O Mundo na Bolha de Plástico

Por Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

De uma época em que as calças “boca de sino” eram a regra na moda, mas John Travolta ainda não tinha saído para “Os Embalos de Sábado à Noite” porque ele ainda era “O Menino na Bolha de Plástico”, eu carrego uma lembrança afetiva muito forte…

Imagem dir: anúncio “ABC TV premiere” (1976); imagem central: “John Travolta white suit smoking in train” (John Travolta com terno branco fumando no trem); imagem dir: poster do filme “Saturday Night Fever” (Os Embalos de Sábado à Noite) por © Paramount Pictures (1977)

Entre as minhas tarefas domésticas na infância, a que sempre serei agradecido por fazer era a de buscar pão na padaria. Em momentos que a realidade torna-se pesada, em que as coisas parecem não apresentar sinais de esperança, recorro à sensação de conforto que sentia cada vez que enfrentava a fila da padaria às 17h para comprar pão e, ao chegar a minha vez:
– Tio, um pão d’água, por favor!
– De “quarto” ou de “meio”, guri?
– De “quarto” (kg)!

Depois do obrigado, eu seguia para casa abraçado a um pão quentinho, embalado em um saco de papel kraft. Tinha calor nos braços e o perfume do trigo passeando em minhas narinas.

Agora que estou em casa  no Brasil, tenho novamente a comodidade da máquina de fazer pães. Foi o aroma do pão recém feito ao acordar que me trouxe essa recordação. E percebi, desta vez não por saudade ou necessidade, que ao passar na padaria para comprar cacetinhos DE1na última vez, dei-me conta que hoje em dia eles vem embalados em plástico. Os pães suam dentro da embalagem, mas o aroma não passa mais.

Quantas coisas deixamos de perceber porque agora vêm ensacadas em plástico? O que não dá para deixar de notar é a quantidade de plástico que se acumula mundo afora…

Dados Impactantes

Gráfico “Volume de produção de plástico na Europa e no Mundo entre 1950 e 2016”, adaptado de © “Global plastic production from 1950 to 2016”, fonte: Statista (2018)

 

Consumo de plástico nos principais setores do mercado consumidor, adaptado de © “Plastics – The Facts 2017”, fonte: PlasticsEurope Market Research Group (PEMRG) e Conversio Market & Strategy GmbH (2018)

Alguns números que poderão impactar a quem não está habituado com o tamanho e a relevância desta indústria no mundo:

Um milhão (1.000.000) de garrafas plásticas são compradas por minuto no mundo [1].

• Cada litro de líquido engarrafado necessita de pelo menos 2,5l na fabricação das garrafas PET, embora a ABIPET afirme que seriam apenas mais um litro, contra seis que as retornáveis de vidro consumiriam [2].

• Estima-se que 4 trilhões de sacolas plásticas sejam consumidas anualmente no mundo, mas apenas 1% é reciclado [3].

  32% das 78 milhões de toneladas de embalagens plásticas produzidas anualmente fluem para os cursos d’água e chegam aos oceanos – isso equivale a despejar um caminhão de lixo de plástico no oceano a cada minuto [4].

• A relação entre quilos de plásticos vs quilos de peixes nos oceanos está em 1:5, mas espera-se que em 2050 ela seja maior que 1:1 [5].

• A principal causa do aumento da produção de plástico é seu uso como embalagem . Elas representaram 42% de todos os plásticos não-fibrosos produzidos em 2015 e também 52% dos plásticos descartados [6].

Transcrito e adaptado de “Estimativa do Crescimento da Poluição por Plásticos nos Oceanos até 2025” por © Jambeck et al, Revista Science (2015)

 

Imagem esq: “Boy Head in a Berlin Shopwindow” (Cabeça de Menino em uma Vitrine em Berlim) por CC Samuel Zeller (2017) e imagem dir: “Pollution” (Poluição) por CC Simson Petrol (2018)

Como um lobo em pele de cordeiro, a mesma indústria que alimenta os lixões do mundo com seus produtos diz-se capaz de apontar soluções para mitigar a situação. Infelizmente, a saída pelo marketing não mostrará as respostas que necessitamos. Eis dois maus exemplos de quando o “mercado se regula”:

Plástico Oxibiodegradável

O plástico oxibiodegradável é aquele que recebe um aditivo capaz de pré-degradá-lo no seu processo de fabricação. Esse aditivo será empregado em forma de compostos salínicos tendo algum metal na base, como o cobalto [Co], ferro [Fe], manganês [Mn] ou níquel [Ni]. Eles permitem a fragmentação por ação futura do oxigênio do ar (acelerado pela incidência de luz natural, temperatura e umidade). No Brasil, uma grande rede estadunidense de supermercados foi a pioneira em oferecer este material há alguns anos, substituindo as sacolas da tecnologia tradicional por outras de origem canadense. Mas há controvérsia neste uso, e algumas instituições questionam se há uma efetiva capacidade do material biodegradar-se.

Segundo o Conselho de Bioplásticos da Sociedade Industrial de Plásticos (SPI)

“A posição da Divisão SPI Bioplastics é que qualquer afirmação, especialmente afirmações para consumidores, precisa ser apoiada provas científicas baseadas em especificações e padrões bem estabelecidos. No caso de ‘aditivos’, o problema reside em ‘alegar biodegradação’ quando não há evidência em apoio a essas afirmações ou prova de biodegradabilidade de acordo com as especificações aceitas por terceiros independentes.”

A Associação Europeia de Recicladores de Plásticos (EuPR) afirma:

“…os aditivos oxidegradáveis têm potencial de causar mais danos ao meio ambiente do que benefícios.” A entidade também diz que é um equívoco público acreditar na biodegradabilidade destes materiais, uma vez que os aditivos oxidegradáveis  acabarão apenas em fragmentos.

Plástico Verde

O Relatório da Rio+20 (2012) destacava a distribuição de 50 mil garrafas do tipo “squeeze” DE* fabricadas com o plástico verde. Desenvolvido pela BRASKEM, este tipo de bioplástico (I’m Green™), conhecido como “drop-in”DE1, é um tereftalato de bio-polietileno (PET). O exemplo mais popular no país é a chamada “Plant Bottle”, uma garrafa de 600ml de um dos principais fabricantes mundiais de refrigerantes, que substitui a porção 30% de etano oriunda do craqueamento da matéria-prima nafta pelo etanol da cana-de-açúcar – uma fonte renovável…

Imagens promocionais mostrando o produto feito com o “plástico verde” (I’m Green™)

Mas um outro mundo é possível…

A presidenta Dilma Rousseff foi alvo de inúmeras gozações e mêmes por um discurso na primeira edição dos Jogos Mundiais Indígenas, em junho de 2015. Em seu discurso ela saudou a mandioca, traçando um paralelo às civilizações que desenvolveram-se a partir do cultivo do milho ou de outras fontes básicas de alimentação. E realmente a mandioca brasileira (ou aipim, ou macaxeira) tem capacidade de ir muito além do seu uso na nossa culinária: o gaúcho espinhaço de ovelha com aipim, a farinha mais leve que o ar do litoral catarinense, o pão de queijo mineiro, o beiju do Alto da Sé em Olinda-PE, ou até mesmo a maniçoba do Pará (feijoada paraense).

Empresas como a CPPAK e OKA estão usando a fécula de mandioca para a produção de embalagens. Apesar do custo inicial ser pelo menos o dobro do equivalente em plástico (ou mesmo em isopor), elas passam a ganhar mercado quando seus consumidores em escala preocupam-se com o valor agregado no ciclo de vida destes produtos. Observando da produção ao descarte, a monetização deste tipo de embalagem torna-se viável quando percebe-se sua capacidade de sequestrar carbono (durante o cultivo da mandioca) e oferecer resíduo zero no final da vida útil – seja em compostagens ou biodigestores (por ser um produto biodegradável), ou mesmo pelo uso como ração animal.

Há cerca de dez dias, uma boa notícia sobre uma descoberta nesta área foi amplamente divulgada. Dois chilenos – Roberto Astete & Cristian Olivares, da Solubag –  apresentaram uma nova tecnologia em sacolas. A sacola solúvel em água…

Ao experimentarem novos componentes para a producão de um detergente biodegradável, eles acidentalmente chegaram a uma nova composição para as malfadas sacolas plásticas. Na fórmula química do álcool polivinílico, trocaram a porção dos derivados de petróleo por um componente da pedra calcária. Com isso, o produto oferecido passa a ser solúvel em água.

Para comprovar como o novo material é amigável ao meio ambiente, os dois engenheiros dissolveram uma sacola e beberam o conteúdo. Alguns repórteres questionaram se alguém comprasse algo em dia de chuva e guardasse nessas sacolas, as compras não chegariam em casa. Os engenheiros responderam que é possível programar a temperatura da água para que o material seja desmanchado.

Imagem esq: Roberto Astete e Cristian Olivares apresentam sua sacola plástica | Imagem dir: Cristian Olivares mistura a sacola com a água adicionada por Roberto Astete, ambas imagens oferecidas na coletiva de imprensa para divulgação do produto.

Conclusão

A grande quantidade de plástico que embala os artigos que usamos no nosso dia-a-dia está fazendo com que as sensações que essas coisas poderiam nos provocar sejam perdidas. E o acúmulo como resíduo amplia as estatísiticas da degradação ambiental. Todos podemos fazer algo para diminuir o impacto do plástico no planeta.

Que tal…
• Evitar canudinhos nas bebidas?
• Procurar usar sacolas reutilizáveis?
• Evitar chicletes (além de mascar plástico, você poderia estar se contaminando com produtos cancerígenos)?
• Optar por produtos em caixas de papelão ao invés de embalagens plásticas (sabão em pó ou sucos, por exemplo)?
• Evitar talheres e potes plásticos de plástico?
• Optar por garrafas retornáveis?
• Comprar produtos que venham a granel?
• Usar fósforos ao invés de isqueiros?
• Optar pela combinação de bicarbonato de sódio + vinagre ao invés de uma grande quantidade de produtos de limpeza para janelas, azulejos ou vaso sanitário?

A busca por novos processos e tecnologias possibilitará a diminuição do consumo e descarte de plástico no Brasil e no mundo. É um caminho longo e árduo, como aquele que promete que um dia seremos pouco dependentes do petróleo que move o mundo. Temos que começar a agir: não se pode viver apenas de esperança, nem mesmo para “embalar” nossos sonhos…

 

–––––
Carlos Krebs é arquiteto, cinéfilo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.

[1] Revista Forbes | 26jul2017.

[2] Livro “The Big Thirst – The Secret Life and Turbulent Future of Water” (A Grande Sede – A Vida Secreta e o Futuro Turbulento da Água), de Charles Fishman | 13fev2012.

[3] Website Waste Management.

[4] Website World Economic Forum | 27out2016.

[5] Relatório “The New Plastics Economy – Rethinking the future of plastics” (A Nova Economia do Plástico – Repensando o futuro dos plásticos) | jan2016.

[6] Artigo “Production, use, and the fate of all plastic ever made” (Produção, uso e o destino de todo plástico já feito), de Roland Geyer, Jenna Jambeck e Kara Lavender Law, em “Science Advances” nº3 | jul2017.

DE1 – Plásticos drop-in tem propriedades e funcionalidades iguais as do plástico baseado em petróleo: são processáveis, usáveis e recicláveis nas mesmas instalações dos plásticos convencionais, reduzindo tanto a necessidade de infraestrutura nova ou adicional, quanto os custos em todos os níveis. A parte renovável nesses produtos também reduz a pegada ecológica (geração de carbono).

 

 

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