Em tempos de tantos desmandos, descasos e desconhecimentos em torno da pandemia, sejamos como as formigas.

Por Ricardo Guerra

 

Acordei hoje, como todos os dias, com a minha cachorrinha com os olhos esbugalhados, compenetrada a me fitar, repetindo com o seu olhar meigo, o seu pedido diário: vamos descer, vamos, vamos, vamos!

Eram cinco horas e sol estava apresentando seus primeiros sinais de luz, na última semana do mês de maio, dando vida a rua onde moro, aqui num dos bairros mais tradicionais de Recife, capital de Pernambuco. 

Ao lado do prédio no qual resido, muro com muro, existe um supermercado em frente a uma loja de revenda de automóveis e, na esquina contrária, um bar e uma igreja, em cujos fundos se encontra um hospital da rede privada de saúde.

No supermercado, próximo ao portão por onde entram as cargas e mercadorias, ao menos seis pessoas encontravam-se aglomeradas: o vigilante da loja de carros e os fornecedores aguardando a chegada da pessoa encarregada de abrir o portão para receber os produtos que diariamente são postos a venda no estabelecimento comercial. Todos estavam sem máscaras, sem luvas e sem demonstrar se importar ou temer os riscos para com a própria saúde e a saúde das demais pessoas que, em breve, iriam escolher e comprar as frutas, verduras e outras iguarias por eles manuseadas.

Sentindo-me impotente diante da situação, caminhei na direção contrária, onde, na outra esquina, avistei deitado na escadaria da igreja, um rapaz que passa os dias e noites oferecendo o serviço de “flanelinha”, tomando conta e lavando os carros dos frequentadores da igreja e do bar, que fica do lado oposto da rua. Ele também não usava máscara.

Com o bar e a igreja com atividades suspensas por decreto governamental, ele tenta conseguir fregueses junto com outro flanelinha que atua na área do hospital, e que, da mesma forma que ele, também não usa máscara.

Fui caminhando em sua direção e ofereci duas máscaras que separei, dentre as que comprei para uso, meu e da minha família, e digo para que use uma máscara pela manhã e outra à tarde, em forma de revezamento, orientando-o a lavar com água e sabão cada vez que trocar. Ele então me respondeu: “eu não vou usar isso, vai assustar meus clientes”.

Após minha insistência e outra orientação, talvez pela consideração que o mesmo tem por mim, em virtude de receber uma cesta com produtos alimentícios (uma vez por mês), ele concordou em seguir o que lhe foi orientado. Pedi, também, que entregasse duas máscaras para o outro “flanelinha” e lhe repassasse minhas orientações.

E, para minha grata surpresa, os vejo, desde então, fazendo o uso regular da máscara. 

Nesse período, descobri que ele não tinha acesso a celular, não tinha documentos com foto, (apenas CPF) e estava tentando se cadastrar para receber o auxílio emergencial, sem obter êxito. Através de contatos no meio familiar, conseguimos fazer seu cadastro, e, para nossa felicidade, ele foi contemplado e já conseguiu receber a primeira parcela do benefício.

Sentindo revigorar em minha alma um lampejo de esperança, percebo que apesar de ser algo tão pequeno e apenas pontual,  podemos agir, mesmo que seja atuando no estilo “formiguinha” e oferecer uma parcela de nossa contribuição para ajudar a minimizar a situação caótica que estamos vivendo e interceder de forma positiva nessa realidade.

Nesse momento que finalizo esse relato, uma ideia me chegou a mente: posso escrever um e-mail para a direção do supermercado e apresentar a situação que tanto me incomoda e todos os dias presencio. E,  mesmo sabendo que o fato acontece na rua, nos momentos antecedentes a entrada dos produtos ao depósito do mercado, movo-me pela esperança de que a gerência do mercado tome alguma providência no sentido de orientar seus fornecedores e,  até mesmo, de determinar normas de condutas preventivas nesse procedimento.

Assim, como fazem as formigas, acredito que podemos unir nossas forças, e dar, cada um de acordo com sua possibilidade, nossa contribuição.

Vamos?

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