Perspectivas do levante popular no Chile

Por Alejandro Acosta

O levante de massas no Chile é o maior em várias décadas e acontece em todo o país. Trata-se do acúmulo da brutalidade dos ataques que surgiram desde o início da ditadura sangrenta do general Augusto Pinochet (1973-1989). O Chile foi o primeiro laboratório das chamadas políticas “neoliberais” que quase levaram o país à falência na década de 1970, o que simplesmente não aconteceu porque Pinochet não teve tempo de privatizar a Codelco, empresa nacional de cobre.
O governo de direita de Sebastián Piñera tentou romper os enormes protestos por meio da força brutal, com o exército pinochetista nas ruas. Há mais de 25 mortos oficialmente reconhecidos, 60 pessoas que perderam os olhos, 12 mulheres estupradas pelas forças armadas, 125 desaparecidos, 6.460 presos, invasões de residências ilegais. É o retorno aberto do pinochetismo que, desde 1990, agia de maneira semi-camuflada. A Constituição de 1980, imposta por Pinochet, permanece em vigor até hoje, apesar dos cinco períodos de governo da Concertación.
As enormes manifestações populares não conseguiram quebrar o movimento de massas. Portanto, Piñera foi ao Plano B, fazendo algumas concessões mínimas. Como as massas continuaram com espírito de luta, Piñera promoveu a reforma ministerial pedindo a todos os ministros que renunciassem.
Ante a mudança de tática do governo, a imprensa burguesa passou a dirigir a propaganda no sentido de cooptar as manifestações, dizendo que “elas representam todos nós”. Mas o povo continua com as mobilizações, impulsionadas pelo movimento popular e estudantil, pelas assembléias populares ou de bairro e pelo movimento operário que começou a ter participação dos sindicatos.

Sobre a política de “unidade nacional”
A política de “unidade nacional” para negociar uma saída à crise é dirigida por setores do centro do regime político, com base nas estreitas ligações que a DC (Democracia Cristã) e os setores majoritários da Concertación mantêm com importantes setores da burguesia chilena, como os Lukšić, e o imperialismo. O objetivo é gerar reformas institucionais por cima, como uma reedição do retorno negociado à democracia com o regime do General Augusto Pinochet.
O PCCh (Partido Comunista do Chile) mantém posições muito semelhantes à social-democracia. Agora, ele fez uma aliança com o Partido Progressista, que tem ligações com o peronismo argentino, e com o Partido Regionalista, formando uma pequena aliança parlamentar. Ele também está presente nas conversas com a FA (Frente Ampla) e o PS (Partido Socialista). Ele propõe a destituição do presidente pelo Parlamento, com a aprovação de uma série de leis em benefício do povo, gerando das instituições uma transição para um processo constituinte. As bases do PCCh presentes nas lutas geram uma força contra a saída institucional que entra em choque com a política oportunista da liderança.
O PS está muito mais integrado ao regime do que o PCCh e abraça a tese do “pacto social” junto com a burguesia. Um setor minoritário se aproxima do PCCh. As bases mantiveram presença moderada nos espaços comerciais e sociais.
A FA, um grupo de centro-esquerda que procura imitar o exemplo da Frente Ampla do Uruguai, tem hesitado, sem uma política clara. Levanta a bandeira da Assembleia Constituinte como um dos eixos da sua estratégia parlamentar.
As bases do PCCh, PS e FA representam camadas intermediárias da população que foram radicalizadas, que têm se distanciado do pacto social institucional e se aproximado da palavra de ordem da Assembleia Constituinte.
O governo tenta normalizar a situação no Chile. As Nações Unidas enviaram uma Comissão de Direitos Humanos. Houve caso de jornalistas argentinos que foram a se solidarizar e informar, mas foram presos no Aeroporto; com a pressão dos movimentos sociais, eles foram liberados.
O povo chileno enfrenta um conflito de baixa intensidade da Doutrina de Segurança Nacional dos Estados Unidos, uma “guerra híbrida” que não elimina ações de alta intensidade, mas sim as encobre com uma certa maquiagem. O clima das massas reflete um reagrupamento das classes sociais no Chile e a persistência de continuar se manifestando nas ruas por meio de várias formas de luta.

 

Alejandro Acosta, sociólogo – Gazeta Revolucionária

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