Alemanha e Síria 

Da Redação do Duplo Expresso,

22/6/2018, Thierry MEYSSAN, Oriental Review

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

 

Entreouvido na Vila Vudu

“Há notícias que não interessam diretamente pelo que noticiam, mas por tudo que deixam entrever sobre desenvolvimentos no MUNDO REAL que NUNCA são/serão notícia no Brasil-2018. Porque, com o golpe que derrubou o governo da presidenta Dilma, foi a vez da mesma CIA – cujas ações para desgraçar a Síria são comentadas abaixo – tentar desgraçar o Brasil. 



No Brasil e na Síria, a luta está em andamento.”


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Historicamente, a Alemanha mantinha excelentes relações com o Império Otomano no início do século XX. O Kaiser Guilherme II, que era fascinado pelo Islã, promoveu escavações arqueológicas, notavelmente em Baalbeck, e particiou da construção das primeiras ferrovias [na Turquia], inclusive a linha Damasco-Medina. O Reich [Império Alemão] e a Sublime Porta [Império Otomano] estiveram lado a lado contra os britânicos quando estes organizaram a “Grande Revolta Árabe” de 1915. Aí, perderam a Primeira Guerra Mundial e, assim, foram excluídos da região (tratados Sykes-Picot-Sazovov)*.

Imagem: Em 1953, o Presidente Eisenhower recebeu uma delegação da Irmandade Muçulmana, liderada por Saïd Ramadan. Desde então, os EUA passaram a apoiar o Islã político no exterior.*

Durante a Guerra Fria, a CIA recrutou alguns dos melhores funcionários nazistas para continuar a luta contra a URSS. Dentre eles, Gerhard von Mende, recrutador de muçulmanos soviéticos contra Moscou [1]. Em 1953, esse veterano funcionário público instalou o chefe da Fraternidade Muçulmana fora do Egito, Saïd Ramadan, em Munique [2].

Imagem: Alois Brunner, considerado responsável pela deportação de 130 mil judeus, foi posto pela CIA em Damasco em 1954, com a tarefa de impedir que o regime do presidente Choukri al-Kouatli concluísse uma aliança com os soviéticos.

No mesmo período, a CIA distribuiu secretamente oficiais nazistas por todo o mundo, para combater organizações pró-sovietes. Por exemplo, Otto Skorzeny foi para o Egito; Fazlollah Zahedi foi para o Irã; e Alois Brunner [3], para a Síria. Todos organizaram os serviços secretos locais seguindo o modelo da Gestapo. Brunner só seria demitido muito mais tarde, em 2000, pelo presidente Bachar el-Assad.

No período entre a revolução Khomeinista de 1979 e os ataques de 11/9, a Alemanha Ocidental manteve-se cautelosa nos negócios com a Fraternidade Muçulmana. Mas, por ordem da CIA, e ao mesmo tempo em que a Síria reconhecia a Alemanha Oriental, deu asilo político aos golpistas putschistas que tentaram o golpe de Estado de 1982 contra o presidente Hafez el-Assad, inclusive ao ex-Supremo Guia Issam al-Attar (irmão do vice-presidente da Síria Najah el-Attar). Nos anos 1990s, a Fraternidade reorganizou-se na Alemanha com a ajuda de dois empresários, o sírio Ali Ghaleb Himmat e o egípcio Youssef Nada – que adiante Washington acusaria de financiar Ossama Ben Laden.

Quando os EUA começaram a «guerra infinita» no «Oriente Médio Expandido», a CIA encorajou a Alemanha reunificada a lançar um «Diálogo com o Mundo Muçulmano». Em Berlin, o Ministro de Relações Exteriores baseou seu trabalho para aquela finalidade, principalmente, no novo chefe local da Fraternidade Muçulmana, Ibrahim el-Zayat, e num intelectual alemão, Volker Perthes, que viria a ser diretor do mais poderoso think-tank europeu, Stiftung Wissenschaft und Politik (SWP) [Fundação Ciência e Política] e participou, em nome da ONU, das negociações de Genebra.

Em 2005, a Alemanha participou no assassinato de Rafic Hariri, fornecendo a arma usada para matá-lo (que obviamente não foi um explosivo clássico, ao contrário do que declarou o «Tribunal» especial, de propaganda) [4]. Para completar, a Alemanha também forneceu o presidente do Inquérito da ONU, ex-procurador Detlev Mehlis [5], e o assistente dele, comissário de polícia Gerhard Lehmann, que esteve envolvido na questão das prisões secretas da CIA. Em nome da ONU, Mehlis acusou os presidentes libanês e sírio, Emile Lahoud e Bachar el-Assad, de terem assassinado Rafic Hariri. Seu trabalho baseou-se em declarações de falsas testemunhas. O escândalo foi descoberto, Mehlis foi obrigado a renunciar.

Em 2008, quando a CIA montava a «guerra civil» na Síria, Volker Perthes foi convidado pela OTAN para a reunião anual do Bilderberg Group. Trabalhou com um funcionário público sírio já recrutado pela CIA, Bassma Kodmani. Juntos, eles explicaram aos participantes daquela reunião o lucro que o Ocidente obteria se derrubasse a República Árabe Síria e instalasse a Fraternidade Muçulmana no poder. Já usando o duplo linguajar da Fraternidade Muçulmana, em 2001 Perthes assinara coluna que o New York Times publicou, na qual zomba do presidente Assad por acreditar que ele, Perthes, teria desenterrado uma «conspiração» contra seu país [6]. Em outubro do mesmo ano, participou de uma reunião de empresários turcos organizada por uma agência privada norte-americana de inteligência, Stratfor. Falou aos presentes sobre os recursos de petróleo e gás que poderiam roubar da Síria [7].

Clemens von Goetze (diretor do 3º Departamento do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha) e Anwar Mohammad Gargash (Ministro de Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos), em reunião em Abou Dhabi, do grupo de trabalho sobre a remodelação da economia síria.

Expandindo esse trabalho, a Alemanha organizou em Abou Dhabi uma reunião dos ‘Amigos da Síria’ sob a presidência de um de seus diplomatas, Clemens von Goetze, que partilhou com os presentes o futuro das concessões para exploração, que estariam garantidas para os vencedores tão logo a OTAN derrubasse a República Árabe Síria [8].

Em meados de 2012, o Departamento de Defesa dos EUA encarregou Volker Perthes de preparar o «Day After» (quer dizer, o governo a ser imposto à Síria). Organizou reuniões no Ministério de Relações Exteriores, com a participação de 45 personalidades sírias, dentre as quais seus amigos Bassma Kodmani e Radwan Ziadek, da Fraternidade Muçulmana, que viajaram de Washington [9] especialmente para a reunião.

Na sequência, afinal, Perthes tornou-se um dos assistentes de Jeffrey Feltman na ONU. Com esse título, participou de todas as negociações de Genebra.

As posições do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha foram copiadas, palavra a palavras, pelo Serviço Europeu de Ação Externa [ing. European External Action Service, EEAS] de Federica Mogherini. Essa administração, dirigida por veterano funcionário público francês, distribuiu notas confidenciais sobre a Síria aos chefes de Estado e de governo da UE.

Em Berlin, em janeiro de 2015, na marcha pela tolerância, que reuniu líderes políticos e muçulmanos em reação ao ataque ao jornal Charlie Hebdo em Paris, Madame Merkel marchou de braços dados com Aiman Mazyek, secretário-geral do Conselho Central dos Muçulmanos na Alemanha.

Embora Mazyek queira fazer crer que teria rompido com a Fraternidade Muçulmana e mantenha diálogo aberto, Mr. Mazyek oferece proteção dentro de sua organização ao grupo Milli Gorus (organização suprematista de Recep Tayyip Erdoğan) e à Fraternidade Muçulmana (matriz das organizações jihadistas, sob a presidência internacional de Mahmoud Ezzat, ex-mão direita de Sayyid Qutb).

Em 2015, a chanceler Angela Merkel e o presidente Recep Tayyip Erdoğan da Turquia, que se converteu em protetor mundial da Fraternidade Muçulmana, organizaram a transferência de mais de um milhão de pessoas para a Alemanha [10], atendendo ao desejo de importantes líderes da indústria alemã. Muitos desses migrantes eram sírios, inclusive os que o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) de Erdogan estava descartando, e que a Alemanha não desejava que voltassem para a Síria.

Essa semana, a chanceler Angela Merkel estará em Beirute e Amã, para falar sobre a Síria.*******

*Trecho traduzido por Yorkshire Tea

 

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