O mundo e a América Latina

Por Cláudio Abreu

O desenvolvimento exponencial da capacidade de transporte e de comunicação alcançado pela humanidade no século passado transformou o planeta em uma aldeia. O termo “aldeia global” já não alude a uma situação possível no futuro, mas a uma situação concreta: as relações entre instituições, entre instituições e pessoas e entre pessoas nos mostram que não vivemos mais em uma cidade, em um estado ou um país; é possível dizer que vivemos no planeta Terra. Queiramos ou não, vivemos em um mundo onde tudo e todos estão conectados. Isso é positivo em muitos aspectos, mas também negativo em muitos outros.
Independentemente do que possa mostrar um balanço entre aspectos positivos e negativos, é inegável que a desigualdade continua presente como um desafio a ser enfrentado. E o que é pior, qualquer análise minimamente coerente não traz esperança alguma no que se refere a possibilidade de reversão desta situação. Para algumas regiões do planeta, como a América Latina, não seria desmedido esperar um maior sofrimento para seu povo. Uma das razões desse pessimismo, e seu principal fundamento, é a disputa pelo posto de nação hegemônica. Dito de outro modo, esse pessimismo se fundamenta no entendimento de que o ajuste do sistema econômico mundial atualmente em processo implicará em uma nova conformação de forças e interesses no tabuleiro global.
Em termos globais e de longo prazo, podemos ver claramente uma disputa entre E.U.A., por um lado, e China e Rússia, por outro, pela hegemonia na aldeia global, ou seja, pelo posto de primeira nação do planeta. Se haverá dois tronos em caso de Rússia e China venceram essa disputa, o tempo dirá. A médio prazo, atendo-se ao E.U.A., está explícita a necessidade de proteger (para o bem do capital imperialista) sua estrutura econômica. Em termos mais imediatos, o curto prazo, frente aos desafios que deve enfrentar sua economia com a perda de espaço em outros continentes, a exploração da América Latina é o que resta aos E.U.A. Por essa razão, temas como energia, alimentos, biodiversidade, drogas, minérios, empresas estatais etc. se tornam muito importantes e passam a ser o foco de algumas ações dos E.U.A, que não pode abrir mão do controle da população do continente para atingir seus objetivos.

Operação Condor II
Os acontecimentos dos últimos meses na América Latina mostram uma instabilidade que, dadas algumas informações, parece ser obra dos E.U.A. como o foi a primeira Operação Condor. Esta última pode ser caracterizada como o processo de instauração de novos regimes nas principais economias latino-americanas de então. Contudo, não se deve esquecer de que as ditaduras prepararam o terreno e consolidaram os caminhos econômicos a serem trilhados pelos regimes democráticos do período pós ditadura. Dada a situação econômica dos E.U.A. (leia-se capital imperialista) já citada, parece ser o momento de um novo ajuste, agora, com o desenvolvimento de novas técnicas, nos seguintes termos:
Passo 1: Guerra híbrida (primaveras)
Este passo necessita do controle de espectro total, a pinça. Muito teatro em lutas históricas entre direita e esquerda, desde o parlamento até as redes sociais. Com tanto barulho, os agentes relevantes passam despercebidos e o próximo passo é preparado sem maiores dificuldades. No caso do Brasil, decretos quase secretos passando no Congresso, sem reação tanto da “esquerda tradicional”, que está neutralizada por dossiês que incriminam grande parte de seus principais líderes, como pela nova esquerda, em grande parte fomentada pela finança transnacional. Caminho preparado para a intensificação da exploração de energia, alimentos, biodiversidade, drogas, minérios, empresas estatais etc.
Passo 2: Ditadura jurídico-tecnológica
O segundo passo terminará de consolidar o novo modelo de Estado a ser implementado na região e o colocará em marcha. Para o caso do Brasil, um novo pacto constitucional (e, porque não, uma constituição de notáveis) reordenando o cenário e as forças nele presentes. Se consolida o processo de exploração e o tempo realiza a tarefa de normalizar
este estado de coisas. Possíveis insurgências são contidas por meio do uso do aparato jurídico-tecnológico desenvolvido no passo anterior enquanto as populações assistiam ou formavam parte dos entretenimentos (no sentido pejorativo do termo) luta identitária e luta ideológica, entretenimentos que tiram o foco do que es mais relevante, a saber, a soberania e o projeto nacional de um país. O que semeia uma ditadura é colhido por uma democracia.
Passo 3: Capitalismo de vigilância em sociedades democráticas
O terceiro passo se refere ao seguir adiante, na direção especificada… com insignificantes mudanças estruturais, à direita ou à esquerda. Democracias sem garantias a direitos como privacidade, educação, saúde etc., quando não sem alimentação, casa, um mínimo de dignidade… Em uma palavra: desigualdade.
Cui bono e a análise dos fatos
Este pano de fundo serve como guia para a análise de fatos como as manifestações que ocorrem em diversos países latino-americanos, para a meta-análise do que é veiculado na imprensa tradicional e na dita imprensa alternativa, etc. É fundamental perguntar que ganham os E.U.A. (e também Rússia e China), que ganham as elites nacionais, que ganham os agentes (políticos, empresários, veículos de mídia, etc.) envolvidos em situações concretas. Na aldeia global, tudo e todos estão conectados, não existe coincidências.

 

Cláudio Abreu, filósofo, doutor em epistemologia e história da ciência, professor da Universidade Nacional de Tres de Febrero, Argentina.

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