O que Mao diria dos Coletes Amarelos

Texto traduzido e disponibilizado pelo Coletivo de Tradutores Vila Mandinga, com a adição de links “jornalísticos”.
Texto republicado conforme atualização do próprio Coletivo, em 27/dez/2018
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Por Slavoj Žižek* no Russian Today (RT) – Op-Ed, em 21 de dezembro de 2018

ATENÇÃO! ATENÇÃO! REFLEXÃO NECESSÁRIA E SENSACIONAL, MAS… TODO O CUIDADO É POUCO!
O que adiante se lê “a noção ocidental da universalidade dos direitos humanos contém a dimensão autocrítica que torna visíveis as próprias limitações” é premissa que PARECE VERDADEIRA, mas é falsa.
“Tornar visível” não significa que, por disponibilizar sua visibilidade, a coisa tenha sido realmente vista.
A explicação para essa ‘ilusão’ lógica que cria ‘argumentos mágicos e errados’ é que de premissa falsa pode-se ‘concluir’ karké merda. É o que explica que imbecilidades como “administrar o Brasil é como administrar sua casa: vc não pode gastar mais do que ganha” pareçam corretos. Não são corretos. São falsos, são golpe!

São sofismas, construídos de premissa falsa (administrar o Brasil NÃO É como administrar minha casa! Essa é a LÓGICA DO ARROCHO).

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O movimento francês dos Coletes Amarelos expõe um problema no coração da política de hoje. Excessiva adesão/aderência à “opinião” popular e insuficientes inovação e ideias frescas.

Qualquer rápido exame do imbróglio já deixa ver claramente que fomos apanhados em múltiplas lutas sociais. A tensão entre o establishment liberal e o novo populismo, a luta da ecologia, os esforços em apoio ao feminismo e à libertação sexual, mais as batalhas religiosas e étnicas e o desejo por direitos humanos universais. Para não mencionar que tentamos resistir contra o controle digital sobre a vida de cada um.

Assim sendo, como pôr juntas todas essas lutas, sem simploriamente privilegiar uma delas como a “verdadeira” prioridade? Porque esse equilíbrio nos dá a chave para todas as outras lutas.

 

Ideias velhas

Há meio século, quando a onda maoísta estava no auge, a distinção que Mao Tse Tung fixou entre contradição “principal” e contradições “secundárias” (do tratado “Sobre a Contradição”, escrito em 1937) era moeda corrente nos debates políticos. Talvez aí esteja uma distinção que mereça ser trazida de volta à vida.

Comecemos com um exemplo simples: Macedônia – o que há num nome?[1] Há poucos meses, os governos da Macedônia e da Grécia concluíram um acordo sobre como resolver o problema do nome da Macedônia: teria de mudar o próprio nome tradicional, para “Macedônia do Norte”.

A solução foi instantaneamente atacada pelos radicais dos dois países. Os gregos diziam que “Macedônia” é antigo nome grego; e os macedônios sentiram-se humilhados ao se verem reduzidos a uma província “do norte”, dado que são o único povo que se autoidentifica como “macedônio”.

Imperfeita que fosse, a solução oferecia um raio de esperança de se pôr fim a uma luta longa e absurda, com um acordo razoável.

Mas o acordo acabou apanhado em outra “contradição” – a luta entre as grandes potências (EUA e UE de um lado, Rússia de outro lado). O ocidente pressiona os dois lados para que aceitem o acordo, de modo que a Macedônia possa unir-se rapidamente à União Europeia e à OTAN, ao mesmo tempo em que, por exatamente a mesma razão (mas vendo nela o perigo de perder influência nos Bálcãs), a Rússia opôs-se à mudança, e apoiou as forças nacionalistas conservadoras nos dois países, com diferentes graus de apoio.

Assim, que lado devemos preferir? Acho que devemos tomar convictamente o lado favorável ao acordo, pela simples razão de que o acordo é a única solução realista para o problema. A Rússia opôs-se ao acordo exclusivamente por causa de seus interesses geopolíticos, mas sem oferecer outra solução. Assim sendo, apoiar a Rússia, nesse caso, seria sacrificar aos interesses geopolíticos internacionais a solução razoável para o singular problema das relações entre gregos e macedônios.

 

Jogos de poder

Consideremos agora a prisão de Meng Wanzhou, presidenta financeira da empresa Huawei e filha do fundador, em Vancouver. Foi acusada de desrespeitar sanções que os EUA impõem ao Irã, e enfrenta a ameaça de ser extraditada para os EUA, onde pode acabar presa por 30 anos, se for julgada e condenada.

O que é verdade nessa história? De um modo ou de outro, é praticamente garantido e demonstrado que todas as grandes empresas, discretamente, atropelam as leis. Mas é mais do que evidente que essa é apenas uma “contradição secundária” e há aí uma outra batalha em curso. Nada tem a ver com comércio com o Irã, mas, sim, tem a ver com a grande luta pelo controle da produção de maquinário e programas do esforço digital.

Huawei é o símbolo vivo de uma China que já não se resume à Foxconn China, aquele antro de trabalho semiescravo montando máquinas desenvolvidas noutros locais. A nova China é onde também já se concebem programas e novas máquinas do esforço digital nacional chinês. A China tem potencial para vir a ser agente muito mais forte no mercado digital, que o Japão com sua Sony ou a Coreia do Sul com Samsung, em poderio econômico e números.

Mas basta de exemplos caso a caso. As coisas são muito mais complexas com a luta por direitos humanos universais. Aqui encontramos a “contradição” entre os que propõem esses direitos e os que avisam que, pela visão padrão deles, direitos humanos universais nem são universais e, implicitamente, privilegiam valores ocidentais (indivíduos têm primazia sobre coletivos, etc.) e, assim sendo, não passam de modalidade de neocolonialismo ideológico. Não surpreende que a referência a direitos humanos tenha servido para viabilizar mais de uma intervenção militar, do Iraque à Líbia.

Defensores de direitos humanos universais respondem que rejeitar direitos humanos universais com frequência viabiliza formas locais de governo autoritário e a repressão como elementos de um específico modo de vida. Como decidir?

Nesse caso não basta alguma trilha intermediária. Assim, se recomenda preferir os direitos humanos universais, por uma razão bem precisa. A dimensão da universalidade tem de servir como uma média, pela qual podem coexistir vários diferentes modos de vida, e a noção ocidental da universalidade dos direitos humanos contém a dimensão autocrítica que torna visíveis as próprias limitações [ATENÇÃO! ATENÇÃO! TODO O CUIDADO É POUCO! Vide epígrafe dos maoístas atentos!]

Quando as ideias ocidentais padrão são criticadas por um viés particular, a própria crítica tem de se referir a alguma noção de universalidade mais autêntica, que nos faz ver a distorção de uma universalidade falsa [sim, mas, pra entender isso, é preciso TER VISTO “a distorção de uma universalidade falsa”. Para isso, releia a epígrafe e a explicação lógica técnica (NTs)].

Mas alguma forma de universalidade sempre está aqui, e uma visão modesta da coexistência de modos de vida diferentes e incompatíveis tem de confiar nessa universalidade rala. Em resumo, tudo isso significa que “a contradição principal” não é a que há na(s) tensão(s) entre diferentes modos de vida, mas a “contradição” que há dentro de cada modo de vida (“cultura,” organização do usufruto da cultura), entre o que nele é particular e a universalidade à qual aspira cada modo de vida.

Para usar uma palavra técnica, cada modo de vida particular é apanhado, por definição, numa “contradição pragmática”, sua aspiração à validade é minada, não pela presença de outros modos de vida, mas pela própria inconsistência de cada modo de vida particular.

 

Barreiras sociais divisivas

As coisas ficam ainda mais complexas com a “contradição” entre o naufrágio da extrema-direita na vulgaridade racista/sexista, e a arrogância do moralismo regulatório e do politicamente correto.

Assim, é crucialmente decisivo, do ponto de vista da luta progressista pela emancipação, não aceitar essa “contradição” como primária, e, isso sim, tratar de desentranhar de dentro dela todos os ecos distorcidos e deslocados da luta de classes.

De modo fascista-fascistizante, a figura do inimigo, para o populismo de direita (a combinação de elites financeiras com imigrantes invasores), combina os dois extremos da hierarquia social, e assim dilui os sinais da luta de classes.

Do lado oposto e de modo quase simétrico, as lutas antirracismos e antissexismos movidas a ‘politicamente-corretos’ mal conseguem esconder que o principal alvo delas são o racismo e o sexismo da classe trabalhadora branca. Assim, também neutralizam a luta de classes.

Eis porque designar os ‘politicamente-corretos’ como algum “marxismo cultural” é ensinar uma falsidade. O ‘politicamente-correto’ em toda sua pseudo-radicalidade nada tem de marxismo; é, ao contrário, a última defesa do liberalismo “burguês” contra o marxismo, ao encobrir/ofuscar/deslocar a luta de classes, do seu lugar de “contradição principal”.

O mesmo vale para a luta dos transgêneros e #MeToo. Também são lutas sobredeterminadas pela “contradição principal” da luta de classes, que introduz um antagonismo bem no cerne do coração desses movimentos.

Tarana Burke, que criou a campanha #MeToo há mais de uma década, observou  em recente nota crítica, que ao longo dos anos desde o início, o movimento desenvolveu incansável obsessão contra os perpetradores — um circo cíclico de acusações, inculpamentos e indiscrições.

Temos trabalhado diligentemente de modo tal que a narrativa popular sobre MeToo afasta-se do que o movimento é – disse Burke.

Temos de modificar a narrativa segundo a qual seria uma guerra de gêneros, que o movimento seria anti-homens, que seria homens contra mulheres, que só teria a ver com um determinado tipo de pessoa – que é só para mulheres que se autodefinem como tais [ing. cisgender] brancas, heterossexuais e famosas.

Em resumo, é preciso lutar para que o movimento #MeToo volte a se focar no sofrimento de milhões de mulheres e donas de casa trabalhadoras. É coisa que, enfaticamente, sim, pode ser feito. Por exemplo, na Coreia do Sul o movimento #MeToo explodiu, em manifestações de milhares de mulheres trabalhadoras comuns, contra a exploração sexual de que são vítimas.

Os protestos em andamento dos Coletes Amarelos na França condensam tudo que conversamos até aqui. A limitação mortal do movimento está precisamente no tão elogiado traço de “não há líderes” e na auto-organização caótica.

De modo tipicamente populista, o movimento dos Coletes Amarelos bombardeia o estado com séries de demandas que são inconsistentes e impossíveis de atender dentro do sistema econômico que aí está. E falta um líder que não só ouça o povo mas, também, traduza o protesto numa visão nova, coerente, de sociedade.

A “contradição entre as demandas dos Coletes Amarelos e o Estado é “contradição secundária”: todas as demandas deles têm raízes no sistema econômico em que vivemos. A “contradição” verdadeira é entre todo o nosso sistema sociopolítico e [a visão] de uma nova sociedade na qual as demandas que os manifestantes formularam não possam sequer surgir. Como?

O velho Henry Ford acertou ao dizer que quando ofereceu à venda o primeiro carro produzido em série não se ocupou com seguir o que o povo ‘exigia’. Como disse ele então, em termos claros, se tivesse perguntado ao povo o que desejava, a resposta seria “Cavalo melhor e mais forte para puxar nossas carroças”.

Esse insight encontra eco da frase execrada de Steve Jobs para quem “muitas vezes o povo não sabe o que quer, até que você mostre.”

Apesar de tudo que se deva criticar na atividade de Jobs, falou como um quase mestre autêntico na compreensão que tinha do próprio projeto. Quando lhe perguntaram quanto a Apple usa de feedback dos clientes, a resposta foi: “Consumidor não é pago para saber o que quer. Tratamos de entender o que nós queremos.

Observem a surpreendente virada nessa argumentação. Depois de negar que os consumidores saibam o que queiram, Jobs não adota a inversa direta esperada “nossa tarefa – a tarefa de capitalistas criativos – é entender o que os consumidores querem e, então ‘exibir a coisa pronta’ no mercado.”

O que ele diz é “Tratamos de entender o que nós queremos” –, isso é trabalho de autêntico mestre. Não tenta adivinhar/descobrir o que o povo queira. Simplesmente segue o próprio desejo. Ao povo só resta o serviço de decidir se quer acompanhá-lo ou não.

Em outras palavras, o poder advém de conhecer e seguir a própria visão, em nunca fazer concessões que comprometam a própria visão.

O mesmo vale para um líder político que tanta falta faz hoje. Os Coletes Amarelos na França querem cavalo melhor (mais forte e mais barato) – nesse caso, ironicamente, querem combustível mais barato para seus carros e ônibus.

Estão à espera de quem lhes dê a visão de uma sociedade na qual o preço do combustível tenha importância quase absolutamente nenhuma, assim como hoje já ninguém se preocupa com o custo de alimentar um cavalo de carroça.

 

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Slavoj Žižek é um filósofo cultural esloveno. Pesquisador sênior do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e professor emérito global de alemão na New York University.

 

[1] “O que há num nome? Essa que chamamos uma rosa, / qualquer nome que tivesse, teria o mesmo doce perfume” (Shakespeare, Romeu e Julieta, II, ii, 1-2) [NTs].

 

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