Mais aperto do imperialismo sobre a América Latina

 

Por Alejandro Acosta

O aperto do imperialismo sobre a América Latina tem se intensificado, conforme a crise mundial se aprofunda e o imperialismo norte-americano vem sofrendo duras derrotas nas demais regiões.

No Uruguai, o novo governo direitista de Alberto Lacalle Pou apresentou o Anteprojeto de Lei Emergencial, que consta de 457 artigos duríssimos contra os trabalhadores e a soberania nacional. Se trata de uma nova constituição imposta no “tapetão”. A liberalização do setor de importação e refino de petróleo e dos derivados passa por cima da decisão de um plebiscito de 2003. A abertura de mercado acontece também no setor das telecomunicações, no setor de imóveis e da propriedade do campo e em mais 11 importantes setores da economia.

Em contrapartida, para impor essa mudança, o governo da direita conta com o acordo com a “esquerda” pequeno-burguesa da Frente Ampla, que além de ter entregue as recentes eleições nacionais, deverá fazer um acordão para aprovar a “Lei Emergencial”. Agora a extrema direita se agrupa principalmente no partido político chamado “Cabildo Abierto”, que é encabeçado pelo ex-chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Guido Manini, com importante representação no Congresso.

E se instala a “expectativa” de ameaça de golpe militar caso as mudanças nas leis de “segurança interna”, que tentam aprovar justamente a essência do que foi rejeitado no plebiscito de outubro de 2019, não forem suficientes para barrar um possível levante de massas contra os ataques. Por enquanto, o objetivo é enquadrar o movimento operário por meio de repressão violenta contra os piquetes e ocupações de empresas, além de ter acabado, na prática, com o direito de greve.

Na Argentina, a relativa resistência do governo de Alberto Fernández contra o imperialismo norte-americano se enfrenta com o total entreguismo na questão fundamental que é a dívida pública. Recentemente, o problema foi novamente colocado com a nova crise aberta na província de Buenos Aires, que é governada pelo ex-ministro da economia de Cristina Fernández de Kirchner, Axell Kicilloff.

No dia 26 de janeiro, o governo da província de Buenos Aires precisava pagar US$ 250 milhões e mais US$ 27 milhões em juros, de um empréstimo total de US$ 750 milhões, que vencerá em janeiro de 2021, quando deverão ser pagos US$ 567 milhões. A dívida em dólares, que foi contraída no governo de Daniel Scioli (que governou a província de Buenos Aires entre 2007 e 2015) sob legislação estrangeira, acumula US$ 10 bilhões.

Dado o estado de bancarrota técnica da província de Buenos Aires, Kicilloff convocou os credores para refinanciar os vencimentos, mas enfrentou a negativa do Ministro da Economia, Martín Guzmán. Desta maneira, ficou claro que a política do governo federal passa pela imposição do ajuste econômico para as províncias, o aumento dos impostos, as demissões e ataques contra os funcionários públicos e as entregas do que restou das empresas provinciais.

Enquanto isso, o governo de Alberto Fernández tem pago pontualmente os vencimentos da dívida pública protegidos pela legislação internacional. Tem pago os títulos que se encontram sob legislação local por meio da emissão de novos títulos, com taxas que têm superado os 45% anuais; tem mantido uma taxa de câmbio que favorece a remessa de capitais; tem revivido as chamadas Leliqs (Letras de Liquidez do Banco Central) por meio da possibilidade de que os fundos especulativos locais intervenham no chamado “mercado de passes” do Banco Central, onde toma dinheiro; tem enviado ao Congresso o projeto de lei de “Sustentabilidade Financeira” para impedi-lo de ter qualquer tipo de ingerência nas questões relacionadas com a dívida pública, apesar de que a maior parte da dívida se encontra em poder das Anses (fundos de pensão), o Banco de La Nación e o Banco Central.

Há a pressão do FMI (Fundo Monetário Internacional) para receber os US$ 57 bilhões emprestados a Maurício Macri, e há o aumento feroz da espoliação financeira do imperialismo norte-americano. Dificilmente as recentes visitas realizadas por Alberto Fernández ao Vaticano e a Israel, que se encontra na grave crise protagonizada pelo governo de Benjamin Netanyahu, conseguirão aliviar a pressão que deverá provocar novas edições do Chubutaço e das grandes manifestações de massas que recentemente aconteceram em Mendoza.

A isso se soma a crise aberta com o Poder Judiciário, com os ataques contra Cristina Kirchner, que é enfrentada fundamentalmente com o caso D’Alessio, o ex chefe da CIA e do Mossad, e com a ameaça de promover uma forte limpeza dos juízes. A timidez do novo governo reflete a enorme decadência dos governos ditos progressistas ou nacionalistas.

Na Bolívia, aumenta o cretinismo parlamentar extremo do MAS (Movimento ao Socialismo) e do próprio Evo Morales. Evo continua confiante na vitória de Luis Arce, seu ex ministro da Economia, que faz parte da ala direita do MAS e mantém fortes vínculos com os capitalistas internacionais. O MAS se encontra muito rachado, entre setores que mantém vínculos com os golpistas e o movimento indígena que defendia a candidatura do ex chanceler David Choquehuanca e que ainda não referendou a Arce.

A direção da COB (Central Operária Boliviana) chegou a saudar o golpe militar. Jeanine Añez, a golpista de extrema direita que gosta de se auto intitular como presidente Constitucional, será candidata contra outros candidatos da direita, como o ex presidente Tuto Quiroga, o fascista Camacho de Santa Cruz e Carlos Mesa. Añez conseguiu o apoio do prefeito de La Paz e do governador de Tarija (ambos eram ligados a Mesa). Roxana Lizarraga (que ocupou o Ministério das Comunicações), e que também é uma fascista, renunciou à sua candidatura denunciando a Corte Eleitoral Boliviana de manipulações a favor de Añez.

No Chile, continua a repressão muito violenta do pinochetismo, tentando impor pela força bruta o plebiscito sobre a nova Constituição em abril. E fundamentalmente o movimento de massas resiste nas ruas, nesse que é o maior levante de massas na América Latina dos últimos tempos.

No Paraguai, houve a fuga em massa dos membros do PCC, sob suspeita de favorecimento de agentes do sistema penitenciário. Na Colômbia, a crise econômica é muito grande, continuam os assassinatos de ex-combatentes das FARC, que somam cinco neste ano, e persistem os protestos de massas, devido à situação insustentável.

A alta octanagem da crise na América Latina conduz rapidamente ao confronto aberto entre o imperialismo e os trabalhadores, que se veem colocados numa situação cada vez mais difícil e são praticamente empurrados à luta. A luta de classes se acirra e a tarefa da classe operária é se preparar para atuar desde já com vistas a se tornar um fator político no próximo período, dando o norte para o conjunto do movimento de massas, rumo à derrota da burguesia e ao governo dos trabalhadores.

 

Alejandro Acosta é sociólogo, editor do Jornal Gazeta Revolucionária.

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