militares já não serviam aos seus interesses estratégicos, os EUA passaram a preocupar-se “sinceramente” com a situação dos direitos humanos no Brasil. A forma como essa sincera e piedosa misericórdia se manifesta é conhecida. Grana, para começar.

Um exemplo sintomático e pedagógico é a doação de volumosos recursos, já em 1969, para o Cebrap, do “príncipe dos sociólogos”, Fernando Henrique, depois agraciado pelos norte-americanos com o Prêmio Kluge, o Nobel das ciências sociais. FHC diz que não lembra quanto foi doado, só lembra que foi muita grana. Sobre a doação, Peter Bell, o homem forte da Fundação Ford no Brasil à época disse recentemente: “Eu não consigo lembrar a quantia exata, mas eu realmente considero-a uma das verbas mais importantes e gratificantes concedidas durante minha atuação na fundação. O Cebrap não somente ajudou a manter Fernando Henrique e seus colegas produtivamente engajados no Brasil, como também se tornou um centro líder de pesquisa e análise social no Brasil e em toda a América Latina.”

A “solidariedade” dos EUA com a “sociedade civil” brasileira era expressão tupiniquim da ação do soft power estadunidense em todo o mundo durante a guerra fria. O “mecenato” gringo nas ciências, cultura e arte foi devidamente retratada no livro “Quem pagou a conta? A CIA na guerra fria da cultura” (Frances Stonor Saunders), que mostra como a CIA, convertida em verdadeiro Ministério da Cultura dos EUA, seduziu (e corrompeu) intelectuais e artistas de “esquerda” em todo o mundo ocidental para a defesa das teses norte-americanas. O cachê do Cebrap de FHC está retratado no livro. Teria sido algo entre 800 mil e 1 milhão de dólares, sem necessidade de prestar contas.

Para que não fique qualquer dúvida de que o apego aos direitos humanos pelos EUA sempre foi, e ainda é, tão seletivo como o peso da caneta justiceira do suposto juiz Sérgio Moro (a Viúva Porcina do Judiciário nativo) basta dizer que a tirania teocrática da Arábia Saudita é apoiada de todas as formas pelos norte-americanos. Que seja uma das piores tiranias do mundo “não vem ao caso”. Afinal, trata-se de uma tirania amiga dos EUA.

Ideologização da nossa política externa: o risco Bolsonaro

“ Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos. O Brasil deixará de estar apartado das nações mais desenvolvidas. Buscaremos relações bilaterais com países que possam agregar valor econômico e tecnológico aos produtos brasileiros. Recuperaremos o respeito internacional pelo nosso amado Brasil.” (Bolsonaro, no discurso, lido!, em seguida ao resultado da apuração das eleições, em 7 de outubro)

O general Presidente Geisel, com o Itamaraty comandado por Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro, não pautava a nossa política externa por imperativos ideológicos. Ao contrário, seguia corajosa e disciplinadamente os objetivos nacionais permanentes. Lula, com Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães à frente do Itamaraty, também não eram movidos por ideologia, mas pela busca da realização do projeto nacional brasileiro.

Perseguir os seus próprios objetivos é o que fazem todas as grandes nações. E o Brasil é uma grande nação. Há algum tempo, o general Villas-Bôas disse na Comissão de Relações Exteriores do Senado ao senador Requião, na minha presença, que o Brasil é grande demais para não ter projeto nacional autônomo. Um país pequeno pode acomodar-se confortavelmente à condição de satélite de uma nação maior e mais poderosa. Não é o nosso caso. Se não quisermos ser retalhados entre nações mais desenvolvidas econômica e militarmente ou ser humilhante e perigosamente incorporados aos Estados Unidos, como um quintal ou uma disponível Disneylândia agro-mineral, precisamos lutar pela realização do nosso projeto nacional. É isso o que importa. Tudo o mais é secundário.

Quando Bolsonaro anuncia que libertará o Itamaraty dos condicionantes ideológicos para desenvolver relações bilaterais, o que está dizendo é: (i) vamos abandonar os nossos vizinhos sul-americanos (únicos compradores dos nossos produtos manufaturados) e (ii) vamos atrelar o nosso destino aos sábios e iluminados desígnios dos EUA (que compete conosco na agricultura na Europa e China e não compra os nossos produtos industriais).

Os fundamentos éticos, econômicos e políticos da visão do Bolsonaro para a nossa política externa são terrivelmente claros:
a) Somos vira-latas. O que é bom para os EUA é bom para nós.
b) Conselho de Segurança da ONU não é para nós, vira-latas mestiços.
c) A nossa industrialização, base de um desenvolvimento autônomo, não será obra de um projeto nacional brasileiro – como foi o de todas as nações desenvolvidas (a começar pelos EUA com a lei das manufaturas de Hamilton), Alemanha, Japão, Coreia, China – , mas obra e graça da conhecida misericórdia estadunidense com a Nação brasileira.
d) Afinal, como dizem que creem entreguistas de todas as matizes, é parte do sonho norte-americano o surgimento na América do Sul uma potência regional que lidere a construção de um território de soberania, liberdade, desenvolvimento, paz e justiça social.
e) Os EUA não descansarão enquanto não realizarem esse sonho. Dois livros mostram bem a obsessão estadunidense em realizar esse sonho: “As veias abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano, e “Confissões de um assassino econômico”, do norte-americano John Perkins. ) Bolsonaro é mais nova arma norte-americana para realizar o seu sonho macabro. E o nosso pesadelo.
f) Bolsonaro quer libertar o Itamaraty da missão de construir as bases estratégicas do multilateralismo com as nações de características semelhantes às nossas (Russia, Índia, China e África do Sul), o que levou no horrível BRICS e no insuportável Banco dos BRICS, que objetiva financiar os projetos de desenvolvimento sem os condicionantes estabelecidos pelo Banco Mundial e FMI.
g) Bolsonaro quer também libertar o Itamaraty do dever histórico (e vital para a segurança das nossas fronteiras) de construir relações pacíficas, de cooperação e solidariedade, com os vizinhos da América do Sul, que resultou no Mercosul e na Unasul.
h) Bolsonaro não se guia por ideologia nas relações internacionais. Por isso, resolveu que o Brasil vai virar colônia diplomática do Estado de Israel. Como um trôpego Trump tropical quer transferir a embaixada do Brasil de Telaviv para Jerusalém, num ato desnecessário de violência simbólica contra os árabes. Talvez ficasse adequado nomear o Bispo Macedo como embaixador. Bolsonaro quer arrumar enfiar o Brasil numa briga nossa os povos árabes, colocando-nos numa confusão que não é nossa e desconsiderando a existência de uma populosa e antiga colônia árabe no Brasil. Tudo isso, porque Bolsonaro quer ideologia na política externa brasileira.
g) Se dependermos da inteligência estratégica de Bolsonaro, estamos próximos do paraíso da dependência total com os EUA e com o lobby sionista mundial. Sejam bem-vindos ao gigantesco Porto Rico tropical.

A missão de todo nacionalista hoje: estudar e agir, agir e estudar.

O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães tem dito que o Brasil sofre atualmente, dentre outras, das pragas da ignorância e do simplismo, este filho legítimo daquela. De fato. E, infelizmente, a ignorância não tem limites ideológicos. Atinge com igual força à direita e à esquerda. Mas a boa notícia é que o remédio é conhecido e comprovadamente eficaz: reflexão, pesquisa, trabalho árduo e perseverante na busca do conhecimento; numa palavra, estudo diurturno e corajoso da realidade.

Passadas as eleições e os seus subprodutos imbecilizadores da propaganda apressada como arma de manipulação eleitoral, é hora de pensarmos no Brasil com denodo, determinação, coragem, amor e patriotismo.

Brecht:

Nossos inimigos dizem: A luta terminou.
Mas nós dizemos: ela começou.

Nossos inimigos dizem: A verdade está liquidada.
Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda.

Nossos inimigos dizem: Mesmo que ainda se conheça a verdade
Ela não pode mais ser divulgada.
Mas nós a divulgamos.

É a véspera da batalha.
É a preparação de nossos quadros.
É o estudo do plano de luta.
É o dia antes da queda
De nossos inimigos.

Ajeitemos a mochila às costas e coloquemos esparadrapos nos dedos dos pés. A Grande Caminhada será longa. E começa com o primeiro passo, ensinou e provou Mao Tsé Tung. Para tanto proponho modestamente guia axiológico, uma bússola ética, um credo nacionalista, um “Decálogo Deontológico do Brasileiro em Tempos Sombrios”: https://duploexpresso.com/?p=100456

Samuel Gomes
Paraná, um estado de amor pelo Brasil (01/11/2018)

Referências:

Fala do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães no Duplo Expresso de 01/nov/2018 (começa em 50:50)

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/10/paulo-guedes-disputa-com-ala-militar-comando-da-petrobras.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0304200229.htm

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/5/14/brasil/26.html

http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/viewFile/2562/1521

 

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