O estanho “sincericídio” (sic) de Bolsonaro – e a esquerda “bobinha”

  • Bolsonaro, estranhamente, “deixou escapar” que o General Vilas Boas “tem responsabilidade por ele estar ali”. Ora, Bolsonaro sabe que o General não teria como desmentir.
  • E a parte da esquerda ingênua/ mal-intencionada resolve dar crédito, pelo valor de face, a Bolsonaro como fonte confiável, “historiográfica”, não mais que de repente. Quando convém, some o discurso de “fake news”, “ele fala qualquer coisa”, “diz e depois desdiz”.
  • No entanto, tal “inconfidência” (sic) não bate com nenhuma das informações prévias acerca da relação entre ambos. Na verdade, parece que Bolsonaro quis vender pra dentro das Forças Armadas (FFAA) – e também para fora – que ele foi uma escolha da – e operacionalizada pela – instituição Exército. E não por um grupo dentro dele (que de qualquer forma não foi impedido de agir mesmo). Quis se ungir “unanimidade”.
  • Interessante notar que tal leitura não deixa de convir para alguns: reforça a narrativa “nós vs. eles” entre esquerda e FFAA. O que beneficia Bolsonaro, permitindo que ele siga mascarando medidas realmente antinacionais com um discurso falsamente dicotômico, mofado, vindo da Guerra Fria/ Regime Militar. Note-se que isso não deixa de fortalecer o discurso da ala da esquerda anti-FFAA, seus antípodas necessários.

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Do Facebook de Romulus Maya, a partir de texto do Prof. Piero Leirner. Texto a seis mãos, na forma de diálogo:

 

Piero Leirner:
“Bolsonaro: “General Villas Bôas, o que já conversamos MORRERÁ entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”

Eu não sei do que Villas-Boas chorou, se de tristeza, alegria, raiva. Ou dos 3. Fato é que mesmo com toda a incontinência verbal que andamos vendo desde a campanha, há algo de muito estranho no ar. Pode ser que tudo tenha sido o que a maior parte das pessoas viu mesmo: um sincericídio, a prova cabal que todo mundo queria ver de que o Exército teve sim participação ativa e efetiva nessas eleições.

Isso a gente sabe que teve mesmo. Bolsonaro desde 2014, pelo menos, fez campanha dentro dos Quartéis. Seus vídeos na Aman estão aí, para quem quiser ver. A cadeia de comando liberou a política, e isso começou ainda durante o comando do General Enzo. Depois consertar ficou difícil, e, de certo modo, a “manobra Villas-Boas” de “reforçar a sinergia com o TRF4” foi também um jeito de não ver a casa cair. Mas, que fique claro, a casa só ia cair porque eles foram reativos antes, e resolveram agir “na linha” se afastando do Governo e aderindo ao movimento bipolar que se avizinhava no judiciário.

Agora eles estão tentando emplacar a versão de que o EB não tem nada a ver com o atual Governo, e que os militares que lá estão são descolados da Instituição. De um lado são mesmo: o que se pode ver ali naqueles quadros “técnicos”? Muito mais linhas de socialidade transversais ao “grande bloco” que é o “ser militar”, que dizem respeito, por exemplo, às turmas de formação, a ter sido “paraquedista” e, acho, principalmente, ao fato de ter passado pela experiência do Haiti. Em outras palavras, aqueles militares que estão no Governo são uma “coterie”, ela se sobrepõe ao fato de serem militares ou técnicos nas suas áreas respectivas. Não é qualquer militar que está credenciado para participar desse pic-nic. Diga-se de passagem, outros Ministérios (bem civis) estão seguindo este padrão.

Então vamos voltar à frase de Bolsonaro. Posso estar muito errado, mas tenho o palpite que Villas-Boas pode se considerar um enorme azarado por ter sido o cara certo na hora errada. Será que ele sabe que vai passar para a história como o “responsável militar por uma manobra política” para lá de suspeita? Como o “backstage” de uma grande operação promovida pelo judiciário para forçar a eleição a ir para um lado? Que fique claro, ficou tudo em paz porque o PT topou esse jogo, e avalizou a eleição: se Haddad tivesse virado a mesa depois da história do Whatsapp, hoje tudo ia ser diferente. Mas isso é outra coisa.

Como todo mundo sabe, Villas-Boas está doente. O que mais intriga na frase é o duplo sentido de “vai MORRER entre nós”. Só o mau-gosto de afirmar isso a ele é impressionante. O que me passou foi quase um momento shakespeareano, senão mesmo edipiano. Foi algo de uma intensidade ímpar. Mais pareceu o beijo do replicante Roy no Dr. Tyrell, em Blade Runner.

 

Nada me tira da cabeça que no fundo não houve conversa alguma, e o que ele falou é exatamente o começo e o fim do enunciado: mais uma vez um discurso teve o efeito de uma bomba semiótica, a ideia foi justamente provocar a dúvida e deixar um ar de incerteza no que tange às Instituições.

E por que isso interessa? Provavelmente porque a “coterie” sabe que não é a Instituição, e ela própria acha que precisa provocar um ambiente “sísmico” lá dentro para governar. Divide e impera. Só para reforçar, vi o vídeo do trecho supra umas vezes. Prestem atenção como há um pequeno engasgo de Bolsonaro. Essa parte da fala foi ensaiada. Tenho a “convicção” (apud Dallagnol, D., 2017) de que teve técnico falando como cobrar a falta (para usar um termo do futebol). Quem quer bater que ocorreu um enorme “zumzumzum” em todos os “ranchos” militares no dia seguinte?

Como temos reparado, os padrões anteriores de “Opsys” não terminaram. Vai-não-vai, diz-não-diz, etc. É preciso ter enorme atenção para isso: até que ponto eles se prenderam no próprio método, e vão acabar replicando o “modo de dissonância” para dentro, até rachar. Torço para que o novo comandante veja esta situação com clareza, e evite o pior, que é um racha entre os militares. Porque aí não tem volta”.

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Piero Camargo Leirner
 (postagem no seu perfil no Facebook) – Professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH). Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1991), mestrado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (1995) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (2001). Atualmente é professor associado IV da Universidade Federal de São Carlos. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em antropologia da guerra e em sistemas hierárquicos, atuando principalmente nos seguintes temas: hierarquia, individualismo, estado, guerra e militares. Desde 2013 também realiza pesquisa no alto rio Negro, sobre hierarquia em sistemas tukano (Fonte: Currículo Lattes).

 

Romulus Maya:

👉O estanho “sincericídio” (sic) de Bolsonaro

Foi exatamente o que pensei, Piero Leirner. Bolsonaro falou que o General Vilas Boas “tem responsabilidade por ele estar ali” porque sabe que ele não teria como desmentir. E a parte da esquerda ingênua/ mal-intencionada resolve dar crédito, pelo valor de face, a Bolsonaro como fonte confiável, “historiográfica”, não mais que de repente. Quando convém, some o discurso de “fake news” e “ele fala qualquer coisa”.

Essa “inconfidência” (sic) não bate com nenhuma das informações prévias: o desprezo por Bolsonaro, o posicionamento de centro-direita (mais pra PSDB) “legalista” (formalista), o sacrifício seguindo até aqui no Comando, mesmo que doente terminal, impedindo que subisse alguém da linha dura (com Etchegoyen já no GSI) justamente pra impedir um intervencionismo ainda maior das FFAA na armação política e também qualquer conversa de intervenção na Venezuela, as seguidas falas contra uma atuação das FFAA fora do papel constitucional (comedimento), etc.

Acredito que Bolsonaro quis vender pra dentro das FFAA – e também para fora – que ele foi uma escolha da e operacionalizada pela instituição Exército – e não por um grupo (que de qualquer forma não foi impedido de agir mesmo). Quis se ungir “unanimidade”.

É imensa a crueldade de colocar a si na conta do Vilas Boas, sabendo do massacre que ele sofreria hoje e também na História (injusto em alguma medida, já que pecou muito mais por omissão do que por ação), e sabendo ademais que ele não tem como negar (nem tempo de vida pra isso vai ter). Ainda mais com a “hierarquia” que agora passou a ser invertida entre ambos.

Em resumo: esses caras passam por cima de qualquer um. Dignidade é para os fracos.

Incidentalmente, com essa “inconfidência” Bolsonaro ajuda a reforçar a narrativa “nós vs. eles” entre esquerda e FFAA. O que o beneficia, mascarando medidas realmente antinacionais com o discurso da Guerra Fria/ Regime Militar. Note que isso não deixa de fortalecer o discurso da ala da esquerda anti-FFAA, seus antípodas necessários.

 

Piero Leirner: Perfeito, Romulus, eu não colocaria melhor. Tem outra coisa… Vc viu o discurso do Ex-Força Aérea na passagem de comando? Agradeceu a Dilma, isso teve endereço…

 

Marc Nt:

O beijo – mafioso – de Cesar

A fala de Bolsonaro, o beijo do Godfather em Villas Boas é também para a tropa. Está dizendo para os recos que o admiram, viram como eu disse eu ganhei e dizendo para o generalato que tem restrições a ele, que ele, Bolsonaro tem o que interessa na sua mão, que é a tropa. General sem tropa não significa nada.

Todos que tem alguma familiaridade com o meio sabe que o contato direto com a tropa existe somente até o posto de capitão, quando muito major. Depois disso é a barafunda hierárquica e burocrática castrense e a tecnocracia militar. Poucos generais, como Heleno e como Villas Boas, podem dizer que mantém ascendência moral sobre o conjunto do Exército. E Villas Boas sabe disso e ficou porque é um dos poucos que poderia impedir qualquer arroubo dos escalões inferiores.

Lembrem que o Bolsonaro tem no seu M.O., a tentativa de sublevação e o rompimento da hierarquia. Aliás, sua eleição e a presença dos generais é o coroamento do rompimento hierárquico em escala monumental. Por quê? Repito. Ele tem a tropa. Deixaram acontecer e o “mito” se formou desde Resende até os batalhões de selva.

Duvido muito que os estrategistas de fora deixassem escapar uma oportunidade dessas, a soma do anticomunismo industriado por quase cem anos, desde 35, até o surgimento da figura histriônica indispensável. O beijo mafioso de Bolsonaro é para lembrar isso: “eu tenho os pretorianos”, como qualquer César para os demais generais.

 

Piero Leirner: ótimo comentário!

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P.S.: cada vez que publicamos artigo do gênero, com tratamento analítico matizado com relação às Forças Armadas – abordadas por outros como “bloco monolítico” – e, em especial, ao General Villas Boas – duplamente azarado na vida (o Golpe se deu durante o seu comando, quando também foi acometido por Esclerose Lateral Amiotrófica) – chovem comentários de reprovação.
Já especularam até sobre razões afetivo-familiares – que não existem – para que não tenhamos até aqui aderido a um coro e tomado parte no linchamento moral de Villas Boas na esquerda. O que há é trabalho de apuração, checagem e análise. No caso de Piero Leirner, pesquisa acadêmica ademais.
De qualquer forma, o dia em que chuva de comentários de reprovação passar a dissuadir publicações no Duplo Expresso não será mais o Duplo Expresso. Sim, seria muito mais fácil para nós apenas jogar para a plateia. Em caso de contrariedade insuportável diante da nossa resistência à lei do menor esforço, há diversos sites – com mais recursos, inclusive – dispostos a dar subsídios ao defeito cognitivo de confirmação dos leitores. Leitura passiva e reforço positivo não é a nossa.

 

 

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Romulus Maya

Advogado internacionalista. 10 anos exilado do Brasil. Conta na SUÍÇA, sim, mas não numerada e sem numerário! Co-apresentador do @duploexpresso e blogueiro.