A Casa mais Linda do Mundo

por Carlos Krebs, para o Duplo Expresso

INTRODUÇÃO

As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. Falo das casas, é claro. E mesmo sabendo que gosto é gosto, e cada um tem o seu, não admito discussões: a “Fallingwater House” (Casa da Cascata) é a mais linda do mundo.

“Rendering of Fallingwater” (Vista Artística da Casa da Cascata) por © The Frank Lloyd Wright Foundation Archives (1936)

Hoje talvez as casas sejam muito mais definidas pelos seus objetos e pela tecnologia, do que propriamente pelas pessoas e seus hábitos. Ou pelos seus desejos e o lugar onde eles encontram-se. O programa de necessidades tornou-se um rol de coisas e instalações a serem incorporadas no imóvel. O lugar é muitas vezes apenas um código numérico que define sua posição geográfica.

FRANK LLOYD WRIGHT

O arquiteto Frank Lloyd Wright é o responsável por esta preciosidade, mas quando fora contratado em 1934, já era uma figura com forte projeção no cenário estadunidense. Era reconhecido tanto pela qualidade do material que saía de sua prancheta de desenho, como pelas notícias de sua vida pessoal que volta e meia surgiam nos tablóides.

Os anos 20 foram especialmente difícies para Wright, que já passara pelo sua quinta década de vida com graves problemas financeiros e ingressara nos 60 com seus ideais arquitetônicos sendo recebidos com indiferença por um Estados Unidos com pressa em olhar para frente. Ao mesmo tempo que o país experimentava novas técnicas e materiais construtivos, o mercado ainda vendia casas por catálogos em um padrão estético preso ao século 19.

Imagem esq: “Capa do Catálogo de casas da Sears Roebuck & Cia” e imagem dir: “páginas internas exaltando as inovações oferecidas” por @ Smithsonian Museum (1938)

 

Talvez se possa dizer que, além de precursor do movimento moderno, Wright também antecipara a guerra fria… na arquitetura. Ainda casado com sua segunda esposa, envolvera-se com a dançarina montenegrina (de origem sérvia) Olga Ivanovna (Olgivana) quando ela fora apresentar-se em Chicago no ano de 1924. O problema é que ela também era casada, e com outro arquiteto – o russo Valdemar Hinzenberg

Mas nos anos 30, apesar da grande crise econômica pela qual passava o país, a maré pareceu mudar. Wright experimentava uma feliz estabilidade após a consolidação do casamento, e Olgivanna auxiliara-lhe duplamente. Primeiro no plano espiritual, com uma melhor compreensão do UnitarismoDE1. Depois no financeiro, com a criação da Fundação Taliesin, um misto de retiro rural com escola de arquitetura e artes no meio-Oeste dos Estados Unidos.

INFLUÊNCIA

A “Arquitetura Orgânica” de Wright servia como contraponto ao “International Style” proposto pela corrente europeia do modernismo. Entretanto, sua obra demorou muito mais tempo para também ser dscoberta e conhecida pelos estudantes de arquitetura da Europa. Isso ocorreu somente com a publicação de 100 litografias de seus projetos através do Portifólio Wasmuth em dois volumes (1910 e 1911).

Nos anos 30, quando o projeto desta casa foi realizado, Wright já desenvolvera as “Prairie Houses” (Casas da Pradaria). Essa série de projetos seriam uma representação arquitetônica baseada na paisagem do meio-Oeste estadunidense.

A escala humana seria o principal valor de um projeto arquitetônico, segundo Wright, o que alinha-se perfeitamente ao “Modulor” do franco-suíço Le Corbusier, que utilizava esta figura como padrão de escala para suas obras, ou, se observarmos com maior cuidado o passado, o “Homem Vitruviano” de Leonardo da Vinci.

FALLINGWATER

O milionário Edgar Jonas Kaufmann – dono de uma grande loja de Departamentos – foi picado pela mosca azul de Wright quando este comentou com seu filho – Edgar Kaufmann Jr. (que estudara arquitetura em Taliesin por um tempo) durante uma tarde na rica residência “La Tourelle” em Pittsburgh, onde viviam:

– “Edgar, esta casa não é digna dos seus pais…”

Kaufmann tinha uma propriedade com algumas cabanas que usava para fazer retiros com os funcionários em uma ravina profunda conhecida como “The Bear Run” (a Corredeira do Urso). Ele sonhava ter uma casa com vista para a cascata lá. Entretanto, a ambição de Wright convenceu-o a ter uma casa sobre a queda d’água. Assim nasceu a Kaufmann’s House, internacionalmente conhecida como “Fallingwater” (Casa da Cascata).

O projeto foi concebido como a casa completamente integrada àquela paisagem. Uma sobreposição de terraços, varandas e balcões de concreto armado apareciam ancorados por um núcleo central como se estivessem encravados em uma grande rocha.

Imagem esq: Plantas-Baixas da residência por @ Stefano Ranza (sem data); imagem dir: Fallingwater por © Jonathan Lin (2014)

Há uma tentativa de evitar-se ao máximo a existência de muros e paredes no perímetro visual da casa. A horizontalidade era reforçada pela visão de grandes panos de vidro e pelo balanço daquelas peças de concreto. Elas aparecem suspensas, como terraços flutuantes em meio ao verde no verão, ou cortando os troncos das árvores no inverno.

Funcionalmente a casa organiza-se em torno da grande área de estar. O efeito da luminosidade, do vento fazendo vibrar as folhagens, do barulho da água corrente e de algumas pedras que invadem os ambientes internos, provocam uma sensação de amplitude e liberdade.

O horizonte é expandido em todas as direções para onde se olha. Assim, o prédio torna-se uma das obras-primas de Wright dentro de sus conceitos de arquitetura orgânica, ou de suas máximas que pregavam a total integração entre arquitetura e natureza.

Fallingwater por © Ftunde(2015)
Fallingwater por © Lagodfrey82_2011
Fallingwater por © Lykantrop – 1 (2007)
Fallingwater por © Lykantrop – 2 (2007)
Fallingwater por © Lykantrop – 3 (2007)

CONSTRUÇÃO

Em determinado momento, Kaufmann mandou que o projeto de Wright fosse revisto por uma firma de engenharia. Ele colocara em dúvida se o arquiteto teria experiência suficiente no uso do concreto armado. Depois de receber o laudo, Wright ficou tão ofendido que imediatamente pediu ao proprietário a completa devolução de todos os seus desenhos, indicando que abandonava o projeto.

Kaufmann não resistiu à queda de braço, e acabou por pedir desculpas. O tal laudo estrutural foi posteriormente “emparedado” (literalmente) na casa.

Imagem esq: o local conforme era no início dos anos 30; imagem central: o mesmo ângulo já com as obras em andamento em 1936; imagem dir: a casa quase concluída no inverno de 1937.

Mais adiante, o empreiteiro responsável pela obra também não confiou nos imensos balanços do projeto. Por sua conta, acabou duplicando a quantidade de aço na estrutura, a tal ponto que, em alguns lugares, era quase imposível que o concreto recobrisse completamente a malha metálica…

VÍDEOS

“WPC Fallingwater Campaign Video”vídeo publicado por Western Pennsylvania Conservancy (2013) para captar recursos para a conservação do prédio.

 

“Fallingwater Aerials”vídeo publicado em Bauhaus Movement (2018) fazendo uso de drones.

 

ICONOGRAFIA

Esta casa possui uma imagem marcante que já foi retratada, desenhada e repetida diversas vezes. Procurando um pouco encontra-se um manancial enorme de belos trabalhos artísticos usando-a como modelo e proporcionando releituras bem interessantes. Aqui há alguns exemplares, com destaque para o italiano Federico Babina, que costuma criar inúmeras séries de ilustrações usando como tema pontos específicos de obras de arquitetura e dos seus arquitetos.

Imagem 1: “Wright”, na série “Archiline” por © Federico Babina (2016); imagem 2: Fallingwater por @ Alan Nagle via Behance (sem data); Imagem 3: “Logotipia Fallingwater” por © Be Chanlimcharoen (2016); imagem 4: “Fallingwater” por © Jess Nordquist via Cargo Collective (2011)

No ano da morte de Frank Lloyd Wright (1959), Alfred Hitchcock tinha a intenção de ter uma casa projetada por ele no alto do Monte Rushmore, junto do grande monumento estadunidense em “North by Northwest” (Intriga Internacional). Não sei se o orçamento não permitiu esse arroubo, ou se Wright não teria aceito, mas o certo é que o diretor acabou usando uma casa para instalar o vilão que “homenageia” a Fallingwater…

Imagem esq: poster do filme “Intriga Internacional” (1959); imagem central: esboços de Robert F. Boyle para a casa utilizada no filme; imagem dir: still do filme “Intriga Internacional” com  Gary Grant correndo na direção da Vandamm House (clique na imagem para assistir ao trailer)

 

CONCLUSÃO

Em outubro de 1963, na cerimônia de cessão da casa ao Western Pennsylvania Conservancy, Edgar Kaufmann Jr expressou:

“Projetado para este cenário, a casa dificilmente estaria acabada antes que sua fama circulasse a Terra; ela foi reconhecida como um dos mais claros sucessos do gênio americano – Frank Lloyd Wright. Sua beleza permanece fresca como a da natureza na qual se encaixa. Serviu bem como uma casa, ainda que sempre tenha sido mais do que isso: uma obra de arte, além de quaisquer medidas de excelência. (…) A casa e o lugar juntos formam a própria imagem do desejo do homem de estar em harmonia com a natureza, igual e unido à natureza.”

A casa apresenta influência da cultura japonesa, com o respeito ao meio natural e a busca pela fusão entre o meio natural e o meio construído. Do Oriente, certamente Wright trouxe a ideia do enquadramento, da partição, da moldura da natureza. Para melhor compreendê-la, era necessária a divisão do todo como forma de melhor entender cada uma de suas partes…

Assim, mais importante que criar um local onde o foco de todos estaria em enxergar de dentro para fora uma queda d’água – conforme a intenção inicial do proprietário –, prevaleceu a ideia do arquiteto: a casa como parte integrante do meio natural. Desde a inauguração, ela tornou-se o ponto focal de quem está fora dela. Quem experimenta, usa ou visita a casa sente-se como parte uníssona da natureza que a cerca.

 

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Carlos Krebs é arquiteto, cinéfilo, explorador de sinapses, conector de pontinhos, e mais um que acredita que o Brasil ainda tem tudo para dar certo.

DE1 – O Unitarismo (ou Unitarianismo) é uma corrente teológica que afirma a unidade absoluta de Deus. Há dois ramos principais: O primeiro, constituído pelos unitários bíblicos que consideram a Bíblia como única regra de fé e prática; o segundo, surgido nos Estados Unidos, constituído pelos unitários universalistas,  que pregam a liberdade de cada ser humano para buscar a sua verdade, e a necessidade de cada um buscar o próprio crescimento espiritual sem a necessidade de religiões, dogmas e doutrinas.

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