Dois caminhos pós 2008: liberalismo X desenvolvimentismo

Por Hélio Pires¹, Gustavo Galvão² e Rogério Lessa³, para o Duplo Expresso

Temos descrito sobre a Crise Mundial de 2008, sob a ótica dos fundamentos das Finanças Funcionais, tanto em “Liberalismo: ‘fake news’ ou ‘bad news’?” como em “A saída da crise ao alcance da mão, Parte 1: Ciclo político, democracia e bilionários” e “A saída crise ao alcance da mão, Parte 2: o emprego e ‘o Grande Banco'”.

Uma década após o evento ainda vemos reflexos mundiais. Por um lado, uma que exclui: baixo crescimento econômico, desemprego, concentração de renda, crise dos imigrantes, descontentamento sociais e fortalecimento da direita política. Por outro lado, outra inclusiva: um projeto de desenvolvimento econômico e logístico que se espalha por regiões do globo! Acreditamos que isso acontece por escolhas da economia política: liberalismo X desenvolvimentismo!

A dos 1% – o lado ocidental – a visão de mercado

O bloco ocidental compreendido pelos grandes países da América do Norte, Europa, Reino Unido e o Japão (do lado oriental) seguem uma visão liberal no discurso político mantém uma intervenção estatal no sistema financeiro e deixam os setores reais se arrastando com baixo crescimento.

A crise ao reduzir a renda e consequentemente as receitas fiscais provocam déficits fiscais. Isso acontece de forma não planejada e de certa forma é um amortecedor da queda da atividade econômica, mas não a restaura completamente. A resultante é um crescimento pífio que se arrasta mantendo desempregos ou empregos de baixa qualificação. A classe média e os trabalhadores empobrecem. Politicamente esse quadro de insatisfação e carências tende a fazer que as pessoas tendam para o individualismo para o espectro da direita devido a rejeição ao que possa representar “o que vem de fora” aquele que vem para “roubar meu emprego ou minhas coisas”, mesmo que seja um patrício!

Esse ambiente gera um círculo vicioso de beligerância e guerra tanto real como comercial, o ganho fica pequeno para tantos.

Apesar do “mainstream” criar até um conceito de baixo crescimento como um “novo normal” do século XXI isso não resiste aos fatos. Vimos, ao longo destes 10 anos, as autoridades governamentais injetando “tsunamis” de liquidez nos ativos financeiros especulativos e “produtos estruturados” favorecendo ao grupo agora denominado “os 1%” e por outro lado rigores fiscais prejudicando os denominados “99%”.

Isso não vai dar certo, já se vão 10 anos, do pós-crise, de baixo crescimento tanto nos EUA como na Europa (Zona do Euro). O processo especulativo gerando novamente momentos “Ponzi”, com “bolhas financeiras”, capitaneados por “administradores de dinheiro”, como Minsky definia, foram reestabelecidos, então, pelo ambiente econômico desigual, outra crise pode acontecer não é um evento improvável. Como exemplo, vemos que o PIB estadunidense cresceu de 2008 a 2017, em termos reais, 17( ou 1,7% a.a.) % e o Dow Jones principal índice da NYSE (http://www.macrotrends.net/1319/dow-jones-100-year-historical-chart) subiu, em termo reais 95%, de setembro de 2008(mês da crise) dos 12 748 pts aos 24 271 pts, em 29-06-2018. Não há desigualdade nisso?

Desde 2008, vivemos sempre com uma sensação que a crise “ronda a porta”! A história demonstra que não são as políticas liberais que tiram o Ocidente da recessão, ao contrário, elas conduzem-no às crises sérias. Tanto em 1929 como em 2008 foi a intervenção do “Grande Governo e do Grande Banco” à la Minsky” que salvou o sistema capitalista. Então, não foram as leis liberais do Estado Mínimo, ao contrário, foram as medidas heterodoxas desenvolvimentistas dos Estados Fortes sobre o espectro político da social democracia ou também conhecida como o “Estado do Bem- Estar Social” que alcançaram o Pleno Emprego. Tanto na Europa como nos EUA foram anos de fartura e felicidade. O mundo aprendeu por repetição histórica que só as medidas desenvolvimentistas de um Estado atuante da social democracia é o antídoto às leis ortodoxas do liberalismo.

Mas então, por que, o crescimento não se manteve permanentemente? Em “A saída da crise ao alcance da mão, Parte 1: Ciclo político, democracia e bilionários” e “A saída crise ao alcance da mão, Parte 2: o emprego e ‘o Grande Banco'”, descrevemos que Kalecki dizia que os empresários tão logo a Economia saia da crise agiam politicamente para retirar o Estado de cena e a Economia do Pleno Emprego para voltar as práticas liberais; já Minsky explicava que períodos longos de crescimento tendem a diminuir a aversão ao risco pelos empresários que tornam-se mais ousados e tendem de novo à operações especulativas, ao endividamento excessivo (“Ponzi”) e formações de bolhas.

Infelizmente, será preciso um novo terremoto econômico para voltarmos às práticas desenvolvimentistas do “Estado do Bem-Estar Social” em que todos ganham, empresários e trabalhadores? É cruel, o mundo acumula conhecimento histórico tanto para avaliação prévia de situações de instabilidade quanto dos instrumentos para levar a Economia ao Pleno Emprego, entretanto, governantes só as usam nos pós crise!

A dos 99%- o lado oriental – a visão desenvolvimentista

No pós 2008 é certo que o Oriente também sofreu uma interrupção no processo de crescimento, mas foi de menor monta e de menores reflexos que o Ocidente. Dos grandes países orientais, mais a Rússia e menos China/Índia/Coréia do Sul sofreram consequências. A Rússia sofreu pela questão da queda da cotação do petróleo &gás, mas já se recupera. Mas Putin não perdeu tempo, aproveitou a crise e a queda da cotação das ações para consolidar o controle acionário para o Estado e transformar a Gazprom (A Petrobras poderia ter realizado o mesmo procedimento deles) na maior empresa de energia do mundo.

Os grandes países orientais adotaram uma postura cooperativa e desenvolvimentista com perspectivas de planejamento de médio e longo prazo e grandes Projetos de Desenvolvimento.

Não incluímos nesse conjunto o Japão/Cingapura e os países do Oriente Médio, por suas posturas liberais e ocidentalizados, fora do perfil desenvolvimentista e mais ortodoxos no campo econômico.

Capitaneados pela China e apesar de fricções políticas históricas estão tentando cooperações em torno de monumentais projetos comerciais de integração e logística que se espalham com reflexos por todos os continentes. O Brasil se incluía pelo BRICS, mas após 2015, como acompanhamos, perdeu seu perfil cooperativo/inclusivo! Agora, segue o mais puro modelo liberal, “austericida” e com um grande exército industrial de reserva.

Enquanto no Ocidente os dois grandes blocos econômicos se atritam em querelas comerciais, no Oriente as parcerias se consolidam a exemplo da Organização de Cooperação de Xangai com os seguintes membros: China, Rússia, Índia, Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão além de Iran e Turquia como observadores.

Então, quem foi mais eficaz quanto ao enfrentamento da crise?

Os países do Ocidente liberal que injetaram liquidez no sistema financeiro todo tempo, enquanto deixaram “ao relento” seus setores reais, sob os rigores fiscais, com desemprego, ou o Ocidente com políticas governamentais de gastos fiscais, incentivos e aceleração do Desenvolvimento Inclusivo?

Então, vamos aos números:

Bloco Ocidental: “montado” com a participação dos EUA e Zona do Euro com um PIB total somado de US$ 30,5 trilhões, em 2017, com um crescimento real (ponderado pelos respectivos PIB’s) de 2008 a 2017 de 1,4% a.a.; taxa de desemprego (ponderado pelos respectivos PIB’s) de 5,6% em 2017. O Bloco veio de um crescimento real de 2,8% a.a. entre 2001 a 2008. Portanto, uma queda de 50,7% no ritmo de crescimento.

Bloco Oriental: “montado” com a participação da China, Rússia, Índia e Coréia do Sul com um PIB total somado de US$ 16,2 trilhões, em 2017, com um crescimento real (ponderado pelos respectivos PIB’s) de 2008 a 2017 de 7,7% a.a.; taxa de desemprego (ponderado pelos respectivos PIB’s) de 3,6% em 2017. O Bloco veio de um crescimento real de 8,9% a.a. entre 2001 a 2008. Portanto uma queda de 13,5% no ritmo de crescimento.

Então, o Bloco Oriental com sua orientação governamental e planejada para o desenvolvimento futuro no médio prazo, demonstra mais saúde financeira!

E o Brasil? Prefere abandonar o bloco vitorioso e escolhe uma postura econômica liberal de mercado! Tsc, tsc!

Portanto, 99%, UNÍ-VOS!

EUA, Europa e países emergentes enfrentaram a crise de formas diferentes. Quem foi mais eficaz? EUA, Europa e Reino Unido sustentaram seus sistemas financeiros, e deixaram os setores reais caírem em recessões profundas. Os déficits fiscais oriundos da queda das receitas e a manutenção dos gastos públicos amorteceram a crise, mas não restauraram o crescimento robusto. Só o crescimento liderado pelo Estado vai permitir que os países se recuperem plenamente, reduzindo o endividamento privado. A China, usou estímulos fiscais. Nações emergentes foram beneficiadas pela manutenção da bolha das “commodities”.

1 Economista aposentado do BNDES

2 Economista do BNDES, doutor em economia pela UFRJ

3 Jornalista Econômico da AEPET – Associação de Engenheiros da Petrobras

 

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