Hy-Brazil: quando o Carnaval passar

em 15/04/2016:

esta crise se tornou maior do que tudo e do que todos. é a crise de todos nós.

não é apenas uma crise política, agravamento de uma crise financeira e econômica, tornando-se uma crise institucional.

numa camada mais profunda, há uma inédita e incontornável crise climática desencadeando uma crise da civilização.

este modelo, em sua totalidade, está em colapso. dele nada se espere, somente a certeza de que não sobreviveremos.

– gerado pelo cruzamento da crise econômica com a crise de representação, e apesar de eleito como candidato anti-sistema, Bolsonaro já não tem como mascarar com fake news a verdade de ser nada menos do que ainda muito mais do mesmo: mais inadimplência, menos renda, mais desemprego, menos trabalho formal;

– como resultado inevitável do aprofundamento do austericídio, via contra-reformas e privatizações, se agrava exponencialmente tanto a crise econômica quanto a crise de representação;

– nem mesmo em relação a segurança e corrupção o governo Bolsonaro é capaz de atender as justas e urgentes demandas da população brasileira;

– a violência gerada pela violência de um estado de exceção econômica não pode ser superada prioritariamente pela via penal e policial;

– do mesmo modo, “a corrupção nossa de cada dia” não passa do efeito epidérmico de um modelo de negócio altamente oligopolizador, no qual as vantagens comparativas não passam de uma concorrência pela inovação e eficiência quanto ao mérito de se estabelecer como o melhor corruptor;

– para a Ex-querda 2018 ficou para sempre como um ano longe demais, nada lhe restou ao se dissiparem suas últimas quimeras eleitorais, a não ser, é claro, amaldiçoar o “pobre de Direita“: esta ingrata, e imaginária, criatura que teria imperdoavelmente rejeitado Haddad, o poste sem alça ungido pelo Lulismo para ser sob medida o “bom moço” palatável ao setor dominante;

– as Eleições de 2018 marcaram o esgotamento de um modelo de representação política, com amplas parcelas do eleitorado votando no #EleNão: a votação de Bolsonaro foi de 39,2% do total de eleitores, enquanto o não-voto (nulos, brancos e abstenções) atingiu 28,8% e Haddad 31,9%;

– viciadas e sob estreita tutela jurídico-militar, a função primordial das Eleições de 2018 foi legitimar o Golpe de 2016 e conduzir à Presidência um candidato comprometido em aplicar as “medidas impopulares”, anteriormente rejeitadas por 4 vezes nas urnas;

– mais de um ano após sua posse, Bolsonaro prossegue sem nenhuma proposta para sequer mitigar a crise econômica, colocando dinheiro no bolso do povo e repactuando a inadimplência;

– mais de um ano depois de sua derrota, a Ex-querda jaz deitada em seu caixão, rodeado de  velas roxas e coroas de flores apodrecidas, mas negando-se a baixar ao túmulo ainda na esperança de algum messias para ressuscitá-la;

– como nunca desnudado está agora que Haddad nunca quis de fato ganhar as Eleições de 2018,

           assim como Lula capitulou voluntariamente na última semana do 2o. turno em 1989;

           assim como o Lulismo jamais pretendeu resistir ao Golpe de 2016;

           assim como nunca se empenhou em lutar pela nulidade do Golpeachment;

           assim como Lula negou-se a oferecer qualquer tipo de resistência à sua prisão;

– assim como uma oposição docilmente circunscrita aos limites do consentido, tornou Haddad tão relevante para o cenário atual quanto Dilma o foi após o impeachment: nulidades irrelevantes;

– coerente com o lento, gradual e seguro fechamento do regime, o Gal. Heleno dá um foda-se para o Congresso e Bolsonaro convoca seu povo às ruas, cabendo mais uma vez a Ex-querda seu velho e patético papel como defensora de uma ordem institucional em profunda e irrecuperável desordem, enquanto de novo  aponta  para a miragem do calendário eleitoral.

determinando a conjuntura, uma questão de fundo insolúvel: a crise sistêmica do Capitalismo.

“A marca registrada de uma crise sistêmica, distinta de uma crise cíclica ou esporádica do capitalismo, é que todo esforço para resolver a crise dentro dos limites vastos do sistema, definido em termos da sua configuração de classe predominante, apenas agrava a crise. É neste sentido que o capitalismo neoliberal entrou agora numa crise sistêmica. Esta não pode ser resolvida por meros remendos; e as tentativas de ir além de meros remendos só agravará a crise.”

Prabhat Patnaik

quando o Carnaval passar, os abutres prosseguirão na folia voraz de seu pic-nic.

os abutres implementam suas contra-reformas regressivas, nós somos as multidões dormindo nas calçadas.

os abutres saqueiam o patrimônio público, nós financiamos as privatizações com os fundos de pensão.

os abutres ganham a autonomia do Banco Central, nós perdemos a soberania nacional.

os abutres aprovam a reforma tributária, nós bancamos as isenções e desonerações fiscais.

para os abutres é sempre Carnaval, para nós é uma perene Quarta-Feira de Cinzas.

enquanto escrevia, o aplicativo continua recebendo mensagens, seguindo num monólogo estéril com o Big Data, esta interface muda incapaz de interlocução.

quem poderia ser? talvez, quem sabe, nosotros postando desde Hy-Brazil.

arkx é um nickname presente na Internet desde seus tempos primevos, na época dos BBS antes da Web. algumas poucas vezes arkx é nosotros, nunca é anônimo mas sempre não é um autor.

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anteriormente em Hy-Brazil:

anotações sobre a geopolítica do fim de um mundo.

América Latina e a Revolução negada: da Colômbia ao Brasil.

os Generais e o Beco sem Saída.

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