Minka: Trabalho Coletivo em Favor da Comunidade – Entrevista com Nathalia Molina, integrante do Coletivo Cultural Minka de Caracas (Parte II)

Da Redação do Duplo Expresso,

O Duplo Expresso foi conhecer a experiência da Casa de Movimentos Culturais La Minka, localizada a 3 quarteirões do Palácio de Miraflores em Caracas, capital da Venezuela.

O nosso correspondente Caio Clímaco foi buscar mais informações sobre as propostas e ações inovadoras desse movimento que vem buscando através de experiências práticas, concretizar as linhas políticas para construção de uma sociedade comunal, tal como foi proposto pelo comandante Hugo Chávez.

Aqui, link para Parte I

De Caracas, Caio Clímaco*, para o Duplo Expresso

No ano passado a Minka realizou, juntamente com o apoio do governo, a tomada de uma padaria privada que não estava cumprindo com o seu papel social. Desde então a padaria deixou de ser privada e assumiu um caráter comunal. O que é e como funciona uma padaria comunal?

A padaria da Minka é uma transição de uma padaria convencional para uma padaria comunitária. Digo uma transição porque a estrutura tanto física como a velha estrutura produtiva que tinha partem da forma clássica: patrão e empregados e nós estamos querendo impulsionar uma padaria comunal onde há produtores livres e associados onde se gera outras relações, mas é uma transição, sobretudo tomando em conta que parte do coletivo são alguns antigos empregados e tendo em conta que todos estamos viciados pelas velhas formas de nos relacionar.

No entanto, essa padaria em particular é revolucionária, o pão de sal é comercializado ou distribuído através dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) e isso quer dizer que o pão é distribuído a formas organizativas locais que atendem basicamente seu entorno comunitário. Isso evita que o pão entre na lógica do “bachaqueo” (venda de mercadorias a sobrepreço) e isso permite que a comunidade seja a controladora da matéria prima que ingressa e que sai.

Venda de pão na Casa Minka (Foto: Luis Bobadilla)

Na padaria comum, convencional, o patrão recebe a matéria prima e faz vários negócios clandestinos, sujos, de mercado negro, sendo que grande parte da matéria prima e um mínimo de porcentagem é retirado do público e parte do que compra o público se vai dentro das máfias dos “bachaqueros” que revendem o pão favorecendo somente há alguns que brigam entre si, fazem o povo ficar em filas eternas no sol, sendo maltratados pelos atendentes e uma serie de aberrações que dentro dessa nova forma de padaria que estamos impulsionando, isso já não existe.

Como é algo novo, isso também gera resistência. As vezes as pessoas entram na padaria e querem se favorecer pegando um pão e se sentem frustradas quando não podem fazer isso pois não pertencem a um dos CLAP. Daí temos que avançar até que as pessoas entendam que é necessário nos organizarmos cada um em seu setor para que cada padaria atenda ao entorno territorial ao qual pertence.

Na padaria comunal, grande porcentagem, pelo menos 90% da matéria prima que se recebe, se processa em pão de sal para atender a mesa da comunidade e somente 10% ou as vezes menos, se converte em doces, tortas e outras coisas que não são tão prioritárias mas que também são necessárias em uma conjuntura de guerra econômica.

Como o governo contribui no processo de expropriação da padaria?

Houve inicialmente um respaldo, principalmente do Governo do Distrito Capital que foi quem nos apoiou para fazer a tomada. Porque normalmente quando um estabelecimento pratica por diversas vezes contravenções o que se faz é fechar o estabelecimento por um tempo determinado, mas nós dissemos que a padaria não poderia ficar fechada pois havia matéria prima para produção e que o precisava ser feito era trabalhar em uma outra lógica, com o povo no comando sobre o seu alimento.

Mas foi uma proposta do próprio governo?

Não, foi uma proposta do povo, no entanto em um devido momento contamos com o respaldo do governo do distrito capital. Logo, a partir de outros acontecimentos como as guarimbas e todo o ataque midiático, alguns ministros e o próprio presidente se pronunciaram sobre a situação e digamos que isso nos blindou politicamente com o respaldo por parte do alto governo, tanto do presidente Nicolas Maduro quanto de militares, do ministro de comunicação, dos meios de comunicação alternativos.

No entanto, a principal defesa foi a própria comunidade. Sofremos ataques midiáticos fortes, desde a CNN, EBC e outros meios poderosos. No entanto pudemos refutar esses ataques pois foram ataques de cunho pessoal, com pouca profundidade de crítica. Disseram que éramos jovens, cabeludos, descalços, negros, feios. E por parte dos meios de comunicação alternativos, do estado, dos meios de comunicação internacionais que nos apoiaram, estiveram comentando sobre os benefícios que isso gerou para a comunidade e da necessidade de nossa ação uma vez que os antigos donos vinham roubando durante 30 anos o povo, sendo que através desse roubo construíram uma rede de padarias e montaram um grande negócio que se dedicava a roubar o povo.

E esses negócios são engrenagens das máfias internacionais que controlam a distribuição dos produtos necessários para que as pessoas comam. Os grandes meios saíram em defesa da propriedade privada e da gente bonita, numa clara defesa de estereótipos. No entanto, o golpe mais forte quem deu fomos nós em cima do português dono da padaria e de suas máfias, dentro da qual se move todos os interesses da farinha, do açúcar e da manteiga, abrindo uma porta para novas experiências desse tipo.

A comida na Venezuela é um problema muito grande pois afinal estão nas mãos dos capitalistas que nunca vão estar a favor do povo, pois querem gerar mais dinheiro para si mesmos e controlar esse poder para que cada vez tenham mais poder, seguindo na lógica da propriedade privada.

Isso é uma coisa difícil pois por muitos anos também houve uma defesa da propriedade privada e a partir desse argumento se sataniza qualquer outro que não esteja a favor disso. Aproveitaram do fato da padaria para falar que agora iriam tomar todas as propriedades privadas, como forma na verdade de submeter e dominar.

No entanto há uma outra perspectiva pois por aqui se passou Chávez e entendemos que a propriedade coletiva é a possibilidade de minkear (trabalhar coletivamente a favor da comunidade)

Como funcionava a padaria antes de se tornar uma padaria comunitária?

Antes era uma padaria cujos os donos eram um grupo de sócios de Portugal que vieram para cá há alguns anos e montaram sua linha de padarias. Essa padaria tinha 30 anos e fazia parte de uma rede de outras 10 padarias, sendo que essa era a padaria principal.

Dentro dessa padaria a lógica era de trabalhadores explorados e não tinham garantidos os benefícios exigidos pela lei, não tinham contratos coletivos, seguridade social, não recebiam bônus de alimentação, trabalhavam mais horas do que está prescrito na lei. Para receber matéria prima o governo distribui um código para cada empresa.

No entanto, essa padaria recebia de forma ilegal farinha, açúcar e outros produtos através de empresas fantasmas. Recebiam subsídios do estado para receber a matéria prima a preços regulados e essa matéria prima eles recebiam para gerar determinada quantidade de produção, no entanto não faziam, pois por baixo do pano eles vendiam essa farinha para outras empresas a um preço mais caro (“bachaqueava” o produto), pois estão associados com os grupos contrários ao próprio governo.

No dia que tomamos a padaria vimos que havia sacos de farinha vencido, havia múltiplas denúncias por parte da comunidade sobre o maltrato que recebiam ali, havia também a venda de produtos com sobre preço, não havia controle de pragas, então havia proliferação de baratas e ratos no local.

Padaria Comunal (Foto: Caio Clímaco)

Quando o SUNDDE (Superintendência Nacional para a Defesa dos Direitos Sócio-econômicos) ia fazer a supervisão de preços, os donos da padaria colocavam uma cota de pão a preço regular, mas no dia seguinte o pão já não valia isso e voltava o sobre preço. Eram múltiplas irregularidades e já haviam feito a eles um chamado permanente para que atendessem as irregularidades denunciadas pela comunidade e chegou um momento em que ou se tomava ou a situação permaneceria pois o abuso era muito grande e repetitivo.

A partir daí tomamos a padaria e começamos a produzir pão para o povo dentro de uma outra lógica.

Como foi a reação da sociedade diante da tomada da padaria?

Houve múltiplas reações, tanto a favor quanto contra. Houve reações da direita que quis aproveitar o momento para nos deslegitimar e fazer guarimbas (manifestações violentas), pois estamos localizados em local estratégico, perto do Palácio de Miraflores, no centro da cidade, onde nunca puderam guarimbear, senão dessa vez.

Houve uma reação muito forte dos meios de comunicação. No entanto, ao final, houve um respaldo a favor do que estava acontecendo pois já estamos há mais de um ano ali, de forma consolidada e não há como desfazer isso mais.

A ideia daqui pra frente é incrementar cada vez mais o trabalho para que alcancemos uma lógica de produção e distribuição que nós mesmos nos propomos a fazer. A comunidade se vê beneficiada pois possui agora meios de conseguir o que antes não era possível.

Quais são as maiores dificuldades e desafios de uma padaria comunal?

O mais difícil de uma padaria comunitária é que a aquisição de toda a matéria prima se encontra ainda dentro da lógica do capitalismo e o pão, em meio a uma conjuntura de guerra, é uma arma-droga.

Uma arma por parte de quem detém seus poderes e os utiliza para manipular o povo. E é uma droga pois é feita de açúcar, farinha de trigo refinada, manteiga e levedura que são substâncias tóxicas para o nosso corpo e que de alguma forma a população se relaciona com o pão pois ele se torna uma necessidade aditiva.

Isso tem a ver com a incrustação do pão na cultura venezuelana. Os ingredientes dos quais o pão é feito são praticamente drogas, em particular o açúcar que é a droga que mais tem mais viciados no mundo e toda a lógica para adquiri-la numa conjuntura de guerra é a de uma droga. Se enfrenta máfias de distribuição que pertencem as transnacionais como também a grupos incertos dentro das estruturas do governo.

Se se tem uma padaria comunitária e não se tem um bloco de choque, de resposta, de enfrentamento ou um bloco de coesão para conseguir coletivamente a matéria prima é impossível conseguir produzir o pão. Então quando estamos fazendo pão dentro dessa nova lógica, nos damos conta de que o mostro que estamos enfrentando é grande e tem diversas caras e tem também suas próprias armas.

Por exemplo quando se encontra com o monstro dentro das estruturas do estado ele tem seus mecanismos de hiper-burocratização dos processos para dificultar a obtenção da matéria prima. Isso se dá pois esses mecanismos foram impostos há muito tempo atrás e se naturalizaram com a empresa privada que como não são a mesma lógica da empresa coletiva, sempre estão em choque de interesses.

O objetivo maior é portanto obter, soberanamente, o controle dessa matéria prima para não termos que enfrentar isso e nos preocuparmos com o enfrentamento de outras coisas, outros monstros de outras dimensões.

Aqui em Venezuela por exemplo o controle dos armazéns de distribuição pertencem a quatro multinacionais, então se o povo organizado puder fazer um armazém de distribuição, creio que seria uma forma de controlar a transformação do trigo e sua distribuição por exemplo. Como podemos desenvolver tecnologia para criar leveduras alternativas que não sejam unicamente a das transnacionais, esse é um outro grande desafio que temos.

E outro grande desafio é transcender o fato do pão ser uma comida, um alimento exclusivo. É necessário desalienar-nos, desintoxicar-nos, mas isso implica plantar em outras quantidades e gerar plantas de processamento de outras variedades, por exemplo se queremos fazer pão de mandioca, ou de banana ou de inhame que são carboidratos super alimentícios e que aqui na Venezuela possuímos todas as condições para se plantar, no entanto não existe suficiente quantidade para a demanda e nem mecanismos suficientes de produção que já não sejam artesanais mas sim industrializados para cumprir com a demanda populacional.

As dificuldades são muitas. Uma padaria comunitária não pode ser uma padaria comunitária isolada, precisa ser um sistema completo de padarias comunitárias que estejam todas trabalhando numa mesma lógica para fazer um músculo suficientemente grande para poder ter controle precisamente de todos os materiais e também para conseguir transcender o trigo, desde o fator cultural inclusive.

Como tem se dado a relação de trabalho na padaria, pois em uma padaria comercial temos a relação patrão/empregado e em uma padaria comunal como isso tem funcionado?

Bom, penso que estamos em um experimento e que nesse experimento nos lançamos e as vezes nos equivocamos e com os erros aprendemos, mas aqui nessa padaria o que se tem conseguido é que haja uma coletivização de conhecimentos nos diferentes pontos que se lida numa padaria.

Na padaria estão as pessoas que fazem pão, as pessoas que assam o pão, as pessoas que atendem ao público em geral, as pessoas que atendem ao público comunal, os que trabalham na administração.

Todas essas tarefas se cumprem igual, mas o que temos traçado como estratégia é ir fazendo com que esses postos de trabalho sejam rotativos, então a princípio trabalhamos com uma equipe de padeiros, um padeiro mestre, mas incluímos nessa equipe jovens que hoje em dia sabem fazer pão e que nesse momento tem assumido tarefas de vitrine e atendimento ao público comunitário. Dessa forma, está sendo um exercício de socialização dos saberes.

Atividade cultural realizada na comunidade com venda de pão produzido pela Padaria Comunal (Foto: Caio Clímaco)

Temos também reuniões de trabalho semanais onde se discute em forma de assembleia os problemas, as necessidades, as projeções. E bom, se não há patrões, há lideres dentro dessas organizações e essa liderança não é algo imposto mas sim algo que se dá organicamente a partir do processo que nos tem levado enquanto organização que se responsabiliza hoje em dia pelo atendimento a 18 CLAPs (comitês locais de abastecimento e produção) e produz diariamente 6 mil pães de sal a baixo custo para a população.

Distribuição de pães para os CLAPs (Foto: Caio Clímaco)

Atender a 18 CLAPS significa atender quantas famílias?

Cada comitê local tem 400 famílias, isso significa que atendemos cerca de 7200 famílias. E claro, não é que nós fazemos diariamente a quantidade de pães necessários para atender a todas essas famílias, senão que semanalmente se distribui pães para esses 18 CLAPS e eles por sua vez distribuem dentro de sua própria estratégia para fazer com que um dia coma uns e em outro dia comam outros.

A seguir, assista ao vídeo sobre a Padaria Comunal produzido pela Casa La Minka

 

* Caio Clímaco é cientista do Estado e mestrando em Ciências para o Desenvolvimento Estratégico na Universidad Bolivariana de Venezuela (UBV)

 

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