Os “5 pontos” do programa Haddad: apertem os cintos, o piloto sumiu

Por Piero Leirner,[1] para o Duplo Expresso

Sexta-feira passada nos deparamos com os tais “5 pontos”, lançados por Fernando Haddad e, pelo que diz o site do PT, aprovados por unanimidade na reunião da executiva nacional do PT. “Também participam da elaboração Sergio Gabrielli (coordenador-geral-executivo), os ex-ministros Ricardo Berzoini (coordenador de finanças), Luiz Dulci e Gilberto Carvalho, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, além de Renato Simões e Márcio Pochmann”. Gente pensante: só queria saber por que essas cabeças resolveram elaborar o “plano Al-Qaeda” de governabilidade, colocando Lula dentro do avião que está em rota de colisão com o WTC.

Os tais 5 pontos são legais. São de 1989. É claro que a Constituição explodiu hoje, mas tem gente de outros lugares que tá falando essas coisas bem antes do PT de 2018. Então vamos listar e comentar alguma coisa, para ver se faz algum sentido:

1. “Promover a soberania nacional e popular na refundação democrática do Brasil”;

Este é o ponto mais complicado em seu detalhamento.

a) “Reforma Política com participação popular e Processo Constituinte”.
Como sabemos, o que hoje é a espinha dorsal do golpe não é exatamente o erro da Constituição, mas o que o judiciário anda fazendo dela. Se tem algo que merece se apoiar pra valer na candidatura do Lula, é o fato de que está nele a única força política capaz de dobrar o judiciário e sua aliança diabólica para fazer a lei se aplicar conforme a conveniência. Querer mudar a lei é um programa que pode ser o sonho de consumo de qualquer governo, então, por favor, não me venham com essa. Vamos lembrar que as mudanças de lei que melaram a política brasileira (delação, anti-terrorismo, ficha limpa, etc.) saíram da cabeça dessa dupla dinâmica, Zé Eduardo Cardozo e Dilma. Sinceramente não pretendo nem quero um segundo round com essa gente pensante. Ou Lula faz voltar ao “normal constitucional”, ou não temos razão para unificar nosso voto nele. Fora isso, já imaginaram como deram munição para toda a imprensa começar a falar em “táticas chavistas” e toda essa ladainha? Afinal, Lula quer ou não voltar a governar? Quantos dias de mandato ele pretende ter, caso deixem ele disputar?

b) “Reforma do Estado e combate aos privilégios”.
Em 13 anos o PT realmente fez algumas reformas do Estado, nas carreiras. Foram duras com o funcionalismo, mas de pouquíssima percepção fora. Essa coisa de privilégios não se “combateu”, e nem vai se fazer isso porque os “privilegiados” derrubam o governo em duas semanas. Esse tipo de apelo, que vem desde o Jânio Quadros, é bom mas não funciona quando se trata dos outros poderes. Aliás, é bom o plano de governo começar a explicar como vai desfazer esse outro mal-entendido que foi a disseminação da ideia de que o PT aparelhou o Estado. Para um plano de governo, isso seria uma ideia interessante. Por enquanto, é só mais material para a Globo nadar de braçada e detonar mais ainda uma candidatura petista.

c) “Democratização dos meios de comunicação de massa”.
Sim, ninguém duvida que precisa disso. Mas falar nesses termos antes da eleição, sei lá… Vamos lembrar o seguinte: no Brasil, toda padaria, todo consultório, toda repartição pública, todo hospital, enfim, além das casas, a Globo fica martelando programação 24/7. É uma tragédia. Mas ainda assim eles dependem de propagada. E se diferentemente de “democratizar a mídia” (mais um daqueles pratos cheios para na batalha semiótica a mídia gritar “censura!”) o programa falasse em “cortar gastos do Estado em propagandas de televisão, rádio, jornais e revistas”. Dá um nó nos coxinhas, né? Afinal, “cortar gastos” é tudo que eles querem.

d) “Reafirmação do legado do PT”.
Taí a única coisa que faz sentido pra mim. Afinal, de que se trata essa eleição? De retomar o que nos foi tirado com um golpe. De fazer valer o voto dos 54 milhões. Daí vem os próximos itens:

2. “Iniciar uma nova era de afirmação de Direitos”;
Iniciar novas eras, sendo que aquela que estávamos vivendo sequer terminou… Aí vem a “pauta minoritária”, vamos dizer assim. Essa mesma que o PT deixou ser tão facilmente sequestrada pelo Min. Barroso e pela Globo. Mais uma vez, ninguém é contra isso, mas se essa pauta sair desse modo e da boca dessas pessoas soa inverossímil. Por que não pensar em justamente pactuar com os setores que estão justamente defendendo isso de maneira mais íntegra desde antes do golpe? Como o PSOL, por exemplo? Não seria mais legítimo falar em “trazer para o Governo os setores sensíveis às pautas x,y,z”? Não se trata de dizer que essas são definitivamente as pautas da esquerda, e deslegitimar a grilagem que a mídia e judiciário estão promovendo? Preferia ouvir aqui algo como “trazer as esquerdas para o Governo numa frente ampla”, sei lá. Além do que, essa coisa de “nova era” não vai colar, já que teve bastante tempo durante Dilma para se consolidar o trabalho anterior, e ela jogou tudo pro ralo em 2014. Quem vai confiar agora?

(não vou de novo bater na tecla da Comissão da Verdade, pauta desse item. Se o PT quer de novo se matar, problema dele, mas não faça isso com nosso voto, ok? Uma sugestão: deixe essa história para o Ministério Público, que tá louco para jogar uma pá de cal na lei da Anistia. De quebra, lucramos com uma guerra entre procuradores à lá Mrs. Dodge e as Forças Armadas, e quem sabe essas últimas não enxergam que é melhor uma esquerda nacional do que uma direita “cosmos”…)

3. “Liderar um novo Pacto Federativo para a promoção de direitos sociais”;
Esse ponto é quase um pastel de vento. Vai federalizar todo o bem-estar, mas não se tem a mínima ideia de como vai refazer o pacto com os Estados e Municípios. Só pode ser uma piada, já que Haddad é um bom cientista político e sabe muito bem que a coisa não é assim. Nem vou me dar ao trabalho de comentar…

4. “Promover um novo modelo de desenvolvimento”;
Os pontos são bons, mas também encontram problemas, sua execução é complicada. Entre eles, retomar a Estratégia de Defesa Nacional. Sem querer voltar ao tema, como é que você faz isso com seus principais atores querendo dar um tiro pelas costas? Esse tópico seria o grande momento em que o tal “programa” diria a que veio: quem vai pagar a conta? Para todos os seus pontos, essa pode ser a pergunta básica. É óbvio que só existe uma resposta: os bancos. O que se deve propor aqui? Conversão do lucro bancário em subsídio para projetos de desenvolvimento. Simples assim, é desafogar o BNDES e as Estatais e por na conta do Itaú. Aliás, é fazer o Itaú por $ na conta da retomada. Só os bancos estão com esse montante de capital “sobrando” hoje, então se eles querem que o Estado fique mais enxuto, eles é que façam o serviço. Troca-se o lucro que vem dos juros pagos pelo Estado por subsídio de juros que serão cobrados da infraestrutura, da indústria e do microcrédito. De quebra, você pode avisar as Forças Armadas que quem vai financiar seu reequipamento é o Bradesco, beleza?

5. “Iniciar a transição ecológica para a nova sociedade do século XXI”.
Tá bom. Depois de Belo Monte, só tenho uma sugestão: peça a ajuda dos universitários, porque a fuga dos ambientalistas do PT não foi pequena…

O resumo da ópera, para mim, é o seguinte: esse programa não tem nada a ver com a “solução pactuada” que Lula estava anunciando logo antes de ser preso. Não é uma continuidade com seu governo anterior, e só passa o recibo para o tal “mercado” das coisas que ele quer ouvir. É um programa que efetivamente faz sentido num Lula 1989, ou no PSOL de hoje. Acho bacana, mas sem realismo algum PARA O PT, PARA LULA E PARA UM ENFRENTAMENTO DO GOLPE ATRAVÉS DE UMA QUEDA DE BRAÇO POLÍTICA. A primeira coisa que me passou pela cabeça é que com isso estão querendo enterrar Lula de vez. Porque nem como retórica para ganhar a eleição serve. De quebra, ainda faz um favor: se FHC estiver atento, ele vai perceber que o PT está deixando um vácuo, QUE É JUSTAMENTE A POSIÇÃO QUE LULA ASSUMIU ENTRE 2003-2010. Se ele conseguir, vai manobrar Alckmin para uma ligeira curva à esquerda, e abocanhar os votos de Ciro e Marina. Vai, assim, (re)tomar aquilo que Mario Covas reclamava que o PT tinha tirado deles, o “SD” de “social democracia”. E de bandeja ganhar uma eleição.

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  1. Doutor em Antropologia pela USP (2001), Professor na UFSCar.

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Do Facebook do comentarista do Duplo Expresso para assuntos institucionais, Samuel Gomes:

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