Gabinete do golpe: duas vezes racismo

Gabinete do golpe (o “GOLPINETE”): duas vezes racismo

Racismo (1)

Muitas pessoas demonstraram incômodo com a falta de diversidade no gabinete do golpe – que passo a chamar de “golpinete” – em pleno Séc. XXI.

Fora do país, lembro-me de cabeça de tuite incrédulo de Christiane Amanpour, da CNN, que acabara de vir a Brasília entrevistar Dilma – a primeira mulher presidente – semanas antes. Lembro também de tuites de de diversos correspondentes estrangeiros no Brasil, como Alex Cuadros, Glenn Greenwald e Vincent Benvis, entre outros.

Internamente, o assunto monopolizou as discussões na blogosfera e nas redes sociais na sequência da cerimônia de posse do “golpinete” no Planalto. Tais discussões sempre anotavam a ausência de negros, índios, mulheres e pessoas com deficiência no mesmo.

Acrescento que mesmo jovens são poucos.

É um gabinete basicamente de homens brancos entre 55 e 75 anos. Todos veeeelhas raposas felpudas – fora um “gato angorá” no meio (“Gato angorá”? Ah… saudades eternas de Brizola…). Se não velhas rapoza, seus filhos – devidamente indicados como seus prepostos no “golpinete”.

O grão-mestre golpista não quis nada diferente disso. Ou teve de aceita-lo por imposição dos fiadores de sua usurpação do poder.

Que fiadores são esses?

– Deputados e senadores, ora!

Não a FIESP, nem a imprensa familiar e nem os moralistas seletivos das marchas.

Aliás esses pseudo-moralistas ainda existem? Cadê MBL? Vem pra Rua? Revoltados?

Hmmm…

Certamente a FIESP não gostou do Bispo da Indústria e Comércio. Terá sido ele ungido pela Igreja Universal (IURD) numa Sessão do Descarrego de impostos, leis trabalhistas, custo Brasil e juros altos? Faria sentido, não é? Mas não foi. Bastou para tanto a cota prevista para abrigar o PRB, da IURD, no “golpinete”.

Já sabemos também que Miriam Leitão tampouco gostou da falta de diversidade na Esplanada dos Ministérios. Fez um artigo logo na segunda-feira seguinte para colocar a devida distância entre ela e o “golpinete”.

– Boa tentativa, Miriam. A distância passou para 1mm agora. Antes era 0.

Em relação aos grupos do moralismo seletivo, não sabemos se há insatisfação com o “golpinete” ou não. Por quê? Porque ninguém sabe deles… ninguém viu…

* * *

A Bomba

Agora é que a coisa fica interessante, leitores.

Vou nada menos que defender o “golpinete” dessas acusações!

Bom, parcialmente ao menos: quero defender o “golpinete” da acusação de racismo.

Calma! Não me apedrejem – ainda.

O “golpinete” só é considerado como contendo exclusivamente homens brancos no Brasil, em que raça – além de pigmentação da pele, feições e cabelo – tem um componente econômico-social relevante.

Quem pode se esquecer do anedótico caso de Machado de Assis, nosso gênio da raça (qual raça?), que nasceu mulato e morreu branco? Era uma coisa na sua certidão de nascimento e outra na de óbito.

Fora Machado só outro realizou a façanha: Michael Jackson.

Mas será mesmo?

No caso de mestiços – a mestiçagem é a regra no Brasil – há uma flexibilidade enorme na classificação social de pertencimento ou não a determinada raça. Há muitos que se declaram brancos, mas cujas peles não são lá tão alvas assim. Quando se deparam com olhos inquisidores diante de tal auto-declaração, invariavelmente respondem que são “morenos de praia” em vez de mulatos.

Pois bem. No Brasil – caso vistam a roupa certa, dirijam o carro adequado, morem num condomínio bacana e tenham um salário elevado – nunca serão questionados quanto a sua auto-declaração de “brancos”. Novos Machados de Assis surgem todos os dias no nosso país. Pena que lhes falte o mesmo talento.

E o que isso tem a ver com este post e com o “golpinete”?

Ora! Digo que há vários “Machados” no “golpinete”.

Há outros, mas três bem evidentes são Eliseu Padilha, Henrique Eduardo Alves e Mendonça Filho.

Pergunte a qualquer americano ou europeu e dirão que não são “homens brancos”. Pelo menos não homens apenas brancos. São exemplos evidentes da miscigenação brasileira e da lei Machado de Assis: em virtude de seu status econômico-social fizeram-se “brancos” apenas.

Não sou especialista em etnias e seus traços fenotípicos, mas arrisco dizer que Padilha e Alves apresentam nas feições traços de mistura de brancos e negros em algum grau, enquanto que Mendonça entre brancos e índios.

Vejam as fotos que ilustram este post e digam se estou errado.

Se acharem, perguntem para amigos americanos ou europeus (independentemente de suas raças). Americanos, seguidores do “uma gota de sangue conta”, ou one drop counts, dirão sem nenhuma hesitação que nenhum dos três é branco.

* * *

Racismo (2)

Agora é que a coisa fica mais interessante ainda:

O racismo é tão forte no Brasil – e em especial nos círculos que os do “golpinete” frequentam – que eles não ousaram usar a cartada acima diante das críticas.

Os três que menciono não consideraram por 1 segundo refutar a crítica de viés racial na seleção de ministros dizendo que “não eram nada de homens brancos”. Imagina se fariam uma coisa dessas!

Os demais, brancos brancos, podem ter pensado nessa resposta cabal, mas – no Brasil do racismo velado e do contorcionismo racial – não ousariam “desabonar” os três colegas como sendo exemplos de ministros não-brancos. Ainda mais publicamente, não é mesmo? A cordialidade à brasileira não aprovaria isso. Melhor ser taxado de governo racista, ora.

Como resultado, ficamos então com o gabinete de:

(i) homens;

(ii) “brancos”;

(iii) beirando ou na terceira idade.

Ou seja, com essa segunda dose de racismo, prefere-se ser branco até quando sê-lo lhe torna alvo de críticas de racismo. E isso num momento extremamente sensível politicamente.

Resumo:

– Para eles, melhor ser racista do que mulato!

* * *

E viva o Brasil-sil-sil!

* * *

Ah, então eu, neste post, absolvi o “golpinete” da acusação de viés racial e de refletir o racismo que reina na sociedade brasileira…

De forma nenhuma!

Muito pelo contrário!

Pelas linhas que vão acima digo que o “golpinete” é, não uma, mas duas vezes racista:

(a) Racismo 1 – não contém nenhum membro com traços fenotípicos inegavelmente relacionados aos grupos étnicos desprivilegiados (negros e índios) – mesmo com a “boa vontade” do contorcionismo racial brasileiro; e

(b) Racismo 2 – os mestiços do “golpinete” não cogitaram em momento algum dizerem-se não-brancos. Nem para se ajudarem.

* * *

Tudo isso é sintomático desse novo Brasil pós-democrático.

Que em tudo lembra o veeeeeelho Brasil.

(longo suspiro)

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.