Carta aberta a Flávia Piovesan (e Marcelo Calero), por Romulus


Por Romulus

Discurso altruísta, menos verossímil que a alternativa, é muito comum entre colaboracionistas com problemas de consciência e de censura entre os pares.

Poupe-se do esforço das entrevistas e do vexame de tentar novamente aplicar photoshop à foto em que saiu muito mal.

– Interlocutor: “Vergonha eu tenho da Piovesan. De gente carreirista como ele (Calero) só se espera isso mesmo. O cara que não sabe nada e topa qualquer coisa”.

A diferença entre identificar uma oportunidade e ceder ao oportunismo.

* * *

À Profa. Dra. Flavia Piovesan,

Como colega da área do Direito Internacional, muito próximo à comunidade dos Direitos Humanos (DDHH) nacional e internacional, digo que esse seu act de “independente” na entrevista concedida à BBC Brasil hoje não colou. É claramente jogo combinado com a chefia numa iniciativa de damage control – para ele (um mea culpa insincero) mas também para si.

No subtexto tenta articular o único discurso não desabonador de si para a aceitação do convite. Em vez de token woman/human rights activist, um bibelô dos Direitos Humanos e do “mundo feminimo” (sic), trazida para adornar o gabinete do golpe e da repressão, tenta mostrar-se como a coleira – “independente” – que vai segurar o pitbull.

Esse discurso altruísta, menos verossímil que a alternativa, é muito comum entre colaboracionistas com problemas de consciência e de censura entre os pares. Sinto informar que a a reedição do discurso por si não colou nem na academia nem tampouco entre ao ativistas de DDHH.

Melhor ficar com o discurso de primeiro impulso: por ter muita reverência ao antigo orientador – Temer – não se sentiria à vontade para recusar um convite dele.

Também é inverossímil no contexto que vivemos, mas menos que o discurso “altruísta”, do “fui para o sacrifício por amor à causa”. Sinto muito, mas a parte em que assegura que “(seu) partido são os Direitos Humanos” não logra o seu intento. Não a afasta 1mm do partido a que você aceitou servir: o velho PMDB – de Cunha, Temer e Padilha (entre outros). O partido do golpe.

Poupe-se – e a nós também – desse inglório esforço nas entrevistas e do vexame de tentar novamente aplicar photoshop à foto em que saiu muito mal. Já deram muitos print-screen na foto antes das tentativas de retoque e a mesma já viralizou nas redes.

Pode não ter sido sua ideia ao aceitar o convite, mas recomendaria daqui por diante manter um low profile para fora do governo. Para dentro não tenho dúvida que assim será.

Sintomático do constrangimento geral, em nenhuma das listas de email de professores de direito internacional comentou-se o convite. Muito menos a aceitação por você. Fosse em outro governo haveria muita comemoração pelo seu currículo. O pretérito, evidentemente.

O recato e corporativismo dos sêniores da academia resultam na observação à máxima: “se não tem algo bom a dizer, não diga nada”.

O mesmo não posso dizer dos Professores, doutorandos, mestrandos e ativistas mais jovens. Minhas timelines no Facebook e no Twitter foram inundadas – ontem e hoje – de mensagens de repúdio. Mais ou menos “incisivas”.

Na verdade, lamentou-se muito mais a sua aceitação do convite do que aquela de um egresso da UERJ e da diplomacia – Marcelo Calero – para a Secretaria da Cultura. Calero é pessoa totalmente alheia à área cultural.

Para não ser injusto baseado tão somente no estranhamento entre ele e a Cultura, fui me informar sobre sua passagem – de menos de 1 ano! – como Secretário de Cultura no Rio.

Disseram-me:

– Sua gestão representou uma melhora sim. Mas não é difícil ser melhor quando o que havia antes era terra arrasada. É totalmente alheio à área cultural e só chegou à secretaria do Rio em dança das cadeiras. Porque tinha afinidade com a chefia e foi lá encaixado para permanecer próximo.

Ainda a propósito dos convites aceitos pelos dois, vou reproduzir mensagem bem sintética que recebi de outro acadêmico do Direito Internacional:

– Vergonha eu tenho da Piovesan. De gente carreirista como ele só se espera isso mesmo. O cara que não sabe nada e topa qualquer coisa.

Depois disso fica difícil acrescentar qualquer coisa, não é mesmo?

* * *

P.S.: Álibi jurídico lamentável para integrar o gabinete do golpe:

BBC Brasil: Algumas mulheres recusaram a pasta da Educação e até argumentaram que não fazem parte de um ‘governo golpista’. Alguns de alunos seus também criticaram a sua decisão de assumir a Secretaria de Direitos Humanos.

Piovesan: Eu tenho profunda admiração pela presidente Dilma e profundo respeito por ser a primeira mulher a exercer a Presidência da República. Agora, como professora de Direito Constitucional, não vejo qualquer golpe. A Constituição prevê no artigo 85 o crime de responsabilidade, que é regulamentado pela lei de 1950. É um tipo aberto a elemento de politicidade e que passa por um juízo político que é o Senado.

Então, o julgamento é político. O crime é político. Tanto é que a posição do Supremo, na minha opinião, é tão somente fiscalizar a lisura procedimental, se os procedimentos foram adequados, e não reverter a decisão do Senado.

Então, eu creio que foi um processo doloroso sim, mas, na minha opinião e com todo o respeito a opiniões diversas, eu não vejo golpe.

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.