Evidências de Demônios nas Costas Brasileiras

 

Por João de Athayde, para o Duplo Expresso

 

Evidências de demônios no litoral Brasileiro.
No alto: tucanos ávidos dirigindo-se aos navios exportadores brasileiros. No centro à direita : seres terrestres e aéreos inclassificáveis, híbridos de neo-liberais e pseudo-esquerda, saindo de suas moitas. No centro e embaixo: demônios da mídia atormentam sem cessar a cabeça dos Tupiniquins. Em baixo, a direita: um prefeito cão chupando manga se preparando para terminar de sugar o sangue de um morador de rua. Em baixo a esquerda, no primeiro plano: um agente estrangeiro e um representante da FIESP explicando a um suplicante indígena que foi tudo ordem das camadas superiores.¹

 

Nesta sequência do texto da semana passada (Demonologia – A ciência que o Brasil explica e exemplifica), tratarei de aspectos da Etnodemonologia, a ciência dos demônios longínquos. Como o título desta subdisciplina foi dado por Europeus, trata-se, claro, da ciência dos demônios longínquos da Europa e… próximos do Brasil, caros meus.

A demonologia ganhou uma preponderância especial na área dos conhecimentos durante o período do renascimento e das grandes navegações. Jean Delumeau, em A História do Medo no Ocidente, fala do mar como “O Império do Diabo” e menciona os “diabos naufragadores” de embarcações que se aproximavam da costa. Grégoire Holtz e Thibau De Rolley, em Viajar com o Diabo, lembram que na época dos descobrimentos “Satã atravessou efetivamente os oceanos”, mas que em realidade tudo que Belzebu fez foi “acompanhar aqueles que não sabiam viver sem ele”, íntimos que eram de tantos anos, culpas e pecados mundanos.

Jean-Claude Laborie, professor na universidade de Lyon, observa que “o Brasil e o diabo mantêm, depois do descobrimento, relações íntimas”. Não precisa de muito estudo para concluí-lo: o pobre, o negro, o índio e o injustiçado que o digam, mas é sempre bom confirmarmos cientificamente nossas intuições. Em 1592, Théodore de Bry encomenda à Jean Wechsel uma gravura para sua obra “As Grandes Viagens”, onde se vê em cores e detalhes os índios Tupinambá sendo atormentados pelo demônio Aygnan, então visto como um contraponto à Tupã, baseados em relatos de viagens nas costas do sudeste brasileiro. Na gravura vemos que a litorânea aldeia indígena atacada pelos monstros é tomada ao mesmo tempo pela confusão e pela apatia. No entanto as malévolas bestas deixam em paz os bem-vestidos invasores europeus que observam calmamente o desespero dos indígenas indefesos diante do ataque das endemoniadas criaturas. Miséria nos olhos dos outros é refresco para quem leva vida no proveito, ou já nasce com ouro de berço.

O protestante calvinista francês Jean De Léry passou um ano nas águas do atual estado do Rio de Janeiro, integrando o projeto de estabelecer uma base francesa (e não como consultor da petrolífera francesa Total). Tratava-se da tentativa de consolidar no Rio a colônia da França Antártica. Numa edição de 1580, Jean de Léry escreve em seu livro  Viagem à Terra do Brasil, que “os Americanos são visivelmente e realmente atormentados por espíritos malignos”.

A obra apresentava uma gravura em preto e branco, onde se vê as diversas criaturas monstruosas que atormentam os indígenas na Baía de Guanabara. São criaturas aladas, marítimas, e terrestres – violentas como uma milícia – que assolam os índios cariocas, atormentando-lhes com inúmeras pancadas em suas cabeças. E não é tropa de choque, porque isso assim, de um jeito lacrimogênio, ainda não existia.

Respondendo aos críticos que duvidavam de sua narrativa, Jean de Léry, que tudo com seu olho testemunhou, deixou claro que não, não se tratava de ilusão, concluindo estar muito pessimista em relação ao “povo amaldiçoado e esquecido de Deus” que habitava esses confins do mundo. Ó terra de contradição sem igual, espécie decaída de paraíso tropical onde pululam ávidas criaturas daninhas e do mal.

Segundo o historiador francês Michel de Certeau, que procurou pensar o simbólico através do diabólico, “a crise diabólica tem o duplo significado de revelar o desequilíbrio de uma cultura e acelerar o processo de sua mutação”. Pastores infernais e juízes de uma inquisição; diabos no litoral, diabos no planalto, diabos no sertão: eis a abençoada-danada nação. Cabe a nós lutarmos imediatamente por essa mutação, por que o fato é que o Brasileiro está comendo o pão que o diabo amassou com veneno de agrotóxico. E cada vez menos pão.

“São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade”. Já dizia o profeta Chico Science, que foi cantar no paraíso em tenra idade « O homem coletivo sente a necessidade de lutar. Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! » E viva Lula (que seja ele o alado da justiça!) e todos aqueles que verdadeiramente lutam por uma sociedade mais livre e mais digna.

 

« O Inferno no Brasil », mais especificamente no Rio de Janeiro, segundo o testemunho de Jean de Léry.
No alto à direita: demônios naufragadores atacam um navio da Petrobras. Notar o detalhe da águia com asas de morcego que dirige os movimentos do monstro marítimo. Logo abaixo deste vemos um carioca popular que sai para pescar por que não tem mais dinheiro para comprar no supermercado. No alto à esquerda : o antigo monstro peludo e pseudo-macho do fascismo oculto ressurge das trevas para auxiliar um juiz e um estrangeiro a dominar um brasileiro. Reparem que, apesar de as três bestas já terem levado-lhe todas as roupas, estes insistem que o indivíduo deve dar-lhes ainda mais riquezas. Em baixo ao centro: um demônio ilusionista tenta convencer um trabalhador que é melhor ficar prostrado e não fazer nada, pois tudo isso é « natural e justo no mercado liberal ». Em baixo à direita : um website de resistência tenta alertar que os pensamentos derrotistas e fatalistas que atormentam um indígena são obra de um demônio midiático local que está enfiando espinhos na cabeça do pobre cidadão.²

 

O Brasileiro ficou entre a cruz, a calderinha e a carteirada e a martelada, quando chegou o coisa-ruim em chifre, enxofre e osso, com sua inteligência de agência e sua armada infiltrada:

– “Ô seus demoniozinhos de primeira e segunda instância, vocês sabem com quem estão falando? Vocês me respeitem, seus projetos de diablitos latino-americanos, aqui é o Big Boss Satan em pessoa! Eu tenho trono em Wall Street, no Silicon Valley, na City de London e em Frankfurt. Demoniozinho auxiliar que ouse cantar de galo, eu asso num churrasco de grelha ruim e queimado e mando pro quinto dos infernos pra vocês verem o que é vermelho e encarnado. E você vai pagar pro FMI a conta da viagem, com juros do cartão do Brasil, ou seja danação por toda uma eternidade. Eu construo muro de concreto e muro social, engaiolo criancinha e tenho muita bomba pra jogar e vender: atômica, mídiática, incêndiária e convencional. Meu inferno é Hi-Tec, meu caldeirão é coisa da NASA e dá náusea. É movido a gás de xisto, água poluída, choro de criança e petróleo marítimo. Mas agora cansei de intermediários; vou buscar diretamente nos mares do Sul meu erário: água territorial é minha praia e o pré-sal meu balneário. Madeira de desmatamento é combustível pro caldeirão que também serve; queimada na floresta dos outros pra mim é nuvem de refresco, e uma terra arrasada de herança pro seu filho eu deixo. Aliás, vocês são um bando de vira-latas incompetentes, não sabem nem organizar uma Ku-Klux-Klan nem um assassinato em massa. Bom, ao menos vocês têm a Polícia Militar que, é verdade, nesse sentido bastante trabalha. Finquei minha pata de garra peluda na Colômbia, na Argentina e em Brasília, já estou me instalando em Alcântara para dali pro céu voar e nem venha você querer entrar, senão o bicho águia vai pegar! E todo esse calor do aquecimento infernal global me dá uma sede danada: aproveito e levo o seu manancial de água. Então vocês, bando de caboclos indigentes, bando de índios metidos a gente, vocês querem direitos humanos? Ora, isso é só pra quem tem renda mais de um milhão de dólares por ano. Ou vocês pensam que o meu inferno é um clube noturno com as drogas que eu importo de montão, um paraisinho artificial fiscal qualquer? Não! Me obedeçam ou eu corto as suas asas e a ainda levo a Embraer. Eu sou um bicho branquelo cafona e feio mas meu maquiador é de Hollywood, ganhou o Oscar dado por mim mesmo em filme de terror categoria saúde. É de primeira a minha assessoria, só superprodução, é um big brother zuckerberguiano da boa, eu dito: “plim plim” e ela ecoa”.

 

Assista a seguir ao vídeo de João de Athayde no Duplo Expresso de 03 de agosto de 2018. Para assistir à participação toda, clique aqui.

 

 

1 Índios Atormentados por Aygnan [demônio] – Jean Wechel, encomendado por Théodore de Bry, America tertia pars, Frankfurt (1592).
2 O Inferno no Brasil : Jean de Léry, Histoire d’un voyage faict en la terre du Bresil (História de uma viagem feita em Terra do Brasil), Genebra, Antoine Chuppin (1580). Ambas as ilustrações foram extraídas do livro de Grégoire Holtz e Thibau De Rolley (dir.) 2008, Voyager avec le diable – Voyages réels, voyages imaginaires et discours démonologiques (XVe – XVIIe siècles), PUPS, Paris.

 

*João de Athayde é antropólogo carioca residente na França (Aix en Provence). É ligado ao IMAF (Institut des Mondes Africains/ Instituto dos Mundos Africanos), na Universidade de Aix-Marselha, França. Realiza doutorado sobre as heranças culturais ligadas ao tráfico de escravos no contexto do Atlântico Negro, em especial sobre identidade, religião e festa popular entre os Agudàs, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a África e o Nordeste Brasileiro.

 

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