Bolsonaro – Entre o mito e a realidade (Parte I)

Por Wellington Calasans, para o Duplo Expresso

Bolsonaro tem se comportado como se fosse a Ofélia (lembra?), uma personagem do humor brasileiro interpretada pela atriz Claudia Rodrigues que fazia par com o ator e comediante Lúcio Mauro. Ofélia tinha o seguinte bordão: “Você sabe que eu só abro a boca quando tenho certeza!” A verdade era que Ofélia quando abria a boca era um desastre, só falava coisas que não deveria falar, totalmente sem noção e quando o marido Fernandinho (Lúcio Mauro) a repreendia, ela dizia o bordão.

A ministra Damares também poderia se encaixar na personagem Ofélia, mas ela é apenas o entretenimento da atual estrutura do poder. Foquemos no recém-eleito presidente da República, pois é ele quem parece se comportar como a personagem Ófelia. Além disso, tem muitos candidatos ao papel  de  Fernandinho à sua volta e que sempre correm para desautoriza-lo.

Na quinta-feira passada, Bolsonaro – em entrevista exclusiva ao SBT – confirmara a sua intenção de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, imediatamente. Imediatamente depois, o General Heleno fez uma declaração desautorizando Bolsonaro e afirma que “é só um estudo”.

Na sexta-feira Bolsonaro dá uma de Ofélia e mais uma vez “só abre a boca quando tem certeza”, e faz três declarações: a primeira declaração foi sobre a reforma da Previdência. Bolsonaro disse que vai propor idade mínima para aposentadoria, de 57 anos para mulheres e 62 anos para homens. A segunda declaração do presidente foi sobre o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a redução do Imposto de Renda. E na terceira declaração Bolsonaro emitiu sinais de que poderia impor restrições à compra da Embraer pela Boeing.

O desmentido da vez partiu do ministro da Casa Civil Ônix Lorenzone em tom de desautorização ao presidente. Sobre o aumento de IOF, Onyx explicou que o decreto que aumentaria o IOF, que chegou a ser anunciado por Bolsonaro, era apenas “uma hipótese que foi descartada”. O ministro disse que “o presidente se equivocou.”

Sobre a reforma da previdência, Ônix disse que, na verdade, nada está definido sobre a idade mínima, e que a intenção do presidente ao falar sobre o assunto foi apenas enfatizar que a transição do atual modelo para o futuro será suave.

“Quando o presidente fala em números – e falou no número de 57 e 62 – o que ele quis dizer? Ele quis dar uma tranquilidade para as pessoas, que não vai haver uma ruptura, vai ser feita uma transição lenta e gradual. Com que objetivo? Preservando os direitos das pessoas, tendo um olhar humano para a reforma da previdência e fazendo as coisas gradualmente. Isso que o presidente quis dizer”, disse Onyx.

Em relação às declarações de Bolsonaro sobre a Embraer, o ministro Lorenzoni divulgou uma nota logo após a entrevista. Disse que “as ações voltaram ao mesmo patamar de cinco dias atrás; que a manifestação do presidente Bolsonaro foi legítima porque cabe a ele zelar pelos interesses estratégicos nacionais nas empresas onde há golden share”. O ministro da Casa Civil disse ainda que Bolsonaro “é favorável ao negócio, mas que não pode haver esvaziamento da geração de tecnologia no Brasil”. As ações da Embraer despencaram 5%.

O super-ministro Paulo Guedes não se manifestou sobre as declarações de Bolsonaro. Ao contrário. Depois das declarações do presidente sobre mudanças nos impostos, ele cancelou compromissos públicos e não se manifestou.

A Rede Globo, no Jornal Nacional, não perdoou! Detonou o presidente e todo esse disse-me-disse. Podemos fazer várias suposições de toda essa “loucura” do governo Bolsonaro. Bolsonaro abre a boca aparece logo o General Heleno nas questões de segurança nacional ou o ministro da Casa civil para as questões econômicas. Será que o presidente é “doido”, despreparado ou boquirroto mesmo? Será que o presidente está se prestando ao papel de testar para avançar ou recuar?

Quem realmente manda no Brasil? Já aconteceu na história do Brasil um presidente recém-empossado ser tão desautorizado? Inclusive sobre temas polêmicos e bastante conhecidos que poderão desmoralizar definitivamente o presidente, como é o caso da promessa da mudança da Embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém.

Os argumentos das “amas secas” – General Heleno e ônix – beiram a infantilidade, parecem tratar de um imbecil que não sabe o que está fazendo. Só o tempo dirá realmente o que se passa no reino fantástico de Bolsonaro.

O Jornal Nacional é da Globo e isso imediatamente deve remeter todo e qualquer brasileiro que se respeita à máxima do imortal Leonel Brizola: “Quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem: se a Rede Globo for a favor, somos contra. Se for contra, somos a favor”.

Por isso, ao expor Bolsonaro como um débil mental – apelando inclusive para uma comparação com o entretenimento Damares – a intenção da Globo foi a de jogar ambos na mesma panela e transmitir ao público a mensagem subliminar de que são iguais. Logo na sequência, mostra um Ônix suado, apagando o incêndio do “louco”. Tudo bem orquestrado. Qualquer distraído cairia nessa construção de pensamento, estaria impressionado com “a loucura de Bolsonaro”. A Globo que afaga (escondendo a verdade sobre a “Fake-ada”) é a mesma que apedreja.

Os mais atentos já sabem que Bolsonaro é hoje refém de vários interesses, ao dar as declarações que deu talvez achasse que não seria desmentido e poderia enfiar goela abaixo o que disse. Sobre a reforma da previdência, aumento de IOF sobre transações financeiras, diminuição da alíquota de imposto de renda e sobre a Embraer que ele não chegou a dizer que seria contra a venda, mas que teria que obedecer a alguns critérios.

A Globo só dará um “atestado de sanidade mental” a Bolsonaro” se ele aprovar a reforma da Previdência. Isso é o que realmente interessa a todos, a Globo – dona do Mapfre – faz de uma concessão pública da comunicação social uma ferramenta de chantagem para que uma das empresas do seu grupo tenha lucros milionários. Quem vai dar um basta nisso?

Bolsonaro acreditou ser possível se sustentar nos 58% de votos para tentar dominar as rédeas da situação, mas as coisas não são simples para quem, como é o caso de Bolsonaro, para se eleger vendeu a alma a dois demônios, Paulo Guedes (o “Chicago boys”, ultraliberal) e à ala militar entreguista, ultraliberal representada pelo seu vice, ex-General, Mourão. Mourão, inclusive, afirmou em recente entrevista que estaria montando um “Dream Team”, com pessoas de diversas áreas, economia, diplomacia, etc. Seriam talvez os “Brazilian Boys”. No Chile sabemos como tudo terminou. No Brasil pode ser muito pior.

Estas declarações de Bolsonaro, em total descompasso com a sua equipe econômica, demonstram que existem divergências dentro do governo. Será que Bolsonaro contava que iria ser desautorizado e desmentido publicamente pelo seu segundo escalão? Ontem, após as declarações de Bolsonaro, Paulo Guedes “fez beicinho”, não deu declaração e cancelou seus compromissos.

Um governo que falou tanto em condenar o aborto, sequer deu conta que “já nasce com cara de abortado(a)” (Cazuza). Todos lembram que durante a campanha eleitoral, Paulo Guedes serviu para empoderar Bolsonaro. Paulo Guedes seria uma espécie de primeiro-ministro deste governo. Alguém esqueceu de avisar que o sistema de governo do Brasil é presidencialista.

Na segunda parte deste artigo, vamos falar sobre Paulo Guedes e os riscos que ele representa para o Brasil e para os brasileiros.

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.