Proposta política, marketing eleitoral e o Brasil pós-eleitoral

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Importantes reflexões para que o cidadão deixe de ser visto apenas como um eleitor/consumidor. Este é o resumo que posso fazer deste debate aqui proposto. Frases como “não é hora de debater a esquerda” ou “se é contra Haddad é a favor de Bolsonaro” são fascistas, pois excluem as possibilidades de uma necessária crítica às razões que nos levaram a este cenário de “sinuca de bico”.

Uma campanha política digna deve servir de ferramenta para que possamos discutir a possibilidade de construção de políticas públicas nas mais variadas vertentes, mas sobretudo na educação, saúde, bem-estar social, soberania popular, soberania nacional, democratização da comunicação social, etc. No atual momento de quebra democrática do Brasil estamos diante de um cenário artificialmente criado para legitimar uma das mais agressivas e desumanas políticas contra um país e o seu povo, respectivamente.

Quando falamos hoje sobre “proposta política” não devemos entender isso apenas como promessas teóricas e pouco plausíveis, mas sim na construção de uma perspectiva oposta ao desmonte à revelia dos cidadãos. Uma democracia impõe a observação e manutenção do respeito nas relações entre Estado e sociedade civil. Por isso, limitar o debate ao binômio “Civilização x Barbárie” é, nada mais que, a antecipação de um estado fascista, independentemente de quem seja o vencedor desta disputa superficial.

Ainda que nos anos de governo no PT tenham sido visíveis os avanços na inclusão social, devemos ser críticos ao tratarmos dos recuos, barreiras e obstáculos que foram criados, mantidos ou permitidos para que as mudanças de paradigmas nas políticas públicas, sobretudo na comunicação social e “estado policial”, fossem implementadas.

O fascismo que hoje é tão temido foi criado na falsa crença de que vivíamos uma democracia. A criação de leis contra a soberania popular e que priorizaram a punição completa este cenário preparatório à tragédia anunciada, mas que somente agora assusta. Os políticos foram acuados, o povo acreditou que isso era bom, pois sequer sabia que os reflexos disso seriam sentidos pelo próprio povo.

Estamos a ignorar os verdadeiros problemas. O debate eleitoral foi transformado em “guerra de torcidas”. Extrair uma leitura da disputa eleitoral, neste cenário, é um exercício difícil de ser feito. Mesmo assim, em nome do amor à democracia, vamos aos pontos mais importantes deste segundo turno, até a presente data.

Está cada vez mais claro que Bolsonaro não tem proposta para o povo e, por isso, foge dos debates. Neste segundo turno amplia a confusão na cabeça de uma sociedade despolitizada e sequestra a pauta que deveria ser da esquerda. Seguindo essa pauta/cartilha, com apoio dos militares, poderá ser uma espécie de “Maduro Fake”.

No entanto, longe do pensamento do venezuelano, no lugar de estar preocupado com o povo e numa luta contra o imperialismo, a meta de Bolsonaro é erradicar essa “esquerda fake” que confunde desenvolvimento econômico com poder se consumo, transformar o povo em escravo e facilitar a invasão dos EUA no Brasil.

Caso Bolsonaro chegue ao poder, orientado por estrategistas militares e apoio da máquina de propaganda desta imprensa que vive de sugar o Estado, poderá agir no início como um ditador populista e em poucos meses fazer o povo abandonar e esquecer Lula, com o apoio de parte de uma falsa esquerda que pensa herdar o espólio do Lulismo. Depois da “anestesia” viria a verdadeira face de um candidato medíocre que apenas cumprirá ordens.

O mais absurdo disso, até aqui, é que enquanto Bolsonaro tenta parecer “um defensor do povo” para consolidar a vitória, Haddad está preocupado com banqueiros, apoio de FHC, do algoz do PT no mensalão (Joaquim Barbosa) e, até, de Marina Silva. Prova disso é que nesta semana Bolsonaro parecia Fidel Castro ao dizer que pretende fazer um “Super Bolsa família”, criar um 13° do bolsa família, ampliar as vagas nas creches, que não vai privatizar setor elétrico, Banco do Brasil e Caixa e até que vai limitar a privatização da Petrobras. Não diz como fará isso – já que votou em conluio com Temer contra tudo o que agora promete fazer.  

Por sua vez, Haddad no lugar de propor um “Bolsa Família Mega Combo”, para sobrepor à proposta de Bolsonaro, assume o discurso da direita e faz críticas ao concorrente ao afirmar que a proposta do 13°do bolsa família é “cavalo de pau”. Se “estamos diante de uma encruzilhada e precisamos evitar o fascismo”, nada pode justificar um discurso tão desconectado do povo como este de Fernando Haddad.

Para complicar ainda mais a situação do candidato do PT, a frente antifascista do próprio Haddad não tem sido vista como um instrumento capaz de barrar a vitória de Bolsonaro. Até mesmo um dos políticos mais rejeitados do Brasil, FHC, ignorou a aparente gravidade do momento e foi para Paris, com a promessa de que volta para votar.

Páginas na internet que se apresentam como “de esquerda” estão perdidas. Não sabem como tratar de um “Haddad Tucano” e um “Bolsonaro Comunista”. Esquecem que numa eleição fake a lógica é não ter lógica. Falam da “importância de derrotar o fascismo”, mas batem firme em Ciro Gomes que, segundo todas as pesquisas, seria uma garantia de vitória contra Bolsonaro. Isso apenas mostra que a luta de muitos é pelas “oportunidades de uma eventual vitória”.

O certo é que o PT Jurídico (Apud Luiz Moreira) já criou as leis fascistas e que ambos os candidatos, cada um ao seu modo, são idênticos na promessa de reduzir o Brasil à condição de “República do ‘Teje Preso’”. A Lava Jato (criada por Zé Cardozo, Tarso Genro e Dilma Rousseff) que é uma estratégia dos EUA e do Sistema Financeiro, já é a grande vencedora desta eleição sem Lula, sem povo e sem perspectiva para o nosso país.

Da minha parte, gostaria de lembrar que a campanha de desmoralização da política sempre foi e será um objetivo da direita. Governos fracos e políticos desmoralizados fortalecem o setor privado, ampliam o poder de pressão da imprensa e, sobretudo, do sistema financeiro internacional. Precisamos resgatar a democracia.

Para ampliar este debate, visitei o Facebook de dois dos nossos comentaristas: Luiz Moreira e Felipe Quintas. Deixo aqui as opiniões de ambos, pois entendo que podem ajudar na formação do pensamento próprio do nosso leitor, carinhosamente chamado de “Comunidade Duplo Expresso” por Romulus Maya e de “Expressonautas” pelo nosso comentarista Sama.

Por Felipe Quintas,

Enquanto a grande mídia bota a gente pra brincar de filme de II Guerra do History Channel (“nazistas X democratas” com et’s podendo aparecer a qualquer momento), o Brasil serve como um dos palcos do conflito entre EUA e China, obviamente não apitando nada, como boa, dócil e eterna colônia que somos.

A China, aliada a setores importantes do financismo globalista europeu, está interessada na entrega total, imediata e irrestrita do país para abocanhar ainda mais nossos recursos fundamentais (infraestrutura, comunicações, finanças, terras etc.) e nos utilizar como plataforma para avançar pela América Latina e África ocidental.

Para infelicidade deles, não há nenhum candidato que os represente nesse segundo turno, daí a tentativa de conquistar Haddad através de elogios em revistas como The Economist e Financial Times. Caso Haddad ganhe (o que é improvável pois boa parte do PT não parece disposta a ceder a essa pressão), certamente a fatura será cobrada em forma de aprofundamento do governo Temer.

Por outro lado, os EUA com o Trump acham melhor mantermos por enquanto esses setores sob controle estatal, para impedir a expansão da China. Isso não será problema para eles, uma vez que um eventual governo Bolsonaro, que representa os interesses trumpistas aqui (com a mediação de Steve Bannon e de grupos neoconservadores), seria absolutamente submisso aos EUA e, claro, os ianques mandariam no Estado brasileiro.

Caso a guerra político-comercial com a China seja bem-sucedida, depois eles pegam esses setores, será muito mais fácil tirá-los de nós que dos chineses. Daí o sentido do “nacionalismo” bolsonarista, de quando ele fala em não privatizar o miolo das estatais estratégicas. Trata-se sobretudo de impedir a expansão sino-europeia aqui e assegurar o controle dos EUA de Trump sobre nós, fortalecendo-o no conflito contra China e Europa na remodelação dos arranjos comerciais mundiais.

Isso explica também porque a mídia ligada ao financismo europeu é tão hostil a Bolsonaro e sempre o compara a Trump, pois vê aquele como representante desse, contrário a seus interesses. Então, fiquem tranquilos, a menos que haja uma reviravolta militar com as correntes realmente nacionalistas das FA assumindo o controle do processo político aqui, continuaremos sendo uma colônia de merda, com identitarismos de todo tipo (progressistas e reacionários) para o gado (o povo) se distrair e eventualmente se esfolar e matar entre si, ainda que estejamos todos nivelados na penúria, no abandono e no desespero próprios de uma colônia.

Haddad ou Bolsonaro?

Por Luiz Moreira,

Trata-se, no Brasil de hoje, de disputa de paradigmas: de um lado, Fernando Haddad e sua disposição de conversar, de dialogar para acertar agenda que permita ao Brasil avançar na educação e costurar pacto civilizatório, em que seja permitido emprego e renda para brasileiras e brasileiros; de outro, Jair Bolsonaro, alavancado pela disseminação de violências físicas e simbólicas e por propostas que significarão a revogação dos direitos sociais, os que resistiram ao desmonte promovido pelo governo Temer.

Não é exagero dizer que esses dois projetos políticos não são apenas antagônicos, vez que o projeto de Bolsonaro nega a política, como nega a solução pacífica dos conflitos; já as fraquezas de Haddad se mostram o caminho para influenciarmos seu governo.

Nunca é demais lembrar das fragilidades do projeto representado por Haddad. No entanto, a consciência dessa fragilidade permite a Haddad abrir-se aos diversos segmentos da população brasileira, contemplando, em seu plano de governo, seus anseios e suas reivindicações, a fim de se adaptar à nova realidade política.

Esse momento de crise, de fragilidade das concepções democráticas, nos permite avançar, curando as cicatrizes numa dança entre os dissabores e as decepções, de um lado, e as esperanças e as reinvenções de nossas vidas, nossos sonhos de um Brasil melhor para nós e para nossos filhos, de outro.

Vejo esse momento como chance de repactuarmos nossa sociedade e de avançarmos para além da divisão entre os que odeiam e os que amam o PT.

Apelo aos cidadãos e às cidadãs que nos reconciliemos, para termos futuro distinto daquele que já presenciamos hoje, com o medo e a violência  graçando nas relações intersubjetivas.

Haddad está longe de ser o candidato ideal, mas é o capaz de nos conduzir, com segurança, para futuro mais tranquilo.

Como Ministro da Educação, Haddad foi o responsável tanto pela ampliação das Universidades Federais como por programas que possibilitaram que pobres tivessem acesso à Universidade.

Temos dois caminhos: o de Jair Bolsonaro, que faz da violência a máscara de seu despreparo, e o de Fernando Haddad, que faz da humildade o caminho para a solução de nossas divisões.

Sendo assim, peço uma chance ao Brasil. Peço um futuro melhor para todos nós: é Haddad Presidente!

Atualização 1

Como debate bom é aquele que nunca acaba, recebi do nosso comentarista Gustavo Galvão o “lembrete” de que o recente texto dele é convergente com a minha opinião. Por isso, adiciono aqui o link deste texto que foi publicado aqui mesmo no Duplo Expresso: https://duploexpresso.com/?p=99876

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.