A indústria da morte – Mesmo morto, brasileiro segue explorado e humilhado

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Aquele ditado: ‘Fulano não tem nem onde cair morto”, é uma realidade no Brasil de hoje. Em vários estados brasileiros os cemitérios estão sendo privatizados. Somente no exemplo de São Paulo, Dória quer privatizar 22 cemitérios. Com isso as famílias pobres terão que enterrar os seus entes queridos no quintal, isto se tiverem um quintal.

As pessoas serão obrigadas a pagar taxas de até R$600,00, para poderem ter os seus parentes enterrados dignamente. Esta política neoliberal de querer lucrar até com a morte das pessoas é algo aterrador!

A falta de sensibilidade das autoridades impressiona pelo cinismo. O secretário de Obras e Serviços, Marcos Penido, em 2017 deu uma entrevista para apresentar a sua visão de que “negócios” os empresários poderão fazer nos cemitérios, além das taxas pelas covas: poderão explorar uma série de serviços – como cobrança de estacionamento, de taxa para uso dos velórios, locação de espaços publicitários e de lojas para artigos religiosos e flores – também como receitas acessórias. Em troca, ofereceriam serviços como Wi-Fi público. Seria lindo se não fosse lúgubre!

Quem diabos vai querer serviço de wi-fi no cemitério? As pessoas vão para rezar, se despedir ou vão somente em datas especiais, raras são as pessoas que visitam o cemitério semanalmente. Para famílias que não possuem renda, Doria irá acabar com a permissão para o sepultamento em covas rasas, que é feito hoje, e pretende enterrar essas pessoas em covas com até três caixões, amontoando os cadáveres para “aproveitar melhor o espaço”. É a institucionalização da “vala comum”. Uma ideia macabra!

No Rio de Janeiro é a mesma coisa. Em 2014 o município do Rio de Janeiro passou a administração dos 13 cemitérios públicos da cidade às empresas Rio Pax e Reviver. Quem está inadimplente com as taxas de manutenção do cemitério atrasadas, terão os restos mortais de seus entes queridos removidos. Um exemplo disso aconteceu com um homem que comprou um jazigo duplo com concessão vitalícia, para que seu filho, morto aos 22 anos, fosse enterrado no local. Por meio de uma reportagem de TV, o homem soube, que o cemitério exumou 20 corpos, sem o conhecimento de familiares, e os depositou em covas comuns, juntamente a restos mortais de indigentes.

Como justificativa, a empresa alegou que o pai estava inadimplente com as parcelas mensais de manutenção e que o contrato de compra e venda de túmulo prevê a retirada do corpo e a alienação do jazigo, em casos da falta de pagamento. Zé do Caixão não seria tão criativo.

Graças a uma liminar em 2018, a justiça suspendeu o pagamento das taxas de manutenção por considerar abusivas. Várias famílias durante anos pagaram essas taxas de manutenção dos jazigos perpétuos para engordar os bolsos dos “coveiros de ouro”. Mas em compensação as famílias pagam a taxa de exumação em torno de R$ 600,00, antecipadamente, valor que deveria ser pago somente após 3 anos do falecimento de uma pessoa. Eles perdem de um lado e ganham de outro.

No mundo capitalista adquirimos bens e continuamos pagando por eles o resto da vida. E não poderia ser diferente na morte. Pagamos caro para viver e continuaremos pagando caro para morrer. Somos escravos desse sistema e o mais triste é que a maioria das pessoas não reflete e não se dá conta disso. Pagamos as maiores taxas de juros do mundo! O mercado vibra e lucra, enquanto pagamos a conta. Os bancos nunca lucraram tanto, estão privatizando tudo, para poder nos explorar mais!

Pagaremos contas cada vez mais altas, de transporte, saúde, escola, universidade, luz, gás, água, cemitério, etc. até não podermos mais e sermos descartados. Trabalharemos para que os invisíveis do grupo 1% fiquem cada vez mais ricos e poderosos, comprando a política, a imprensa e a justiça! Somos 99% de zumbis?

O custo da morte

Morrer pode custar caro, mas esta escolha não depende de nós e geralmente a morte nos pega de surpresa. Interessante como este é um assunto que evitamos conversar, logo o que temos de mais certo nesta vida é que um dia iremos morrer. E numa sociedade capitalista como a nossa, os nossos restos mortais podem se transformar em um grande mercado lucrativo ou numa enorme dívida ou dor de cabeça para nossos herdeiros. Quem opta por comprar um jazigo eterno em um cemitério particular terá que pagar uma taxa de manutenção do terreno, que os familiares podem não estar preparados para arcar com este custo mensal eterno!

Os nossos restos mortais se transformarão em um instrumento de lucro eterno para as empresas privadas do ramo, e quem não pagar estas taxas terão os seus parentes exumados. Imaginem o que os seus netos farão ao descobrir que irão retirar os restos mortais de “vovó” e “vovô” do cemitério por falta de pagamento.

Esta realidade não é diferente nos cemitérios municipais, agora em sua maioria privatizados. Quem não puder pagar as taxas de manutenção, poderá ter os restos mortais dos seus entes queridos retirados ou se surpreender ao saber que já foram descartados em uma vala de indigentes. É o neoliberalismo do além!

As despesas com todo o serviço funerário poderíamos classificar como: “SUPER VIP”, “VIP”, “MASTER”, “PREMIUM”, “CLASSIC”, “STANDART” E “KIT BÁSICO”. Se escolhermos o Classic as despesas chegam a R$ 20.916,47, dependendo do tipo de caixão escolhido, enfeites florais, mesa de condolências, véu e velas, o “kit funeral básico” (que chique!) na Cidade de São Paulo, no mínimo fica em torno de R$ 668,34, isto num cálculo otimista.

No Rio, qualquer carioca paga, no mínimo, R$ 220 de taxa de sepultamento numa cova rasa, além do aluguel da capela, que chega aos R$ 500. E tem que desembolsar ainda a taxa antecipada de exumação de R$ 529,00. Esses valores podem ter sido reajustados, este é apenas um demonstrativo para servir de base para nossa análise. Se viver já é difícil, morrer está ficando cada vez mais complicado.

Não nos cabe aqui fazer juízo de valor sobre as crenças de cada um, cremar ou enterrar – temos apenas essas duas opções. Cada indivíduo deve ter o direito de escolher o que acha ou acredita ser o mais digno para fazer com  os restos mortais dos seus entes queridos. Do jeito que as coisas estão, o que vai restar às famílias é comprar terreno no céu na mão de algum “pastor bem intencionado”, registrar um imóvel por lá e pedir aos cemitérios que enviem as faturas para aquele “endereço celestial”. Vai que algum anjo sensibilizado pague a conta…

O mais importante que gostaríamos de destacar neste texto é a crueldade do nosso sistema capitalista. Apesar de todos nós sabermos que vamos todos para debaixo da terra, ricos e pobres, não interessa se é em uma caixa de madeira barata ou de mogno.

O que queremos destacar, e levantar para o debate, é que até na hora da morte somos explorados. E se depois de mortos ainda não dermos lucro, se o “defunto” der prejuízo, é descartado. Assim como os pobres sem poder de consumo na nossa sociedade, se não podem consumir viram uns “walking deads” e são descartados em vida. Isso quando não são assassinados pela política de extermínio promovida pelo Estado para matar negros, jovens e pobres ou são jogados nas valas de indigentes, as prisões, assim como fazem com os mortos.

Ser pobre é estar “morto” na nossa sociedade. É mais importante para o neoliberalismo um morto que dê lucro, do que salvar uma vida da pobreza. Reaja agora ou descanse em paz (se tiver dinheiro para comprar a sua paz).

A propósito deste debate…

Quando eu morrer quero ficar 
Quando eu morrer quero ficar, 
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade, 
Saudade. 

Meus pés enterrem na rua Aurora, 
No Paissandu deixem meu sexo, 
Na Lopes Chaves a cabeça 
Esqueçam. 

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano: 
Um coração vivo e um defunto 
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido 
Direito, o esquerdo nos Telégrafos, 
Quero saber da vida alheia, 
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade. 
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Mário de Andrade ANDRADE, M., Lira Paulistana.

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Wellington Calasans

Jornalista, Radialista, Ativista Político, Sonha com um Brasil parecido com a Suécia e uma Suécia com o sol do Brasil, o sonho é livre.