“Divide et impera” – Divide e conquista

Nas imagens divulgadas pelos colonizadores de seus próprios feitos, só acredita quem quiser.... 
A legenda diz : Campanha do Daomé (1893) – Entrada da Bandeira (francesa) em Abomé. (Abomé era a capital do reino que os Franceses estavam invadindo...).

Por João de Athayde, para o Duplo Expresso

Estimulado pelo artigo do Angolano Paulo Gamba publicado em 01/04/18 sobre as Amazonas do exército do reino de Abomé (no Daomé antigo, atual Benim) e a participação delas na guerra contra os invasores Franceses no final do século XX, resolvi contribuir com esta pequena reflexão sobre um exemplo – e um alerta – de como países e interesses estrangeiros dividem para invadir. “Divide et impera” (Divide e conquista, em latim) é uma expressão atribuída a Felipe II da Macedônia, que a teria dito em grego. Não se sabe ao certo se ele usou a expressão, mas sabe-se que ele a colocou em prática, explorando a divisão entre as cidades-estados gregas até levá-las à derrota. De lá para cá, muitos outros governantes utilizaram e praticaram a estratégia do “Divide e conquista”.

Hoje vários pesquisadores dividem a era da colonização em colonização I e colonização II. Colonização I é a que começa com a expansão marítima portuguesa e espanhola nos séculos XV e XVI, que inclui as Américas, e certos pontos da África e da Ásia. Colonização II é a expansão que se dá em meados e no final do século XIX e também no século XX. Diferente da primeira, esta segunda expansão não é só Europeia e inclui, por exemplo, o Japão e os EUA.

Num contexto de colonização, busco evitar o termo habitual de “grandes potências”, que evoca uma ideia positiva de força viril e reprodutora. Dou preferência a termos como “países colonizadores”, “expansionistas” ou “imperialistas”, que, em vez de enaltecer o aspecto ligado ao poderio, exprimem mais precisamente a intenção e a ação desses países durante a formação de seus impérios territoriais e econômicos. A precisão na escolha de certos termos pode ser muito importante. Se lembramos de George Orwell e a terrível novilíngua em 1984, a dominação, o controle da mente e da sociedade começa, se consolida – e muitas vezes se conclui – no controle da palavra, que organiza socialmente nossos pensamentos permitindo a transmissão de ideias. Por isso, sistemas autoritários, sejam eles estados ou instituições, impedem, cerceiam ou buscam deslegitimar a palavra crítica, a palavra livre, a palavra de conscientização (e essas três só fazem sentido se vão realmente juntas, pois um fascista poderia bradar que sua palavra é “crítica e livre”, mas sabemos que esta não será jamais uma palavra de conscientização, mas sim de manipulação). Sabendo como a grande mídia é controlada ou cooptada, sobretudo no Brasil, e quais são suas nefastas intenções, vemos a importância de espaços de reflexão e debate possibilitados pela internet como este do Duplo Expresso.

Mas, voltando à era de políticas e ações de “retalho da África” por países imperialistas no século XIX. Três nações expansionistas, a Inglaterra, a França e a Alemanha buscavam se consolidar na região dos atuais Benin, Togo e Nigéria, conhecida então como “Costa dos Escravos”. Ela era assim conhecida por exportar escravos, enviados na sua maioria para o Brasil. Eram tantos que bem mereceríamos a alcunha de “Costa Brasileira dos Escravos” pelo triste prêmio de maior importador. No intuito de estender seus poderios, não se tratava simplesmente de “desembarque e invasão” de exércitos europeus. Foram estratégias de médio e longo prazo; os braços fortes eram comerciais, diplomáticos, coercitivos e armados; ou seja, algo muito próximo ao que hoje se denomina uma guerra híbrida. Tinham algo de máfia ou de milícia, do tipo que tento resumir na forma desta cantilena :

Te protejo da minha violência,
ou de outra violência de mesmo modelo,
se me pagares com tua fidelidade,
tua liberdade
e com tuas forças
que usarei para aumentar
a violência do meu combate.

Pouco me importa, porém, a tua fatalidade
por que no fim ficarei com tuas riquezas,
lembrando de deixar
umas migalhas para tua realeza.

Diversos reinos africanos existiam no área do atual Benim, entre os quais o mais poderoso era o de Abomé. Já Porto-Novo era uma cidade-reino independente que, embora fosse culturalmente próxima a Abomé, entrava freqüentemente em conflito com esta, sendo porém mais fraca no plano militar e econômico. No fim do século XIX o tráfico transatlântico já não existia, mas numerosos habitantes destes dois reinos e de outros vizinhos já tinham sido enviados em cativeiro para o Brasil, onde muitas vezes eram chamados pelo nome genérico de Jejes.

Após ter sofrido ataques de Ingleses e Abomeanos, o rei de Porto-Novo pede a proteção dos Franceses. O protetorado se estabelece, e os Franceses o usam como uma das bases para o conflito com o Reino de Abomé, Porto-Novo participando então ativamente da guerra contra seu vizinho. Os armamentos eram muito desiguais e, apesar da resistência, entre as quais as das temíveis Amazonas, ao fim de duas sangrentas guerras o Reino de Abomé é vencido. Os Franceses estabelecem então a colônia do Daomé (1894), englobando todos os territórios da região e fazem de Porto-Novo sua capital. Mas em poucos anos todos os chefes locais, tenham sido eles aliados ou não, perdem sua importância política, as justiças africanas locais são relegadas aos casos tidos como desimportantes, o fundamental indo para a justiça colonial francesa. Boa parte das elites das africanas vão sendo cooptadas, o desinteresse da administração colonial pelos problemas das classes populares é generalizado, uma nova ordem se estabelece: o mais importante é evitar revoltas e que a colônia siga em seu papel periférico de fornecedor de matérias primas, mão de obra-barata, mercado consumidor de produtos e serviços da metrópole, e ponto de apoio logístico.

O Daomé só conquistará sua independência em 1960, mudando posteriormente o nome para República do Benim. Falta de infra-estrutura, graves problemas de saneamento, justiça, educação e salários baixíssimos (e quando se os têm) : até hoje certos aspectos da economia do Benim são periféricos à da França. Um exemplo é a moeda nacional, o Franco CFA, que teve câmbio atrelado à força ao antigo Franco Francês e atualmente ao Euro.

Dividir para conquistar; cooptar ou buscar aliança com forças secundárias locais contra a força política principal existente, para em seguida dominá-las todas, inimigas ou antigas aliadas. Isto ocorreu no Benim e em vários países africanos, ocorreu também quando um punhado de espanhóis chegaram no Peru e despedaçaram o império Inca. Não é mera coincidência com o que está se desenhando no Brasil atual, onde aliás, nos primórdios da colônia, grupos indígenas foram instrumentalizados por Europeus como mão de obra ou de combate, e terminaram todos igualmente derrotados. É estratégia de comprovado resultado. A defesa? Cabe a nós nos unir com quem quer realmente resistir, ou corremos o risco de assistir à um novo velho filme : Colonização III – o Império Contra-Ataca, onde o produtor fica com todo o dinheiro da bilheteria e você, fechado, no escuro.

 

– João de Athayde é antropólogo, carioca residente na França (Aix en Provence). Ligado ao IMAF (Institut des Mondes Africains/ Instituto dos Mundos Africanos). Universidade de Aix-Marselha, França. Realiza doutorado sobre as heranças culturais ligadas ao tráfico de escravos no contexto do Atlântico Negro, em especial sobre identidade, religião e festa popular entre os Agudàs, descendentes dos escravos retornados do Brasil ao Benim e Togo, numa perspectiva comparativa entre a África e o Nordeste Brasileiro.

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.