A grande disputa geopolítica do século XXI: mobilidade, meio ambiente e inteligência artificial – Parte 6: As ameaças aos campeões do Brasil

Por Gustavo Galvão, para o Duplo Expresso

As apostas nos setores campeões do Brasil

Estamos preparados para esse novo mundo? Quais nossos riscos e oportunidades?

A prosperidade de uma nação depende do crescimento contínuo de suas exportações. O governo brasileiro está consciente em relação a isso. Nos governos do PT, quando ainda havia cuidado com interesse público, apostou-se junto com o setor empresarial em cinco estratégias para aumentar nossas exportações: (1) Petróleo e derivados do Pré-Sal, (2) Etanol, (3) Carnes e grãos, (4) Minério, (5) Cadeia metal-mecânica com enfoque na automobilística do diesel e dos carros populares.

Dessas apostas, apenas a última é focada em um setor de alto valor agregado, com conteúdo tecnológico e que emprega muito e com bons salários. O resto são produtos primários. E mesmo essa aposta parece ser mais circunstancial do que efetivamente construída. As grandes empresas existentes no setor impuseram. O Brasil tem ainda uma boa competitividade na metal-mecânica, em especial na cadeia automobilística, como se pode ver no gráfico abaixo, que está desatualizado.

Isso decorre do fato de que os chineses ainda não construíram uma forte plataforma de exportação na metal-mecânica de veículos, porque na mecânica é mais lento o desenvolvimento de know-how, se comparado com a eletroeletrônica e indústria têxtil, já dominadas por eles. No gráfico abaixo, fica clara essa maior dificuldade de desenvolvimento de know-how.

 

O gráfico abaixo mostra a importância dos diversos setores nas exportações chinesas.

 

Na mecânica, apesar dos baixos investimentos, o Brasil ainda tem alguma competitividade porque maquinário evolui de forma relativamente lenta, automatização é limitada, ainda há dependência de habilidades manuais e a confiabilidade demora a ser conquistada.

Além disso, o Brasil – pelo tamanho do território, população, produção agrícola e pela deficiência no transporte sobre trilhos – tem uma das maiores escalas produtivas do planeta nas soluções para diesel, como caminhões, ônibus e máquinas agrícolas. Temos também o FINAME-BNDES, que funciona como uma proteção relativamente sustentável para a indústria metal-mecânica nacional. Em decorrência do incentivo aos carros populares, nossa escala produtiva também é competitiva nos automóveis de passeio. Além disso, o país é um grande produtor e exportador de aço, ferro-gusa, ferro-ligas e metais não-ferrosos, essenciais para essa indústria.

Apesar desses fatores circunstanciais que mantém a cadeia metal-mecânica relativamente protegida, a grande aposta dos últimos anos foi mesmo as commodities, como podemos ver no gráfico abaixo sobre a balança comercial brasileira por setores.

É uma estratégia muito limitada para uma nação de 200 milhões de pessoas. Mas parecia fazer sentido em meio à euforia dos preços das commodities. Essa euforia acabou há 5 anos e nenhuma outra estratégia foi sequer discutida nos ambientes públicos¹.*******

Notas

1- Nos últimos 5 anos a sociedade brasileira só discute sobre as pedaladas da Dilma e os pedalinhos do Lula e ainda não chegamos a uma conclusão, não é Miriam Leitão?

*Gustavo Galvão é economista pela UFMG, doutor em economia pela UFRJ, funcionário do BNDES, assessor parlamentar e comentarista de economia do Duplo Expresso.

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